Dezesseis
    Luas
             p   BEAUTIFUL CREATURES   p




           Dezesseis
               Luas
             MARGARET STOHL
                   KAMI GARCIA
VOLUME 1
                   shadow
                Hunters
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=115704816
E
    than  um garoto normal de uma pequena cidade
    do sul dos Estados Unidos, um pouco entediado
    com a escola, e totalmente atormentado por
sonhos, ou melhor pesadelos, com uma garota que ele
nunca conheceu. At que ela aparece... Lena
Duchannes  uma adolescente que luta para esconder
seus poderes e uma maldio que assombra sua famlia
h geraes.




                       d
Para Nick & Stella,
Emma, May & Kate
e
para todos os que conjuram ou no, em todos os lugares.
H mais de ns do que vocs pensam.
A escurido no pode expulsar a escurido;
          s a luz pode fazer isso.
     O dio no pode expulsar o dio;
         s o amor pode fazer isso.
          Martin Luther King Jr.
                            p ANTES p
                         O meio do nada
                                    d

H
      avia apenas dois tipos de gente em nossa cidade. "As burras e as
      empacadas", que foi como meu pai afetuosamente classificara nossos
      vizinhos. "Os que esto condenados a ficar ou so burros demais para ir
embora. Todos os outros acham um meio de fugir." No havia dvida sobre
qual dos dois ele era, mas eu nunca tinha tido coragem de perguntar o
motivo. Meu pai era escritor, e morvamos em Gatlin, Carolina do Sul,
porque todos os Wate sempre moraram ali, desde que o tatarav do meu
tatarav, Ellis Wate, lutou e morreu no outro lado do rio Santee durante a
Guerra Civil.
     S que o pessoal daqui no a chamava de Guerra Civil. Todos com
menos de 60 anos a chamavam de Guerra entre os Estados, enquanto todos
com mais de 60 a chamavam de Guerra da Agresso Norte, como se de
alguma forma o norte tivesse levado o sul a entrar na guerra por causa de um
fardo ruim de algodo. Todos, menos minha famlia. Ns a chamvamos de
Guerra Civil.
     Era apenas mais um motivo pelo qual eu mal podia esperar para ir
embora daqui.
     Gatlin no era como as cidadezinhas que se v nos cinemas, a no ser
que fosse um filme sobre cinquenta anos atrs. Estvamos longe demais de
Charleston para ter um Starbucks ou um McDonalds. S tnhamos um Dar-
ee Keen, j que os Gentry eram pes-duros demais para comprar novas letras
quando compraram o Dairy King. A biblioteca ainda tinha os livros
catalogados em cartes, a escola ainda tinha quadros-negros e nossa piscina
da comunidade era o lago Moultrie, com gua marrom morna e tudo.
Podamos ver um filme no Cineplex na mesma poca que ele saa em DVD,
mas tnhamos que pegar uma carona at Summerville, perto da faculdade
comunitria. As lojas ficavam na rua Main, as boas casas ficavam na rua
River, e todas as outras pessoas moravam ao sul da autoestrada 9, onde o
asfalto se desmanchava em pedaos de concreto -- terrvel para andar, mas
perfeito para jogar em gambs furiosos, os animais mais cruis que existem.
Nunca se viu esse tipo de coisa nos filmes.
     Gatlin no era um lugar complicado; Gatlin era Gatlin. Os vizinhos
ficavam de guarda nas varandas no calor insuportvel, sofrendo e suando 
vista de todos. Mas no havia sentido. Nada mudava nunca. Amanh seria o
primeiro dia de aula, no segundo ano do ensino mdio na escola Stonewall
Jackson High, e eu j sabia tudo que iria acontecer: onde eu me sentaria, com
quem eu falaria, as piadas, as garotas, quem estacionaria onde.
     No havia surpresas no Condado de Gatlin. ramos nada mais nada
menos do que o epicentro no meio do nada.
     Pelo menos  o que eu pensava quando fechei meu exemplar surrado de
Matadouro Cinco, desliguei meu iPod e apaguei a luz na ltima noite de
vero.
     S que eu no podia estar mais errado.
     Havia uma maldio.
     Havia uma garota.
     E no final, havia um tmulo.
     Nunca sequer imaginei que aconteceria.
                        p 2 de setembro p
                     Continue sonhando
                                    d
C    aindo.
         Eu estava em queda livre, despencando no ar.
         -- Ethan!
     Ela me chamou, e o som da sua voz fez meu corao disparar.
     -- Me ajude!
     Ela estava caindo tambm. Estiquei meu brao, tentando segur-la.
Estiquei o brao, mas s encontrei ar. No havia cho sob meus ps e minhas
mos se enfiavam em lama. Encostamos as pontas dos dedos e vi fagulhas
verdes na escurido.
     Ento ela escorregou por meus dedos e s consegui sentir a perda.
     Limo e alecrim. Eu consegui sentir o cheiro dela, at naquele momento.
     Mas no consegui segur-la.
     E no conseguia viver sem ela.


Me sentei de repente, tentando recuperar o flego.
     -- Ethan Wate! Acorde! No vou admitir que chegue atrasado ao
primeiro dia de aula. -- Eu podia ouvir a voz de Amma gritando do andar de
baixo.
     Meus olhos focalizaram um ponto de luz suave na escurido. Eu podia
ouvir o distante som da chuva contra a velha janela da fazenda. Deve estar
chovendo. Deve ser de manh. Devo estar no meu quarto.
     Meu quarto estava quente e mido por causa da chuva. Por que minha
janela estava aberta?
      Minha cabea estava latejando. Deitei novamente na cama e o sonho foi
se dissipando, como sempre acontece. Eu estava em segurana no meu
quarto, em nossa antiga casa, na mesma cama de mogno que rangia onde
provavelmente seis geraes de Wate dormiram antes de mim, onde pessoas
no caam por buracos negros feitos de lama e nada nunca acontecia.
      Olhei para meu teto de gesso, pintado da cor do cu para impedir que as
abelhas carpinteiras fizessem ninho ali. O que havia de errado comigo?
      Havia meses que eu tinha esse mesmo sonho. Apesar de no conseguir
me lembrar de tudo, a parte da qual eu me lembrava era sempre a mesma. A
garota estava caindo. Eu estava caindo. Tinha que me segurar, mas no
conseguia. Se eu soltasse, alguma coisa terrvel aconteceria com ela. Mas esse
era o problema. Eu no conseguia soltar. No podia perd-la. Era como se eu
estivesse apaixonado por ela, mesmo no a conhecendo. Tipo um amor antes
da primeira vista.
      Mas isso parecia loucura, porque era apenas uma garota num sonho. Eu
nem sabia como ela era. Eu vinha tendo o sonho h meses, mas em todo esse
tempo jamais vira o rosto dela, ou pelo menos no conseguia lembrar. Eu s
sabia que tinha a mesma sensao horrvel toda vez que a perdia. Ela
escorregava da minha mo e meu estmago parecia afundar, como nos
sentimos durante a queda em uma montanha-russa.
      Frio na barriga. Essa era uma porcaria de metfora. Era mais como um
tiro.
      Talvez eu estivesse enlouquecendo, ou talvez s precisasse de um banho.
Os fones ainda estavam em volta do meu pescoo, e quando olhei para o
visor do meu iPod, vi uma msica que no reconheci.
      "Dezesseis Luas."
      O que era aquilo? Cliquei nela. A melodia era assustadora. Eu no
conseguia identificar a voz, mas tinha a sensao de que j ouvira aquilo.

    Dezesseis luas, dezesseis anos
    Dezesseis dos seus mais profundos medos
    Dezesseis vezes voc sonhou com minhas lgrimas
    Caindo, caindo ao longo dos anos...

Era deprimente, assustadora... Quase hipntica.
     -- Ethan Lawson Wate! -- Consegui ouvir Amma gritando mesmo com
a msica.
     Desliguei o iPod e sentei na cama, afastando as cobertas. Os lenis
pareciam estar cheios de areia, mas eu sabia que no era isso.
     Era terra. E minhas unhas estavam pretas de lama, da mesma forma que
ficaram na ltima vez em que eu tivera o sonho.
     Enrolei o lenol e o enfiei no cesto de roupa suja embaixo do uniforme
do treino do dia anterior. Entrei no chuveiro e tentei esquecer tudo enquanto
esfregava as mos e os ltimos pedaos pretos do meu sonho desapareciam
pelo ralo. Se eu no pensasse naquilo, no estaria acontecendo. Era assim que
eu lidava com a maioria das coisas nos ltimos meses.
     Mas no quando se tratava dela. No dava para evitar. Eu sempre
pensava nela. Sempre voltava a ter o mesmo sonho, mesmo no conseguindo
explic-lo. Ento, era esse meu segredo, tudo que queria contar. Eu tinha 16
anos, estava me apaixonando por uma garota que no existia e estava ficando
louco.
     No importava o quanto eu esfregasse, eu no conseguia fazer meu
corao parar de bater forte. E mesmo com o cheiro de sabonete Ivory e do
xampu, eu ainda conseguia sentir aquela aroma. Bem de leve, mas eu sabia
que estava l.
     Limo e alecrim.


Desci as escadas para a segurana da mesmice de sempre. Na mesa de caf da
manh, Amma colocou na minha frente o mesmo prato de porcelana azul e
branco (porcelana-drago era como minha me chamava) com ovos fritos,
bacon, torrada com manteiga e canjica. Amma era nossa governanta, mas era
mais como minha av, apesar de ser mais inteligente e mais mal-humorada
do que minha verdadeira av. Amma tinha praticamente me criado, e ela
achava que era a misso dela me fazer crescer mais uns 30 centmetros,
apesar de eu j ter 1,89 metro de altura. Esta manh eu estava estranhamente
faminto, como se no comesse h uma semana. Comi um ovo e dois pedaos
de bacon e j me senti melhor. Sorri para ela com a boca cheia.
    -- No pegue no meu p, Amma.  o primeiro dia de aula. -- Ela
colocou com fora na minha frente um gigantesco copo de suco de laranja e
outro maior ainda de leite (integral, o nico tipo que bebemos aqui).
     -- Acabou o achocolatado? -- Eu bebia achocolatado do mesmo jeito
que algumas pessoas bebem Coca-Cola ou caf. Mesmo de manh, eu estava
sempre atrs da minha dose de acar.
     -- A-C-L-I-M-A-T-E-S-E. -- Amma usava palavras cruzadas para tudo.
Quanto maior, melhor, e ela gostava de us-las. O modo como ela soletrava
as palavras letra por letra fazia parecer que ela estava dando um tapa na
cabea da gente a cada letra. -- Quero dizer, acostume-se. E no pense em
botar um p pra fora daquela porta antes de beber o leite que dei pra voc.
     -- Sim, senhora.
     -- Vejo que voc se arrumou. -- Eu no tinha me arrumado. Estava de
jeans e uma camiseta desbotada, como em quase todos os dias. Cada uma
tinha um dizer diferente. A de hoje tinha escrito Harley Davison. E eu estava
com o mesmo Ali Star que usava havia trs anos.
     -- Pensei que voc fosse cortar o cabelo -- falou como se fosse uma
bronca, mas eu percebi o que era realmente: puro e simples amor.
     -- Quando falei isso?
     -- Voc no sabe que os olhos so a janela da alma?
     -- Talvez eu no queira que ningum use uma janela pra ver a minha
alma.
     Amma me puniu com mais um prato de bacon. Ela mal chegava a 1,50m
de altura e era provavelmente mais velha do que a porcelana-drago, apesar
de em cada aniversrio ela insistir que estava fazendo 53 anos. Mas Amma
era qualquer coisa, menos uma senhora amvel. Ela era a autoridade
absoluta na minha casa.
     -- Bem, no pense que voc vai sair nesse tempo com o cabelo molhado.
No gosto da sensao que essa tempestade est me dando. Como se uma
coisa ruim tivesse sido chutada no vento, e nada consegue impedir um dia
como esse. Ele tem vontade prpria.
     Revirei os olhos. Amma tinha uma maneira prpria de ver as coisas.
Quando ela estava com o humor assim, minha me costumava dizer que ela
estava escurecendo: religio e superstio misturadas, como s acontece no
sul. Quando Amma escurecia, era melhor ficar fora do caminho dela. Assim
como era melhor deixar os amuletos dela nos peitoris das janelas e as bonecas
que ela fazia nas gavetas onde ela as colocava.
     Comi mais uma garfada de ovo e terminei o caf da manh dos
campees: ovos, geleia congelada e bacon, tudo esmagado entre as torradas
num sanduche. Enquanto enfiava isso na boca, olhei pelo corredor por puro
hbito. A porta do escritrio do meu pai j estava fechada. Meu pai escrevia 
noite e dormia no sof velho do escritrio de dia. Era assim desde que minha
me morreu em abril passado. Ele podia muito bem ser um vampiro; era isso
que minha tia Caroline tinha dito depois de ter passado uns dias conosco
naquela primavera. Eu provavelmente tinha perdido a oportunidade de v-lo
at o dia seguinte. Aquela porta no se abria depois que era fechada.
     Ouvi uma buzina na rua. Link. Peguei minha mochila preta caindo aos
pedaos e corri pela porta na chuva. Podia muito bem ser tanto sete da noite
quanto sete horas da manh, de to escuro que o cu estava. O tempo estava
estranho havia alguns dias.
     O carro de Link, o Lata-Velha, estava na rua, o motor fazendo barulho,
a msica em alto volume. Eu ia para a escola com Link todo dia desde o
jardim de infncia, quando nos tornamos melhores amigos depois de ele me
dar metade do seu Twinkie no nibus. S depois descobri que tinha cado no
cho. Apesar de ns dois termos tirado carteira nesse vero, Link era quem
tinha um carro, se  que podamos chamar aquilo de carro.
     Pelo menos o motor do Lata-Velha estava superando o som da
tempestade.
     Amma ficou na varanda com os braos cruzados em uma postura
reprovadora.
     -- No toque msica alta aqui, Wesley Jefferson Lincoln. No pense que
no vou ligar para sua me e contar a ela o que voc ficou fazendo no poro
o vero inteiro quando tinha 9 anos.
     Link fez uma careta. Poucas pessoas o chamavam pelo nome real; s a
me dele e Amma.
     -- Sim, senhora.
     A porta de tela da varanda bateu. Ele riu, cantando pneu no asfalto
molhado ao se afastar do meio-fio. Como se estivssemos fugindo, era assim
que dirigamos quase sempre. S que nunca fugamos.
     -- O que voc fez no meu poro quando tinha 9 anos?
     -- O que eu no fiz no seu poro quando eu tinha 9 anos? -- Link
abaixou a msica, e eu achei bom, porque ela era pssima e ele ia me
perguntar se eu tinha gostado, como fazia todo dia. O grande problema da
banda dele, Quem Matou Lincoln, era que nenhum integrante sabia tocar
um instrumento e nem cantar. Mas ele s falava sobre tocar bateria e mudar
para Nova York depois da formatura e sobre os contratos de gravao que
provavelmente jamais aconteceriam. E quando digo provavelmente, quero
dizer que ele tinha mais chance de fazer uma cesta de trs pontos vendado e
bbado do estacionamento do ginsio.
     Link no ia para a faculdade, mas ele ainda estava um passo  minha
frente. Ele sabia o que queria fazer, mesmo sendo algo improvvel. Tudo que
eu tinha era uma caixa de sapatos cheia de livretos de faculdades que eu no
podia mostrar para meu pai. Eu no me importava com qual faculdade fosse,
desde que fosse pelo menos a uns 1.500 quilmetros de Gatlin.
     Eu no queria terminar como meu pai, morando na mesma casa, na
mesma cidade pequena em que cresci, com as mesmas pessoas que nunca
sonharam em sair daqui.




Ao nosso redor casas vitorianas velhas e encharcadas ladeavam a rua, quase
iguais ao dia em que tinham sido construdas h mais de 100 anos. Minha rua
se chamava Cotton Bend porque essas velhas casas costumavam ter na parte
de trs quilmetros de campos de plantao de algodo. Agora davam para a
autoestrada 9, que era provavelmente a nica coisa que tinha mudado aqui.
     Peguei um donut velho da caixa que estava no cho do carro.
     -- Voc fez upload de uma msica esquisita no meu iPod ontem  noite?
     -- Que msica? O que acha dessa aqui? -- Link aumentou o som da
mais recente faixa demo da banda.
     -- Acho que precisa ser trabalhada. Como todas suas outras msicas. --
Era a mais ou menos mesma coisa que eu dizia todo dia.
     -- , seu rosto vai precisar ser trabalhado depois que eu der umas
porradas em voc. -- Era mais ou menos a mesma coisa que ele dizia todo
dia.
     Dei uma olhada na minha lista de msicas.
     -- A tal msica, acho que o nome era algo do tipo "Dezesseis Luas".
     -- No sei do que est falando. -- No estava l. A msica havia
sumido, mas eu acabara de ouvi-la naquela manh. E sabia que no tinha
imaginado porque ela ainda estava na minha cabea.
     -- Se voc quer ouvir uma msica, vou botar uma nova. -- Link olhou
para baixo para encontrar a msica.
     -- Ei, cara, olhe para frente.
     Mas ele no ergueu o olhar, e com o canto do meu olho, vi um estranho
carro passar na frente do nosso...
     Por um segundo, os sons da rua e da chuva e de Link se dissolveram no
silncio, e era como se tudo estivesse se movendo em cmera lenta. Eu no
conseguia desgrudar os olhos do carro. Era s uma sensao, no uma coisa
que conseguisse descrever. E ento ele passou por ns, virando em outra
direo.
     No reconheci o carro. Nunca o tinha visto antes. Vocs no podem
imaginar o quanto isso  impossvel, porque eu conhecia cada carro na
cidade. No havia turistas nessa poca do ano. Ningum se arriscaria na
temporada de furaces.
     Esse carro era longo e preto, como um rabeco. Na verdade, eu estava
bem certo de que era um rabeco.
     Talvez fosse um pressgio. Talvez esse ano fosse ser pior do que eu
pensava.
     -- Aqui est. "Bandana Negra." Essa msica vai me tornar famoso.
     Quando ele voltou a olhar para a frente, o carro tinha ido embora.
                             p 2 de setembro p
                             Garota nova
                                     d

O     ito ruas. Era essa a distncia que tnhamos que percorrer de Cotton
      Bend at a Jackson High. Aparentemente eu conseguia reviver minha
      vida toda subindo e descendo oito ruas, e oito ruas eram o bastante para
tirar o estranho rabeco preto da minha cabea. Talvez tenha sido por isso
que no mencionei nada para Link.
     Passamos pelo Pare & Compre, tambm conhecido como Pare & Roube.
Era o nico mercado da cidade, e o que tnhamos de mais parecido com um
7 Eleven. Ento sempre que estvamos de bobeira com algum por l,
tnhamos que torcer para no dar de cara com a me de algum fazendo
compras para o jantar ou pior, com Amma.
     Percebi o familiar Grand Prix estacionado na porta.
     -- Oh-oh. Fatty j est de planto. -- Ele estava no banco do motorista,
lendo The Stars and Stripes.
     -- Talvez ele no tenha visto a gente. -- Link olhava pelo retrovisor,
tenso.
     -- Talvez a gente esteja ferrado.
     Fatty era o inspetor encarregado de procurar os alunos da escola
Stonewall Jackson High que matavam aula, assim como um orgulhoso
integrante da fora policial de Gatlin. A namorada dele, Amanda, trabalhava
no Pare & Roube, e Fatty ficava estacionado l na porta durante a maioria
das manhs, esperando que os produtos da padaria chegassem. Isso era um
tanto inconveniente se voc estivesse sempre atrasado, como Link e eu.
     No era possvel frequentar a Jackson High sem conhecer a rotina de
Fatty to bem quanto nosso prprio horrio de aulas. Hoje, Fatty sinalizou
com a mo para irmos em frente sem nem tirar os olhos da seo de esportes.
Ele estava nos dando uma folga.
     -- Seo de esportes e um po doce. Voc sabe o que isso significa. --
Temos cinco minutos.




Seguimos no Lata-Velha at o estacionamento da escola com a marcha em
ponto morto, na esperana de passar pela secretaria despercebidos. Mas
ainda chovia muito, ento na hora que entramos no prdio, estvamos
ensopados e nossos tnis faziam um barulho to alto que daria na mesma se
tivssemos entrado voluntariamente.
     -- Ethan Wate! Wesley Lincoln!
     Ficamos de p pingando na secretaria, esperando os bilhetes de deteno
que levaramos para casa.
     -- Atrasados para o primeiro dia de aula. Sua me vai usar algumas
palavras bem escolhidas com voc, Sr. Lincoln. E no faa essa cara de
superior, Sr. Wate. Amma vai te dar uma surra.
     A Srta. Hester estava certa. Amma saberia que cheguei atrasado em uns
cinco minutos, isso se j no soubesse. As coisas eram assim por aqui. . Minha
me dizia que Carlton Eaton, o diretor da agncia do correio, lia qualquer
carta que parecesse meio interessante. Ele nem se dava mais ao trabalho de
colar o envelope de novo. No  como se alguma novidade de verdade
pudesse existir. Cada casa tinha seus segredos, mas todos na rua sabiam quais
eram. At isso no era segredo.
     -- Srta. Hester, eu s vim dirigindo devagar por causa da chuva. -- Link
tentou ser encantador. A Srta. Hester puxou um pouco os culos e olhou para
Link, nada encantada. A correntinha que prendia os culos dela ao redor do
pescoo balanou para frente e para trs.
     -- No tenho tempo para bater papo com vocs agora. Estou ocupada
preenchendo seus bilhetes de deteno, que  onde vocs passaro a tarde de
hoje -- ela disse enquanto nos entregava um folheto azul para cada um.
     Ela estava ocupada, sei. Deu para sentir o cheiro do esmalte antes
mesmo de dobrar para o corredor. Bem-vindos de volta.
Em Gatlin, o primeiro dia de aula nunca muda. Os professores, que
conhecem a gente da igreja, decidiram se ramos burros ou inteligentes
quando estvamos no jardim de infncia. Eu era inteligente porque meus pais
eram professores universitrios. Link era burro porque amassou as pginas do
Livro Sagrado durante a Caa s Escrituras e porque vomitou uma vez
durante o desfile de Natal. Como eu era inteligente, recebia boas notas nos
meus trabalhos; como Link era burro, recebia notas ruins. Acho que ningum
se dava ao trabalho de l-los. s vezes eu escrevia uma coisa qualquer no
meio das redaes s para ver se meus professores diriam alguma coisa.
Nenhum nunca disse nada.
     Infelizmente, o mesmo princpio no se aplicava a provas de mltipla
escolha. No primeiro tempo, na aula de Ingls, descobri que minha
professora de 700 anos de idade, cujo verdadeiro nome era Sra. English,
tinha mandado a gente ler O Sol  para Todos durante o vero, ento me dei
mal na primeira prova. timo. Eu tinha lido o livro h uns dois anos. Era um
dos favoritos da minha me, mas fazia tempo e eu tinha esquecido os
detalhes.
     Uma informao pouco conhecida sobre mim: leio o tempo todo. Livros
so a nica coisa que me tira de Gatlin, mesmo que por pouco tempo. Eu
tinha um mapa na parede, e toda vez que eu lia sobre um lugar que queria
conhecer, eu fazia uma marcao nele. Nova York estava marcada por causa
de O Apanhador no Campo de Centeio. Na Natureza Selvagem me levou a
marcar o Alasca. Quando li P na Estrada, marquei Chicago, Denver, Los
Angeles e Cidade do Mxico. Kerouac pode nos levar praticamente a todos
os lugares. De tempos em tempos, eu fazia uma linha para ligar os lugares
marcados. Uma linha verde fina que eu seguiria numa viagem de carro no
vero antes de ir para a faculdade, isso se conseguisse sair dessa cidade. O
mapa e o lance da leitura eram um segredo s meu. Livros e basquete no
misturavam por aqui.
     A aula de qumica no foi muito melhor. O Sr. Hollenback me
amaldioou escolhendo Emily Odeio-Ethan para minha parceira de
laboratrio, tambm conhecida como Emily Asher, que me despreza desde o
baile do ano passado, quando cometi o erro de usar meu All Star com o
smoking e deixar que meu pai nos levasse no Volvo enferrujado. A janela
quebrada que no fechava tinha desarrumado seu cabelo louro perfeitamente
cacheado para o baile, e na hora que chegamos ao ginsio ela parecia Maria
Antonieta ao acordar. Emily no falou comigo o resto da noite e mandou
Savannah Snow me dar o fora por ela a trs passos da mesa do ponche. E
esse foi o fim da histria.
     Era uma fonte de diverso sem fim para os caras, que viviam na
expectativa de que amos ficar juntos de novo. O que eles no sabiam era que
eu no curtia garotas como Emily. Ela era bonita, mas era s isso. E olhar
para ela no compensava ter que ouvir o que saa de sua boca. Eu queria
algum diferente, algum com quem eu pudesse conversar sobre outras coisas
alm de testas e coroaes no baile de inverno. Uma garota que fosse
inteligente ou engraada, ou pelo menos uma parceira de laboratrio
razovel. Talvez uma garota assim fosse um sonho, mas um sonho ainda era
melhor do que um pesadelo. Mesmo se o pesadelo usasse saia de lder de
torcida.
     Sobrevivi  aula de qumica, mas meu dia s piorou. Pelo visto, eu ia ter
aula de Histria Americana de novo esse ano, que era a nica Histria
ensinada na Jackson, tornando o nome redundante. Eu passaria meu segundo
s ano consecutivo estudando a "Guerra da Agresso Norte" com o Sr. Lee,
cujo nome era s coincidncia. Mas como todos ns sabamos, em esprito, o
Sr. Lee e o famoso general da Confederao eram a mesma pessoa. O Sr. Lee
era um dos poucos professores que realmente me odiavam. No ano anterior,
por causa de um desafio de Link, eu tinha feito uma redao chamada
"Guerra da Agresso Sul", e o Sr. Lee me deu um D. Acho que os professores
liam sim as redaes s vezes, afinal.
     Achei um lugar atrs ao lado de Link, que estava ocupado copiando as
anotaes da aula na qual ele dormira antes dessa. Mas ele parou de escrever
assim que sentei.
     -- Cara, voc soube?
     -- Soube de qu?
     -- Tem uma garota nova na Jackson.
     -- Tem um monte de garotas novas, uma turma inteira de o ano,
imbecil.
     -- No estou falando das garotas do 1 ano. Tem uma garota nova no
nosso ano.
     Em qualquer outra escola, uma garota nova no 2 ano no seria
novidade. Mas estvamos na Jackson. E no tnhamos uma garota nova no
nosso ano desde o 3 ano fundamental, quando Kelly Wix veio morar com os
avs depois que o pai foi preso por gerenciar um esquema de jogatina no
poro da casa deles em Lake City.
     -- Quem  ela?
     -- No sei. Tive aula de Cvica no segundo tempo com todos os nerds da
banda, e eles no sabiam nada alm de que ela toca o violino ou algum
instrumento assim. Queria saber se ela  gata.
     Link tinha a mente limitada, como a maioria dos caras. A diferena era
que a mente limitada dele estava diretamente ligada  boca.
     -- Ento ela  uma nerd de banda?
     -- No.  msica. Talvez tenha o mesmo amor que eu por msica
clssica.
     -- Msica clssica?
     Link s tinha ouvido msica clssica no consultrio do dentista.
     -- Voc sabe, os clssicos. Pink Floyd. Black Sabbath. Os Stones.
     Comecei a rir.
     -- Sr. Lincoln. Sr. Wate. Lamento interromper a conversa de vocs, mas
eu gostaria de comear, se vocs concordarem.
     O tom do Sr. Lee era to sarcstico quanto o do ano passado, e o cabelo
oleoso penteado de forma a tentar cobrir a careca e as marcas de suor nas
axilas continuavam horrveis. Ele distribuiu cpias do mesmo planejamento
que provavelmente usava h 10 anos. Participar de uma encenao da
Guerra Civil era obrigatrio. Claro que era. Eu podia pegar emprestado o
uniforme de um dos meus parentes que participaram de encenaes por
diverso nos finais de semana. Que sorte a minha.
     Depois que o sinal tocou, Link e eu ficamos no corredor perto dos nossos
armrios na esperana de dar uma olhada na garota nova. Pelo que ele ,
falava, ela j era sua futura alma gmea e companheira de banda e,
provavelmente, companheira de algumas outras coisas que eu nem queria
saber. Mas a nica coisa que conseguimos ver foi Charlotte Chase usando
uma saia jeans dois nmeros menores. Isso significava que no amos
descobrir nada at a hora do almoo, porque nossa prxima aula era LSA,
Linguagem de Sinais Americana, e falar era rigorosamente proibido.
Ningum era bom o bastante nos sinais para sequer soletrar "garota nova",
principalmente porque LSA era a nica aula que tnhamos junto com o resto
do time de basquete de Jackson.
     Eu estava no time desde o oitavo ano, quando cresci 15 centmetros no
vero e acabei ficando uma cabea mais alto do que todo mundo da minha
turma. Alm do mais,  preciso fazer alguma coisa normal quando os dois
pais so professores. No fim das contas, eu era bom em basquete. Eu sempre
parecia saber por onde os jogadores do outro time iam passar a bola, e isso
me dava um lugar garantido para sentar no refeitrio todo dia. Na Jackson,
isso valia alguma coisa.
     Hoje aquele lugar valia ainda mais porque Shawn Bishop, nosso
armador, tinha visto a garota nova. Link perguntou a nica coisa que
importava para qualquer um deles:
     -- E ento, ela  gata?
     -- Muito gata.
     -- Gata estilo Savannah Snow?
     Como se tivesse sido combinado, Savannah, o padro pelo qual todas as
outras garotas da Jackson eram avaliadas, entrou no refeitrio de braos
dados com Emily Odeio-Ethan, e todos ficamos olhando porque Savannah
tinha 1,72 metros com as mais perfeitas pernas que j tnhamos visto. Emily e
Savannah eram quase uma pessoa s, mesmo quando no estavam de
uniformes de lder de torcida. Cabelos louros, bronzeados artificiais, chinelos
e saias jeans to curtas que mais pareciam cintos. Savannah tinha as pernas,
mas era o top do biquni de Emily que todos os caras queriam conferir no
lago durante o vero. Elas nunca pareciam carregar livros, s pequenas
bolsinhas de metal enfiadas debaixo do brao, que mal tinham espao para
um celular, isso nas poucas ocasies em que Emily parava de mandar
mensagens de texto.
     As diferenas entre elas se resumiam s posies na equipe de lderes de
torcida. Savannah era a capita, e tambm era base: uma das garotas que
sustentavam duas outras lderes de torcida na famosa pirmide dos Wildcats.
Emily era uma voadora, a garota no topo da pirmide, a que era jogada de
1,50 a 1,80 metros no ar para dar uma pirueta ou outra maluquice que
poderia facilmente resultar em um pescoo quebrado. Emily arriscaria
qualquer coisa para ficar no topo daquela pirmide. Savannah no precisava.
Quando Emily era jogada, a pirmide ficava bem sem ela. Quando Savannah
se movia dois centmetros, a pirmide toda desabava.
     Emily Odeio-Ethan reparou que olhvamos para elas e me encarou com
raiva. Os caras riram. Emory Watkins deu um tapinha nas minhas costas.
     -- T podendo, Wate. Voc conhece Emily, quanto mais ela olha com
raiva, mais gosta da pessoa.
     Eu no queria pensar em Emily hoje. Queria pensar no oposto de Emily.
Desde que Link tinha falado na aula de Histria, aquilo estava na minha
cabea. A garota nova. A possibilidade de algum diferente, de algum lugar
diferente. Talvez algum com uma vida mais significativa que a nossa e,
provavelmente, que a minha.
     Talvez at algum com quem eu tenha sonhado. Eu sabia que era uma
fantasia, mas queria acreditar nela.
     -- Vocs souberam da garota nova?
     Savannah sentou no colo de Earl Petty. Earl era o capito do time e
namorado de Savannah de tempos em tempos. Agora, eles estavam juntos.
Ele passou as mos pelas pernas alaranjadas dela to alto na coxa a ponto de
a gente no saber para onde olhar.
     -- Shawn estava nos contando. Disse que ela  gata. Vo coloc-la na
equipe?
     Link pegou umas batatas da minha bandeja.
     -- Improvvel. Vocs tm que ver o que ela est vestindo.
     Golpe um.
     -- E como ela  plida.
     Golpe dois. Ningum  magra demais ou bronzeada demais pelos
padres de Savannah.
     Emily sentou ao lado de Emory, inclinando-se sobre a mesa um pouco
demais.
     -- Ele contou pra vocs quem ela ?
     -- O que isso quer dizer?
     Emily fez uma pausa para efeito dramtico.
     -- Ela  sobrinha do Velho Ravenwood.
     Ela no precisava de efeito para dizer isso. Era como se tivesse retirado
todo o ar do recinto. Alguns caras comearam a rir. Pensaram que ela estava
brincando, mas eu vi que no estava.
     Golpe trs. Ela estava fora de questo. To fora que eu nem conseguia
mais imagin-la. A possibilidade de minha garota dos sonhos aparecer sumiu
antes mesmo que eu pudesse imaginar nosso primeiro encontro. Eu estava
fadado a mais trs anos de Emilies.
     Macon Melchizedek Ravenwood era o recluso da cidade. Vamos apenas
dizer que eu lembrava o bastante de O Sol  para Todos para saber que o
Velho Ravenwood fazia Boo Radley parecer um cara extremamente popular.
Ele morava em uma casa velha em runas, na fazenda mais antiga e
abominvel de Gatlin, e acho que ningum o via desde antes de eu nascer ou
mais.
     -- Est falando srio? -- perguntou Link.
     -- Completamente. Carlton Eaton contou para minha me ontem
quando trouxe nossa correspondncia.
     Savannah assentiu.
     -- Minha me ouviu a mesma coisa. Ela foi morar com o Velho
Ravenwood h alguns dias, vinda da Virgnia ou de Maryland, no lembro.
     Todos continuaram a falar dela, das roupas e dos cabelos e do tio dela, e
do quanto ela provavelmente devia ser esquisita. Isso era o que eu mais
odiava em Gatlin: o fato de que todo mundo tinha alguma coisa a dizer sobre
tudo que voc falava, fazia ou, nesse caso, vestia. Fiquei encarando o
macarro na minha bandeja, nadando em um lquido laranja gosmento que
no se parecia muito com molho de queijo.
     Dois anos, oito meses e a contagem continua. Eu tinha que sair dessa
cidade.




Depois da escola, o ginsio estava sendo usado para o teste de lderes de
torcida. A chuva tinha finalmente parado, ento o treino de basquete foi na
quadra externa, com o concreto rachado, os aros das cestas tortos e poas de
gua da chuva da manh. A gente tinha que ter cuidado para no bater na
rachadura que percorria o meio da quadra como o Grand Canyon. Fora isso,
dava para ver quase todo o estacionamento e observar a maior parte da
interao social da Jackson High enquanto a gente se aquecia.
     Hoje eu estava com a mo boa. Acertei todos os sete arremessos que fiz
da linha de lance livre, mas Earl tambm estava bem, fazendo cesta sempre
que eu fazia uma.
     Swish. Oito. Parecia que era s eu olhar para a rede e a bola ia direto
para l. Alguns dias simplesmente eram assim.
     Swish. Nove. Earl estava irritado. Percebi pelo modo como ele batia a
bola com mais fora cada vez que eu arremessava. Ele era nosso outro centro.
Nosso acordo no-verbal era: eu o deixava comandar o time e ele no me
perturbava se eu no estivesse com vontade de ficar de papo no Pare 8c
Roube todo dia depois do treino. Chegava uma hora que enchia o saco falar
das mesmas garotas e comer Slim Jims.
     Swish. Dez. Eu no errava. Talvez fosse gentico. Talvez fosse outra
coisa. Eu nunca tinha entendido, mas desde que minha me morreu, parei de
tentai' entender. Era espantoso que eu tivesse chegado a ir ao treino.
     Swish. Onze. Earl resmungou atrs de mim, batendo a bola com ainda
mais fora. Tentei no sorrir e olhei para o estacionamento quando fiz o
arremesso seguinte. Vi um emaranhado de cabelos pretos e compridos atrs
do volante de um longo carro preto.
     Um rabeco. Fiquei paralisado.
     Ento ela se virou, e pela janela aberta pude ver uma garota olhando em
minha direo. Pelo menos pensei ver. A bola bateu no aro e quicou em
direo  cerca. Atrs de mim, ouvi um som familiar.
     Swish. Doze. Earl Petty podia relaxar.
     Quando o carro se afastou, olhei para a quadra. O resto dos caras estava
de p ali como se tivessem acabado de ver um fantasma.
     -- Aquela era...?
     Billy Watts, nosso ala, assentiu, segurando na cerca de metal com uma
das mos.
     -- A sobrinha do Velho Ravenwood.
     Shawn jogou a bola para ele.
     -- . Exatamente como disseram. Dirigindo o rabeco dele.
     Emory sacudiu a cabea.
     -- Ela  gata mesmo. Que desperdcio.
     Eles voltaram a jogar bola, mas quando Earl fez o arremesso seguinte,
comeou a chover de novo. Trinta segundos depois, fomos pegos no meio de
uma tempestade, a mais forte do dia. Fiquei l de p deixando a chuva acabar
comigo. Meu cabelo molhado caa sobre os olhos, bloqueando o resto da
escola, do time.
     O mau pressgio no era apenas um rabeco. Era uma garota.
     Por alguns minutos, eu tinha me permitido ter esperanas. De que talvez
esse ano no seria como todos os outros anos, de que alguma coisa fosse
mudar. De que eu teria algum com quem conversar, algum que realmente
me entendesse.
     Mas tudo que tive foi um dia bom na quadra, e isso nunca tinha sido o
suficiente.
                         p 2 de setembro p
                       Um buraco no cu
                                    d

F    rango frito, pur de batata com molho, vagem e po -- o prato, frio e
     raivoso sobre o fogo onde Amma tinha deixado. Normalmente ela
     mantinha meu jantar quente at que eu chegasse do treino, mas hoje
no. Eu estava muito encrencado. Amma estava furiosa, sentada  mesa
comendo balinhas de canela e rabiscando nas palavras cruzadas do New York
Times. Meu pai assinava escondido a edio de domingo porque as palavras
cruzadas do The Stars and Stripes tinham muitos erros de ortografia e as do
Readers Digest eram pequenas demais. No sei como ele conseguia fazer sem
que Carlton Eaton percebesse, pois ele teria feito a cidade inteira saber que
ramos bons demais para o The Stars and Stripes. Mas no havia nada que
meu pai no fizesse por Amma.
     Ela deslizou o prato na minha direo, olhando para mim sem olhar
para mim. Enfiei pur de batata e frango frios na boca. No havia nada que
Amma odiasse mais do que comida deixada no prato. Tentei manter
distncia da ponta do seu lpis especial nmero dois, usado apenas para
palavras cruzadas e mantido to apontado que poderia ferir a ponto de
sangrar. Hoje, era possvel.
     Escutei o barulho ininterrupto da chuva no telhado. No havia nenhum
outro som na cozinha. Amma bateu o lpis na mesa.
     -- Oito letras. Confinar ou provocar dor devido a um erro cometido.
     Ela me lanou outro olhar. Enchi a boca de pur de batata. Eu sabia o
     que estava a caminho. Nove horizontal.
     -- C-A-S-T-I-G-A-R. O que quer dizer punir. O que quer dizer que se
no consegue chegar na escola na hora, no vai sair dessa casa.
     Fiquei pensando sobre quem tinha ligado para inform-la de que eu
chegara atrasado, ou o mais provvel, quem no tinha ligado. Ela apontou o
lpis apesar de ele estar ainda de ponta fina, enfiando-o no velho apontador
automtico na bancada. Ela ainda estava claramente "no-olhando" para
mim, o que era bem pior do que me olhar nos olhos.
     Andei at onde ela estava apontando o lpis e passei meu brao em torno
dela, dando-lhe um bom aperto.
     -- Pare com isso, Amma. No fique zangada. Estava chovendo forte de
manh. Voc no ia querer que corrssemos na chuva, no ?
     Ela ergueu uma sobrancelha, mas a expresso se amenizou.
     -- Bem, parece que vai continuar chovendo de agora at o dia em que
voc cortar esse cabelo, ento  melhor voc pensar em um jeito de chegar 
escola antes que o sinal toque.
     -- Sim, senhora. -- Apertei-a mais uma vez e voltei para meu pur frio.
-- Voc nunca vai acreditar no que aconteceu hoje. Tem uma garota nova
na nossa turma. -- No sei por que eu disse aquilo. Acho que ainda estava na
minha cabea.
     -- Acha que no sei sobre Lena Duchannes?
     Engasguei com o po. Lena Duchannes. Podia rimar com rain. O modo
como Amma falou fez parecer que a palavra tinha uma slaba a mais. Du-
kay-yane.
     --  esse o nome dela? Lena?
     Amma empurrou um copo de achocolatado em minha direo.
     --  e no, e no  da sua conta. Voc no devia se meter com coisas das
quais no sabe nada, Ethan Wate.
     Amma sempre falava em cdigo e nunca oferecia mais do que isso. Eu
no ia  casa dela em Waders Creek desde que era criana, mas sabia que a
maioria das pessoas da cidade ia. Amma era a leitora de tar mais respeitada
num permetro de 160 quilmetros de Gatlin, assim como a me dela antes
dela e a av dela antes da me. Seis geraes de videntes. Gatlin estava cheia
de batistas tementes a Deus, metodistas e pentecostais, mas eles no
conseguiam resistir  atrao das cartas, da possibilidade de mudar o curso do
prprio destino. Porque era isso que eles acreditavam que uma poderosa
vidente podia fazer. E Amma era uma grande fora com a qual contar.
     s vezes eu encontrava um dos seus amuletos caseiros na minha gaveta
de meias ou pendurado sobre a porta do escritrio do meu pai. S perguntei
para que eles serviam uma vez. Meu pai provocava Amma sempre que
achava um, mas percebi que ele nunca os removia. "Melhor prevenir do que
remediar." Acho que ele queria dizer se prevenir de Amma, que podia fazer
voc precisar se remediar.
     -- Ouviu mais alguma coisa sobre ela?
     -- Cuidado. Um dia voc vai fazer um buraco no cu e o universo vai
cair por ele. A todos ns estaremos com problemas.
     Meu pai entrou na cozinha de pijama. Ele se serviu de uma xcara de
caf e pegou uma caixa de cereal de trigo da despensa. Dava para ver os
tampes amarelos ainda enfiados nas orelhas dele. O cereal significava que o
dia dele estava comeando. Os tampes significavam que ainda no tinha
comeado de verdade.
     Me inclinei e sussurrei para Amma:
     -- O que voc ouviu?
     Ela pegou meu prato com fora e o levou para a pia. Lavou uns ossos
que pareciam de porco, o que era estranho, j que a comida tinha sido
frango, e os colocou em um prato.
     -- Isso no  da sua conta. O que eu gostaria de saber  por que voc
est to interessado.
     Encolhi os ombros.
     -- Na verdade, no estou. S curioso.
     -- Voc sabe o que dizem sobre curiosidade.
     Ela enfiou um garfo no meu pedao de torta de creme. Depois se virou
para mim, dando Aquele Olhar e saiu. At meu pai reparou na porta da
cozinha balanando depois que ela saiu e puxou um tampo do ouvido.
     -- Como foi a escola?
     -- Bem.
     -- O que voc fez a Amma?
     -- Cheguei atrasado  escola.
     Ele observou meu rosto. Observei o dele.
     -- Nmero dois?
     Assenti.
     -- Apontado?
     -- J estava apontado mas ela o apontou mais. -- Suspirei.
     Meu pai quase sorriu, o que era coisa rara. Senti uma onda de alvio,
talvez at de ter conseguido uma faanha.
     -- Sabe quantas vezes sentei a essa mesa velha enquanto ela me
ameaava com um lpis quando eu era criana? -- perguntou ele, apesar de
no ser exatamente uma pergunta. A mesa, lascada e manchada com tinta,
cola e caneta de todos os Wate que vieram antes de mim, era uma das coisas
mais velhas da casa.
     Sorri. Meu pai pegou a tigela de cereal e balanou a colher na minha
direo. Amma tinha criado meu pai, um fato do qual eu era lembrado cada
vez que pensava em ser insolente com ela quando criana.
     -- M-I-R-I-A-D-E. -- Ele soletrou a palavra enquanto colocava a tigela
na pia. -- P-L-E-T-O-R-A. O que quer dizer maior do que voc, Ethan
Wate.
     Quando ele chegou embaixo da luz da cozinha, o meio-sorriso se reduziu
a um quarto e depois sumiu. Ele parecia ainda pior que o normal. As sombras
no rosto estavam mais escuras, e dava para ver os ossos embaixo da pele. O
rosto estava verde de to plido por nunca sair de casa. Ele parecia um pouco
com um cadver vivo, j havia alguns meses. Era difcil lembrar que ele era a
mesma pessoa que costumava sentar comigo por horas na beira do lago
Moultrie, comendo sanduche de salada de galinha e me ensinando como
jogar a linha de pesca. "Para a frente e para trs. Dez e duas. Dez e duas.
Como os ponteiros do relgio." Os ltimos cinco meses foram difceis para
ele. Ele amava mesmo minha me. Mas eu tambm amava.
     Meu pai pegou o caf e comeou a andar em direo ao escritrio. Era
hora de encarar os fatos. Talvez Macon Ravenwood no fosse o nico recluso
da cidade. Eu achava que nossa cidade no era grande o bastante para dois
Boo Radley. Mas isso tinha sido o mais prximo de uma conversa que ns
tnhamos tido em meses, e eu no queria que ele fosse embora.
     -- Como est indo o livro? -- soltei. Fique e converse comigo. Era o que
queria dizer.
     Ele pareceu surpreso, mas deu de ombros.
     -- Est indo. Ainda tenho muito trabalho a fazer. -- Ele no conseguia.
Era o que ele queria dizer.
     -- A sobrinha de Macon Ravenwood acabou de se mudar para c. --
Falei essas palavras quando ele tinha colocado os tampes de volta. Fora de
sincronia, nosso modo habitual. Pensando melhor, minha sincronia com a
maioria das pessoas tinha sido assim ultimamente.
     Meu pai tirou um tampo, suspirou e tirou o outro.
     -- O qu?
     Ele j estava andando de volta para o escritrio. O cronmetro da nossa
conversa estava quase zerado.
     -- Macon Ravenwood, o que sabe sobre ele?
     -- O mesmo que todo mundo, acho. Ele  um recluso. No sai de casa
h anos, pelo que sei.
     Ele empurrou a porta do escritrio e passou por ela, mas no o segui.
Fiquei em frente  porta.
     Nunca coloquei o p l. Uma vez, s uma, quando eu tinha 7 anos, meu
pai me pegou lendo o livro dele antes de ter terminado de revisar. O
escritrio era um lugar escuro e assustador. Tinha um quadro que ele sempre
mantinha coberto com um lenol sobre o esfarrapado sof vitoriano. Eu sabia
que no deveria nunca perguntar o que havia embaixo do lenol. Depois do
sof, perto da janela, ficava a escrivaninha do meu pai. Era de mogno
entalhado, outra antiguidade que tinha sido herdada junto com a casa,
passada de gerao em gerao. E livros, velhos livros de capas de couro que
eram to pesados que ficavam apoiados sobre um suporte de madeira quando
estavam abertos. Aquelas eram as coisas que nos prendiam a Gatlin, nos
prendiam a Wates Landing, assim como tinham prendido meus ancestrais
por mais de cem anos.
     Sobre a escrivaninha estava o manuscrito dele. Estava l em uma caixa
de papelo aberta, e eu tinha que saber o que dizia. Meu pai escrevia terror
gtico, ento no havia muito que ele escrevesse que fosse apropriado para
um menino de 7 anos ler. Mas cada casa em Gatlin era cheia de segredos,
assim como o prprio sul, e minha casa no era exceo, mesmo naquela
poca.
     Meu pai me encontrou sentado no sof do escritrio com pginas
espalhadas em volta de mim, como se uma bombinha tivesse explodido
dentro da caixa. Eu no era esperto o bastante para disfarar os vestgios que
deixava, coisa que aprendi rapidamente depois daquilo. S me lembro dele
gritando comigo e de minha me ir atrs de mim e me encontrar chorando
embaixo da velha rvore de magnlias no nosso quintal. "Algumas coisas so
particulares, Ethan. At mesmo para adultos."
     Eu s queria saber. Esse sempre foi o meu problema. At mesmo agora.
Queria saber por que meu pai nunca saa do escritrio. Queria saber por que
no podamos deixar essa velha casa insignificante s porque um milho de
Wates tinham morado aqui antes de ns, principalmente agora que minha
me no estava mais aqui.
     Mas no essa noite. Essa noite eu s queria me lembrar dos sanduches
de salada de galinha e "dez e duas" e de uma poca em que meu pai comia o
cereal na cozinha, brincando comigo. Adormeci lembrando.




Antes que o sinal tivesse tocado no dia seguinte, Lena Duchannes era o nico
assunto sobre o qual todo mundo falava na Jackson. De alguma forma, entre
tempestades e apages, Loretta Snow e Eugenie Asher, mes de Savannah e
Emily, tinham conseguido botar o jantar na mesa e ligar para todo mundo na
cidade para contar que a "parenta" do louco Macon Ravenwood estava
dirigindo por Gatlin no rabeco dele, o qual elas tinham certeza que ele usava
para transportar cadveres quando ningum estava vendo. A partir da a
histria s piorou. H duas coisas com as quais sempre podemos contar em
Gatlin. A primeira  que voc pode ser diferente, at louco, desde que saia de
casa de vez em quando para que o pessoal no pense que voc  um assassino
da machadinha. A segunda, se h uma histria para contar, pode ter certeza
que haver algum para cont-la. Uma garota nova na cidade foi morar na
manso mal-assombrada com o recluso da cidade, isso  uma histria,
provavelmente a maior em Gatlin desde o acidente de minha me. Ento no
sei por que fiquei surpreso quando todos estavam falando sobre ela -- todos
menos os caras. Eles tinham um compromisso antes.
     -- E ento, o que temos, Em? -- Link bateu a porta do armrio.
     -- Contando os testes para lderes de torcida, parece que temos quatro
notas 8, trs notas 7 e um bando de notas 4. -- Emory no se deu ao
trabalho de contar as garotas do 1 ano que ele avaliou com nota abaixo de 4.
     Bati a porta do meu armrio.
     -- Isso  novidade? No so as mesmas garotas que vemos no Dar-ee
Keen todo sbado?
     Emory sorriu e deu um tapinha no meu ombro.
     -- Mas elas esto no jogo agora, Wate. -- Ele olhou para as garotas no
corredor. -- E estou pronto para jogar.
     Emory falava mais do que fazia. Ano passado, quando ramos do 1 ano,
s o ouvamos falando das formandas gatas com quem ele achava que ia ficar
agora. Ele era to iludido quanto Link, mas no to inofensivo. Emory tinha
um trao cruel; todos os Watkins tinham.
     Shawn sacudiu a cabea.
     -- Como colher pssegos do arbusto.
     -- Pssegos do em rvores.
     Eu j estava irritado, talvez porque j tivesse encontrado os caras na
seo de revistas do Pare & Roube antes da aula me sujeitando a essa mesma
conversa enquanto Earl folheava exemplares da nica coisa que ele lia:
revistas com garotas de biquni deitadas sobre caps de carros.
     Shawn olhou para mim, confuso.
     -- De que voc est falando?
     Nem sei por que me importava. Era uma conversa idiota, assim como
era idiota que todos os caras tivessem que se encontrar antes da escola s
quartas de manh. Era uma coisa que eu passei a encarar como bater ponto.
Algumas coisas eram esperadas quando se estava no time. Sentvamos juntos
no refeitrio. amos s festas de Savannah Snow, convidvamos uma lder de
torcida para nos acompanhar nos bailes, ficvamos de bobeira no lago
Moultrie no ltimo dia de aula. Era possvel escapar de quase tudo se a gente
batesse ponto. S que para mim estava ficando cada vez mais difcil bater
ponto, e eu no sabia por qu.
     Eu ainda no tinha dado uma resposta quando a vi.
     Mesmo que no a tivesse visto, eu saberia que ela estava l porque o
corredor, que geralmente ficava cheio de gente correndo para seus armrios e
tentando chegar s aulas antes do segundo sinal, esvaziou em questo de
segundos. Todo mundo deu um passo para trs quando ela andou pelo
corredor. Como se ela fosse uma estrela do rock.
     Ou uma leprosa.
     Mas eu s conseguia ver uma garota bonita de vestido longo cinza sob
um casaco esporte branco com a palavra Munique costurada e um Ali Star
surrado preto nos ps. Uma garota que usava um cordo longo prateado em
volta do pescoo, com um monte de coisas penduradas: um anel de plstico
de uma mquina de chicletes, um alfinete e um bando de outras coisas que eu
estava longe demais para ver. Uma garota que no parecia pertencer a
Gatlin. Eu no conseguia tirar os olhos dela.
     A sobrinha de Macon Ravenwood. O que havia de errado comigo?
     Ela prendeu os cachos pretos atrs da orelha, o esmalte preto brilhando
sob a luz fluorescente. As mos estavam cobertas de tinta preta, como se ela
tivesse escrito algo nelas. Andou pelo corredor como se ns fssemos
invisveis. Tinha os olhos mais verdes que eu j vira, to verdes que podiam
ser considerados de uma nova cor.
     -- , ela  gata -- disse Billy.
     Eu sabia em que eles estavam pensando. Por um segundo, pensaram em
largar as namoradas pela chance de dar em cima dela. Por um segundo, ela
foi uma possibilidade.
     Earl a olhou de cima a baixo e bateu a porta do armrio.
     -- Se voc ignorar o fato de que ela  esquisita.
     Havia alguma coisa no jeito que ele falou isso, ou mais provavelmente,
na razo pela qual ele falou. Ela era esquisita porque no era de Gatlin,
porque no estava tentando entrar na equipe de lderes de torcida, porque
no tinha olhado para ele duas vezes, ou nem mesmo uma. Em qualquer
outro dia, eu o teria ignorado e ficado de boca fechada, mas hoje eu no
estava com vontade de ficar calado.
     -- Ento ela  automaticamente esquisita, e por qu? Porque ela no est
de uniforme, cabelo louro e saia curta?
     Era fcil de ler o rosto de Earl. Essa era uma daquelas vezes em que eu
deveria ter seguido a opinio dele, e eu no estava mantendo minha parte do
nosso acordo no-verbal.
     -- Porque ela  uma Ravenwood.
     A mensagem foi clara. Gata, mas nem pense nisso. Ela no era mais uma
possibilidade. Mas isso no os impediu de olhar, e todos ainda estavam
olhando. O corredor, e todo mundo nele, tinha travado o olhar nela como se
ela fosse um cervo preso entre caadores.
     Mas ela apenas continuou andando, o cordo balanando em torno do
pescoo.




Minutos depois, eu estava parado na porta da minha aula de ingls. L estava
ela. Lena Duchannes. A garota nova, que ainda seria chamada assim
cinquenta anos mais tarde (isso se no fosse chamada de sobrinha do Velho
Ravenwood), entregando uma folha cor-de-rosa de transferncia para a Sra.
English, que apertou os olhos para ler.
     -- Fizeram uma confuso com meu horrio e eu no tinha aula de Ingls
-- estava dizendo ela. -- Eu tinha Histria Americana em dois tempos, e eu
j estudei Histria Americana na minha escola antiga. -- Ela parecia
frustrada, e eu tentei no sorrir. Ela nunca tinha tido aula de Histria
Americana, no do jeito que o Sr. Lee ensina.
     --  claro. Escolha seu lugar.
     A Sra. English deu a ela um exemplar de O Sol  para Todos. O livro
parecia nunca ter sido aberto, o que provavelmente era verdade j que
fizeram um filme baseado nele.
     A garota nova olhou para a frente e me pegou observando-a. Olhei para
o outro lado, mas era tarde demais. Tentei no sorrir, mas fiquei sem graa, e
isso s me fez sorrir mais. Ela no pareceu perceber.
     -- Tudo bem, eu trouxe o meu. -- Ela pegou um exemplar do livro, de
capa dura, com uma rvore entalhada na capa. Parecia bastante velho e
gasto, como se ela o tivesse lido mais de uma vez. --  um dos meus livros
favoritos. -- Ela apenas comentou, como se no fosse estranho. Agora eu a
estava encarando.
     Senti um rolo compressor nas minhas costas e Emily me empurrou pela
porta como se eu no estivesse de p ali. Esse era o jeito dela de dizer oi e de
esperar que eu a seguisse at o fundo da sala, onde nossos amigos estavam
sentados.
     A garota nova sentou em um lugar vazio na primeira fila, na Terra de
Ningum, em frente  mesa da Sra. English. Movimento errado. Todo
mundo sabia que no se deve sentar ali. A Sra. English tinha um olho de
vidro, e a pssima audio de algum cuja famlia tem o nico estande de tiro
da regio. Quem se sentava em qualquer lugar que no fosse em frente 
mesa dela no era visto, portanto no era solicitado. Lena ia ter que
responder perguntas pela turma inteira.
     Emily pareceu contente e mudou o caminho para passar pelo lugar dela,
chutando a bolsa de Lena e fazendo com que os livros dela se espalhassem
pelo corredor entre as fileiras.
     -- Ops. -- Emily se abaixou e pegou um caderno espiral surrado que
estava quase perdendo a capa. Ela o segurou como se fosse um rato morto. --
Lena Duchannes.  esse seu nome? Pensei que fosse Ravenwood.
     Lena olhou para o alto, lentamente.
     -- Pode me dar meu caderno?
     Emily folheou as pginas como se no tivesse ouvido.
     --  seu dirio? Voc  escritora? Isso  to legal.
     Lena esticou a mo.
     -- Por favor.
     Emily fechou o caderno e o afastou dela.
     -- Posso pegar isso emprestado por um minuto? Eu adoraria ler alguma
coisa que voc escreveu.
     -- Eu queria de volta agora. Por favor. -- Lena ficou de p. As coisas
iam ficar interessantes. A sobrinha do Velho Ravenwood estava prestes a se
enfiar no tipo de buraco do qual ningum conseguia sair, a memria de
Emily era excelente.
     -- Primeiro voc teria que saber ler. -- Peguei o caderno da mo de
Emily e o entreguei a Lena.
     Depois sentei na carteira ao lado da dela, bem ali na Terra de Ningum.
O Lado do Olho Bom. Emily me encarou, incrdula. Eu no sabia por que
tinha feito aquilo. Estava to chocado quanto ela. Nunca tinha sentado na
frente em nenhuma aula na minha vida. O sinal tocou antes que Emily
pudesse dizer alguma coisa, mas no importava; eu sabia que pagaria por
aquilo mais tarde. Lena abriu o caderno e ignorou ns dois.
     -- Podemos comear, pessoal? -- A Sra. English olhou da mesa para
ns.
     Emily foi para o lugar habitual no fundo da sala, longe o bastante da
     frente para que no tivesse que responder pergunta alguma o ano todo,
longe o bastante da sobrinha do Velho Ravenwood. E agora, longe o bastante
de mim. Isso dava uma sensao libertadora, mesmo se eu tivesse que analisar
o relacionamento de Jem e Scout por cinquenta minutos sem ter lido o
captulo.
     Quando o sinal tocou, me virei para Lena. No sei o que eu pensava que
podia dizer. Talvez estivesse esperando que ela me agradecesse. Mas ela no
disse nada enquanto enfiava os livros de volta na bolsa.
     156. No era uma palavra que estava escrita em sua mo.
     Era um nmero.




Lena Duchannes no falou comigo de novo, nem naquele dia, nem naquela
semana. Mas isso no me impediu de pensar nela e nem de v-la em
praticamente todo lugar para onde eu tentava no olhar. No era apenas ela
que estava me incomodando, para dizer a verdade. No era a sua aparncia
-- Lena era bonita, apesar de ela estar sempre usando as roupas erradas e
aquele tnis surrado. No eram as coisas que ela dizia na aula, normalmente
coisas em que ningum mais teria pensado, e que, se tivessem pensado, era
algo que no ousariam dizer. No era o fato dela ser diferente de todas as
outras garotas da Jackson. Isso era bvio.
     Era que ela me fez perceber o quanto eu era como os outros, mesmo
quando eu queria fingir que no era.
     Tinha chovido o dia todo, e eu estava sentado na aula de cermica,
tambm conhecida como AG, "A garantido", j que a nota dessa aula s
dependia do esforo. Eu tinha me matriculado em cermica na primavera
porque tinha que preencher a exigncia de ter aulas de artes no currculo, e
estava desesperado para ficar longe da banda, que praticava fazendo muito
barulho no andar de baixo sob a liderana da enlouquecida magricela e
empolgada ao extremo, Srta. Spider. Savannah estava sentada ao meu lado.
Eu era o nico homem da turma, e como era homem, no tinha ideia do que
deveria fazer.
     -- Hoje se trata de experimentao. Vocs no sero avaliados por isso.
Sintam a argila. Libertem a mente. E ignorem a msica que vem de baixo. --
A Sra. Abernathy fez uma careta enquanto a banda assassinava algo que '
parecia com "Dixie". -- Busquem bem fundo. Sintam o caminho at a alma.
     Liguei o torno de oleiro e olhei para a argila enquanto ela comeou a
girar na minha frente. Suspirei. Isso era quase to ruim quanto a banda,
ento, quando a sala foi ficando em silncio e o barulho dos tornos de oleiro
se sobreps  falao das fileiras de trs, a msica do andar de baixo mudou.
Ouvi um violino, ou talvez um daqueles violinos maiores, acho que se chama
viola. Um som bonito e triste ao mesmo tempo, e era desconcertante. Havia
mais talento na voz crua da msica do que a Srta, Spider jamais vera o prazer
de conduzir. Olhei  minha volta; ningum parecia perceber a msica. O som
rastejava sob a minha pele. Reconheci a melodia, e em poucos segundos
minha mente conseguiu identificar a letra, to claramente como se estivesse
ouvindo meu iPod. Mas dessa vez, a letra tinha mudado.

    Dezesseis luas, dezesseis anos
    Som de trovo nos seus ouvidos
    Dezesseis milhas antes que ela se aproxime
    Dezesseis procura o que dezesseis teme...

     Enquanto eu olhava para a argila que girava na minha frente, a massa
virou uma mancha. Quanto mais eu me concentrava, mais a sala se dissolvia
ao meu redor, at que a argila pareceu estar girando a sala de aula, a mesa e
minha cadeira junto. Como se tudo estivesse ligado nesse redemoinho de
movimento constante, ligado ao ritmo da melodia da sala de msica. A sala
estava desaparecendo  minha volta. Lentamente, estiquei a mo e passei a
ponta de um dedo pela argila.
     Depois um brilho, e a sala que girava se dissolveu em outra imagem...
     Eu estava caindo.
     Ns estvamos caindo.
     Eu estava de volta ao sonho. Vi a mo dela. Vi minha mo agarrar a
dela, meus dedos afundando em sua pele, no pulso, em uma tentativa
desesperada de segur-la. Mas ela estava escorregando; eu podia sentir, os
dedos passando para minha mo.
     -- No solte!
     Eu queria ajud-la, queria segurar. Mais do que jamais quis alguma
coisa. E ento ela escorregou pelos meus dedos...
-- Ethan, o que est fazendo? -- A Sra. Abernathy parecia preocupada.
     Abri meus olhos e tentei me concentrar, me trazer de volta. Eu vinha
tendo os sonhos desde que minha me morreu, mas essa era a primeira vez
que eu tinha um durante o dia. Olhei para minha mo cinza e enlameada,
coberta de argila seca. A argila no torno de oleiro trazia a marca perfeita de
uma mo, como se eu tivesse acabado de achatar seja o que for que eu
estivesse fazendo. Olhei mais de perto, A mo no era minha, era pequena
demais. Era de uma garota.
     Era dela.
     Olhei embaixo das minhas unhas, onde dava para ver a argila que eu
tinha raspado do pulso dela.
     -- Ethan, voc podia ao menos tentar fazer alguma coisa.
     A Sra. Abernathy colocou a mo sobre meu ombro e dei um pulo. Do
lado de fora da janela da sala de aula, ouvi o roncar de troves.
     -- Mas, Sra. Abernathy, acho que a alma de Ethan est se comunicando
com ele. -- Savannah riu, se inclinando para dar uma boa olhada. -- Acho
que ela est dizendo pra voc fazer as unhas, Ethan.
     As garotas ao meu redor comearam a rir. Esmaguei a marca da mo
ora o punho, transformando-a num monte de nada cinza. Fiquei de p e
limpei as mos no jeans quando o sinal tocou. Peguei minha mochila e sa
rpido da saia, escorregando nos meus tnis de cano alto molhados quando
virei no corredor e quase tropeando nos cadaros desamarrados ao correr
elos dois lances de escada que me separavam da sala de msica. Eu tinha que
saber se tinha imaginado.
     Empurrei a porta dupla da sala de msica com as duas mos. O palco
tava vazio. A turma passava por mim. Eu estava indo na direo errada,
caminhando contra a corrente enquanto todo mundo tentava sair. Respirei
do, mas sabia que cheiro iria sentir antes mesmo que o sentisse.
     Limo e alecrim.
     No canto do palco, a Srta. Spider estava recolhendo as partituras
espalhadas sobre as cadeiras dobrveis que ela usava para a lamentvel
orquestra da Jackson. Eu a chamei.
     -- Com licena, professora. Quem estava tocando aquela... aquela
msica?
     Ela sorriu para mim.
     -- Tivemos uma maravilhosa aquisio para nossa seo de cordas. Uma
viola. Ela acabou de se mudar para a cidade...
     No. No podia ser. No ela.
     Me virei e corri antes que ela pudesse dizer o nome.




Quando o sinal do oitavo tempo tocou, Link estava esperando por mim em
frente ao vestirio. Ele passou a mo pelo cabelo espetado e esticou a
camiseta desbotada do Black Sabbath.
     -- Link. Preciso da sua chave, cara.
     -- E o treino?
     -- No posso ir. Tem uma coisa que preciso fazer.
     -- Cara, do que voc est falando?
     -- S preciso da sua chave.
     Eu tinha que sair dali. Estava tendo sonhos, ouvindo msica, e agora
apagando no meio da aula, se  que pode se chamar assim. Eu no sabia o
que estava acontecendo comigo, mas sabia que era ruim.
     Se minha me ainda estivesse viva, eu provavelmente teria contado tudo
para ela. Ela era assim, eu podia contar qualquer coisa. Mas ela se foi, e meu
pai estava enfiado no escritrio o tempo todo, e Amma jogaria sal no meu
quarto inteiro durante um ms se eu contasse para ela.
     Eu estava sozinho.
     Link me entregou a chave.
     -- O treinador vai te matar.
     -- Eu sei.
     -- E Amma vai descobrir.
     -- Eu sei.
     -- E ela vai chutar sua bunda daqui at County Line. -- A mo dele
vacilou quando eu peguei a chave. -- No seja burro.
     Me virei e corri. Tarde demais.
                            p     11 de setembro   p
                                 Coliso
                                    d
Q     uando cheguei ao carro, eu estava encharcado. Os sinais de tempestade
      manifestaram-se ao longo de toda a semana. Havia um alerta sobre o
      tempo em todas as estaes de rdio que eu conseguia pegar, o que no
era muito, considerando que o Lata-Velha s pegava trs estaes, todas AM.
^s nuvens estavam totalmente pretas, e como estvamos na temporada de
raes, isso no era algo a ser visto com descaso. Mas no importava. Eu
precisava espairecer minha cabea e entender o que estava acontecendo,
mesmo sem ter ideia de onde eu estava indo.
     Tive que ligar os faris at para sair do estacionamento. No dava para
ver mais do que um metro a frente. No era um dia bom para se dirigir. Um
relmpago cruzou o cu escuro  minha frente. Contei, como Amma ia me
ensinado h anos: um, dois, trs. O trovo soou, o que significava que a
tempestade no estava longe. Cinco quilmetros, de acordo com os clculos
de Amma.
     Parei no sinal em frente  Jackson, um dos apenas trs da cidade. Eu no
lha ideia do que fazer. A chuva despencou sobre o Lata-Velha. A rdio foi
reduzida  esttica, mas ouvi uma coisa. Aumentei o volume e a msica
inundou o carro pelos alto-falantes vagabundos.
    Dezesseis Luas.
     A msica que tinha desaparecido da minha lista do iPod. A msica que
mais ningum parecia ouvir. A msica que Lena Duchannes tinha tocado na
viola. A msica que estava me enlouquecendo.
     A luz ficou verde e o Lata-Velha seguiu em frente. Eu estava a caminho,
e no tinha a menor ideia de onde estava indo.
     Um relmpago partiu o cu. Contei: um, dois. A tempestade estava se
aproximando. Liguei os limpadores de para-brisa. No fez a menor diferena.
Eu no conseguia ver nem at a metade do quarteiro. Um relmpago
piscou. Contei: um. O trovo rugiu sobre o teto do Lata-Velha e a chuva
ficou horizontal. O para-brisa chacoalhou como se pudesse ceder a qualquer
momento, o que, considerando a condio do carro, poderia ter acontecido.
     Eu no estava caando a tempestade. A tempestade estava me caando, e
tinha me encontrado. Eu mal conseguia manter as rodas na pista
escorregadia, e o Lata-Velha comeou a sambar, deslizando erraticamente de
um lado a outro das duas pistas da autoestrada 9.
     Eu no conseguia ver nada. Pisei no freio, girando na escurido. Os
faris piscaram por apenas um segundo, e um par de enormes olhos verdes
olharam para mim do meio da rua. A princpio pensei que fosse um cervo,
mas estava enganado.
    Tinha algum na rua!
     Segurei o volante com as duas mos com toda a fora que consegui. Meu
corpo bateu contra a lateral do carro.
     A mo dela estava esticada. Fechei meus olhos para o impacto, que
nunca aconteceu.
     O Lata-Velha parou de repente, no mais do que a um metro de
distncia. Os faris formavam um crculo plido de luz na chuva, refletindo
uma daquelas capas de chuva baratas de plstico que se pode comprar por
trs dlares numa farmcia. Era uma garota. Ela puxou o capuz da cabea
lentamente, deixando a chuva cair no rosto. Olhos verdes, cabelos pretos.
     Lena Duchannes.
     Eu no conseguia respirar. Sabia que ela tinha olhos verdes; eu os tinha
visto antes. Mas hoje eles pareciam diferentes, diferentes de quaisquer olhos
que eu j tinha visto. Estavam enormes e com um tom verde nada natural,
um verde brilhante, como o relmpago da tempestade. De p na chuva
daquele jeito, ela quase no parecia humana. Sa cambaleando do Lata-
Velha para a chuva, deixando o motor ligado porta aberta. Nenhum de ns
disse uma palavra, parados no meio da autoestrada 9 no tipo de temporal que
s vamos quando tinha um furaco ou uma tempestade vinda do nordeste.
Adrenalina pulsava nas minhas s e meus msculos estavam tensos, como se
meu corpo ainda esperasse batida.
     O cabelo de Lena sacudia com vento  sua volta, pingando da chuva.
Dei passo em direo a ela e de repente percebi. Limo molhado. Alecrim
molhado. Imediatamente o sonho comeou a voltar, como ondas estourando
na minha cabea. S que dessa vez, quando ela escorregava pelos meus os, eu
pude ver seu rosto.
     Olhos verdes e cabelo preto. Lembrei. Era ela. Ela estava bem na minha
7 frente.
     Eu tinha que ter certeza. Peguei o pulso dela. L estavam: os pequenos
arranhes em formato de meia-lua, bem onde meus dedos seguraram seu
pulso no sonho. Quando toquei nela, uma onda de eletricidade percorreu seu
corpo. Um relmpago atingiu uma rvore a menos de trs metros de onde
estvamos, partindo o tronco quase no meio. Ele comeou a soltar fumaa.
     -- Voc  maluco? Ou s  pssimo motorista? -- Ela se afastou de mim,
olhos verdes faiscando. De raiva? De alguma coisa.
     --  voc.
     -- O que estava tentando fazer, me matar?
     -- Voc  real. -- As palavras saam de um jeito estranho da minha
boca, como se ela estivesse cheia de algodo.
     -- Quase um cadver real. Graas a voc.
     -- No sou maluco. Achei que era, mas no sou.  voc. Voc est bem
na minha frente.
     -- No por muito tempo.
     Ela deu as costas para mim e comeou a subir a rua. Isso no estava
acontecendo do jeito que eu tinha imaginado. Corri para alcan-la.
     -- Foi voc que apareceu do nada e correu pro meio da rua.
     Ela balanou o brao de forma dramtica como se estivesse afastando
mais do que apenas uma ideia. Pela primeira vez, vi o longo carro preto nas
sombras. O rabeco, de cap levantado.
     -- Oi? Eu estava procurando algum para me ajudar, gnio. O carro do
meu tio morreu. Voc podia ter passado direto. No precisava tentar me
atropelar.
     -- Foi voc nos sonhos. E a msica. Aquela msica estranha no meu
iPod.
     Ela se virou.
     -- Que sonhos? Que msica? Voc est bbado ou isso  algum tipo de
piada?
     -- Sei que  voc. Voc tem as marcas no pulso.
     Ela virou a mo e olhou para baixo, confusa.
     -- Estas? Tenho um cachorro. Pare com isso.
     Mas eu sabia que no estava errado. Eu conseguia ver o rosto do meu
sonho claramente agora. Seria possvel que ela no soubesse?
     Ela puxou o capuz e comeou a longa caminhada at Ravenwood na
tempestade. Eu a alcancei.
     -- Vou te dar uma dica. Da prxima vez, no deixe o carro no meio da
rua durante uma tempestade. Ligue para a emergncia.
     Ela no parou de andar.
     -- Eu no ia ligar para a polcia. Nem devia estar dirigindo. S tenho
habilitao provisria. E, de qualquer maneira, meu celular morreu.
     Ela obviamente no era daqui. O nico jeito de ser parada pela polcia
nessa cidade era se estivesse dirigindo na contramo.
     A tempestade estava aumentando. Eu tinha que gritar para ser ouvido
sobre o uivo da chuva.
     -- Deixa eu te levar pra casa. Voc no devia estar andando por aqui.
     -- No, obrigada. Vou esperar pelo prximo cara que quase vai me
atropelar.
     -- No vai haver outro cara. Pode demorar horas at algum chegar.
     Ela recomeou a andar.
     -- No tem problema. Vou andando.
     Eu no podia deix-la vagando sozinha na chuva. Minha me me criou
para ser melhor que esse tipo de cara.
     -- No posso deixar voc ir pra casa com esse tempo. -- Como se
combinado, um trovo soou sobre nossas cabeas. O capuz dela caiu. -- Vou
dirigir como minha av. Vou dirigir como sua av.
     -- Voc no diria isso se conhecesse minha av. -- O vento estava
aumentando. Agora ela tambm estava gritando.
     -- Vamos.
     -- O qu?
     -- Para o carro. Entre. Comigo.
     Ela olhou para mim, e por um segundo eu no tive certeza se ela ia
ceder.
   -- Acho que  mais seguro do que ir andando. Com voc na rua, pelo
menos.




O Lata-Velha estava encharcado. Link ia enlouquecer quando visse. A
tempestade tinha um som diferente de dentro do carro, ao mesmo tempo
mais alta e mais tranquila. Eu podia ouvir a chuva caindo no teto, mas o som
quase desaparecia com o som do meu corao e dos meus dentes batendo.
Mexi no cmbio do carro. Eu estava ciente demais de que Lena estava ao
meu lado, a apenas centmetros no banco do passageiro. Dei uma rpida
olhada.
     Mesmo sendo irritante, ela era bonita. Seus olhos verdes eram enormes,
u no conseguia entender por que pareciam to diferentes hoje. Ela tinha os
clios mais longos que eu j tinha visto, e sua pele era clara, e ficava ainda
mais clara pelo contraste com o volumoso cabelo preto. Ela tinha um
pequeno sinal marrom de nascena na face bem abaixo do olho esquerdo --
o formato lembrava uma lua crescente. Ela no se parecia com ningum da
Jackson. Ela no se parecia com ningum que eu j tivesse visto. Ela tirou a
capa de chuva pela cabea. A camiseta preta e o jeans estavam grudados
como se ela tivesse cado numa piscina. O colete pingava sem arar no assento
de couro sinttico.
     -- Voc est me enc-carando.
     Olhei para o outro lado, pela janela, para qualquer lugar menos para ela.
     -- Voc devia tirar isso. S vai fazer voc sentir mais frio.
     Pude v-la lutando com os delicados botes prateados do colete, incapaz
de controlar o tremor das mos. Estiquei a mo e ela ficou paralisada. Como
se eu ousasse toc-la novamente.
     -- Vou aumentar o aquecimento.
     Ela voltou aos botes.
     -- Ob-brigada.
     Eu podia ver as mos dela -- tinham mais tinta, agora manchada por
causa da chuva. S consegui decifrar alguns nmeros. Talvez um ou sete,
cinco, dois. 152. O que era aquilo?
     Dei uma olhada no banco traseiro em busca do cobertor do exrcito que
Link normalmente deixava l. Em vez disso, havia um saco de dormir velho,
provavelmente da ltima vez que Link brigou com os pais e teve que dormir
no carro. Tinha cheiro de fumaa velha de acampamento e mofo de poro.
Entreguei-o a ela.
     -- Humm. Assim  melhor.
     Ela fechou os olhos. Eu podia senti-la relaxar com o calor, e relaxei s
em observ-la. O bater dos dentes dela diminuiu. Depois disso, seguimos em
silncio. O nico som era da tempestade e das rodas girando e espalhando
gua pelo lago em que a rua tinha se transformado. Ela desenhou formas na
janela embaada com o dedo. Tentei manter os olhos na estrada, tentei
lembrar o resto do sonho -- algum detalhe, alguma coisa que provasse a ela
que ela era, sei l, ela, e que eu era eu.
     Mas quanto mais eu tentava, mais tudo parecia sumir, na chuva e na rua
e nos muitos hectares de campo de tabaco pelos quais passvamos, cheios de
velhos equipamentos de fazenda e celeiros que apodreciam. Chegamos aos
arredores da cidade, e eu conseguia ver a bifurcao na rua mais  frente. Se
virssemos  esquerda, em direo  minha casa, chegaramos  rua River,
onde todas as casas restauradas anteriores  guerra acompanhavam a linha
do rio Santee. Esse era tambm o caminho para sair da cidade. Quando
chegamos  bifurcao, eu automaticamente virei para a esquerda, por puro
hbito. A nica coisa  direita era a fazenda Ravenwood, e ningum nunca ia
l.
     -- No, espere. Vire para a direita -- ela disse.
     -- Ah, sim. Desculpe.
     Eu senti um enjoo. Subimos o morro na direo da casa grande de
Ravenwood. Eu tinha estado to envolvido com quem ela era que tinha
esquecido quem ela era. A garota com quem eu sonhava h meses, a garota
em quem eu no conseguia parar de pensar, era a sobrinha de Macon
Ravenwood. E eu a estava levando para casa, para a manso mal-assombrada
-- era assim que a chamvamos. Era assim que eu a tinha chamado.
     Ela olhou para as prprias mos. Eu no era o nico que sabia que ela
estava morando na manso mal-assombrada. Fiquei imaginando o que ela
lha ouvido nos corredores. Se ela sabia o que todos estavam dizendo sobre
ela. O olhar desconfortvel em seu rosto dizia que sim. No sei por que, as eu
no conseguia suportar v-la daquele jeito. Tentei pensar em alguma coisa
para dizer para quebrar o silncio.
     -- Por que veio morar com seu tio? Normalmente as pessoas querem sair
de Gatlin; ningum se muda pra c.
     Ouvi o alvio em sua voz.
     -- Morei em todos os lugares. Em Nova Orleans, Savannah, Florida
Keys, Virgnia por alguns meses. Morei at em Barbados por um tempo.
Percebi que ela no respondeu  pergunta, mas no pude deixar de pensar
que eu daria tudo para morar em um desses lugares, ainda que apenas um
vero.
     -- Aonde os seus pais esto?
     -- Esto mortos. Senti meu peito apertar.
     -- Desculpe.
     -- Tudo bem. Morreram quando eu tinha 2 anos. Nem me lembro deles,
'orei com muitos dos meus parentes, a maior parte do tempo com minha av.
a teve que viajar por alguns meses. Por isso estou morando com meu tio.
     -- Minha me morreu tambm. Acidente de carro. -- Eu no tinha
ideia por que havia dito aquilo. Eu passava a maior parte do tempo tentando
no falar sobre o assunto.
     -- Lamento.
     Eu no disse que estava tudo bem. Tinha a sensao de que ela era o tipo
de garota que sabia que no estava.


Paramos em frente a um porto de ferro forjado preto maltratado pelo
tempo. Na minha frente, na encosta ngreme, pouco visvel devido  nvoa
estavam os dilapidados restos da casa de fazenda mais antiga e mais famosa
de Gatlin, Ravenwood. Eu nunca tinha chegado to perto antes. Desligue: o
motor. Agora a tempestade tinha diminudo para uma chuvinha suave e
constante.
     -- Parece que os relmpagos pararam.
     -- Tenho certeza de que tem mais de onde aqueles vieram.
     -- Talvez. Mas no esta noite.
     Ela olhou para mim, quase curiosa.
     -- No. Acho que acabou por hoje.
     Os olhos dela pareciam diferentes. Tinham se esvado de volta para um
tom de verde menos intenso, e estavam de alguma forma menores -- no
pequenos, mas com aparncia mais normal.
     Comecei a abrir minha porta para acompanh-la at a casa.
     -- No precisa. -- Ela parecia envergonhada. -- Meu tio  meio tmido.
-- Aquele era um adjetivo um tanto suave.
     Minha porta estava meio aberta. A porta dela estava meio aberta. Ns
dois estvamos ficando mais molhados, mas apenas ficamos l sentados sem
dizer nada. Eu sabia o que queria dizer, mas tambm sabia que no podia
dizer. No sabia por que estava sentado ali, encharcado, em frente a
Ravenwood. Nada fazia sentido, mas eu sabia de uma coisa. Depois que eu
dirigisse morro abaixo e voltasse para a autoestrada 9, tudo voltaria a ser
como antes. Tudo faria sentido de novo. No faria?
     Ela falou primeiro.
     -- Acho que devo agradecer.
     -- Por no atropelar voc?
     Ela sorriu.
     -- , isso. E pela carona.
     Olhei para ela sorrindo para mim, quase como se fssemos amigos, o que
era impossvel. Comecei a ficar claustrofbico, como se tivesse que sair dali.
     -- No foi nada. Quero dizer, tudo bem. No esquenta.
     Coloquei o capuz do casaco de basquete, do jeito que Emory fazia
quando uma das garotas que ele tinha dispensado tentava falar com ele no
corredor.
     Ela olhou para mim balanando a cabea e jogou o saco de dormir em
cima de mim com um pouco de fora demais. O sorriso tinha sumido.
     -- Ento t. Te vejo por a. -- Virou de costas, passou pelo porto e cor-
pelo caminho ngreme e enlameado at a casa. Bati a porta.
     O saco de dormir estava sobre o banco. Eu o peguei para jogar para trs.
Ainda tinha o cheiro de mofo e fogueira, mas agora tambm cheirava a limo
e alecrim. Fechei os olhos. Quando o abri de novo, ela j na metade do
caminho.
     Abri minha janela.
     -- Ela tem um olho de vidro.
     Lena olhou para mim.
     -- O qu?
     Gritei, a chuva molhando a parte de dentro da porta do carro.
     -- A Sra. English. Voc tem que sentar do outro lado ou ela vai fazer
voc falar.
     Ela sorriu enquanto a chuva caa pelo seu rosto. -- Talvez eu goste de
falar. -- Virou na direo de Ravenwood e subiu os degraus correndo at a
varanda.
     Engatei a r no carro e desci at a bifurcao, para que eu pudesse pegar
que costumava pegar e seguir pela rua que usei em toda minha At hoje. Vi
uma coisa brilhando entre o assento e o encosto do banco, boto prateado.
     Eu o enfiei no bolso e fiquei imaginando com o que sonharia esta noite.
                          p 12 de setembro p
                         Vidro quebrado
                                    d

N
     ada.
          Foi um sono longo e sem sonhos, o primeiro em muito tempo.
          Quando acordei, a janela estava fechada. No havia lama na minha
cama, nenhuma msica misteriosa no meu iPod. Verifiquei duas vezes. At
meu banho s tinha cheiro de sabonete.
    Fiquei deitado na cama, olhando para meu teto azul, pensando em olhos
verdes e cabelos pretos. A sobrinha do Velho Ravenwood. Lena Duchannes,
que rimava com rain.
    O quo distante um cara podia ficar?




Quando Link encostou o carro, eu estava esperando na calada. Entrei e
meus tnis afundaram no tapete molhado, o que deixava o Lata-Velha com
um cheiro ainda pior do que o habitual. Link balanou a cabea.
     -- Desculpe, cara. Vou tentar sec-lo depois da escola.
     -- Deixa pra l. S me faz um favor e deixe de agir como louco, ou todos
vo falar de voc em vez de falar da sobrinha do Velho Ravenwood.
     Por um segundo, considerei manter segredo, mas eu tinha que contar
para algum.
     -- Eu a vi.
     -- Quem?
     -- Lena Duchannes.
     Ele pareceu no entender.
    -- A sobrinha do Velho Ravenwood.




Quando paramos no estacionamento, eu j tinha contado a Link a histria
toda. Bem, talvez no toda. Mesmo os melhores amigos tm limites. E no
posso dizer que ele acreditou em tudo, mas tambm, quem acreditaria? Eu
ainda estava tendo dificuldade em acreditar. S que mesmo sem saber os
detalhes, enquanto andvamos para encontrar os caras, ele sabia de uma
coisa. Era preciso controlar os danos.
     -- Mas no aconteceu nada. Voc a levou pra casa.
     -- No aconteceu nada? Voc estava prestando ateno? Tenho sonhado
com ela h meses e ela acaba sendo...
     Link me interrompeu.
     -- Vocs no ficaram nem nada. Voc no entrou na manso mal-
assombrada, certo? E voc nunca viu, voc sabe... ele? -- Nem Link
conseguia dizer o nome dele.
     Uma coisa era passar um tempo com uma garota bonita, em qualquer
situao. Outra era passar um tempo com o Velho Ravenwood. Balancei a
cabea.
     -- No, mas...
     -- Eu sei, eu sei. Voc est confuso. S estou dizendo, guarde segredo,
cara. S conversamos o que foi preciso. Quero dizer, ningum mais precisa
saber.
     Eu sabia que aquilo seria difcil. No sabia que seria impossvel.




Quando abri a porta da sala de ingls, ainda estava pensando em tudo --
nela, no nada que tinha acontecido. Lena Duchannes.
     Talvez fosse aquele cordo doido que ela usava com todo aquele lixo
pendurado, como se cada coisa que ela tocasse pudesse importar ou
realmente importasse para ela. Talvez fosse o tnis surrado que ela usava,
estando de jeans ou de vestido, como se ela pudesse sair correndo a qualquer
minuto. Quando eu olhava para ela, ia mais para longe de Gatlin do que
jamais tinha ido. Talvez fosse isso.
     Acho que, enquanto pensava nisso, parei de andar, e acabei sentindo
algum bater contra mim. S que no foi um rolo compressor dessa vez,
parecia mais um tsunami. Colidimos com fora. No segundo em que nos
tocamos, a luz do teto queimou e uma chuva de fagulhas caiu sobre nossa
cabea.
     Eu me abaixei. Ela no.
     -- Voc est tentando me matar pela segunda vez em dois dias, Ethan?
     A sala ficou em silncio total.
     -- O qu? -- Eu mal consegui pronunciar as palavras.
     -- Perguntei se est tentando me matar de novo.
     -- Eu no sabia que voc estava a.
     -- Foi o que voc disse ontem  noite.
     Ontem  noite. As palavrinhas que podiam mudar sua vida para sempre
na Jackson. Apesar de haver muitas luzes acesas, parecia que havia um
holofote sobre ns, para a plateia acompanhar. Eu pude sentir meu rosto ficar
vermelho.
     -- Desculpe. Quero dizer... Oi -- murmurei, parecendo um idiota. Ela
parecia estar se divertindo, mas continuou andando. Colocou o livro na
mesma carteira em que sentou a semana toda, bem em frente  Sra. English.
No Lado do Olho Bom.
     Eu tinha aprendido minha lio. Ningum dizia a Lena Duchannes onde
ela podia ou no sentar. Independentemente do que se pensava dos
Ravenwood, Lena tinha essa caracterstica a seu favor. Sentei ao seu lado,
bem no meio da Terra de Ningum. Como tinha feito a semana toda. S que
dessa vez ela estava falando comigo, e isso tornava tudo diferente. No
diferente de um modo ruim, apenas apavorante.
     Ela comeou a sorrir, mas se controlou. Tentei pensar em alguma coisa
interessante para dizer, ou pelo menos alguma coisa que no fosse idiota. Mas
antes que eu pudesse pensar em algo, Emily sentou do meu outro lado, com
Eden Westerly de um lado e Charlotte Chase do outro. Seis fileiras mais perto
do que o habitual. Nem mesmo sentar no Lado do Olho Bom ia me ajudar
hoje.
     A Sra. English olhou para ns da mesa dela, com uma expresso
desconfiada.
     -- Oi, Ethan. -- Eden se virou para mim e sorriu, como se eu estivesse
envolvido no joguinho delas. -- Como vai?
     No fiquei surpreso em ver Eden seguindo o comando de Emily. Eden
era apenas mais uma das garotas bonitas que no era bonita o bastante para
ser como Savannah. Eden era um elemento de segunda categoria, na equipe
de torcida e na vida. No era da base, no era voadora, s vezes nem
participava dos jogos. Mas ela nunca desistia de tentar fazer alguma coisa
para mudar de categoria. O lance dela era ser diferente, com exceo, acho
eu, da parte que diz respeito a ser diferente. Ningum era diferente na
Jackson.
     -- No queramos que voc tivesse que sentar aqui sozinho. -- Charlotte
riu. Se Eden era de segunda categoria, Charlotte era de terceira. Charlotte
era uma coisa que nenhuma lder de torcida com respeito prprio deveria ser:
um pouco gordinha. Ela nunca havia perdido aquela gordurinha infantil, e
apesar de estar em dieta perptua, no conseguia perder os 5 quilos que
faltavam. No era culpa dela; ela nunca deixava de tentar. Comia o recheio
da torta e deixava a massa. O dobro de po e metade do molho.
     -- Tem como esse livro ficar ainda mais chato? -- Emily nem olhou em
-minha direo. Aquilo era uma disputa de territrio. Ela podia ter me dado
um p na bunda, mas certamente no queria ver a sobrinha do Velho
Ravenwood perto de mim. -- Como se eu quisesse ler sobre uma cidade
cheia de gente completamente doida. J temos muito disso aqui.
      Abby Porter, que costumava sentar no Lado do Olho Bom, sentou ao
lado de Lena e deu-lhe um fraco sorriso. Lena retribuiu o sorriso e parecia
que ia dizer algo simptico, mas Emily lanou um olhar para Abby que
deixava claro que a famosa hospitalidade sulista no se aplicava a Lena.
Desafiar Emily Asher era um ato de suicdio social. Abby puxou uma pasta do
Conselho Estudantil e afundou o nariz nela, evitando Lena. Mensagem
recebida.
     Emily se virou para Lena, avaliando-a do topo do cabelo sem luzes de
Lena, passando pelo rosto plido e seguindo at a ponta das unhas sem
esmalte rosa. Eden e Charlotte se viraram nas cadeiras para ficar de frente
para Emily, como se Lena no existisse. Era o gelo das garotas -- hoje estava
fazendo 15 graus negativos.
     Lena abriu o surrado caderno espiral e comeou a escrever. Emily pegou
o celular e comeou a digitar uma mensagem de texto. Olhei para meu
caderno, enfiando a revista em quadrinhos do Surfista Prateado entre as
pginas, algo que era bem mais difcil de fazer nas primeiras fileiras.
     -- Certo, senhoras e senhores, j que parece que o resto das luzes vai
permanecer aceso, vocs esto sem sorte. Espero que todos tenham lido o
livro ontem  noite. -- A Sra. English escrevia freneticamente no quadro-
negro. -- Vamos falar por um minuto sobre conflitos sociais num ambiente
de cidade pequena.




Algum devia ter avisado a Sra. English. No meio da aula, j tnhamos algo
alm de conflitos sociais num ambiente de cidade pequena. Emily estava
coordenando um ataque de grandes propores.
     -- Quem sabe por que Atticus est disposto a defender Tom Robinson
frente  limitao de pensamento e ao racismo?
     -- Aposto que Lena Ravenwood sabe -- disse Eden, sorrindo
inocentemente para a Sra. English. Lena olhou para as linhas do caderno e
no disse uma palavra.
     -- Cale a boca -- sussurrei um tanto alto demais. -- Voc sabe que esse
no  o nome dela.
     -- Podia muito bem ser. Ela mora com aquela aberrao -- disse
Charlotte.
     -- Cuidado com o que diz. Ouvi dizer que eles so, tipo, um casal. --
Emily estava usando armas pesadas.
     -- J chega. -- A Sra. English virou o olho bom para ns e nos calamos.
     Lena mudou de posio; a cadeira fez um barulho alto ao arrastar no
cho. Eu me inclinei para a frente, tentando ser uma parede entre Lena e as
seguidoras de Emily, como se pudesse fisicamente desviar os comentrios
delas.
    Voc no pode.
     O qu? Eu me sentei ereto, assustado. Olhei em volta, mas ningum
estava falando comigo; ningum estava falando nada. Olhei para Lena. Ela
ainda estava meio escondida atrs do caderno. timo. No era o bastante
sonhar com garotas de verdade e suas musicas imaginrias. Agora eu tinha
que ouvir vozes tambm.
     A coisa toda em relao  Lena estava comeando a me afetar. Acho que
eu me sentia responsvel de certa forma. Emily e as outras talvez no a
odiassem tanto se no fosse por mim.
    Odiariam.
    L estava de novo, uma voz to baixa que eu mal conseguia ouvir. Era
como se viesse do fundo da minha cabea.
    Eden, Charlotte e Emily continuaram atirando, e Lena nem piscava,
como se pudesse bloque-las enquanto estava escrevendo naquele caderno.
    -- Harper Lee parece estar dizendo que no se pode conhecer realmente
algum at que se coloque no lugar dessa pessoa. O que entendem por isso?
Algum?
    Harper Lee nunca morou em Gatlin.
    Olhei em volta, segurando uma gargalhada. Emily olhou para mim
como se eu fosse louco.
    Lena levantou a mo.
    -- Acho que significa que temos que dar uma chance s pessoas, antes de
pular automaticamente para o dio. No acha, Emily? -- Ela olhou para
Emily e sorriu.
    -- Voc  bizarra -- sussurrou Emily baixinho.
    Voc nem faz ideia.
     Olhei mais diretamente para Lena. Ela tinha deixado o caderno de lado;
agora estava escrevendo na mo com caneta preta. Eu nem precisaria ver ara
saber o que era. Outro nmero. 151. Tentei imaginar o que significava e por
que ela no podia escrever no caderno. Enfiei a cara de volta no Surfista
Prateado.
     -- Vamos falar sobre Boo Radley. O que os faria acreditar que ele est
deixando presentes para as crianas Finch?
     -- Ele  como o Velho Ravenwood. Provavelmente est querendo atrair
as crianas at a casa deles para depois mat-las -- sussurrou Emily alto o
bastante para Lena ouvir, mas baixo o bastante para que a Sra. English no
ouvisse. -- Ento ele coloca os corpos no rabeco e os leva para o meio do da
para enterr-los.
    Cale a boca.
     Ouvi a voz na minha cabea de novo, e ouvi mais uma coisa. Um som
estalo. Baixinho.
     -- E ele tem um nome estranho, Boo Radley. Do que se trata?
     -- Voc est certa,  aquele nome bblico assustador que ningum mais
usa.
     Fiquei tenso. Sabia que estavam falando do Velho Ravenwood, mas
tambm estavam falando de Lena.
     -- Emily, por que voc no d um tempo? -- devolvi.
     Ela apertou os olhos.
     -- Ele  esquisito. Todos eles so e todo mundo sabe.
     Mandei calar a boca.
     O som de estalo estava ficando mais alto e comeou a parecer mais com
algo se partindo. Olhei em volta. O que era aquele barulho? E o mais
estranho era que ningum parecia t-lo ouvido, assim como a voz.
     Lena estava olhando diretamente para a frente, mas dava para notar a
tenso no seu maxilar; ela estava concentrada de uma forma nada natural em
um ponto bem na frente da sala, como se no conseguisse ver nada alm
daquele ponto. A sala parecia estar ficando menor.
     Ouvi a cadeira de Lena arrastar no cho de novo. Ela saiu da cadeira e
foi em direo  estante sob a janela, na lateral da sala. Provavelmente
fingindo apontar o lpis para conseguir escapar do inescapvel; juiz e jri da
Jackson. O apontador comeou a fazer barulho.
     -- Melchizedek,  isso.
     Pare.
     Eu ainda ouvia o apontador.
     -- Minha av diz que  um nome maligno.
    Pare pare pare.
    -- Combina bem com ele.
    CHEGA!
    Agora a voz estava to alta que cobri os ouvidos. O apontador parou.
Vidro saiu voando pelo ar quando a janela se estilhaou sem mais nem menos
-- a janela bem na direo da nossa fileira na sala, bem onde Lena estava
apontando o lpis. Bem do lado de Charlotte, Eden, Emily e eu. Elas
gritaram e levantaram das cadeiras. Foi a que entendi o que tinha sido
aquele estalo. Presso. Pequenas rachaduras no vidro, se espalhando como
dedos, at que a janela se estilhaou para dentro como se tivesse sido puxada
por um fio.
     Foi um caos. As garotas gritavam. Todos na sala ficaram de p. At eu
pulei.
     -- No entrem em pnico. Esto todos bem? -- perguntou a Sra.
English, tentando recuperar o controle.
     Me virei em direo ao apontador. Queria ter certeza de que Lena estava
bem. Ela no estava. Estava ao lado da janela quebrada, cercada de vidro,
aparentando estar em pnico. Seu rosto estava mais plido do que o habitual
os olhos maiores e mais verdes. Como na noite anterior, na chuva. Mas
tambm pareciam diferentes. Pareciam assustados. Lena no parecia mais
corajosa.
     Ela esticou as mos. Uma estava cortada e sangrava. Gotas vermelhas no
cho de linleo.
    Eu no pretendia...
     Ela havia estilhaado o vidro? Ou o vidro tinha estilhaado e a cortado?
     -- Lena...
     Ela saiu correndo da sala antes que eu pudesse perguntar se estava tudo
bem.
     -- Voc viu aquilo? Ela quebrou a janela! Jogou alguma coisa nela
quando andou at l!
     -- Ela deu um soco no vidro. Vi com meus prprios olhos! Ento como 
que ela no est toda sangrando?
     -- Voc  o que, da percia policial? Ela tentou nos matar.
     -- Vou ligar pro meu pai agora. Ela  louca, que nem o tio dela! Parecia
um bando de gatos de rua furiosos, gritando uns com os outros. Sra. English
tentou restaurar a ordem, mas isso era querer o impossvel.
     -- Todos se acalmem. No h motivo para pnico. Acidentes
acontecem. Provavelmente no foi nada alm de uma janela velha e vento.
     Mas ningum acreditou que a explicao podia ser uma janela velha e o
vento. Acreditavam mais na sobrinha de um velho e uma tempestade com
relmpagos. A tempestade de olhos verdes que tinha acabado de se mudar
para cidade. O furaco Lena.
     Uma coisa era certa: o tempo tinha mudado mesmo. Gatlin nunca tinha
visto uma tempestade assim.
     E ela provavelmente nem sabia que estava chovendo.
                              p 12 de setembro p
                               Greenbrier
                                    d

N       o.
            Eu conseguia ouvir a voz dela na minha cabea. Pelo menos eu
        achava que conseguia.
    No vale a pena, Ethan.
     Valia.
     Foi quando empurrei minha cadeira e corri pelo corredor atrs dela. Eu
sabia o que tinha feito. Tinha escolhido um lado. Estava em outro tipo de
encrenca agora, mas no me importava.
     No era s Lena. Ela no era a primeira. Eu tinha passado minha vida
inteira os vendo fazer aquilo. Fizeram com Allison Birch quando seu eczema
ficou to ruim que ningum sentava perto dela no almoo, e com o pobre
Scooter Richman porque ele era o pior trombonista da histria da Orquestra
Sinfnica Jackson.
     Apesar de eu nunca ter pegado uma caneta e escrito PERDEDOR em
um armrio, eu tinha ficado de lado assistindo, muitas vezes. Sempre tinha
me incomodado. Mas nunca o bastante para sair da sala.
     Mas algum tinha que fazer alguma coisa. Uma escola inteira no podia
derrubar uma pessoa assim. Uma cidade inteira no podia derrubar uma
famlia. S que, na verdade podiam, porque sempre tinham feito isso. Talvez
fosse por isso que Macon Ravenwood no saa de casa desde antes de eu
nascer.
     Eu sabia o que estava fazendo.
    No sabe. Acha que sabe, mas no sabe.
     Ela estava na minha cabea de novo, como se sempre tivesse estado.
     Eu sabia o que encararia no dia seguinte, mas nada daquilo importava.
S queria encontr-la. E no saberia dizer naquele momento se era por ela ou
por mim. Independentemente disso, eu no tinha escolha.
     Parei no laboratrio de Biologia, sem flego. Link apenas olhou para
mim e jogou a chave, sacudindo a cabea sem nem perguntar. Peguei a chave
e corri. Tinha certeza que sabia onde encontr-la. Se eu estivesse certo, ela
teria ido para onde qualquer um iria. Para onde eu teria ido.
     Ela tinha ido para casa. Mesmo se a casa fosse Ravenwood, e ela tivesse
ido para o lar de Boo Radley de Gatlin.




A propriedade parecia gigante na minha frente. Ela se erguia no morro como
um desafio. No estou dizendo que estava com medo, porque essa no  bem
a palavra certa. Fiquei com medo quando a polcia foi  nossa porta na noite
em que minha me morreu. Fiquei com medo quando meu ai desapareceu
no escritrio e me dei conta de que ele jamais sairia de novo. Fiquei com
medo quando eu era criana e Amma escurecia, quando me dei conta de que
as bonequinhas que ela fazia no eram brinquedos. Eu no estava com medo
de Ravenwood, ainda que ela fosse to horripilante quanto aparentava. O
inexplicvel era algo certo no sul; toda cidade tem uma casa mal-assombrada,
e se voc perguntasse  maior parte das pessoas, elo menos um tero delas
juraria j ter visto um fantasma ou dois ao longo vida. Alm disso, eu morava
com Amma, cujas crenas incluam pintar janelas de azul-plido para manter
os espritos afastados, e cujos amuletos eram feitos de algibeiras de pelo de
cavalo e terra. Eu estava acostumado com coisas estranhas. Mas o Velho
Ravenwood, isso era outra coisa.
     Andei at o porto e coloquei a mo com hesitao no ferro deformado.
O porto abriu com um rangido. E depois, nada aconteceu. Nenhum
relmpago, nenhuma combusto, nenhuma tempestade. No sei o que eu
esperava, mas se tinha aprendido alguma coisa sobre Lena at aquele
momento, era para esperar o inesperado e prosseguir com cautela.
     Se algum tivesse me dito um ms antes que eu passaria a p por aquele
porto, subiria o morro e entraria no territrio de Ravenwood, eu teria dito
que essa pessoa estava maluca. Em uma cidade como Gatlin, em que
sabemos tudo que vai acontecer, eu no teria previsto isso, Da ltima vez, eu
s tinha chegado at o porto. Quanto mais perto eu chegava, mais fcil era
ver que tudo estava caindo aos pedaos. A casa grande de Ravenwood
parecia o esteretipo de fazenda sulista que as pessoas no norte esperariam
ver depois de tantos anos assistindo a E o Vento Levou...
     Ravenwood ainda era impressionante, pelo menos em tamanho. Era
flanqueada por pequenas palmeiras e ciprestes, e parecia ter sido o tipo de
lugar onde as pessoas sentavam na varanda, bebendo coquetel de hortel e
jogando cartas o dia todo, se no estivesse desmoronando. Se no fosse
Ravenwood.
     A casa era no estilo neoclssico grego, o que era incomum em Gatlin.
Nossa cidade estava cheia de fazendas do estilo arquitetnico chamado
Federal, o que fazia com que Ravenwood se destacasse ainda mais como algo
que no pertencia ao ambiente. Enormes colunas dricas brancas com a tinta
descascando por anos de descuido apoiavam um telhado que caa muito
inclinado para um lado, dando a impresso de que a casa estava tombando
para o lado como uma velha com artrite. A varanda coberta estava se
despedaando e se soltando da casa, ameaando desabar se algum ousasse
colocar ao menos um p nela. Uma hera densa crescia com tanto vigor nas
paredes externas que em alguns pontos era impossvel ver a janela que havia
embaixo. Como se o cho tivesse engolido a casa, tentando lev-la de volta
para a terra onde ela havia sido construda.
     Havia um lintel sobreposto, que  aquela parte da viga que fica sobre a
porta em algumas casas muito velhas. Eu podia ver algum tipo de entalhe ali.
Smbolos. Pareciam crculos e luas crescentes, talvez as fases da lua. Dei um
passo hesitante para subir na escada que rangia para poder olhar mais de
perto. Eu sabia um pouco sobre lintis. Minha me era historiadora da
Guerra Civil, e ela os mostrava para mim em nossas incontveis
peregrinaes para cada local histrico que ficasse a um dia de carro de
Gatlin. Ela dizia que eles eram bem comuns em casas antigas e castelos em
lugares como a Inglaterra e a Esccia. E era de l que algumas das pessoas
daqui tinham vindo, bem antes de serem daqui.
     Eu nunca tinha visto um com smbolos entalhados, s com palavras.
Esses pareciam mais hierglifos, circundando o que parecia ser uma nica
palavra em uma lngua que no reconheci. Provavelmente tivera algum
significado para as geraes de Ravenwood que moraram ali antes do lugar
estar aos pedaos.
     Respirei fundo e subi o resto dos degraus da varanda, dois de cada vez.
Achei que diminuiria minhas chances de cair neles em cinquenta por cento se
eu s pisasse na metade deles. Estiquei o brao em direo  ala de lato
pendurada na boca de um leo que servia para bater na porta e bati. Bati de
novo, e de novo. Ela no estava em casa. Eu tinha me enganado, afinal. Mas
ento ouvi a melodia familiar. Dezesseis Luas. Ela estava aqui, em algum
lugar.
     Forcei o ferro calcificado da maaneta. Ele gemeu, e eu ouvi o ferrolho
respondendo do outro lado da porta. Me preparei para ver Macon
Ravenwood, que ningum na cidade tinha visto, pelo menos no durante o
tempo em que eu estava vivo. Mas a porta no abriu.
     Olhei para o lintel, e alguma coisa me disse para tentar. Quero dizer, o
que podia acontecer de pior? A porta no abrir? Instintivamente, estiquei a
mo e toquei o entalhe central sobre a minha cabea. A lua
crescente.Quando a apertei, pude sentir a madeira cedendo sob meu dedo.
Era algum tipo de gatilho.
     A porta abriu sem barulho algum. Passei pela soleira. No havia como
voltar atrs agora.




A luz entrava pelas janelas, o que parecia impossvel considerando que as
janelas do lado de fora estavam completamente cobertas de vegetao e
escombros. Ainda assim, o interior era claro, iluminado e tudo era novo. No
havia moblia de perodos antigos nem pinturas a leo dos Ravenwood que
viveram antes do Velho Ravenwood, nenhuma herana do perodo antes da
guerra. O lugar parecia mais uma pgina de um catlogo de moblia. Havia
sofs com estofados fofos e cadeiras e mesas de tampo de vidro cobertas de
livros de mesinha de centro. Era tudo to chique, to novo. Eu quase espe-
rava ver o caminho de entregas ainda estacionado do lado de fora.
     -- Lena?
     A escada em espiral parecia pertencer a um loft; parecia continuar em
crculos para cima, bem acima do cho do segundo andar. Eu no conseguia
ver o topo,
     -- Sr. Ravenwood? -- Ouvi minha prpria voz ecoando no teto alto.
No havia ningum l. Pelo menos, ningum interessado em falar comigo.
Ouvi um barulho atrs de mim e dei um salto, tropeando e quase caindo em
um tipo de cadeira de camura.
     Era um cachorro negro lustroso, ou talvez um lobo. Algum tipo de
animal domstico assustador, porque ele usava uma coleira pesada de couro
com uma lua prateada pendurada que balanava quando se movia. Ele
olhava para mim como se estivesse planejando o prximo passo. Havia algo
de estranho em seus olhos. Eram redondos demais, quase pareciam humanos.
     O cachorro-lobo rosnou para mim e mostrou os dentes. O rosnado se
tornou alto e agudo, como um grito. Fiz o que qualquer um faria.
     Corri.




Desci a escada aos tropeos antes mesmo que meus olhos tivessem se ajustado
 luz. Continuei correndo pelo caminho de cascalho, para longe de
Ravenwood, para longe do animal assustador, dos estranhos smbolos e da
porta esquisita at voltar  luz turva da tarde real. O caminho continuava em
curvas por campos malcuidados e alamedas de rvores sem poda, crescendo
selvagens e cheias de arbustos em volta. No me importava onde o caminho
ia dar, desde que fosse longe dali.
     Parei e me curvei, as mos nos joelhos, meu peito explodindo. Minhas
pernas pareciam de borracha. Quando olhei para a frente, vi um muro de
pedra despedaado. Eu mal conseguia ver o topo das rvores depois do muro.
     Senti um cheiro familiar. Limoeiros. Ela estava aqui.
    Falei para voc no vir.
    Eu sei.
    Estvamos tendo uma conversa, s que no estvamos, Mas assim como
na aula, eu conseguia ouvi-la na minha cabea, como se ela estivesse parada
ao meu lado sussurrando em meu ouvido.
     Senti que estava indo em direo a ela. Havia um jardim murado, talvez
at mesmo um jardim secreto, como algo de um livro que minha me teria
lido quando crescia em Savannah. Esse lugar devia ser muito antigo. O muro
de pedra estava gasto em alguns lugares e completamente quebrado em
outros. Quando forcei pela cortina de vinhas que escondia a entrada em arco
de madeira velha e apodrecida, eu ouvi o som de algum chorando ao longe.
Olhei no meio das rvores e arbustos, mas ainda no conseguia v-la.
     -- Lena?
     Ningum respondeu. Minha voz soava estranha, como se no fosse
minha, ecoando nos muros de pedra que cercavam o pequeno bosque.
Segurei no arbusto mais prximo de mim e arranquei um galho. Alecrim, 
claro. E na rvore acima da minha cabea, l estava: um limo amarelo,
estranhamente perfeito e liso.
     -- Sou eu, Ethan.
     O som abafado de choro ficar mais alto e eu soube que estava me
aproximando.
     -- V embora, j falei. -- Ela parecia estar resfriada; devia estar
chorando desde que saiu da escola.
     -- Eu sei. Ouvi o que voc disse.
     Era verdade, e eu no sabia explicar. Andei com cuidado ao redor do
alecrim selvagem, tropeando nas razes enormes.
     --  mesmo? -- Ela parecia interessada, momentaneamente distrada.
     -- .
     Era como nos sonhos. Eu conseguia ouvir a voz dela, s que ela estava
aqui, chorando em um jardim descuidado no meio do nada em vez de
escorregando dos meus braos.
     Afastei um emaranhado grande de galhos. L estava ela, encolhida sobre
grama alta, olhando para o cu azul. Ela tinha um brao jogado sobre a
cabea e a outra mo segurava a grama, como se achasse que levantaria voo
se soltasse. O vestido cinza estava amontoado ao seu redor. O rosto
visivelmente coberto de lgrimas.
     -- Ento por que voc no foi?
     -- Pra onde?
     -- Embora.
     -- Queria ter certeza de que voc estava bem.
     Sentei ao lado dela. O cho era surpreendentemente duro. Passei a me
embaixo de mim e descobri que estava sentado em um pedao liso de pedra
achatada, escondido sob a cobertura de terra.
     Assim que me deitei, ela sentou. Eu sentei, ela deitou de novo. Estranha
Assim era tudo o que eu fazia quando dizia respeito a ela.
     Agora estvamos os dois deitados, olhando para o cu azul. Estava
ficando cinzento, da cor de Gatlin durante a temporada de furaces.
     -- Todos me Odeiam.
     -- Nem todos. Eu no. Nem Link, meu melhor amigo.
     Silncio.
     -- Voc nem me conhece. Deixa o tempo passar; voc provavelmente vai
me odiar tambm.        .
     -- Quase atropelei voc, lembra? Tenho que ser legal com voc pra que
no mande me prender.
     Era uma piada idiota. Mas l estava, o menor sorriso que j vira em
minha vida.
     -- Est bem no topo da minha lista. Vou denunciar voc pro cara gordo
que fica o dia todo na frente do supermercado.
     Ela olhou de volta para o cu. Eu a observei.
     -- D uma chance a eles. No so ms pessoas, no completamente
Quero dizer, so sim, nesse momento. Esto apenas com inveja. Voc sabe
disso, no sabe?
     -- Ah, claro.
     -- Esto. -- Olhei para ela pela grama alta. -- Eu estou.
     Ela sacudiu a cabea.
     -- Ento voc  maluco. No h nada para ter inveja, a no ser que voc
goste muito de almoar sozinho.
     -- Voc morou em um monte de lugares.
     O olhar dela era vazio.
     -- E da? Voc provavelmente est na mesma escola e mora na mesma
casa a vida toda.
     -- Isso mesmo, e esse  o problema.
     -- Acredite em mim, isso no  problema. Entendo de problemas.
        -- Voc viajou por vrios lugares, viu coisas. Eu daria tudo para fazer
isso.
     -- , sempre sozinha. Voc tem um melhor amigo. Eu tenho um
cachorro.
     -- Mas voc no tem medo de ningum. Age como quer e diz o que
quer. Todo mundo aqui tem medo de ser eles mesmos.
     Lena mexeu no esmalte preto do dedo indicador.
     -- s vezes gostaria de poder agir como todo mundo, mas no posso
mudar quem eu sou. J tentei. Mas nunca uso as roupas certas nem digo as
coisas certas, e alguma coisa sempre d errado. S queria ser eu mesma e
ainda assim ter amigos que reparam quando vou  escola ou no.
     -- Acredite em mim, reparam. Hoje, pelo menos, repararam. -- Ela
quase riu. Quase. -- Quero dizer, de um jeito bom. -- Olhei para o outro
lado.
        Eu reparo.
        Em qu?
        Se voc vai  escola ou no.
     -- Ento acho que voc  doido. -- Mas quando ela disse isso, o som
parecia de algum que tambm estava rindo.
     Ao olhar para ela, no parecia ter mais importncia se eu tinha uma
mesa de almoo onde sentar ou no. Eu no conseguia explicar, mas ela era,
o tudo era maior do que aquilo. Eu no podia ficar de fora observando
enquanto tentavam derrub-la. No a ela.
     -- Sabe,  sempre assim. -- Ela falava para o cu. Uma nuvem flutuava
no cu cinza-azulado que escurecia.
     -- Nublado?
     -- Na escola, pra mim.
     Ela ergueu a mo e a sacudiu. A nuvem pareceu andar na mesma
direo de sua mo. Ela limpou os olhos com a manga da blusa.
     No  que eu me importe se gostam mesmo de mim. S no quero que
me odeiem automaticamente. Agora a nuvem era um crculo.
     -- Aquelas imbecis? Em alguns meses, Emily vai ganhar um carro novo e
Savannah vai ganhar uma coroa nova; Eden vai pintar o cabelo de outra cor
e Charlotte vai, sei l, ter um beb, fazer uma tatuagem ou algo assim, e isso
tudo ficar no passado. -- Eu estava mentindo, e ela sabia. Lena sacudiu a
mo de novo. Agora a nuvem parecia mais um crculo meio amassado, e
depois talvez uma lua.
     -- Sei que so imbecis. Claro que so imbecis. Com aquele cabelo louro
pintado e aquelas bolsas idiotas de metal.
     -- Exatamente. Elas so imbecis. Quem se importa?
     -- Eu me importo. Elas me incomodam. E  por isso que sou burra. Isso
me torna exponencialmente mais burra do que burra. Sou burra elevada 
potncia burra.
     Ela sacudiu a mo. A lua se desmanchou.
     -- Essa  a coisa mais burra que eu j ouvi.
     Olhei para ela de canto de olho. Ela tentou no sorrir. Ficamos deitados
l um minuto.
     -- Sabe o que  burrice? Tenho livros embaixo da minha cama. -- Eu
apenas falei, como se fosse algo que eu dissesse o tempo todo.
     -- O qu?
     -- Romances. Tolstoi. Salinger. Vonnegut. E eu os leio. Leio porque
quero.
     Ela rolou de lado, apoiando a cabea no cotovelo.
     -- E? O que seus amigos atletas acham disso?
     -- Vamos dizer que guardo isso pra mim e continuo fazendo cestas.
     -- Certo. Na escola, reparei que voc prefere os quadrinhos. -- Ela
tentou parecer casual. -- Surfista Prateado. Vi voc lendo. Logo antes de
tudo acontecer.
    Voc reparou?
    Talvez nem tenha reparado.
     Eu no sabia se estvamos falando ou se eu estava imaginando a coisa
toda, s que eu no estava to maluco. Ainda.
     Ela mudou de assunto, ou mais precisamente, voltou o assunto.
     -- Eu tambm leio. Mais poesia.
     Eu conseguia imagin-la deitada na cama lendo poemas, mas tinha
dificuldade em imaginar a tal cama em Ravenwood.
     -- ? J li aquele cara, Bukowski. -- E era verdade, se dois poemas
contassem.
     -- Tenho todos os livros dele.
     Eu sabia que ela no queria falar do que tinha acontecido, mas eu no
podia mais segurar. Eu tinha que saber.
     -- Voc vai me contar?
     -- Contar o qu?
     -- O que aconteceu l?
     Houve um longo silncio. Ela sentou e puxou a grama ao redor dela. Se
virou de barriga para baixo e olhou nos meus olhos. Estava a apenas alguns
centmetros do meu rosto. Fiquei ali deitado, paralisado, tentando me
concentrar no que ela dizia.
     -- Eu no sei, na verdade. Coisas assim apenas acontecem comigo s
vezes. No consigo controlar.
     -- Como os sonhos. -- Observei o rosto dela, procurando por ao menos
um sinal de reconhecimento.
     -- Como os sonhos. -- Ela falou sem pensar, depois hesitou e olhou para
mim, chocada. Eu estava certo o tempo todo.
     -- Voc se lembra dos sonhos.
     Ela escondeu o rosto nas mos. Me sentei.
     -- Eu sabia que era voc, e voc sabia que era eu. Voc sabia sobre o que
eu estava falando o tempo todo. -- Afastei as mos do rosto, e a corrente
eltrica fez meu brao vibrar.
    Voc  a garota.
    -- Por que no disse alguma coisa ontem  noite?
    Eu no queria que voc soubesse.
     Ela no olhava para mim.
     -- Por qu? -- A palavra soou alta no silncio do jardim. E quando ela
olhou para mim, seu rosto estava plido e ela parecia diferente. Assustada. Os
olhos dela eram como o mar antes de uma tempestade na costa da Carolina.
     -- Eu no esperava que voc estivesse aqui, Ethan. Pensei que eram
apenas sonhos. Eu no sabia que voc era uma pessoa de verdade.
     -- Mas depois que soube que era eu, por que no falou alguma coisa?
     -- Minha vida  complicada. E eu no queria voc... No quero ningum
envolvido nisso.
     Eu no tinha ideia de sobre o qu ela estava falando/Ainda estava
tocando a mo dela; e sabia disso. Eu podia sentir a pedra dura debaixo de
ns, e me segurei na beirada dela, me apoiando. S que minha mo se fechou
em algo pequeno e redondo, preso na beirada da pedra. Um besouro ou
talvez uma pedrinha. O objeto se soltou da pedra e se prendeu  minha mo.
     Ento o choque me atingiu. Senti a mo de Lena se fechar em torno da
minha.
    O que est acontecendo, Ethan?
    No sei.
    Tudo ao meu redor mudou, e era como se eu estivesse em outro lugar.
Eu estava no jardim, mas no no jardim. E o cheiro de limo se transformou
em cheiro de fumaa...




Era meia-noite, mas o cu estava em chamas. As labaredas tentavam alcanar
o cu, soltando rolos enormes de fumaa, engolindo tudo no caminho. At a
lua. O cho tinha virado um pntano. Era um cho de cinza queimada que
tinha sido encharcada pelas chuvas que precederam o fogo. Se ao menos
tivesse chovido hoje... Genevieve engasgou com a fumaa que lhe queimava
tanto a garganta que dificultava a respirao. Havia lama grudada na barra
de suas saias, fazendo-a tropear cada vez que dava alguns passos em meio s
volumosas dobras de tecido, mas ela se forava a continuar andando.
     Era o fim do mundo. Do seu mundo.
     E ela podia ouvir os gritos, misturados aos tiros e ao ininterrupto rugir do
fogo. Podia ouvir os soldados gritando ordens de assassinato.
     "Queimem aquelas casas. Deixem que os Rebeldes sintam o peso da
derrota. Queimem tudo!"
     E, uma a uma, os soldados da Unio tinham tocado fogo na casa grande
das fazendas, com os prprios lenis e cortinas embebidos em querosene.
Uma a uma, Genevieve viu as casas dos vizinhos dela, dos amigos e
familiares, se renderem s chamas. E, na pior das circunstncias, muitos
desses amigos e familiares se renderam tambm, comidos vivos pelas chamas
nas mesmas casas em que nasceram.
     Era por isso que ela corria, na fumaa, em direo ao fogo, bem na boca
da fera. Tinha que chegar a Greenbrier antes dos soldados. E no tinha muito
tempo. Os soldados eram metdicos, trabalhando ao longo da Santee
queimando as casas uma a uma. J tinham queimado Blackwell; Doves
Crossing seria a prxima, depois Greenbrier e Ravenwood. O general
Sherman e seu exrcito tinham comeado a campanha de incndios centenas
de quilmetros antes de chegar a Gatlin. Tinham queimado completamente
Columbia e continuaram a marchar para o leste, incendiando tudo no
caminho. Quando chegaram aos arredores de Gatlin, a bandeira da
Confederao ainda tremulava; a energia renovada de que eles precisavam.
     Foi o cheiro que disse a ela que era tarde demais. Limo. O cheiro cido
de limo misturado com cinzas. Estavam queimando os limoeiros.
     A me de Genevieve amava limes. Ento quando o pai dela visitara
uma fazenda na Gergia quando ela era criana, tinha trazido dois limoeiros
para sua me. Todo mundo dizia que eles no iam crescer, que as noites frias
do inverno da Carolina do Sul os mataria. Mas a me de Genevieve no
prestou ateno. Ela plantou as rvores em frente ao campo de algodo e
cuidou delas sozinha. Nas noites frias de inverno, cobria as rvores com
cobertores de l e fazia pilhas de terra nas bordas para afastar a umidade. E
as rvores cresceram. Cresceram to bem que ao longo dos anos o pai de
Genevieve trouxe para ela 28 outras rvores. Algumas das outras damas da
cidade pediram limoeiros aos maridos, e alguns deles at conseguiram um ou
dois. Mas nenhuma delas conseguiu descobrir como manter as rvores vivas.
As rvores s pareciam florescer em Greenbrier, sob os cuidados da me dela.
     Nada tinha conseguido matar aquelas rvores. At hoje.




-- O que acabou de acontecer?
     Senti ela afastar sua mo da minha e abri meus olhos. Ela estava
tremendo. Olhei para baixo e abri minha mo para ver o objeto que eu tinha
inadvertidamente tirado de debaixo da pedra.
     -- Acho que teve alguma coisa a ver com isso. -- Minha mo encontrara
um velho camafeu amassado, preto e oval, com o rosto de uma mulher
entalhado em marfim e madreprola. O trabalho na face do objeto era
intrincado e cheio de detalhes. Na parte de dentro, reparei que havia um
pequeno calombo. -- Olhe. Acho que ele abre.
     Apertei o dispositivo e a frente do camafeu abriu, revelando uma
pequena inscrio.
     -- S diz GREENBRIER. E uma data.
     Ela se sentou.
     -- O que  Greenbrier?
     -- Deve ser onde estamos. Aqui no  Ravenwood. Aqui  Greenbrier. A
fazenda ao lado.
     -- E aquela viso, os incndios, voc viu tambm?
     Assenti. Era quase horrvel demais para falar.
     -- Aqui s pode ser Greenbrier, ou o que sobrou dela.
     -- Me deixa ver o medalho.
     Entreguei a ela com cuidado. Parecia algo que tinha sobrevivido a muita
coisa, talvez mesmo o incndio da viso. Ela o virou nas mos.
     -- 11 DE FEVEREIRO DE 1865. -- Ela deixou o medalho cair e ficou
branca.
     -- O que foi?
     Lena olhou para a grama.
     -- Onze de fevereiro  meu aniversrio.
     --  uma coincidncia. Um presente de aniversrio antecipado.
     -- Nada na minha vida  coincidncia.
     Peguei o medalho e o virei. Na parte de trs havia dois grupos de
iniciais entalhadas.
     -- ECW & GKD. Esse medalho deve ter sido de um deles. -- Fiz uma
pausa. -- Isso  estranho. Minhas iniciais so ELW.
     -- Meu aniversrio, suas iniciais. Voc no acha que  um pouco mais do
que uma estranha coincidncia?
     Talvez ela estivesse certa. Ainda assim...
     -- Devamos tentar de novo para que possamos descobrir, -- - Eu no
conseguia parar.
     -- No sei. Pode ser perigoso. Parecia mesmo que a gente estava l.
Meus olhos ainda esto ardendo da fumaa.
     Ela estava certa. No tnhamos sado do jardim, mas parecera que
estvamos bem no meio dos incndios. Eu podia sentir a fumaa nos meus
pulmes, mas no importava. Eu precisava saber.
     Estendi o medalho e minha mo.
     -- Vamos l, voc no  corajosa?
     Era um desafio. Ela revirou os olhos, mas esticou a mo mesmo assim.
Seus dedos encostaram de leve nos meus, e senti o calor da mo dela se
espalhando na minha. Um arrepio eltrico. No sei descrever de outra
maneira.
     Fechei meus olhos e esperei. Nada. Abri meus olhos.
     -- Talvez tenhamos imaginado. Talvez esteja sem pilha. Lena olhou para
mim como se eu fosse Earl Petty na aula de lgebra pela segunda vez.
     -- Talvez no d para dizer a uma coisa como essas o que fazer ou
quando fazer. -- Ela se levantou e se limpou. -- Tenho que ir.
     Ela fez uma pausa e olhou para baixo, para mim.
     -- Sabe, voc no  o que eu esperava.
     Ela me deu as costas e comeou a andar pelo meio dos limoeiros at a
extremidade do jardim.
     -- Espere! -- chamei, mas ela continuou andando. Tentei alcan-la,
mas tropecei nas razes.
     Quando ela chegou ao ltimo limoeiro, parou.
     -- No.
     -- No o qu? Ela no olhava para mim.
     -- Me deixe em paz enquanto tudo ainda est bem.
     -- No entendo o que voc est falando. De verdade. E estou tentando.
     -- Esquea.
     -- Acha que  a nica pessoa complicada no mundo?
     -- No. Mas...  meio que minha especialidade.
     Ela se virou novamente para ir. Hesitei e coloquei a mo sobre seu
ombro. Estava quente do sol que desaparecia. Eu podia sentir o osso embaixo
da roupa, e, naquele momento, ela pareceu uma coisa frgil, como nos
sonhos. E aquilo era estranho, porque quando ela estava me encarando, e. s
conseguia pensar no quanto ela parecia inquebrvel. Talvez houvesse alguma
relao com aqueles olhos.
     Ficamos daquele jeito um momento, at que finalmente ela cedeu e se
virou para mim. Tentei de novo.
     -- Olha. Tem alguma coisa acontecendo aqui. Os sonhos, a msica
cheiro e agora o medalho.  como se devssemos ser amigos.
     -- Voc acabou de dizer cheiro? -- Ela parecia horrorizada. -- Na
mesma frase que amigos?
    -- Tecnicamente, acho que era uma outra frase.
    Ela olhou para minha mo, e eu a tirei de seu ombro. Mas eu no
conseguia deixar para l. Olhei bem nos olhos dela, olhei mesmo, talvez pela
primeira vez. O abismo verde parecia ir a um lugar to distante que eu jamais
conseguiria alcanar, mesmo em uma vida inteira. Imaginei o que a teoria de
Amma de que "os olhos so a janela da alma" acharia disso.
     tarde demais, Lena. Voc j  minha amiga.
    No posso ser.
    Estamos nisso juntos.
    Por favor. Voc tem que confiar em mim. No estamos.
     Ela quebrou a conexo dos nossos olhos e apoiou a cabea no limoeiro.
Parecia infeliz.
     -- Sei que voc no  como eles. Mas h coisas sobre mim que voc no
pode entender. No sei por que h essa ligao entre ns. No sei por que
temos os mesmos sonhos; sei tanto quanto voc.
     -- Mas eu quero saber o que est havendo...
     -- Fao 16 anos em cinco meses. -- Ela ergueu a mo, pintada com
nmero, como sempre. 151. -- Cento e cinquenta e um dias.
     O aniversrio dela. O nmero escrito em sua mo que mudava todo dia.
Ela estava fazendo contagem regressiva at o aniversrio.
     -- Voc no sabe o que isso quer dizer, Ethan. No sabe de nada. Posso
nem estar aqui depois disso.
     -- Est aqui agora.
     Ela olhou para alm de mim, na direo de Ravenwood. Quando
finalmente falou, no estava olhando para mim.
     -- Gosta daquele poeta, Bukowski?
     -- Gosto -- respondi, confuso.
     -- Nem tente.
     -- No entendi.
     --  o que est escrito na lpide de Bukowski.
     Ela desapareceu pelo muro de pedra e se foi. Cinco meses. Eu no tinha
ideia sobre o que ela estava falando, mas reconheci o sentimento nas minhas
entranhas.
     Pnico.
     Quando consegui cruzar a passagem no muro, ela tinha sumido como se
jamais tivesse estado l, deixando s uma brisa no ar de limo e alecrim. O
engraado era que, quanto mais ela corria, mais eu ficava determinado a
segui-la.
    No tente.
    Eu estava bem certo de que minha lpide teria algo diferente escrito.
                             p     12 de setembro   p
                                 As Irms
                                      d

P    ara minha sorte, a mesa da cozinha ainda estava posta quando cheguei
     em casa -- Amma teria me matado se eu tivesse perdido o jantar. O que
     eu no tinha levado em considerao era o sistema de recados que fora
ativado no momento em que sa da aula de ingls. Mais de metade da cidade
devia ter ligado para Amma at a hora que cheguei em casa.
     -- Ethan Wate?  voc? Porque se for, voc est em uma encrenca
enorme.
     Ouvi um som de batida familiar. As coisas estavam piores do que eu
pensava. Me abaixei para passar na porta e entrar na cozinha. Amma estava
de p ao lado da bancada com o avental industrial de brim, que tinha 14
bolsos para pregos e podia suportar quatro ferramentas pesadas. Estava
segurando o cutelo e na bancada havia uma pilha de cenouras, repolho e
outros legumes que eu no consegui identificar. Rolinhos primavera era a
receita que exigia a maior quantidade de legumes picados do que qualquer
outra receita na caixa azul de plstico de Amma. Se ela estava fazendo
rolinhos primavera, isso s queria dizer uma coisa, e no era que ela gostava
de comida chinesa.
     Tentei dar uma explicao aceitvel, mas no saiu nada.
     -- O treinador ligou esta tarde, depois a Sra. English, o diretor Harper, a
me de Link e metade das senhoras da ERA. E voc sabe como odeio falar
com aquelas mulheres. So ms como o diabo, cada uma delas.
     Gatlin era cheia de associaes para assistncia s senhoras, mas o FRA
era a me de todas elas. Fazendo justia ao nome, Filhas da Revoluo
Americana, tinha-se que provar ser parente de um patriota de verdade da
Revoluo Americana para ser candidata a pertencer ao grupo. Ser um
membro aparentemente dava o direito de dizer aos vizinhos da rua River de
que cores deviam pintar as casas e mandar, perturbar e julgar todo mundo na
cidade. A no ser que fosse Amma. Isso eu queria ver.
     -- Todos disseram a mesma coisa. Que voc saiu correndo da escola, no
meio da aula, atrs da garota Duchannes.
     Outra cenoura rolou pela tbua de cortar.
     -- Eu sei, Amma, mas...
     O repolho foi partido ao meio.
     -- Ento eu disse: "No, meu menino no sairia da escola sem permisso
e no faltaria ao treino. Deve haver algum engano. Deve ser outro garoto
desrespeitando a professora e sujando o nome da famlia. No pode ser o
menino que eu criei aqui nesta casa."
     Cebolinhas rolaram pela bancada.
     Eu tinha cometido o pior dos crimes, eu a tinha envergonhado. Pior
ainda, aos olhos da Sra. Lincoln e das mulheres do FRA, suas inimigas
juradas.
     -- O que tem a dizer a seu favor? O que faria voc sair correndo da
escola como se seu rabo estivesse pegando fogo? E eu no quero ouvir que foi
'uma garota qualquer.
     Respirei fundo. O que eu poderia dizer? Que eu vinha sonhando com
uma garota misteriosa h meses, que ela apareceu na cidade e por acaso era a
sobrinha de Macon Ravenwood? Que, alm dos apavorantes sonhos com essa
garota, eu tive uma viso de uma outra mulher, que eu certamente no
conhecia, que tinha vivido durante a Guerra Civil?
     , isso me tiraria da encrenca, ao mesmo tempo em que o sol explodisse
e o sistema solar morresse.
     -- No  o que voc pensa. As garotas na nossa turma estavam sendo
ms com Lena, provocando-a sobre o tio, dizendo que ele carrega cadveres
no rabeco, ento ela se chateou e saiu correndo da aula.
     -- Estou esperando pela parte que explica o que isso tem a ver com voc.
     -- No  voc que sempre me diz para "seguir o caminho de Nosso
Senhor"? No acha que Ele ia querer que eu ficasse ao lado de algum que
estava sendo maltratada? -- Agora eu tinha passado do limite. Dava para ver
nos olhos dela.
     -- No ouse usar o nome do Senhor para justificar ter quebrado as regras
da escola, ou juro que vou l fora, pego uma vara e fao arder a razo de
volta s suas costas. No me importa quantos anos tenha. Ouviu?
     Amma nunca tinha batido em mim com nada na minha vida, apesar de,
ter me perseguido com uma vara algumas vezes para se fazer entender. Mas
esse no era o momento de mencionar isso.
     A situao estava rapidamente indo de mal a pior; eu precisava de ali ma
coisa para mudar o foco. O medalho ainda estava queimando no me bolso
de trs. Amma amava mistrios. Ela tinha me ensinado a ler quando eu tinha
4 anos usando livros policiais e as palavras cruzadas, que eu lia por cima de
seu ombro. Eu era a nica criana no jardim de infncia que conseguia ler
exame no quadro porque eu conhecia a expresso do exame mdico-legista.
Quanto a mistrios, o medalho era um dos bons. Eu apenas deixaria de fora
a parte em que toquei nele e tive uma viso da Guerra Civil.
     -- Voc est certa, Amma. Desculpe. Eu no devia ter sado da escola.
S estava querendo ter certeza de que Lena estava bem. Uma janela quebrou
na sala de aula bem atrs dela e ela estava sangrando. S fui at a casa dela
para ver se estava tudo bem.
     -- Voc foi at aquela casa?
     -- Fui, mas ela estava do lado de fora. O tio dela  muito tmido,
aparentemente.
     -- Voc no precisa me contar sobre Macon Ravenwood, como se
soubesse alguma coisa que eu no sei. -- O Olhar. -- L-E-T--R-G-I-C-O.
     -- O qu?
     -- Quero dizer que voc no tem uma gota de juzo, Ethan Wate.
     Peguei o medalho do meu bolso e andei at onde ela estava, parada ao
lado do fogo.
     -- Estvamos atrs da casa e achamos uma coisa -- eu disse, abrindo
minha mo para que ela pudesse ver. -- Tem uma inscrio dentro.
     A expresso no rosto de Amma me deixou paralisado. Parecia que
alguma coisa tinha tirado todo seu ar.
     -- Amma, voc est bem?
     Estiquei a mo para alcanar o cotovelo dela, para apoi-la caso fosse
desmaiar. Mas ela puxou o brao antes que eu pudesse toc-la, como se
tivesse queimado a mo ao mexer na panela.
     -- Onde pegou isso? -- A voz dela era um sussurro.
     -- Achamos na terra, em Ravenwood.
     -- Voc no achou isso na fazenda Ravenwood.
     -- De que a senhora est falando? Sabe a quem pertenceu?
     -- Fique bem a. No se mexa -- instruiu ela, e saiu correndo da
cozinha.
     Mas eu a ignorei e a segui at seu quarto. Sempre tinha parecido mais
com uma botica do que com um quarto, com uma cama de solteiro baixa
branca enfiada embaixo de fileiras de prateleiras. Nas prateleiras havia
jornais bem arrumados (Amma nunca jogava fora uma palavra cruzada
terminada) e potes de vidro cheios do estoque dela de ingredientes para fazer
amuletos. Alguns eram os tradicionais de sempre: sal, pedras coloridas, ervas.
E havia a coleo mais incomum, como um pote de razes e outro de ninhos
de pssaro abandonados. A prateleira do alto era de garrafas de terra. Ela
estava agindo de forma esquisita, mesmo para seus padres. Eu estava a
apenas alguns passos atrs dela, mas ela j estava revirando as gavetas
quando cheguei.
     -- Amma, o que a senhora est...
     -- No mandei voc ficar na cozinha? No traga essa coisa aqui! -- ela
gritou quando dei um passo a frente.
     -- Por que est to nervosa? -- Ela enfiou algumas coisas que no pude
ver no avental e saiu correndo do quarto. Eu a alcancei na cozinha. --
Amma, qual  o problema?
     -- Pegue isso. -- Ela me deu um leno esfarrapado, tomando o cuidado
para no deixar a mo dela tocar na minha. -- Agora enrole essa coisa a.
Agora, nesse segundo.
     Isso era mais do que escurecer. Ela estava enlouquecendo.
     -- Amma...
     -- Faa o que eu digo, Ethan. -- Ela nunca me chamava pelo meu nome
sem meu sobrenome.
     Depois que o medalho estava bem enrolado no leno, ela se acalmou
um pouco. Remexeu nos bolsos de baixo do avental e tirou uma bolsinha de
couro e um vidrinho com um p. Eu sabia o suficiente para reconhecer os
ingredientes de um amuleto quando os via. Sua mo tremeu ligeiramente
quando colocou um pouco do p escuro na bolsinha de couro.
     -- Voc amarrou bem?
     -- Aham -- falei, esperando que ela me corrigisse por responder a ela de
maneira to informal.
     -- Tem certeza?
     -- Tenho.
     -- Agora coloque aqui dentro. -- A bolsa de couro era quente e macia
ao toque da minha mo. -- Vamos.
     Coloquei o medalho ofensivo na bolsinha.
     -- Amarre isso ao redor -- ela instruiu, entregando-me um pedao do
que parecia uma corda comum, mas eu sabia que nada do que Amma usava
em seus amuletos era comum e nem mesmo era o que parecia. -- Agora leve
de volta para onde achou e o enterre. Leve imediatamente.
     -- Amma, o que est acontecendo?
     Ela deu alguns passos para frente e segurou meu queixo, tirando uma
mecha de cabelo de cima dos meus olhos. Pela primeira vez desde que tirei o
medalho do bolso, ela me olhou nos olhos. Ficamos desse jeito pelo que
pareceu ser o mais longo minuto da minha vida. A expresso dela no era
comum, estava confusa.
     -- Voc no est pronto -- sussurrou ela, afastando a mo.
     -- No estou pronto para o qu?
     -- Faa como digo. Leve essa bolsinha de volta para onde voc
encontrou o objeto e a enterre. Depois volte imediatamente para casa. No
quero que se meta mais com aquela garota, voc me ouviu?
     Ela tinha dito tudo que planejou dizer, talvez mais. Mas eu nunca
saberia, porque tinha uma coisa em que Amma era melhor do que ler cartas e
decifrar palavras cruzadas: guardar um segredo.




-- Ethan Wate, est acordado?
     Que horas eram? Nove e meia. Sbado. Eu j devia ter acordado, mas
estava exausto. Na noite anterior, passei duas horas dando voltas para que
Amma acreditasse que voltei a Greenbrier para enterrar o medalho.
     Sa da cama e cambaleei pelo quarto, tropeando em uma caixa de
biscoitos velhos. Meu quarto sempre era uma baguna, cheio de tanta coisa,
que meu pai disse que havia perigo de incndio e um dia eu ia incendiar a
casa toda, apesar de ele no ir l h muito tempo. Alm do meu mapa, as
paredes e o teto eram cobertos de psteres de lugares que eu esperava visitar
um dia: Atenas, Barcelona, Moscou, at o Alasca. O quarto estava repleto de
pilhas de caixas de sapato, algumas com um metro, at um metro e vinte de
altura. Apesar de as pilhas parecerem aleatrias, eu sabia a localizao de
cada caixa, desde a caixa branca da Adidas com minha coleo de isqueiros
da minha poca piro- manaca no oitavo ano at a verde da New Balance
com os cartuchos de bala e pedaos rasgados de bandeira que achei em Fort
Sumter com minha me.
     E a que eu estava procurando, a caixa amarela da Nike, com o medalho
que tinha deixado Amma transtornada. Abri a caixa e peguei a macia
bolsinha de couro. Escond-la tinha parecido ser uma boa ideia ontem 
noite, mas coloquei-a de volta no meu bolso s por precauo.
     Amma gritou do p da escada de novo.
     -- Desa aqui ou vai se atrasar.
     -- Deso em um minuto.
     Todo sbado eu passava metade do dia com as trs mulheres mais velhas
de Gatlin, minhas tias-avs Mercy, Prudence e Grace. Todos na cidade as
chamavam de As Irms, como se fossem uma entidade nica, o que de certa
forma elas eram. Cada uma tinha mais ou menos uns 100 anos, e nem
mesmo elas conseguiam lembrar quem era a mais velha. Todas tinham sido
casadas vrias vezes, mas tinham vivido mais tempo que os maridos e se
mudaram para a casa da tia Grace para morarem juntas. E eram ainda mais
malucas do que velhas.
     Quando eu tinha uns 12 anos, minha me comeou a me levar l aos
sbados para ajudar, e eu sempre vou desde ento. A pior parte era que eu
tinha que lev-las  igreja no sbado. As Irms eram batistas sulistas e iam 
igreja aos sbados e domingos, e na maioria dos outros dias tambm.
     Mas hoje era diferente. Sa da cama e entrei no chuveiro antes que
Amma pudesse me chamar uma terceira vez. Mal podia esperar para chegar
l. As Irms sabiam sobre todo mundo que j tinha morado em Gatlin; e
deviam mesmo saber, pois elas tinham se relacionado com metade da cidade
por casamento, em um momento ou outro. Depois da viso, era bvio que o
G em GKD significava Genevieve. Mas se havia algum que poderia saber o
significado das outras iniciais, seriam as trs mulheres mais velhas da cidade.
     Quando abri a gaveta de cima da minha cmoda para pegar meias,
reparei em uma pequena boneca que parecia com um macaco de meia
segurando um pequenino saco de sal e uma pedra azul, um dos amuletos de
Amma. Ela os fazia para afastar os maus espritos ou o azar, e at mesmo um
resfriado. Tinha posto um sobre a porta do escritrio do meu pai quando ele
comeou a trabalhar aos domingos em vez de ir  igreja. Embora meu pai
nunca prestasse muita ateno quando estava l, Amma dizia que o Bom
Deus ainda nos dava crdito por comparecer. Uns dois meses depois, meu pai
comprou para ela uma bruxa cozinheira pela internet e a pendurou sobre o
fogo. Amma ficou to zangada que serviu canjica fria e caf queimado por
uma semana para ele.
     Normalmente eu no dava muita bola quando achava um dos
presentinhos de Amma. Mas havia alguma coisa sobre o medalho. Alguma
coisa que ela no queria que eu descobrisse.




Havia s uma palavra para descrever a cena quando cheguei  casa das
Irms. Caos. Tia Mercy abriu a porta, o cabelo ainda com rolinhos.
     -- Graas a Deus voc chegou, Ethan. Temos uma E-mergncia nas,
mos -- ela disse, pronunciando o "E" como se fosse uma palavra por si s.
Metade do tempo eu no conseguia entender o que diziam, pois os sotaques
eram muito carregados e a gramtica, ruim. Mas era assim em Gatlin; dava
para saber a idade de algum pela forma como falava.
     -- Senhora?
     -- Harlon James est ferido, e no estou convencida de que no esteja
prestes a falecer. -- Ela sussurrou as duas ltimas palavras como se Deus Em
Pessoa pudesse estar ouvindo, e no quisesse dar ideias a Ele. Harlon James
era o yorkshire terrier de tia Prudence, batizado em homenagem ao mais
recente marido falecido.
     -- O que aconteceu?
     -- Vou contar o que aconteceu -- disse tia Prudence, aparecendo do
nada com um kit de primeiros socorros na mo. -- Grace tentou matar o
pobre Harlon James, e ele mal est aguentando.
     -- Eu no tentei mat-lo -- gritou tia Grace da cozinha. -- No invente
histrias, Prudence Jane. Foi um acidente!
     -- Ethan, ligue para Dean Wilks e diga que temos uma E-mergncia --
instruiu tia Prudence, tirando uma cpsula de sais aromticos e dois bandaids
extragrandes do kit de primeiros socorros.
     -- Ele est morrendo! -- Harlon James estava deitado no cho da
cozinha, parecendo traumatizado mas nada perto da morte. A perna de trs
estava enfiada embaixo dele, e se arrastava quando ele tentava ficar de p. --
Grace, com o Senhor por testemunha, se Harlon James morrer...
     -- Ele no vai morrer, tia Prue. Acho que a perna est quebrada. O que
aconteceu?
     -- Grace tentou bater nele at matar com uma vassoura.
     -- No  verdade. J falei, no estava usando meus culos e ele parecia
uma ratazana de cais do porto correndo pela cozinha.
     -- Como voc saberia como  uma ratazana de cais do porto? Voc
nunca foi a um cais do porto na vida.
     Ento levei as Irms, que estavam completamente histricas, e Harlon
James, que provavelmente desejava estar morto, at a casa de Dean Wilks no
Cadillac 1964 delas. Dean Wilks era dono da loja de raes, mas era o que a
cidade tinha mais prximo de um veterinrio. Felizmente, Harlon James
sofria apenas de uma perna quebrada, ento Dean Wilks poderia resolver o
problema.
     Quando voltamos para a casa, eu estava pensando se o louco no era eu
por pensar que conseguiria qualquer informao com as Irms. O carro de
Thelma estava na entrada da garagem. Meu pai tinha contratado Thelma
para ficar de olho nas Irms depois que tia Grace quase botou fogo m casa h
dez anos, ao colocar uma torta de limo com merengue no forno e deix-la l
a tarde toda quando estavam na igreja.
     -- Onde vocs estavam, meninas? -- gritou Thelma da cozinha.
     Elas se empurraram tentando chegar primeiro na cozinha para contar a
Thelma a aventura. Sentei em uma das cadeiras ao lado de tia Grace, que
parecia deprimida por ser a vil da histria novamente. Tirei o medalho do
bolso, segurando a corrente no leno, e o rodei algumas vezes.
     -- O que voc tem a, bonito? -- perguntou Thelma, pegando um
pouco de tabaco da lata que ficava no peitoril da janela e colocando no lbio
inferior, o que era ainda mais estranho do que parece, porque Thelma era
meio delicada e parecia com Dolly Parton.
     --  s um medalho que encontrei perto da fazenda Ravenwood.
     -- Ravenwood? Que diabos voc estava fazendo l?
     -- Minha amiga est morando l.
     -- Est falando de Lena Duchannes? -- perguntou tia Mercy.  claro
que ela sabia, a cidade inteira sabia. Estvamos em Gatlin.
     -- Sim, senhora. Estamos na mesma turma da escola. -- Tinha
conseguido a ateno delas. -- Encontramos esse medalho no jardim atrs
casa grande. No sabemos a quem pertenceu, mas parece muito velho.
     -- Aquela no  a propriedade de Macon Ravenwood.  parte de
Greenbrier -- disse tia Prue, parecendo bastante segura.
     -- Me deixe dar uma olhada nisso -- pediu tia Mercy, tirando os culos
do bolso do casaco.
     Passei a ela o medalho, ainda enrolado no leno.
     -- Tem uma inscrio.
     -- No consigo ler isso. Grace, voc consegue ler? -- ela perguntou
passando o medalho para tia Grace.
     -- No vejo nada -- disse tia Grace, apertando os olhos.
     -- Tem dois grupos de iniciais bem ali -- falei, apontando para os
entalhes no metal -- , ECW e GKD. E se virar o medalho, tem uma data.
Onze de fevereiro de 1865.
     -- Essa data parece bastante familiar -- disse tia Prudence. -- Mercy, o
que aconteceu nessa data?
     -- Voc no se casou nessa data, Grace?
     -- 1865, no 1965 -- corrigiu tia Grace. A audio delas no era muito
melhor do que a viso. -- 11 de fevereiro de 1865...
     -- Foi o ano em que os Federais quase incendiaram Gatlin
completamente -- lembrou tia Grace. -- Nosso bisav perdeu tudo naquele
incndio. No se lembram da histria, meninas? O general Sherman e o
exrcito da Unio marcharam direto pelo sul, queimando tudo no caminho,
incluindo Gatlin. Chamaram isso do Grande Incndio. Pelo menos parte de
todas as fazendas de Gatlin foi destruda, exceto Ravenwood. Meu av dizia
que Abraham Ravenwood deve ter feito um pacto com o diabo naquela noite.
     -- O que voc quer dizer com isso?
     --  o nico jeito de aquele lugar ter sido deixado em p. Os Federais
incendiaram todas as fazendas ao longo do rio, uma de cada vez, at
chegarem a Ravenwood. Ento marcharam direto, como se ela no estivesse
l.
     -- Pelo que vov falou, no foi a nica coisa estranha naquela noite --
disse tia Prue, dando um pedao de bacon a Harlon James. -- Abraham
tinha um irmo que morava com ele, e ele sumiu naquela noite. Ningum
nunca o viu de novo.
     -- Isso no parece to estranho. Talvez tenha sido morto pelos soldados
da Unio, ou tenha ficado preso em uma das casas em chamas -- falei.
     Tia Grace ergueu uma sobrancelha.
     -- Ou talvez tenha sido outra coisa. Nunca encontraram o corpo.
     Eu me dei conta de que as pessoas falavam dos Ravenwood h geraes;
no tinha comeado com Macon Ravenwood. Pensei no que mais as Irms
saberiam.
     -- E quanto a Macon Ravenwood? O que mais sabem sobre ele?
     -- Aquele menino nunca teve uma oportunidade por conta de ser I-
legtimo. -- Em Gatlin, ser ilegtimo era como ser comunista ou ateu. -- O
pai dele, Silas, conheceu a me de Macon depois que a primeira esposa dele o
deixou. Ela era uma garota bonita de Nova Orleans, eu acho. De qualquer
maneira, no muito depois, Macon e o irmo dele nasceram. Mas Silas nunca
se casou com ela, e depois ela o deixou tambm.
     Tia Prue interrompeu:
     -- Grace Ann, voc no sabe contar uma histria. Silas Ravenwood era
E-xcntrico, e to cruel quanto o dia  longo. E havia coisas estranhas
acontecendo naquela casa. As luzes ficavam acesas a noite inteira, e de vez
um quando um homem de cartola preta era visto andando por l.
     -- E um lobo. Conte para ele do lobo.
     Eu no precisava que me contassem do cachorro, ou seja l o que fosse
Tinha visto com meus olhos. Mas no podia ser o mesmo animal. Cachorros,
at mesmo lobos, no viviam tanto tempo.
     -- Havia um lobo na casa. Era como se fosse de estimao para Silas! --
Tia Mercy balanou a cabea.
     -- Mas aqueles meninos, eles ficavam se mudando de um lugar a outro,
entre Silas e a me deles, e quando estavam com ele, Silas os tratava muito
mal. Batia neles o tempo todo e mal os deixava sair. Ele nem os deixava ir 
escola.
     -- Talvez seja por isso que Macon Ravenwood nunca sai de casa --
ponderei.
     Tia Mercy balanou a mo no ar, como se fosse a coisa mais idiota que
ela j tivesse ouvido.
     -- Ele sai de casa. J o vi vrias vezes no prdio da FRA, depois da hora
do jantar.
     Claro que tinha visto.
     Esse era o problema com as Irms: metade do tempo elas estavam
ligadas  realidade, mas era s na metade do tempo. Eu nunca tinha ouvido
ningum falar em ter visto Macon Ravenwood, ento duvidava que ele
estivesse no prdio da FRA, olhando amostras de tintas e dando em cima d
Sra. Lincoln.
     Tia Grace observou o medalho com mais cuidado, levando-o para perto
da luz.
     -- Posso dizer uma coisa. Esse leno aqui pertenceu a Sulla Treadeau.
Sulla, a Profeta, era como a chamavam. As pessoas diziam que ela podia ver
o futuro nas cartas.
     -- Cartas de tar? -- perguntei.
     -- Que outro tipo de cartas existe?
     -- Bem, h cartas de baralho, cartas de correspondncia... -- falou tia
Mercy.
     -- Como sabe que o leno pertenceu a ela?
     -- As iniciais dela esto bordadas bem aqui na ponta, e v aquilo ali? --
perguntou, apontando para um pequeno pssaro bordado sob as iniciais. --
Era a marca dela.
     -- Marca?
     -- A maioria dos leitores de cartas tinha uma marca naquela poca. Eles
marcavam as cartas para garantir que ningum as trocasse. Um leitor s 
bom se tem boas cartas. Isso eu sei -- disse Thelma, cuspindo no pequeno
vaso no canto do recinto com a preciso de um atirador.
     Treadeau. Era o sobrenome de Amma.
     -- Ela era parente de Amma?
     --  claro que era. Ela era tatarav de Amma.
     -- E as iniciais no medalho? ECW e GKD? Sabem alguma coisa sobre
elas?
     Era um tiro no escuro. Eu no lembrava a ltima vez que as Irms
tinham tido um momento de lucidez to longo.
     -- Voc est provocando uma velha, Ethan Wate?
     -- No, senhora.
     -- ECW. Ethan Carter Wate. Ele foi seu tatara-tio, ou seria tatara-tatara-
tio?
     -- Voc nunca foi boa em aritmtica -- interrompeu tia Prudence.
     -- De qualquer modo, ele era irmo do seu tatara-tatarav Ellis.
     -- O irmo de Ellis Wate se chamava Lawson, no Ethan. Foi da que
ganhei meu nome do meio.
     -- Ellis Wate tinha dois irmos, Ethan e Lawson. Voc foi batizado em
homenagem aos dois. Ethan Lawson Wate.
     Tentei visualizar minha arvore genealgica. J a tinha visto muitas vezes.
E se havia alguma coisa que um sulista conhecia era sua rvore genealgica.
No havia nenhum Ethan Carter Wate na cpia emoldurada em nossa sala
de jantar. Eu obviamente tinha superestimado a lucidez de tia Grace.
     Devo ter aparentado no estar convencido, porque um segundo depois
tia Prue estava de p, fora da cadeira.
     -- Tenho a rvore genealgica dos Wate no meu livro de genealogia.
Mantenho registros de toda linhagem para as Irms da Confederao.
     As Irms de Confederao, a prima pobre do FRA, porm igualmente
horrenda, era um tipo de crculo de costura remanescente da Guerra. Hoje
em dia, os integrantes passavam a maior parte do tempo pesquisando suas
razes da Guerra Civil para documentrios e minissries como The Blue and
the Gray.
     -- Aqui est. -- Tia Prue estava de volta, carregando um enorme lbum
de capa de couro, com folhas amareladas e fotos velhas aparecendo nas
beiradas. Ela folheou as pginas, deixando cair pedaos de papel e recortes de
jornais velhos no cho.
     -- Olhe s isso... Burton Free, meu terceiro marido. Ele no foi o mais
bonito dos meus maridos? -- perguntou ela, mostrando a fotografia rachada
para todos ns.
     -- Prudence Jane, continue procurando. Esse menino est testando nossa
memria. -- Tia Grace estava claramente perturbada.
     -- Est bem aqui, depois da rvore dos Statham.
     Olhei para os nomes que eu conhecia to bem da rvore genealgica
     sala de jantar da minha casa.
     L estava o nome, o nome que faltava na rvore genealgica da
propriedade Wate: Ethan Carter Wate. Por que as Irms teriam uma verso
diferente da minha rvore genealgica? Era bvio qual rvore era a
verdadeira. Eu estava com a prova na minha mo, enrolada no leno da
profetisa de 150 anos atrs.
     -- Por que ele no est na minha rvore genealgica?
     -- A maioria das rvores genealgicas do sul  cheia de mentiras, ma
estou surpresa de ele ter chegado a alguma cpia da rvore genealgica d
famlia Wate -- disse tia Grace, fechando o lbum e fazendo subir um nuvem
de poeira.
     --  s devido a meus excelentes registros que ele chegou a esta. -- Tia
Prue sorriu com orgulho, mostrando a dentadura.
     Eu tinha que faz-las se concentrarem.
     -- Por que ele no estaria na rvore genealgica, tia Prue?
     -- Por ser um desertor.
      Eu no estava entendendo.
      -- O que voc quer dizer com desertor?
      -- Meu Deus, o que ensinam a vocs jovens naquela escola chique? --
Tia Grace estava ocupada catando os pretzels do Chex Mix.
      -- Desertores. Os Confederados que abandonaram o general Lee
durante a guerra. -- Devo ter parecido confuso, porque tia Prue se sentiu
compelida a explicar. -- Havia dois tipos de soldados confederados durante a
guerra. Os que apoiavam a causa da confederao e os que eram obrigados
pelas famlias a se alistar.
      Tia Prue ficou de p e foi at a bancada, andando de um lado para o
outro como uma verdadeira professora de Histria dando uma palestra.
      -- Em 1865, o exrcito de Lee estava cansado, com fome e em
desvantagem numrica. Alguns dizem que os rebeldes estavam perdendo a f,
ento simplesmente foram embora. Desertaram seus regimentos. Ethan
Carter Wate foi um deles. Ele foi um desertor.
      Todas trs abaixaram as cabeas como se a vergonha fosse demais para
elas.
      -- Est me dizendo que ele foi apagado da rvore genealgica porque
no queria morrer de fome lutando do lado errado em uma guerra perdida?
      -- E uma maneira de interpretar, acho.
      --  a coisa mais idiota que j ouvi.
      Tia Grace pulou da cadeira to rpido quanto uma senhora de noventa e
poucos anos pode pular.
      -- No seja insolente conosco, Ethan. A rvore foi mudada muito antes
de ns nascermos.
      -- Desculpe, senhora. -- Ela esticou a saia e sentou novamente. -- Por
que meus pais me batizariam em homenagem a um tatara-tio que
envergonhou a famlia?
      -- Bem, sua me e seu pai tinham opinio prpria sobre tudo aquilo,
com todos aqueles livros que leram sobre a guerra. Voc sabe que eles sempre
foram liberais. Quem sabe o que estavam pensando? Voc tem que perguntar
a seu pai.
      Como se houvesse alguma chance de ele me contar. Mas conhecendo a
sensibilidade dos meus pais, minha me provavelmente tinha tido orgulho de
Ethan Carter Wate. Eu tinha orgulho tambm. Passei a mo sobre a pgina
marrom desbotada do lbum de tia Prue.
     -- E as iniciais GKD? Acho que o G deve ser de Genevieve -- falei, j
sabendo a resposta certa.
     -- GKD. Voc no namorou um garoto com as iniciais GD uma vez,
Mercy?
     -- No consigo lembrar. Voc se lembra de um GD, Grace?
     -- GD... GD? No, no posso dizer que lembre.
     Eu as tinha perdido.
     -- Oh, meu Deus. Olhe a hora, garotas. Est na hora da igreja -- disse
tia Mercy.
     Tia Grace fez um gesto em direo  porta da garagem.
     -- Ethan, seja um bom menino e traga o Cadillac, est bem? Temos que
ajeitar a maquiagem.




Dirigi por quatro quadras para lev-las  missa da tarde na Igreja Batista
Evanglica Missionria e empurrei a cadeira de rodas de tia Mercy pela
entrada de cascalho. Isso levou mais tempo do que o deslocamento de carro,
porque a cada metro a cadeira atolava no cascalho e eu tinha que sacudi-la
para solt-la, quase virando-a e derrubando minha tia-av no cho. Quando
o pastor ouviu o terceiro testemunho, de uma senhora que jurou que Jesus
salvou as roseiras dela de besouros japoneses ou a mo de bordar dela da
artrite, eu j estava com a cabea em outro lugar. Estava girando o medalho
nos dedos, dentro do bolso da minha cala jeans. Por que ele nos mostrou
aquela viso? Por que de repente parou de funcionar?
    Ethan. Pare. Voc no sabe o que est fazendo.
    Lena estava na minha cabea de novo.
    Guarde isso!
    A igreja comeou a desaparecer ao meu redor e eu podia sentir os dedos
de Lena segurando os meus, como se ela estivesse ali ao meu lado...


Nada poderia ter preparado Genevieve para a viso de Greenbrier
queimando. As chamas lambiam as laterais, consumindo as ripas de madeira
e engolindo a varanda. Soldados carregavam antiguidades e quadros para
fora da casa, pilhando como ladres comuns. Onde estava todo mundo?
Estavam se escondendo no bosque como ela? Folhas estalaram. Ela sentiu
algum atrs de si, mas antes que pudesse se virar, uma mo enlameada
cobriu-lhe a boca. Ela pegou o pulso da pessoa com as duas mos, tentando
se soltar.
     -- Genevieve, sou eu. -- A mo afrouxou o toque.
     -- O que est fazendo aqui? Voc est bem? -- Genevieve jogou os
braos ao redor do soldado, vestido com o que tinha restado do que havia
sido o uniforme cinza de Confederado que usara com orgulho.
     -- Estou, amor -- disse Ethan, mas ela sabia que ele estava mentindo.
     -- Pensei que podia estar...
     Genevieve s tinha tido notcias de Ethan por cartas na maior parte dos
ltimos dois anos desde que ele tinha se alistado, e no tinha recebido
nenhuma carta desde a batalha em Wilderness. Genevieve sabia que muitos
dos homens que haviam seguido Lee naquela batalha nunca tinham sado da
Virgnia. Ela havia se resignado a morrer solteirona. Tinha tido muita certeza
de que tinha perdido Ethan. Era quase inimaginvel que ele estava vivo,
parado ali, nesta noite.
     -- Onde esto os outros do seu regimento?
     -- Na ltima vez que os vi, estavam perto de Summit.
     -- O que quer dizer com a ltima vez que os viu? Esto todos mortos?
     -- No sei. Quando parti, ainda estavam vivos.
     -- No entendi.
     -- Eu desertei, Genevieve. No podia lutar nem mais um dia por algo em
que no acredito. No depois do que vi. A maioria dos rapazes lutando
comigo nem se dava conta do que se trata essa guerra, de que esto apenas
derramando sangue por causa de algodo.
     Ethan tomou as mos frias dela nas dele, speras com vrios cortes.
     -- Entendo se no puder se casar mais comigo. No tenho dinheiro e no
tenho honra.
     -- No me importo que no tenha dinheiro, Ethan Carter Wate. Voc 
o homem mais honrado que j conheci. E no ligo se meu pai pensa que
nossas diferenas so grandes demais para superar. Ele est errado. Voc est
em casa agora e vamos nos casar.
     Genevieve se agarrou a ele, com medo de que ele pudesse desaparecer no
ar se o soltasse. O cheiro a levou de volta ao momento. O cheiro ranoso de
limo queimando, da vida de ambos queimando.
     -- Temos que ir para o rio.  para onde mame iria. Ela iria para o sul,
na direo da casa de tia Marguerite.
     Mas Ethan no teve tempo de responder. Algum estava vindo. Galhos
estalavam como se algum se debatesse pelos arbustos.
     -- Fique atrs de mim -- ordenou Ethan, empurrando Genevieve para
trs de si com um brao e segurando o rifle com o outro. O arbusto se abriu e
Ivy, cozinheira de Greenbrier, saiu cambaleando. Ainda estava de camisola,
preta de fumaa. Ela gritou ao ver o uniforme, assustada demais para ver que
era cinza, no azul.
     -- Ivy, voc est bem? -- Genevieve correu para segurar a velha mulher,
que j estava comeando a cair.
     -- Srta. Genevieve, o que est fazendo aqui?
     -- Estava tentando chegar a Greenbrier. Para avisar vocs.
     --  tarde demais para isso, e no teria ajudado em nada. Aqueles azuis
quebraram as portas e entraram na casa como se fosse deles. Deram uma
olhada em tudo para decidir o que queriam levar e depois comearam a
botar fogo. -- Era quase impossvel entend-la. Ela estava histrica, e a todo
momento era tomada de um ataque de tosse, engasgada com a fumaa e suas
prprias lgrimas.
     -- Em toda minha vida nunca vi ningum como aqueles demnios.
Queimando uma casa com mulheres dentro. Cada um deles vai ter que
responder a Deus Todo-Poderoso em pessoa no fim da vida. -- A voz de Ivy
falhou.
     Levou um momento para que as palavras de Ivy fossem processadas.
     -- O que voc quer dizer com queimar uma casa com mulheres dentro?
     -- Lamento, criana.
     Genevieve sentiu as pernas amolecerem. Ajoelhou-se na lama, a chuva
escorrendo-lhe pela face, misturada com as lgrimas. A me, a irm,
Greenbrier... no existiam mais.
     Genevieve olhou para o cu.
     -- Deus ter que responder a mim.
O medalho nos puxou de volta to rpido quanto nos tinha levado para a
viso. Eu estava olhando para o pastor de novo, e Lena no estava l. Eu
conseguia senti-la escapando. Lena?
     Ela no respondeu. Fiquei sentado na igreja suando frio, preso entre tia
Mercy e tia Grace, que estavam revirando as bolsas atrs de trocados para a
cesta de doaes.
     Queimar uma casa com mulheres dentro, uma casa cercada de
limoeiros. A casa onde, aposto, Genevieve perdeu o medalho. Um medalho
entalhado com o dia que Lena nasceu, mas mais de cem anos antes. No era
surpresa que Lena no quisesse ter as vises. Eu estava comeando a
concordar com ela.
     No existem coincidncias.
                       p 14 de setembro p
                 O verdadeiro Boo Radley
                                     d

N
     a noite de domingo, reli O Apanhador no Campo de Centeio at me
     sentir cansado o bastante para dormir. S que eu no ficava cansado o
     bastante. E no conseguia ler, porque ler j no tinha o mesmo efeito.
Eu no conseguia desaparecer no personagem Holden Caulfield, porque no
era capaz de me perder na histria, no do modo que precisamos para nos
tornarmos outra pessoa.
    Eu no estava sozinho na minha cabea. Ela estava cheia de medalhes,
incndios e vozes. Pessoas que eu no conhecia e vises que eu no entendia.
    E tinha mais uma outra coisa. Fechei o livro e coloquei as mos atrs da
cabea.
    Lena? Voc est a, no est?
    Eu olhava para o teto azul.
    No adianta. Sei que voc est a. Aqui. Sei l.
    Esperei at que ouvi. A voz dela, se desdobrando como uma lembrana
pequena e brilhante no canto mais escuro da minha mente.
    No. No exatamente.
    Voc est. Esteve a a noite toda.
    Ethan, estou dormindo. Quero dizer, estava.
    Sorri para mim mesmo.
     No estava no. Estava ouvindo.
     No estava.
     Apenas admita que estava.
     Homens. Vocs pensam que so o centro do universo. Talvez eu apenas
goste daquele livro.
    Voc pode vir aqui sempre que quiser, agora?
    Houve uma longa pausa.
     Normalmente no, mas esta noite meio que aconteceu. Eu ainda no
entendo como acontece.
     Talvez possamos perguntar para algum.
     Tipo quem?
     No sei. Acho que ns vamos ter que descobrir sozinhos. Assim como fo-
das as outras coisas.
    Outra pausa. Tentei no imaginar se o "ns" a tinha assustado, caso ela
pudesse me ouvir. Talvez fosse isso, ou talvez fosse outra coisa; ela no queria
que eu descobrisse nada que tivesse a ver com ela.
    No tente.
    Sorri e senti meus olhos fechando. Mal conseguia mant-los abertos.
    Estou tentando.
    Apaguei a luz.
    Boa-noite, Lena.
    Boa-noite, Ethan.
    Eu esperava que ela no pudesse ler todos os meus pensamentos.
    Basquete. Eu realmente precisaria passar mais tempo pensando em
basquete. E enquanto pensava em todas as tcnicas e regras que tinha na
mente, senti meus olhos fechando, me senti afundando, perdendo controle...




Afogando.
     Eu estava me afogando. Me debatendo na gua verde, as ondas
quebrando sobre minha cabea; Meus ps procuravam o fundo lamacento de
um rio, talvez o Santee, mas no havia nada. Eu conseguia ver algum tipo de
luz brilhando na superfcie, mas no conseguia chegar l.
     Eu estava afundando.
    --  o meu aniversrio, Ethan. Est acontecendo.
    Estiquei o brao. Ela tentou pegar a minha mo, e eu me virei para
alcan-la, mas ela se afastou e eu no conseguia mais segurar. Tentei gritar
ao ver sua mo plida sumir em direo  escurido, mas minha boca se
encheu de gua e no consegui emitir som. Podia sentir que estava sufocando.
Estava comeando a perder a conscincia.
    -- Tentei avisar voc. Voc tem que me deixar ir!
     Sentei na cama. Minha camiseta estava encharcada. Meu travesseiro
estava molhado. Meu cabelo estava molhado. E o quarto estava quente e
mido. Achei que tinha deixado a janela aberta de novo.
     -- Ethan Wate! Voc est me ouvindo?  melhor descer aqui antes de
ontem ou no vai tomar mais caf esta semana.
     Sentei na cadeira ao mesmo tempo em que trs ovos moles deslizaram
para meu prato de torrada e geleia.
     -- Bom-dia, Amma.
     Ela virou de costas para mim sem nem me olhar.
     -- Voc sabe que no tem nada de bom nele. No cuspa nas minhas
costas e diga que est chovendo.
     Ela ainda estava irritada comigo, mas eu no tinha certeza se era porque
sa da sala de aula ou trouxe o medalho para casa. Provavelmente os dois.
Mas no podia culp-la; eu no costumava arrumar problemas na escola.
Aquilo era novidade.
     -- Amma, desculpe por ter sado da aula na sexta-feira. No vai
acontecer de novo. Tudo vai voltar ao normal.
     A expresso dela se suavizou apenas um pouco, e ela se sentou na minha
frente.
     -- Acho que no. Todos fazemos escolhas, e essas escolhas tm
consequncias. Acho que voc passar por um inferno para pagar pelas suas
quando chegar  escola. Talvez comece a me ouvir agora. Fique longe de
Lena Duchannes e daquela casa.
     No era do feitio de Amma ficar do lado de todo mundo da cidade,
considerando que esse normalmente era o lado errado das coisas. Eu via que
ela estava preocupada pelo modo como ficava mexendo o caf, bem depois
do leite j ter desaparecido. Amma sempre se preocupava comigo e eu a
amava por isso, mas alguma coisa parecia diferente desde que mostrei o
medalho a ela. Andei ao redor da mesa e dei um abrao nela. Ela tinha
cheiro de grafite de lpis e balinha de canela, como sempre.
     Ela balanou a cabea, murmurando:
    -- No quero ouvir falar em olhos verdes e cabelos pretos. Est armando
uma nuvem negra hoje, ento tenha cuidado.
    Amma no estava apenas escurecendo. Estava ficando completamente
escura. Eu tambm conseguia sentir a chegada da nuvem negra.




Link encostou o Lata-Velha que tocava umas msicas horrveis, como
sempre. Abaixou o volume quando entrei, o que sempre era um mau sinal.
     -- Temos problemas.
     -- Eu sei.
     -- Jackson arrumou sua prpria multido linchadora hoje.
     -- O que voc soube?
     -- Est rolando desde sexta  noite. Ouvi minha me falando e tentei
ligar pra voc. Onde estava, afinal?
     -- Estava fingindo enterrar um medalho enfeitiado em Greenbrier
para que Amma me deixasse entrar de novo em casa.
     Link riu. Ele estava acostumado a conversas sobre encantos, amuletos e
mau-olhado quando se tratava de Amma.
     -- Pelo menos ela no est fazendo voc usar aquele saco fedido de
cebola em volta do pescoo. Aquilo foi nojento.
     -- Era alho. Para o enterro da minha me.
     -- Foi nojento.
     O lance com Link era que ramos amigos desde o dia em que ele me deu
aquele Twinkie no nibus, e ele no liga muito para o que eu digo ou no
digo. Mesmo naquela poca, a gente sabia quem eram nossos amigos. Gatlin
era assim. Tudo j tinha acontecido h dez anos. Para nossos pais, tudo j
tinha acontecido h vinte ou trinta anos. E para a cidade em si, parecia que
nada acontecia h mais de cem anos. Nada que acarretasse consequncias,
quero dizer.
     Eu tinha a sensao de que isso estava prestes a mudar.
     Minha me teria dito que j era hora. Se havia uma coisa de que minha
me gostava era mudana. Ao contrrio da me de Link. A Sra. Lincoln era
uma pessoa raivosa, tinha uma misso e contatos, uma combinao perigosa.
Quando estvamos no oitavo ano, a Sra. Lincoln arrancou o transmissor de
TV a cabo da parede porque pegou Link vendo um filme de Harry Potter,
uma srie que ela tinha feito campanha para banir da Biblioteca de Gatlin
porque achava que incentivava a bruxaria. Felizmente, Link conseguia fugir
para a casa de Earl Petty para ver MTV, seno a Quem Matou Lincoln
jamais teria se tornado a mais importante (e quando digo mais importante,
quero dizer a nica) banda de rock da Jackson High.
     Nunca entendi a Sra. Lincoln. Quando minha me estava viva, ela
revirava os olhos e dizia: "Link pode ser seu melhor amigo, mas no espere
que eu me junte ao FRA e comece a usar saias com armao para fazer
encenaes." Depois ns dois caamos na gargalhada, imaginando minha
me, que andava quilmetros de campos de batalha lamacentos procurando
velhos cartuchos de bala, que cortava o prprio cabelo com tesouras de
jardim, participando do FRA, organizando vendas de tortas e dizendo para
todo mundo como deviam decorar suas casas.
     Era fcil de imaginar a Sra. Lincoln no FRA. Ela era a secretria de
registros, e at eu sabia disso. Estava no Conselho com as mes de Savannah
Snow e Emily Asher, enquanto minha me passa a maior parte do seu tempo
enfiada na biblioteca olhando uma microficha.
     Passava.




Link ainda estava falando e logo eu j tinha ouvido o bastante para comear a
prestar ateno.
     -- Minha me, a me de Emily e de Savannah... Elas andavam
congestionando as linhas telefnicas nas ltimas duas noites. Ouvi minha me
falando sobre a janela quebrada na aula de Ingls e que ela ouviu dizer que a
sobrinha do Velho Ravenwood estava com sangue nas mos.
     Ele dobrou uma esquina sem nem parar para respirar.
     -- E que tal saber que sua namorada acabou de sair de uma instituio
para doentes mentais na Virgnia e que ela  rf e tem bi-esquizo-mania
alguma coisa.
     -- Ela no  minha namorada. S somos amigos -- respondi
automaticamente.
     -- Cala a boca. Voc est to de quatro que eu devia comprar uma sela
pra voc. -- Ele teria dito aquilo sobre qualquer garota com quem eu
conversasse, sobre quem eu falasse ou mesmo olhasse no corredor.
     -- No  mesmo. No aconteceu nada. S conversamos.
     -- Voc fala tanta merda que podia passar por uma privada. Voc gosta
dela, Wate. Admita.
     Link no era muito de sutilezas, e acho que ele no conseguia imaginar
estar com uma garota por um motivo que no fosse o fato de ela tocar
guitarra, alm dos bvios.
     -- No estou dizendo que no gosto dela. Somos apenas amigos. -- O
que era verdade, quer eu quisesse ou no. Mas essa era uma questo
diferente. De qualquer modo, devo ter sorrido um pouco. Gesto errado.
     Link fingiu vomitar no colo e deu uma guinada, tirando um fino de um
caminho. Mas ele s estava brincando. Link no ligava para quem eu
gostasse, desde que fosse motivo para ele pegar no meu p.
     -- Bem?  verdade? Ela fez mesmo?
     -- Fez o qu?
     -- Voc sabe. Caiu da rvore dos doidos e bateu em todos os galhos
enquanto caa?
     -- A janela quebrou, foi s isso que aconteceu. No tem nenhum
mistrio.
     -- A Sra. Asher est dizendo que ela deu um soco ou jogou alguma coisa
nela.
     -- Engraado, considerando que a Sra. Asher no  da minha turma de
ingls, pelo menos da ltima vez que prestei ateno.
     -- , minha me tambm no , mas ela me disse que vai at a escola
hoje.
     -- timo. Guarde um lugar pra ela na nossa mesa no almoo.
     -- Talvez ela tenha feito a mesma coisa nas outras escolas e por isso foi
pra algum tipo de instituio. -- Link falava srio, o que significava que tinha
ouvido muita coisa desde o incidente da janela.
     Por um segundo, me lembrei do que Lena tinha dito sobre sua vida.
Complicada. Talvez essa fosse uma das complicaes, ou apenas uma das 26
mil outras coisas sobre as quais ela no podia falar. E se todas as Emily Asher
do mundo estivessem certas? E se eu tivesse escolhido o lado errado, afinal?
      -- Tome cuidado, cara. Talvez ela tenha lugar marcado na Cidade dos
Loucos.
      -- Se voc acredita mesmo nisso,  um idiota.
      Entramos no estacionamento da escola sem falar nada. Eu estava
irritado, apesar de saber que Link s estava preocupado comigo. Mas eu no
conseguia evitar. Tudo parecia diferente hoje. Sa do carro e bati a porta.
      Link me chamou:
      -- Estou preocupado com voc, cara. Voc tem agido de um jeito ,
estranho.
      -- Qual , eu e voc somos um casal agora? Talvez voc devesse passar
um pouco mais de tempo se preocupando com o motivo de nem conseguir
que uma garota converse com voc, seja ela louca ou no.
      Ele saiu do carro e olhou para o prdio da administrao.
      -- De qualquer jeito, talvez voc devesse dizer para sua "amiga", seja l o
que isso signifique, para tomar cuidado hoje. Veja.
      A Sra. Lincoln e a Sra. Asher conversavam com o diretor Harper na
escada da frente. Emily estava aninhada ao lado da me, tentando parecer
arrasada. A Sra. Lincoln estava dando um sermo no diretor Harper, que
estava assentindo como se estivesse decorando cada palavra. O diretor
Harper podia mandar na Jackson High, mas ele sabia quem mandava na
cidade. Estava olhando para duas delas.
      Quando a me de Link terminou, Emily iniciou uma verso
particularmente animada do incidente da janela quebrada. A Sra. Lincoln
esticou brao e colocou a mo no ombro de Emily, solidria. O diretor
Harper apenas concordava a cabea.
      Era, com certeza, um dia muito cheio de nuvens.




Lena estava sentada no rabeco, escrevendo em seu caderno surrado. O
motor estava ligado. Bati na janela e ela pulou. Olhou na direo do prdio
da administrao. Tinha visto as mes tambm.
     Gesticulei para que ela abrisse a porta, mas Lena balanou a cabea.
Andei at o lado do passageiro. As portas estavam trancadas, mas ela no ia
se livrar de mim to facilmente. Sentei no cap do carro e deixei minha
mochila cair no cho de cascalho ao meu lado. Eu no ia a lugar algum.
    O que est fazendo?
    Esperando.
    Vai ser uma longa espera.
    Tenho tempo.
     Ela olhou para mim pelo para-brisa. Ouvi as portas sendo destrancadas.
     -- Algum j disse que voc  maluco? -- Ela andou at onde eu estava
sentado, com os braos cruzados como Amma pronta para dar bronca.
     -- No to maluco quanto voc, pelo que ouvi dizer.
     O cabelo dela estava preso atrs com um leno de seda preto que tinha
desenhos de flores de cerejeira cor-de-rosa espalhadas. Eu podia imagin-la se
olhando no espelho, sentindo-se como se estivesse indo para o prprio enterro
e amarrando-o para tentar parecer mais animada. Um cruzamento entre, sei
l, uma camiseta e um vestido preto caa sobre seus jeans e All Star preto. Ela
franziu a testa e olhou para o prdio da administrao. As mes
provavelmente estavam sentadas no escritrio do diretor Harper agora.
     -- Voc consegue ouvi-las?
     Ela sacudiu a cabea.
     -- Eu no consigo ler a mente das pessoas, Ethan.
     -- Consegue ler a minha.
     -- No  verdade.
     -- E ontem  noite?
     -- J falei, no sei por que acontece. Ns simplesmente parecemos... nos
conectar. -- At mesmo a palavra parecia difcil para ela dizer essa manh.
Ela no me olhava nos olhos. -- Nunca foi assim com ningum.
     Eu queria dizer para ela que sabia como se sentia. Queria dizer que
quando estvamos juntos daquele jeito em nossas mentes, mesmo com nossos
corpos a milhes de quilmetros de distncia, eu me sentia mais prximo dela
do que jamais me senti de algum.
     No consegui. No conseguia nem pensar. Pensei sobre basquete, o
menu do refeitrio, o corredor verde cor de sopa de ervilha por onde eu
estava prestes a andar. Pensei em tudo. Em vez de falar disso, inclinei minha
cabea para o lado.
     -- . As garotas dizem isso pra mim sempre. -- Idiota. Quanto mais
nervoso eu ficava, piores eram as minhas piadas.
     Ela deu um sorriso hesitante e torto.
     -- No tente me animar. No vai funcionar. -- Mas estava funcionando.
     Olhei de novo para a escada.
     -- Se voc quer saber o que elas esto dizendo, posso contar pra voc.
     Ela olhou para mim com ceticismo.
     -- Como?
     -- Estamos em Gatlin. No h nada sequer prximo a um segredo aqui.
     --  muito ruim? -- Ela olhou para o outro lado. -- Elas acham que
sou louca?
     -- Basicamente.
     -- Um perigo para a escola?
     -- Provavelmente. No recebemos bem estranhos por aqui. E nada 
mais estranho do que Macon Ravenwood, sem querer ofender. -- Sorri para
ela.
     O primeiro sinal soou. Ela puxou minha manga, ansiosa.
     -- Ontem  noite. Tive um sonho. Voc...?
     Assenti. Ela nem precisava dizer. Eu sabia que ela tinha estado no sonho
comigo.
     -- Fiquei at de cabelo molhado -- ela disse.
     -- Eu tambm.
     Ela esticou o brao. Havia uma marca no seu pulso onde eu tinha
tentado segurar. Antes que ela mergulhasse na escurido. Eu esperava que ela
no tivesse visto aquela parte. A julgar pela expresso do seu rosto, eu tinha
certeza de que tinha visto.
     -- Desculpe, Lena.
     -- No  sua culpa.
     -- Gostaria de saber por que os sonhos so to reais.
     -- Tentei te avisar. Voc devia ficar longe de mim.
     -- Tudo bem. Vou me considerar avisado.
     De alguma forma eu sabia que no podia fazer isso, ficar longe dela.
Apesar de eu estar prestes a entrar na escola e encarar um monte enorme de
merda, eu no ligava. Eu me sentia bem em ter algum com quem podia
conversar sem ter que editar tudo que dizia. E eu podia conversar com Lena;
em Greenbrier senti que poderia ter ficado l sentado no mato conversando
com ela por dias. Por mais tempo. Por tanto tempo quanto ela estivesse l.
     -- O que tem no seu aniversrio? Por que voc disse que pode no estar
aqui depois?
     Ela rapidamente mudou o assunto.
     -- E o medalho? Voc viu o que eu vi? O incndio? A outra viso?
     -- Vi. Eu estava sentado na igreja e quase ca do banco. Mas descobri
algumas coisas com as Irms. As iniciais ECW so de Ethan Carter Wate. Ele
foi meu tatara-tio, e minhas trs tias malucas dizem que recebi meu nome em
homenagem a ele.
     -- Ento por que voc no reconheceu as iniciais no medalho?
     -- Essa  a parte estranha. Eu nunca tinha ouvido falar nele, e ele est
convenientemente omitido na rvore genealgica da minha casa.
     -- E GKD?  Genevieve, certo?
     -- Elas no pareciam saber, mas tem que ser.  ela que aparece nas
vises, e o D deve ser de Duchannes. Eu ia perguntar a Amma, mas quando
mostrei o medalho a ela, seus olhos quase pularam fora da cabea. Como se
eu tivesse sido triplamente amaldioado, encharcado por um balde de vodu e
enrolado com uma praga para garantir. E o escritrio do meu pai  territrio
proibido, mas  onde ele guarda todos os livros antigos da minha me sobre
Gatlin e a guerra. -- Eu estava divagando. -- Voc podia falar com seu tio.
     -- Meu tio no vai saber de nada. Onde est o medalho agora?
     -- No meu bolso, dentro de uma bolsinha cheia de p que Amma jogou
sobre ele quando o viu. Ela acha que o levei de volta para Greenbrier e o
enterrei.
     -- Ela deve me odiar.
     -- No mais do que a qualquer outra das minhas amigas. Quero dizer,
amigas garotas. -- No conseguia acreditar no quanto eu parecia um idiota.
-- Acho que  melhor irmos pra aula antes que a gente arrume mais
problema.
     -- Na verdade, eu estava pensando em ir pra casa. Sei que vou ter que
lidar com eles em algum momento, mas gostaria de viver em negao por
mais um dia.
     -- Voc no vai ter problemas?
     Ela riu.
     -- Com meu tio, o notrio Macon Ravenwood, que acha que a escola 
uma perda de tempo e os bons cidados de Gatlin devem ser evitados a todo
custo? Ele vai ficar feliz.
     -- Ento por que voc vem? -- Eu tinha certeza que Link nunca
apareceria na escola de novo se a me dele no o expulsasse de casa todo dia
de manh.
     Ela mexeu em um dos pingentes do colar que usava, uma estrela de sete
pontas.
     -- Acho que pensei que seria diferente aqui. Talvez eu pudesse fazer
alguns amigos, trabalhar no jornal ou algo assim. No sei.
     -- No nosso jornal? The Jackson Stonewaller?
     -- Tentei entrar para o jornal na minha antiga escola, mas eles disseram
que todas as vagas estavam ocupadas, apesar de nunca terem gente o
suficiente pra escrever pra publicar o jornal na data certa. -- Ela olhou para
o outro lado, sem jeito. -- Eu devia ir.
     Abri a porta para ela.
     -- Acho que voc devia falar com seu tio sobre o medalho. Ele pode
saber mais do que voc pensa.
     -- Acredite em mim, ele no sabe.
     Bati a porta. Por mais que eu quisesse que ela ficasse, parte de mim
estava aliviada que ela ia para casa. Eu teria o bastante para lidar hoje.
     -- Quer que eu entregue isso pra voc? -- Apontei para o caderno no
assento do passageiro.
     -- No, no  dever de casa. -- Ela abriu o porta-luvas e enfiou o
caderno l dentro. -- No  nada.
     Nada que ela fosse me contar, pelo menos.
     --  melhor voc ir antes que Fatty comece a patrulhar o
estacionamento.
     Ela ligou o carro antes que eu pudesse dizer alguma coisa mais e acenou
quando se afastou do meio-fio.
     Ouvi um latido. Me virei e vi o enorme cachorro preto de Ravenwood a
apenas alguns metros, e vi para quem ele estava latindo.
     A Sra. Lincoln sorriu para mim. O cachorro rosnou, o pelo das costa
eriado. A Sra. Lincoln olhou para ele com tanta repulsa que parecia que
estava olhando para o prprio Macon Ravenwood. Em uma briga, no se ao
certo qual deles ganharia.
     -- Cachorros selvagens tm raiva. Algum devia avisar o condado.
     , algum.
     -- Sim, senhora.
     -- Quem foi aquela que vi saindo no carro preto estranho? Vocs
pareciam estar tendo uma boa conversa. -- Ela j sabia a resposta. No era
uma pergunta. Era uma acusao.
     -- Sim, senhora.
     -- Falando em estranho, o diretor Harper estava me contando que est
planejando oferecer para a garota Ravenwood uma transferncia
ocupacional. Ela pode escolher, qualquer escola em trs condados. Desde que
no seja a Jackson.
     No falei nada. Nem olhei para ela.
     --  nossa responsabilidade, Ethan. Do diretor Harper, minha... de todos
os pais em Gatlin. Temos que garantir que os jovens dessa cidade fiquem
longe do perigo. E longe do tipo errado de pessoas. -- O que queria dizer
qualquer um que no fosse como ela.
     Ela esticou a mo e tocou no meu ombro, do mesmo jeito que tinha feito
com Emily h menos de dez minutos.
     -- Tenho certeza de que entende o que quero dizer. Afinal, voc  um de
ns. Seu pai nasceu aqui e sua me foi enterrada aqui Voc faz parte de
Gatlin. Nem todo mundo faz.
     Olhei para ela. Mas ela entrou na van antes que eu pudesse dizer outra
palavra.
     Dessa vez, a Sra. Lincoln queria mais do que queimar alguns livros.




Depois que cheguei  aula, o dia ficou anormalmente normal, estranhamente
normal. No vi nenhuma outra me, apesar de suspeitar que estivessem
enfiadas na diretoria. No almoo, comi trs tigelas de pudim de chocolate
com os caras, como sempre, apesar de estar claro sobre o qu e sobre quem
no amos falar. At mesmo a viso de Emily digitando mensagens de texto
loucamente durante a aula de ingls e de qumica parecia uma espcie de
verdade universal reconfortante. Exceto pelo sentimento de que eu sabia
sobre o qu, ou melhor, sobre quem ela estava escrevendo. Como eu disse,
anormalmente normal.
     At que Link me deixou em casa depois do treino de basquete e decidi
fazer uma coisa completamente insana.




Amma estava de p na varanda da frente, um claro sinal de problema.
     -- Voc a viu?
     Eu devia saber que ela diria isso.
     -- Ela no foi  escola hoje. -- Tecnicamente, era verdade.
     -- Talvez seja melhor assim. Os problemas vo atrs daquela garota
como o cachorro de Macon Ravenwood. Eu no quero problemas vindo
atrs de voc para esta casa.
     -- Vou tomar um banho. O jantar vai ficar pronto logo? Link e eu temos
um trabalho pra fazer mais tarde -- gritei da escada, tentando parecer
normal.
     -- Trabalho? Que tipo de trabalho?
     -- De histria.
     -- Para onde vocs vo e quando esto pretendendo voltar?
     Bati a porta do banheiro antes de responder. Eu tinha um plano, mas
precisava de uma histria, e ela tinha que ser boa.
     Dez minutos depois, sentado  mesa de jantar, eu tinha achado uma
histria. No era perfeita, mas foi a melhor que consegui inventar naquele
curto espao de tempo. Agora eu s precisava faz-la acreditar. Eu no era i o
melhor mentiroso, e Amma no era boba.
     -- Link vai me pegar depois do jantar e vamos ficar na biblioteca at a
hora de fechar. Acho que  por volta das nove ou dez horas.
     Derramei Carolina Gold sobre minha carne de porco grelhada. Carolina
Gold, uma mistura grudenta de molho barbecue com mostarda, era a nica
coisa pela qual o condado de Gatlin era famoso que no tinha nada a ver
com a Guerra Civil.
     -- Biblioteca?
     Mentir para Amma sempre me deixava nervoso, ento eu tentava no
faz-lo com frequncia. E hoje eu estava sentindo o nervosismo,
principalmente no meu estmago. A ltima coisa que eu queria era comer
trs pratos de carne de porco, mas no tinha escolha. Ela sabia exatamente o
quanto eu aguentava. Dois pratos e eu despertaria suspeita. Um prato e ela
me mandaria para o meu quarto com um termmetro e um refrigerante.
Assenti e me dediquei a trabalhar na limpeza do meu segundo prato.
     -- Voc no pe os ps na biblioteca desde...
     -- Eu sei. -- Desde que minha me morreu.
     A biblioteca era o segundo lar da minha me e da minha famlia.
Passvamos todas as tardes de domingo l desde que eu era pequeno e
andava no meio das prateleiras, puxando cada livro com desenho de navio
pirata, cavaleiro, soldado ou astronauta. Minha me costumava dizer: `Aqui 
minha igreja, Ethan.  assim que mantemos sagrado o dia de descanso na
nossa famlia.'
     A bibliotecria-chefe do condado de Gatlin, Marian Ashcroft, era a
amiga mais antiga de minha me, a segunda historiadora mais inteligente de
Gatlin depois da minha me e, at ano passado, parceira de pesquisas dela.
Elas estudaram juntas em Duke, e quando Marian terminou seu PhD em
estudos afro-americanos, seguiu minha me at Gatlin para terminarem seu
primeiro livro juntas. Elas estavam no meio do quinto livro quando o
acidente aconteceu.
     Eu no tinha posto o p na biblioteca desde ento, e ainda no estava
pronto. Mas tambm sabia que nada faria Amma me impedir de ir l. Ela
nem ligaria para verificar. Marian Ashcroft era da famlia. E Amma, que
tinha amado minha me do mesmo jeito que Marian a tinha amado,
respeitava a famlia acima de tudo,
     -- Bem, comporte-se bem e no eleve a voz. Voc sabe o que sua me
dizia. Qualquer livro  um Livro Sagrado, e o lugar onde preservam o Livro
Sagrado tambm  a Casa de Deus. -- Como eu disse, minha me jamais
teria entrado no FRA.
     Link buzinou. Ele ia me dar uma carona no caminho do ensaio da
banda. Sa correndo da cozinha, me sentindo to culpado que tive que lutar
contra o impulso de me jogar nos braos de Amma e confessar tudo, como se
eu fosse um menino de 6 anos de novo, comendo todo o p de gelatina da
despensa. Talvez Amma estivesse certa. Talvez eu tenha feito um buraco no
cu e o universo estivesse prestes a cair sobre mim.




Enquanto eu andava at a porta de Ravenwood, minha mo apertava a pasta
azul brilhante, minha desculpa por aparecer na casa de Lena sem ter sido
convidado. Eu estava passando l para entregar o trabalho de ingls do dia --
era o que eu planejava dizer, pelo menos. Tinha parecido convincente na
minha cabea quando eu ainda estava na minha varanda. Mas agora que eu
estava na varanda de Ravenwood, no tinha tanta certeza.
     Eu normalmente no era o tipo de cara que faria uma coisa dessas, mas
era bvio que no tinha a menor chance de Lena me convidar para ir l. E eu
tinha a sensao de que seu tio podia nos ajudar, de que ele talvez soubesse de
alguma coisa.
     Ou talvez fosse outra coisa. Eu queria v-la. Tinha sido um dia longo e
chato na Jackson sem o Furaco Lena, e eu estava comeando a tentar
entender como aguentei oito tempos sem todos os problemas que ela causava
para mim. Sem todos os problemas que ela me fazia querer causar a mim
mesmo.


                                       ***




Eu podia ver luz passando pelas janelas cobertas de hera. Ouvi barulho de
msica no fundo, msicas antigas de Savannah, daquele compositor da
Gergia que minha me amava. "In the cool cool cool ofthe evening..."
    Ouvi latidos do outro lado da porta antes que tivesse batido, e em
segundos a porta foi aberta. Lena estava l descala, e ela parecia diferente,
arrumada, com um vestido preto com pequenos pssaros bordados, como se
fosse jantar em um restaurante chique. Eu parecia que ia para o Dar-ee Keen
com minha camiseta furada escrito Atari e jeans. Ela saiu para a varanda,
fechando a porta atrs de si.
      -- Ethan, o que est fazendo aqui?
      Levantei a pasta de forma nada convincente.
      -- Trouxe seu dever de casa.
      -- No acredito que voc veio sem avisar. Falei que meu tio no gosta de
estranhos. -- Ela j estava me empurrando para descer a escada. -- Voc
tem que ir. Agora.
      -- Pensei que podamos conversar com ele.
      Atrs de ns, ouvi algum limpando a garganta. Olhei e vi o cachorro de
Macon Ravenwood, e atrs dele, o prprio Macon Ravenwood. Tentei no
parecer surpreso, mas tenho certeza de que me entreguei quando quase dei
um pulo.
      -- Bem, isso  algo que no ouo com frequncia. E odeio desapontar,
pois no sou nada alm de um cavalheiro sulista. -- Ele falava com um
sotaque sulista controlado, mas com perfeita pronncia. --  um prazer
finalmente conhec-lo, Sr. Wate.
      Eu no conseguia acreditar que estava parado em frente dele. O
misterioso Macon Ravenwood. S que eu estava mesmo esperando encontrar
Boo Radley, um cara que se arrastava pela casa de macaco, resmungando
em uma espcie de linguagem monossilbica como um neandertal, talvez at
babando um pouco nos cantos da boca.
      Ele no era Boo Radley. Estava mais para Atticus Finch.
      Macon Ravenwood estava vestido impecavelmente, como se fosse, sei l,
1942. A camisa branca engomada estava fechada com antiquados botes de
prata em vez de botes comuns. O palet do smoking estava perfeito, sem um
amassado. Os olhos dele eram escuros e brilhantes; pareciam quase pretos.
Eram enevoados, escurecidos, como as janelas do rabeco que Lena dirigia
pela cidade. No havia como ver dentro daqueles olhos, no havia reflexo.
Eles se destacavam no rosto plido, que era branco como neve, branco como
mrmore, branco como, bem, como era esperado do recluso da cidade. O
cabelo dele era grisalho, mais cinza perto do rosto, preto como o de Lena no
alto.
     Ele poderia ser algum tipo de astro do cinema americano da poca antes
do Technicolor, ou talvez da realeza de algum pequeno pas do qual ningum
nunca tinha ouvido falar por aqui. Mas Macon Ravenwood era daqui. Essa
era a parte confusa. O Velho Ravenwood era o bicho-papo de Gatlin, uma
histria que eu ouvia desde o jardim de infncia. Mas agora ele parecia
pertencer  cidade ainda menos do que eu.
     Ele fechou o livro que estava segurando, nunca tirando os olhos de mim.
Estava olhando para mim, mas era quase como se estivesse olhando atravs
de mim, procurando por alguma coisa. Talvez ele tivesse viso raio-X.
Levando em considerao a semana anterior, tudo era possvel.
     Meu corao batia to alto que eu tinha certeza de que ele podia escutar.
Macon Ravenwood tinha me abalado e sabia disso. Nenhum de ns sorriu. O
cachorro dele estava tenso e rgido ao seu lado, como se esperando a ordem
de ataque.
     -- Onde esto meus modos? Entre, Sr. Wate. Estvamos prestes a nos
sentarmos para jantar. Voc deve se juntar a ns. O jantar  o ponto alto aqui
em Ravenwood.
     Olhei para Lena, esperando alguma dica.
    Diga que no quer ficar.
    Acredite, no quero.
     -- No, est tudo bem, senhor. No quero atrapalhar. S vim deixar o
dever de casa de Lena. -- Levantei a pasta azul brilhante pela segunda vez.
     -- Bobagem, voc tem que ficar. Vamos apreciar alguns cubanos na
estufa depois do jantar, ou voc  um homem de cigarrilhas? A no ser, 
claro, que se sinta pouco  vontade para entrar na casa, e nesse caso eu
entendo perfeitamente. -- Eu no conseguia saber se ele estava brincando.
        Lena passou o brao pela cintura dele, e eu pude ver seu rosto muda
instantaneamente. Como o sol aparecendo entre nuvens negras em um dia
cinzento.
     -- Tio M, no provoque Ethan. Ele  o nico amigo que tenho aqui, e se
voc o espantar, terei que ir morar com tia Del, e assim no ter ningum
para torturar.
     -- Ainda terei Boo.
     O cachorro olhou para Macon com expresso de dvida.
     -- Vou lev-lo comigo.  a mim que ele segue pela cidade, no voc.
     Eu tinha que perguntar:
     -- Boo? O nome do cachorro  Boo Radley?
     Macon deu um sorriso mnimo.
     -- Melhor ele do que eu. -- Ele jogou a cabea para trs e riu, o que me
assustou, pois no havia como eu ter imaginado as feies dele formando ao
menos um sorriso. Ele abriu bem a porta. -- De verdade, Sr. Wate, junte-se a
ns. Eu adoro companhia, e faz sculos que Ravenwood teve o prazer de
receber um convidado do nosso deiicioso pequeno condado de Gatlin.
     Lena sorriu sem jeito.
     -- No seja esnobe, tio M. No  culpa deles que voc nunca fala com
ningum.
     -- E no  minha culpa que tenho uma queda por boa educao,
inteligncia razovel e higiene pessoal satisfatria, no necessariamente nessa
ordem.
     -- Ignore-o. Ele est de mau humor. -- Lena parecia sem graa.
     -- Deixe-me adivinhar. Tem alguma coisa a ver com o diretor Harper?
     Lena assentiu.
     -- A escola ligou. Enquanto o incidente est sendo investigado, estou em
observao. -- Ela revirou os olhos. -- Mais uma "infrao" e vo me
suspender.
     Macon riu com desprezo, como se estivssemos falando de uma coisa
completamente sem consequncias.
     -- Observao? Que divertido. Observao implicaria uma fonte de
autoridade. -- Ele nos empurrou para o hall na frente dele. -- Um diretor
de escola de ensino mdio acima do peso que mal terminou a faculdade e um
bando de donas de casa raivosas com pedigrees piores que o de Boo Radley
no se encaixam nessa categoria.
     Passei pela porta e fiquei paralisado. O hall de entrada era grande e
majestoso, no o modelo de lar de classe mdia no qual havia entrado h
poucos dias. Uma pintura a leo gigantesca, o retrato de uma mulher
incrivelmente bela com olhos dourados brilhantes, ficava sobre a escadaria,
que no era mais moderna, mas uma escadaria clssica que parecia apoiada
apenas no ar. Scarlett O'Hara podia ter descido por ela em uma saia armada
e no pareceria nada deslocada. Lustres de cristal em camadas estavam
pendurados no teto. O hall estava cheio de moblia vitoriana antiga,
pequenos grupos de cadeiras bordadas cheias de detalhes, tampos de mesa de
mrmore e samambaias graciosas. Uma vela brilhava em cada superfcie.
Portas altas e cobertas de persianas estavam abertas; a brisa trazia o aroma de
gardnias, que estavam arrumadas em altos vasos de prata, posicionados nos
tampos de mesa.
     Por um segundo, quase pensei estar de volta em uma das vises, s que o
medalho estava seguramente envolvido no leno em meu bolso. Eu sabia
porque verifiquei. E aquele cachorro assustador ficava me olhando da
escadaria.
     Mas no fazia sentido. Ravenwood tinha se transformado em uma coisa
completamente diferente desde a ltima vez que estive l. Parecia impossvel,
como se eu tivesse voltado no tempo. Mesmo se no fosse real, queria que
minha me tivesse visto isso. Ela teria amado esse lugar. S que agora parecia
real, e eu sabia que a casa grande era assim a maior parte do tempo. Parecia
com Lena, com o jardim murado, com Greenbrier.
    Por que no era assim antes?
    Do que voc est falando?
    Acho que voc sabe.
     Macon andava na nossa frente. Viramos no que tinha sido uma sala de
estar aconchegante semana passada. Agora era um grandioso salo de baile,
com uma longa mesa com ps em forma de garra posta para trs, como se
eles estivessem me esperando.
     O piano continuou a tocar sozinho no canto. Deduzi que era um
daqueles automticos. A cena era assustadora, como se a sala devesse estar
tomada pelo barulho de copos e risadas. Ravenwood estava dando a festa do
ano, mas eu era o nico convidado.
     Macon ainda estava falando. Tudo que ele dizia ecoava nas paredes
gigantes com afrescos e tetos abobadados e esculpidos.
     -- Acho que sou um esnobe. Abomino cidades pequenas. Abomino
cidados de cidades pequenas. Eles tm mentes estreitas e traseiros enormes.
Isso quer dizer que aquilo que falta neles por dentro existe em excesso por
fora. So como porcarias alimentares. Engordam e no levam a satisfao
nenhuma. -- Ele sorriu, mas no foi um sorriso simptico.
     -- Ento por que no se muda daqui?
     Senti uma onda de irritao que me levou de volta  realidade, fosse qual
fosse a realidade onde eu estava. Uma coisa era eu fazer piada de Gatlin. Era
diferente vindo de Macon Ravenwood. Vinha de um lugar diferente.
     -- No seja absurdo. Ravenwood  meu lar, no Gatlin. -- Ele cuspiu a
palavra como se ela fosse txica. -- Quando eu me for dos limites dessa vida,
terei que encontrar algum para cuidar de Ravenwood no meu lugar, j que
no tenho filhos. Sempre foi meu grande e terrvel objetivo manter
Ravenwood viva. Gosto de pensar sobre mim mesmo como o curador de um
museu vivo.
     -- No seja to dramtico, tio M.
     -- No seja to diplomtica, Lena. Por que voc quer interagir com
aquelas pessoas limitadas da cidade, jamais entenderei.
    O cara est certo.
    Est dizendo que no quer que eu v  escola?
    No... S quis dizer...
     Macon olhou para mim.
     -- Exceto nossa companhia atual,  claro.
     Quanto mais ele falava, mais curioso eu ficava. Quem diria que o Velho
Ravenwood era a terceira pessoa mais inteligente da cidade, depois de minha
me e Marian Ashcroft? Ou talvez a quarta, caso meu pai voltasse a aparecer
algum dia.
     Tentei ver o nome do livro que Macon estava segurando.
     -- O que  isso, Shakespeare?
     -- Betty Crocker, uma mulher fascinante. Eu estava tentando me
lembrar o que os cidados locais consideravam uma refeio noturna. Estava
no clima para uma receita regional esta noite. Decidi fazer carne de porco
grelhada. -- Mais carne de porco grelhada. Me senti enjoado s de pensar.
     Macon puxou a cadeira de Lena com um floreio.
     -- Falando em hospitalidade, Lena, seus primos vm para os Dias de
Reunio. Lembremos de dizer para a Casa e Cozinha que teremos cinco
pessoas a mais.
     Lena parecia irritada.
     -- Direi para a equipe da cozinha e para os empregados da casa, se  isso
que quer dizer, tio M.
     -- O que so os Dias de Reunio?
     -- Minha famlia  muito estranha. A Reunio  s um festival antigo de
colheita, como um Dia de Ao de Graas antecipado. Deixa pra l.
     Eu nunca soube de ningum que visitasse Ravenwood, familiar ou no.
Nunca tinha visto um nico carro virar naquela bifurcao da estrada.
     Macon parecia divertido.
     -- Como quiser. Falando em Cozinha, estou completamente faminto.
Vou ver o que ela preparou para ns.
     Enquanto ele falava, ouvi panelas e potes batendo em algum recinto
distante do salo.
     -- No exagera, tio M. Por favor.
     Observei Macon Ravenwood desaparecer por uma sala. Eu ainda ouvia
o barulho dos seus sapatos elegantes no cho polido. Essa casa era ridcula,
azia a Casa Branca parecer uma cabana de fundo de roa.
     -- Lena, o que est acontecendo?
     -- O que voc quer dizer?
     -- Como ele sabia que devia arrumar o lugar para mim?
     -- Ele deve ter feito isso quando nos viu na varanda,
     -- E quanto a esse lugar? Entrei na sua casa no dia que achamos o
medalho. No era nada desse jeito.
    Conte para mim. Pode confiar.
     Ela brincou com a barra do vestido. Teimosa.
     -- Meu tio gosta de antiguidades. A casa muda o tempo todo. Isso 
mesmo importante?
     Seja l o que fosse que estivesse acontecendo, ela no ia me contar agora.
     -- Tudo bem ento. Voc se importa se eu der uma olhada?
     Ela franziu a testa, mas no disse nada. Levantei da cadeira e andei at a
sala ao lado. Estava arrumada como um pequeno escritrio, com sofs, uma
lareira e algumas pequenas mesas de escrever. Boo Radley estava deitado em
frente ao fogo. Ele comeou a rosnar no momento que botei o p na sala.
     -- Bom cachorrinho.
     Ele rosnou mais alto. Andei de costas para fora da sala. Ele parou de
rosnar e deitou a cabea perto da lareira.
     Sobre a mesa de escrever mais prxima havia um pacote, embrulhado
em papel pardo e amarrado com um barbante. Eu o peguei. Boo Radley
comeou a rosnar de novo. Estava carimbado Biblioteca do Condado de
Gatlin. Eu conhecia o carimbo. Minha me tinha recebido centenas de
pacotes como aquele. S Marian Ashcroft se daria ao trabalho de embrulhar
um livro daquele jeito.
     -- Voc se interessa por bibliotecas, Sr. Wate? Conhece Marian
Ashcroft? -- Macon apareceu do meu lado, pegando o pacote da minha mo
e olhando para ele com prazer.
     -- Sim, senhor. Marian, a Dra. Ashcroft, era a melhor amiga da minha
me. Elas trabalhavam juntas.
     Os olhos de Macon brilharam momentaneamente, e depois nada. O
momento passou.
     --  claro. Que grande burrice minha. Ethan Wate. Eu conhecia sua
me.
     Congelei. Como Macon Ravenwood podia ter conhecido minha me?
     Uma expresso estranha passou por seu rosto, como se estivesse
relembrando algo que tinha esquecido.
     -- Atravs do trabalho dela,  claro. Li tudo que ela escreveu. Na
verdade, se voc olhar de perto as notas de rodap de Fazendas e Plantaes:
Um Jardim Dividido, ver que vrias das fontes primrias de seu estudo
vieram da minha coleo pessoal. Sua me era brilhante, uma grande perda.
     Consegui dar um sorriso.
     -- Obrigado.
     -- Eu ficaria honrado em mostrar minha biblioteca a voc,
naturalmente. Seria um grande prazer compartilhar minha coleo com o
nico filho de Lila Evers.
     Olhei para ele, aturdido pelo som do nome da minha me saindo da
boca de Macon Ravenwood.
     -- Wate. Lila Evers Wate.
     Ele sorriu mais abertamente.
     --  claro. Mas cada coisa no seu tempo. Acredito, pela ausncia de
rudos na Cozinha, que o jantar foi servido. -- Ele deu um tapinha no meu
ombro e andamos de volta para o grande salo.
     Lena estava esperando por ns  mesa, acendendo uma vela que tinha
apagado com a brisa da noite. A mesa estava coberta com um banquete
elaborado, embora eu no conseguisse imaginar como tinha chegado ali. Eu
no tinha visto uma nica pessoa na casa, alm de ns trs. Agora havia uma
nova casa, um cachorro-lobo e tudo isso. E eu tinha esperado que Macon
Ravenwood fosse a parte mais esquisita da noite.
     Havia comida o bastante para alimentar o FRA, todas as igrejas da
cidade e o time de basquete reunidos. S que no era o tipo de comida que j
tivesse sido servido em Gatlin. Havia uma coisa que parecia um porco assado
inteiro, com uma ma enfiada na boca. Um assado de costela com papel-
alumnio embrulhando a ponta de cada costela estava ao lado de um ganso
desfigurado coberto de castanhas. Havia tigelas de molho de carne e outros
molhos e cremes, pes de vrios tipos, repolho e beterraba e pastas que eu
no sabia identificar. E,  claro, sanduches de carne de porco grelhada, que
pareciam bastante deslocados no meio dos outros pratos. Olhei para Lena,
enjoado ao pensar o quanto eu teria que comer para ser educado.
     -- Tio M. Isso  muita coisa.
     Boo, enrolado ao redor das pernas da cadeira de Lena, balanou o rabo
de expectativa.
     -- Bobagem. Isso  uma comemorao. Voc fez um amigo. A Cozinha
vai ficar ofendida.
     Lena olhou para mim com ansiedade, como se tivesse medo de que eu
fosse levantar para ir ao banheiro e fugisse. Dei de ombros e comecei a
encher meu prato. Talvez Amma me deixasse ficar sem caf amanh.
     Quando Macon estava servindo seu terceiro copo de usque, pareceu ser
um bom momento para falar no medalho. Pensando bem, eu o tinha visto
encher o prato de comida, mas no o vi comer nada. As coisas pareciam
desaparecer de seu prato com apenas uma ou duas garfadas. Talvez Boo
Radley fosse o cachorro mais sortudo da cidade.
     Dobrei meu guardanapo.
     -- O senhor se importa se eu perguntar uma coisa? J que o senhor
parece saber tanto sobre Histria e, bem, no posso perguntar para minha
me.
    O que voc est fazendo?
    S estou fazendo uma pergunta.
    Ele no sabe de nada.
    Lena, temos que tentar.
    --  claro.
    Macon tomou um gole do copo.
    Enfiei a mo no bolso e peguei o medalho da bolsinha que Amma tinha
me dado, tomando cuidado para mant-lo embrulhado no leno. Todas as
velas se apagaram. As luzes ficaram fracas e depois tambm se apagaram. At
a msica do piano parou.
    Ethan, o que voc est fazendo?
    No fiz nada.
     Ouvi a voz de Macon na escurido,
     -- O que  isso na sua mo, filho?
     --  um medalho, senhor.
     -- Incomodaria muito bot-lo de volta no bolso? -- A voz dele estava
calma, mas eu sabia que ele no estava. Eu podia perceber que estava se
esforando muito para se controlar. A atitude falastrona dele tinha sumido. A
voz estava meio aguda, tinha uma sensao de urgncia que ele estava
tentando muito disfarar.
     Enfiei o medalho de volta na bolsinha e a coloquei no meu bolso. Na
outra ponta da mesa, Macon tocou os dedos nos candelabros. Um a um, as
velas na mesa acenderam de novo. O banquete todo tinha desaparecido.
      luz de velas, Macon parecia sinistro. E tambm estava em silncio pela
primeira vez desde que o conheci, como se pesasse suas opes em uma
balana invisvel que de alguma forma tinha nosso destino nela. Era hora de
ir. Lena estava certa, isso era uma pssima ideia. Talvez houvesse uma razo
para que Macon Ravenwood nunca sasse de casa.
     -- Desculpe, senhor. Eu no sabia que isso ia acontecer. Minha
governanta, Amma, agiu como... como se o medalho fosse realmente
poderoso quando o mostrei a ela. Mas quando Lena e eu o achamos, nada de
ruim aconteceu.
    No conte mais nada a ele. No mencione as vises.
    No contarei. S queria descobrir se eu estava certo sobre Genevieve.
   Ela no precisava se preocupar; eu no queria contar nada a Macon
Ravenwood. S queria sair dali. Comecei a me levantar.
   -- Acho que preciso ir para casa, senhor. Est ficando tarde.
   -- Voc se importa de descrever o medalho para mim? -- Foi mais
uma ordem do que um pedido.
   No falei uma palavra.
   Foi Lena que finalmente falou.
   --  velho e est danificado, com um camafeu na frente. Achamos em
Greenbrier.
     Macon girou o anel de prata, agitado.
     -- Voc devia ter me contado que foi a Greenbrier. No  parte de
Ravenwood. No posso mant-la segura l.
     -- Eu estava segura l. Dava pra sentir.
     Segura de qu? Isso era mais do que um pouco superprotetor.
     -- No estava.  alm dos limites. No pode ser controlado, por
ningum. H muita coisa que voc no sabe. E ele... -- Macon gesticulou em
minha direo na outra ponta da mesa. -- Ele no sabe de nada. No pode
proteger voc. Voc no devia t-lo envolvido nisso.
     Eu falei. Tinha que falar. Ele estava falando sobre mim como se eu nem
estivesse l.
     -- Isso se trata de mim tambm, senhor. H iniciais na parte de trs do
medalho. ECW. ECW era Ethan Carter Wate, meu tatara-tio. E as outras
iniciais eram GKD, e estamos bastante certos de que o D representa
Duchannes.
    Ethan, pare.
     Mas eu no podia.
     -- No h motivo para esconder nada de ns porque seja l o que for que
esteja acontecendo, est acontecendo com ns dois. E goste ou no, parece
estar acontecendo agora.
     Um vaso de gardnias voou pela sala e quebrou contra a parede. Esse era
o Macon Ravenwood do qual falvamos desde que ramos crianas.
     -- Voc no tem ideia do que est falando, rapazinho.
     Ele me olhou bem nos olhos, com uma intensidade sombria que fez pelos
do meu pescoo se eriarem. Estava tendo dificuldade em se controlar. Eu
tinha passado dos limites. Boo Radley levantou e andava atrs de Macon
como se estivesse vigiando a presa, os olhos assombrosamente redondos e
familiares.
    No diga mais nada.
    Os olhos dele se apertaram. O glamour de astro de cinema tinha sumido,
substitudo por algo bem mais sinistro. Eu queria correr, mas estava preso ao
cho. Paralisado.
    Eu estava errado sobre a casa e Macon Ravenwood. Estava com medo
dos dois.
     Quando ele finalmente falou, era como se estivesse falando consiga
mesmo.
     -- Cinco meses. Voc sabe at onde irei para mant-la segura por cinco
meses? O que vai custar a mim? Como vai me esgotar, talvez me destruir?
     Sem uma palavra, Lena andou at o lado dele e colocou a mo em seu
ombro. E ento a tempestade nos olhos dele sumiu to rapidamente quanto
chegara, e ele recuperou a compostura.
     -- Amma parece uma mulher sbia. Eu consideraria seguir seus
conselhos. Devolveria o objeto ao lugar onde o encontrou. Por favor, no o
traga  minha casa de novo. -- Macon ficou de p e jogou o guardanapo
sobre a mesa. -- Acho que nossa pequena visita  biblioteca vai ter que
esperar, voc no acha? Lena, pode ajudar seu amigo a encontrar o caminho
de casa?  claro que foi uma noite extraordinria. Extremamente instrutiva.
Por favor, volte, Sr. Wate.
     E ento a sala ficou escura e ele sumiu.

                                     ***

Eu mal podia esperar para sair daquela casa. Eu queria me afastar do tio
assustador de Lena e de sua casa de horrores. Que diabos tinha acabado de
acontecer? Lena me apressou at a porta, como se tivesse medo do que podia
acontecer se no me tirasse de l. Mas quando passamos pelo hall principal,
reparei uma coisa que no tinha reparado antes.
    O medalho. A mulher com os assombrosos olhos dourados na pintura a
leo estava usando o medalho. Agarrei o brao de Lena. Ela viu e ficou
paralisada.
    No estava a antes.
    O que voc quer dizer?
    Esse quadro est pendurado a desde que eu era criana. Passei por ele
milhares de vezes. Ela nunca esteve de medalho.
                     p 15 de setembro p
               Uma bifurcao na estrada
                                      d

  N
        s mal nos falamos enquanto amos de carro para a minha casa. Eu
        no sabia o que dizer, e Lena parecia agradecida por eu estar calado.
        Ela me deixou dirigir, o que era bom porque eu precisava de algo
para me distrair at que minha pulsao desacelerasse. Passamos pela minha
rua, mas eu no me importei. No estava pronto para ir para casa. No sabia
o que estava se passando com Lena nem com sua casa e nem com seu tio,
mas ela ia me contar.
     -- Voc passou direto pela sua rua. -- Foi a primeira coisa que ela disse .
desde que samos de Ravenwood.
     -- Eu sei.
     -- Voc acha que meu tio  louco, como todo mundo. Apenas diga.
Velho Ravenwood. -- A voz dela estava amarga. -- Preciso voltar para casa.
     No falei uma palavra enquanto circulamos General's Green, o pedao
redondo de grama desbotada que rodeava a nica coisa em Gatlin que
chegou a livros de guias tursticos: o general, uma esttua do general da
Guerra Civil Jubal A. Early. O general marcava seu territrio, como sempre
tinha feito, o que agora me parecia meio errado. Tudo tinha mudado; tudo
continuava mudando. Eu estava diferente, vendo coisas e sentindo coisas e
fazendo coisas que mesmo uma semana atrs pareceriam impossveis. Eu
sentia como se o general devesse ter mudado tambm.
     Desci a Dove Street e encostei o rabeco no meio fio, bem embaixo da
placa que dizia BEM-VINDOS A GATLIN, LAR DAS FAZENDAS
HISTRICAS MAIS PECULIARES DO SUL E DA MELHOR TORTA
DE CREME DO MUNDO. Eu no tinha certeza sobre a torta, mas o resto
era verdade.
     -- O que voc est fazendo?
     Desliguei o carro.
     -- Precisamos conversar.
     -- No fico dentro de um carro estacionado com rapazes. -- Era uma
piada, mas eu podia perceber em sua voz. Ela estava apavorada.
     -- Comece a falar.
     -- Sobre o qu?
     -- Est brincando, certo? -- Eu estava tentando no gritar.
     Ela puxou o cordo, remexendo no anel da lata de refrigerante.
     -- No sei o que voc quer que eu diga.
     -- Que tal me explicar o que aconteceu na casa?
     Ela olhava a escurido pela janela.
     -- Ele estava zangado. s vezes ele perde a cabea.
     -- Perde a cabea? Voc quer dizer lanar coisas pela sala sem tocar
nelas e acender velas sem fsforos?
     -- Ethan, desculpa. -- A voz dela estava baixa.
     Mas a minha no estava. Quanto mais ela evitava minhas perguntas,
mais irritado eu ficava.
     -- No quero que pea desculpa. Quero que me conte o que est
acontecendo.
     -- Sobre o qu?
     -- Seu tio e a casa esquisita dele, que ele de alguma forma conseguiu
redecorar em dois dias. A comida que aparece e desaparece. Todo o papo
sobre limites e proteger voc. Escolha um.
     Ela sacudiu a cabea.
     -- No posso falar sobre isso. E voc no entenderia de qualquer jeito.
     -- Como sabe se no me d uma chance?
     -- Minha famlia  diferente de outras famlias. Acredite em mim, voc
no vai conseguir lidar com isso.
     -- O que isso quer dizer?
     -- Encare, Ethan. Voc diz que no  como eles, mas . Voc quer que
eu seja diferente, mas s um pouco. No diferente de verdade.
     -- Sabe de uma coisa? Voc  to doida quanto seu tio.
     -- Voc foi  minha casa sem ser convidado e agora est irritado porque
no gostou do que viu.
     No respondi. Eu no conseguia ver nada pela janela e no consegui
pensar claramente tambm.
     -- E est irritado porque est com medo. Todos esto. No fundo, voc
so todos iguais. -- Lena soava cansada agora, como se j tivesse desistido.
     -- No. -- Olhei para ela. -- Voc est com medo.
     Ela riu com amargura.
     -- T certo. As coisas das quais tenho medo voc no consegue nem
imaginar.
     -- Est com medo de confiar em mim.
     Ela no disse nada.
     -- Est com medo de conhecer algum bem o bastante a ponto de
perceber se ele foi ou no  escola.
     Ela passou o dedo pelo embaado na janela. Fez uma linha tremida
como um ziguezague.
     -- Est com medo de ficar e ver o que acontece.
     O ziguezague virou uma coisa que parecia um raio.
     -- Voc no  daqui. Est certa. E no  s um pouco diferente.
     Ela ainda olhava pela janela, para o nada, porque ainda no dava para
ver l fora. Mas eu podia v-la. Eu podia ver tudo.
     --     Voc         incrivelmente,    absolutamente,      extremamente,
inacreditavelmente diferente. -- Toquei o brao dela com a ponta dos dedos,
e imediatamente senti o calor da eletricidade. -- Sei disso porque l no fundo
eu acho que tambm sou. Ento me diga. Por favor. Diferente como?
     -- No quero contar pra voc.
     Uma lgrima escorreu por sua bochecha. Peguei-a com meu dedo, e ela
tambm era quente.
     -- Por que no?
     -- Porque essa pode ser minha ltima chance de ser uma garota normal,
mesmo que seja em Gatlin. Porque voc  meu nico amigo aqui. Porque se
eu contar, voc no vai acreditar em mim. Ou pior, vai acreditar. -- Ela
abriu os olhos e olhou dentro dos meus. -- De qualquer modo, voc nunca
mais vai querer falar comigo.
     Houve uma batida na janela, e ns dois pulamos. Uma lanterna brilhou
pela janela embaada. Baixei a mo e desci a janela, xingando baixinho.
     -- Crianas, se perderam indo pra casa? -- Fatty. Ele estava sorrindo
como se tivesse dado de cara com dois donuts na rua.
     -- No, senhor. Estamos a caminho de casa agora.
     -- Esse carro no  seu, Sr. Wate.
     -- No, senhor.
     Ele jogou o facho da lanterna em direo a Lena, deixando-a iluminada
por um longo tempo.
     -- Ento vo em frente, vo pra casa. Voc no quer deixar Amma
esperando.
     -- Sim, senhor.
     Virei a chave na ignio. Quando olhei pelo retrovisor, pude ver a
namorada dele, Amanda, no banco da frente do carro de polcia, rindo.




Bati a porta do carro. Eu podia ver Lena pela janela do motorista agora
enquanto ela esperava em frente  minha casa.
     -- Te vejo amanh.
     -- Claro.
     Mas eu sabia que no nos veramos de novo no dia seguinte. Sabia que se
ela dirigisse at o fim da minha rua, era o fim. Era um caminho, como a
bifurcao que levava a Ravenwood ou Gatlin. A gente tinha que escolher
um. Se ela no pegasse esse agora, o rabeco continuaria seguindo pelo outro
caminho na bifurcao, passando direto por mim. Assim como na primeira
manh que o vi.
     Se ela no me escolhesse.
     Ningum podia pegar dois caminhos. E depois de escolher um, no era
possvel voltar. Ouvi a marcha sendo engrenada, mas continuei andando at
minha porta. O rabeco foi embora.
     Ela no me escolheu.
Estava deitado na minha cama, de frente para a janela. A luz da lua entrava
por ela, o que era irritante, pois me impedia de adormecer quando tudo que
eu queria era que aquele dia terminasse.
    Ethan. A voz era to suave que quase no consegui ouvir.
    Olhei para a janela. Estava trancada, eu tinha me assegurado disso.
    Ethan. Por favor.
    Fechei meus olhos. A tranca na janela tremeu.
    Me deixe entrar.
     A janela de madeira abriu de repente. Eu diria que foi o vento, mas 
claro que no havia nem uma brisa. Sa da cama e olhei para fora.
     Ela estava no meu jardim -- de pijama. Os vizinhos teriam assunto para
um dia inteiro, e Amma teria um ataque cardaco.
     -- Voc desce ou eu vou subir.
     Um ataque cardaco e depois um derrame.




Sentamos na escada da varanda. Eu estava de jeans, porque eu no dormia
de pijama, e se Amma sasse e me visse de cueca com uma garota, eu seria
enterrado no quintal antes do amanhecer.
     Lena se encostou nos degraus, olhando para a tinta branca descascando
na varanda.
     -- Eu quase fiz a volta no final da sua rua, mas estava com medo demais
para isso.
     Sob a luz da lua, eu podia ver que o pijama dela era verde e roxo e meio
num estilo chins.
     -- Quando cheguei em casa, estava com medo demais para no voltar
aqui. -- Ela estava mexendo no esmalte dos ps descalos, e era assim que eu
sabia que ela tinha alguma coisa a dizer. -- Eu no sei fazer isso. Nunca tive
que dizer antes, ento no sei como vai sair.
     Passei uma das mos no meu cabelo descabelado.
     -- Seja l o que for, pode me contar. Sei como  ter uma famlia maluca.
     -- Voc acha que sabe o que  maluquice. Mas no tem ideia.
     Ela respirou fundo. Seja l o que ela fosse falar, era difcil para ela. Eu
podia v-la lutando para encontrar as palavras.
     -- As pessoas na minha famlia e eu, ns temos poderes. Conseguimos
fazer coisas que pessoas normais no conseguem. Nascemos assim, no
podemos evitar. Somos o que somos.
     Levei um segundo para entender do que ela estava falando, ou ao menos
do que eu achava que ela estava falando.
     Magia.
     Onde estava Amma quando eu precisava dela?
     Fiquei com medo de perguntar, mas precisava saber.
     -- E o que exatamente vocs so? -- Parecia to louco que eu quase no
consegui pronunciar as palavras.
     -- Conjuradores -- ela disse baixinho.
     -- Conjuradores?
     Ela assentiu.
     -- Tipo, conjuradores de feitios?
     Ela assentiu de novo.
     Eu a encarei. Talvez ela fosse louca.
     -- Tipo, bruxas?
     -- Ethan. No seja ridculo.
     Expirei, momentaneamente aliviado.  claro, eu era um idiota. O que eu
estava pensando.
     -- Essa palavra  muito idiota.  como chamar algum de "o atleta". Ou
"nerd".  s um esteretipo imbecil.
     Meu estmago revirou. Parte de mim queria sair correndo escada acima,
trancar a porta e me esconder na cama. Mas outra parte, uma parte maior,
queria ficar. Porque, afinal, uma parte de mim no s no sabia? Eu posso
no ter entendido o que ela era, mas eu sabia que havia algo nela, algo maior
que apenas o cordo cheio de tralhas e o All Star velho. O que eu esperava de
algum que podia fazer cair uma tempestade? Que podia alar comigo sem
nem estar no mesmo recinto? Que podia controlar a direo na qual as
nuvens flutuavam no cu? Que podia abrir a janela do meu quarto estando
no jardim?
     -- Voc consegue dar um nome melhor?
     -- No h uma palavra que descreva todas as pessoas na minha famlia.
H uma que descreva todas as pessoas da sua?
     Eu queria quebrar a tenso, fingir que ela era apenas uma garota
qualquer. Para me convencer de que isso podia ficar bem.
     -- H. Lunticos.
     -- Somos Conjuradores. Essa  a definio ampla. Todos ns temos
poderes. Temos um dom, assim como algumas famlias so inteligentes e
outras so ricas, bonitas ou atlticas.
     Eu sabia qual era a pergunta seguinte, mas no queria faz-la. Eu j
sabia que ela podia quebrar uma janela com sua mente apenas. No sabia se
eu estava pronto para saber o que mais ela podia quebrar.
     De qualquer modo, estava comeando a parecer que estvamos falando
de uma famlia louca do sul qualquer, como as Irms. Os Ravenwood
estavam aqui h tanto tempo quanto qualquer famlia de Gatlin. Por que a
famlia deles seria menos maluca? Ou pelo menos foi o que tentei dizer a mim
mesmo.
     Lena encarou o silncio como um sinal ruim.
     -- Eu sabia que no devia ter dito nada. Falei para voc me deixar em
paz. Agora provavelmente pensa que sou uma aberrao.
     -- Acho que voc  talentosa.
     -- Voc acha que minha casa  esquisita. J admitiu isso.
     -- E da que vocs redecoram, e muito. -- Eu estava tentando entender.
Estava tentando mant-la sorrindo. Sabia o quanto devia ter custado a ela me
dizer a verdade. No podia abandon-la agora. Me virei e apontei para o
escritrio aceso sobre os arbustos de azaleia, escondido atrs de grossas
janelas de madeira.
     -- Olhe. V aquela janela ali?  o escritrio do meu pai. Ele trabalha a
noite toda e dorme o dia todo. Desde que minha me morreu, ele no sai de
casa. Nem me mostra o que est escrevendo.
     -- Isso  muito romntico -- disse ela baixinho,
     -- No,  loucura. Mas ningum fala sobre isso, porque no sobrou
ningum com quem falar. Exceto Amma, que esconde amuletos no meu
quarto e grita comigo por trazer joias velhas para casa.
     Eu podia ver que ela estava quase sorrindo.
     -- Talvez voc seja uma aberrao.
     -- Eu sou uma aberrao, voc  uma aberrao. Sua casa faz recintos
desaparecerem, a minha faz pessoas desaparecerem. Seu tio recluso  doido e
meu pai recluso  luntico, ento no sei o que voc acha que nos torna to
diferentes.
     Lena sorriu, aliviada.
     -- Estou tentando achar um jeito de ver isso como um elogio.
     --  um elogio.
     Olhei para ela sorrindo sob a luz da lua, um sorriso real. Havia algo no
jeito dela naquele momento. Eu me imaginei me inclinando um pouco para
beij-la. Me forcei para longe, um degrau acima de onde ela estava.
     -- Voc est bem?
     -- Estou bem, sim. S estou cansado.
Mas no estava.




Ficamos daquele jeito, conversando nos degraus, durante horas. Me deitei no
degrau de cima; ela se deitou no degrau de baixo. Observamos o cu escuro
noturno, depois o cu escuro da madrugada, at que pudemos ouvir os
pssaros.
     Quando o rabeco finalmente se afastou, o sol comeava a nascer.
Observei Boo Radley saltitar lentamente na direo de casa atrs dele. Na
velocidade em que ele ia, seria hora do sol se pr quando chegasse em casa.
s vezes eu pensava em por que ele se dava ao trabalho.
     Cachorro burro.
     Coloquei a mo na maaneta de metal da minha porta, mas quase no
consegui abri-la. Tudo estava de cabea para baixo, e nada l dentro poderia
mudar aquilo. Minha mente estava confusa, misturada como numa grande
frigideira de ovos de Amma, do jeito que minhas entranhas j estavam h
dias.
     A-C-O-V-A-R-D-A-D-O.  assim que Amma me chamaria. Dez
horizontal, o mesmo que covarde. Eu estava com medo. Eu tinha dito para
Lena que no era nada demais que ela e a famlia dela... eram o qu? Bruxos?
Conjuradores?
    , nada demais.
    Eu era um grande mentiroso. Aposto que at aquele cachorro burro
podia perceber isso.
                       p 24 de setembro p
                  As ltimas trs fileiras
                                    d

S     abe aquela expresso, "caiu sobre mim como uma bomba"?  verdade.
      No minuto que ela virou o carro e acabou na minha porta de pijama
      roxo, foi assim que me senti em relao  Lena.
     Eu sabia que ia acontecer. S no sabia que a sensao seria aquela.
     Desde ento, havia dois lugares onde eu queria estar: com Lena ou
sozinho, para que eu pudesse organizar tudo em minha mente. Eu no tinha
palavras para o que ns ramos. Ela no era minha namorada; no
estvamos nem ficando. At a semana anterior, ela nem admitia que ramos
amigos. Eu no tinha ideia de como ela se sentia em relao a mim, e no
podia mandar Savannah descobrir. No queria arriscar o que ns tnhamos,
fosse o que fosse. Ento por que eu pensava nela a cada segundo? Por que eu
ficava to mais feliz quando a via? Eu sentia que talvez soubesse a resposta,
mas como podia ter certeza? Eu no sabia, e no tinha nenhum jeito de
descobrir.
     Homens no falam de coisas assim. Apenas ficamos deitados debaixo dos
escombros.




-- O que voc est escrevendo?
     Ela fechou o caderno espiral que parecia carregar para todo lugar. O
time de basquete no tinha treino s quartas-feiras, ento Lena e eu
estvamos sentados no jardim de Greenbrier, que eu meio que tinha
nomeado como o nosso lugar especial, apesar de isso ser uma coisa que eu
jamais admitiria, nem mesmo para ela. Era onde tnhamos encontrado o
medalho. Era um lugar onde podamos ficar sem todo mundo olhar e
cochichar. Deveramos estar estudando, mas Lena estava escrevendo no
caderno e eu tinha lido o mesmo pargrafo sobre a estrutura interna dos
tomos nove vezes. Nossos ombros encostavam um no outro, mas estvamos
de frente para lados opostos. Eu estava esparramado no sol poente; ela estava
sob a crescente sombra do carvalho coberto de musgo.
     -- Nada demais. S estou escrevendo.
     -- Tudo bem, no precisa me contar. -- Tentei no parecer
desapontado.
     --  que...  uma bobagem.
     -- Ento me conta.
     Por um minuto ela no falou nada e ficou rabiscando na parte de
borracha do tnis com a caneta preta.
     --  que eu escrevo poemas s vezes. Desde que eu era criana. Sei que 
esquisito.
     -- No acho esquisito. Minha me era escritora. Meu pai  escritor. --
Eu podia senti-la sorrindo, apesar de no estar olhando para ela. -- Tudo
bem,  um exemplo ruim, porque meu pai  esquisito, mas isso no  culpa da
escrita.
     Esperei para ver se ela ia me passar o caderno e pedir para ler um. No
tive essa sorte.
     -- Talvez eu possa ler um qualquer hora dessas.
     -- Duvido.
     Ouvi o caderno ser aberto de novo e a caneta dela se movendo pela
pgina. Olhei para meu livro de Qumica, pensando na frase que tinha
ensaiado mentalmente cem vezes. Estvamos sozinhos. O sol estava indo
embora; ela estava escrevendo poesia. Se eu ia fazer aquilo, agora era a hora.
     -- Ento, voc quer, sabe, ficar junto? -- Tentei parecer casual.
     -- No  o que estamos fazendo?
     Mastiguei a ponta de uma colher velha de plstico que eu tinha achado
na minha mochila, provavelmente de um pote de pudim.
     -- . No. Quero dizer, voc quer, sei l, ir a algum lugar?
     -- Agora?
     Ela deu uma mordida em uma barra de cereal aberta e mudou as pernas
de posio de modo a ficar ao meu lado, estendendo-as at onde eu estava.
Balancei com a cabea.
    -- No agora. Na sexta, ou algum outro dia. Podamos ir ao cinema.
    Enfiei a colher no livro de Qumica, fechando-o.
    -- Isso  nojento. -- Ela fez uma careta e virou a pgina.
    -- O que quer dizer? -- Eu podia sentir meu rosto ficando vermelho.
    Eu s estava falando de um filme.
    Seu idiota.
     Ela apontou para meu marcador de livros/colher suja.
     -- Eu estava falando disso.
     Sorri aliviado.
     -- E. Um mau hbito que peguei da minha me.
     -- Ela gostava de talheres?
     -- No, de livros. Ela lia uns vinte ao mesmo tempo, e os deixava
espalhados pela casa; na mesa da cozinha, ao lado da cama, no banheiro, no
carro, nas bolsas dela, uma pequena pilha na beirada de cada escada. E usava
qualquer coisa que encontrasse para marcar. Uma meia minha, um miolo de
ma, os culos de leitura dela, outro livro, um garfo.
     -- Uma colher velha e suja?
     -- Exatamente.
     -- Aposto que isso deixava Amma maluca.
     -- Ela enlouquecia. No, espere. Ela ficava... -- Cavei bem fundo. -- P-
E-R-T-U-R-B-A-D-A.
     -- Dez vertical? -- Ela riu.
     -- Provavelmente.
     -- Isso era da minha me. -- Ela mostrou um dos pingentes pendurados
na longa corrente de prata que parecia nunca tirar. Era um pequeno pssaro
dourado. --  um corvo.
     -- Por causa de Ravenwood?
     -- No. Corvos so os pssaros mais poderosos no mundo dos
Conjuradores. A lenda diz que eles conseguem atrair energia para si e solt-la
em outras formas. s vezes so at temidos pelos seus poderes.
     Observei enquanto ela desvencilhava o corvo dos outros pingentes e ele
caiu de volta no lugar, entre um disco com uma escrita estranha entalhada e
uma conta de vidro preta.
     -- Voc tem muitos pingentes.
     Ela colocou uma mecha de cabelo atrs da orelha e olhou para o cordo.
     -- No so exatamente pingentes, s coisas que tm algum significado
pra mim. -- Ela mostrou o anel de metal de lata de refrigerante. -- Isso  da
primeira lata de refrigerante de laranja que bebi, sentada na varanda da
minha velha casa em Savannah. Minha av comprou pra mim quando voltei
da escola chorando porque ningum botou nada na minha caixa de presentes
de dia dos namorados.
     -- Que fofo.
     -- Se fofo significar trgico...
     -- Eu quis dizer o fato de voc ter guardado.
     -- Guardo tudo.
     -- O que  isso? -- Apontei para a conta preta.
     -- Minha tia Twyla me deu.  feita daquelas pedras de reas bem
remotas em Barbados. Ela disse que me traria sorte.
     --  um cordo legal. -- Eu podia ver o quanto ele significava para ela
pelo modo como ela segurava cada coisa, com tanto cuidado.
     -- Sei que parece um monte de lixo. Mas nunca morei em nenhum lugar
por muito tempo. Nunca tive a mesma casa ou o mesmo quarto por mais de
alguns anos, e algumas vezes sinto que nessa corrente esto pedaos de mim,
e eles so tudo que tenho.
     Suspirei e puxei um pedao de capim.
     -- Queria ter morado em um desses lugares.
     -- Mas voc tem razes aqui. Um melhor amigo de vida inteira, uma casa
com um quarto que sempre foi seu. Voc provavelmente at tem sua altura a
cada idade marcada na moldura da porta.
     Eu tinha.
    Voc tem, no tem?
     Eu a empurrei com o ombro.
     -- Posso medir voc na moldura da minha porta se quiser. Voc pode
ser imortalizada pela eternidade na propriedade Wate.
     Ela sorriu para o caderno e empurrou o ombro contra o meu. Do canto
do olho, eu podia ver o sol da tarde batendo em um lado do seu rosto, uma
pgina do caderno, a ponta cacheada do cabelo e a ponta do Ali Star preta
    Quanto ao filme, sexta est bom.
    Ento ela enfiou a barra de cereal no meio do caderno e o fechou.
    As pontas dos nossos tnis surrados se tocaram.




Quanto mais eu pensava sobre sexta  noite, mais nervoso eu ficava. No era
um encontro, no oficialmente, eu sabia disso. Mas aquela era apenas parte
do problema. Eu queria que fosse. O que voc faz quando se d conta de que
tem sentimentos por uma garota que mal admite ser sua amiga? Uma garota
cujo tio o chutou da casa deles e que no  bem-vinda na sua tambm? Uma
garota que quase todo mundo que voc conhece Odeia? Uma garota que
compartilha dos seus sonhos, mas talvez no dos seus sentimentos?
     Eu no tinha ideia, e  por isso que no fiz nada. Mas isso no me
impediu de pensar em Lena e quase dirigir at a casa dela na quinta  noite se
a casa dela no fosse fora da cidade, se eu tivesse um carro. Se o tio de no
fosse Macon Ravenwood. Esses eram "se" que me impediam de fazer papel de
bobo.
     Todo dia era como um dia na vida de outra pessoa. Nada nunca
acontecia comigo, e agora tudo estava acontecendo -- e quando eu digo tudo
estou querendo dizer Lena. Uma hora passava mais rpido e ao mesmo
tempo mais devagar. Eu sentia como se tivesse sugado o ar de um balo
gigante, como se meu crebro no estivesse recebendo oxignio suficiente. As
nuvens eram mais interessantes, o refeitrio era menos nojento, a msica
soava melhor, as mesmas velhas piadas eram mais engraadas, e Jackson
passou de um amontoado de prdios industriais verdes acinzentados a um
mapa de momentos e locais onde eu poderia encontrar com ela. Eu me via
sorrindo sem motivo, usando fones de ouvido e repetindo nossas conversas
em minha mente s para poder ouvir sua voz de novo. Eu j tinha visto esse
tipo de coisa antes.
     S nunca tinha sentido.




Quando a sexta  noite finalmente chegou, eu tinha passado o dia de timo
humor, o que queria dizer que fui pior do que todo mundo na aula e melhor
do que todo mundo no treino. Eu tinha que gastar aquela energia acumulada
em algum lugar. At o treinador notou e me mandou ficar para
conversarmos.
     -- Continue assim, Wate, e voc pode ser visto por algum olheiro ano
que vem.
     Link me deu uma carona at Summerville depois do treino. Os caras
estavam planejando ir ao cinema tambm, algo em que eu devia ter pensado
antes, j que o Cineplex s tinha uma sala. Mas era tarde demais, e eu j
passara do ponto de me preocupar.
     Quando estacionamos o Lata-Velha, Lena estava parada, na escurido,
em frente ao cinema iluminado. Ela usava uma camiseta roxa e um vestido
reto preto por cima que fazia a gente lembrar o quanto ela era uma garota, e
botas pretas detonadas que faziam a gente esquecer.
     Do lado de dentro do cinema, alm do grupo de sempre de alunos da
Faculdade Comunitria de Summerville, a equipe de lderes de torcida estava
reunida em formao, esperando no saguo junto com os caras do time. Meu
bom humor comeou a evaporar.
     -- Oi.
     -- Voc est atrasado. Comprei os ingressos.
     Os olhos de Lena estavam ilegveis na escurido. Segui-a para dentro.
Estvamos a caminho de um timo comeo.
     -- Wate! Venha aqui! -- A voz de Emory soou no saguo, acima das
pessoas e da msica dos anos 1980 que tocava.
     -- Wate, voc est com uma garota? -- Agora Billy estava pegando no
meu p. Earl no disse nada, mas s porque Earl quase nunca dizia alguma
coisa.
     Lena os ignorou. Ela esfregava a cabea, andando na minha frente como
se no quisesse olhar para mim.
     -- Isso se chama ter uma vida -- gritei acima da multido. Eu pagaria
por ter dito aquilo na segunda-feira. Alcancei Lena. -- Ei, desculpa por
aquilo.
     Ela se virou para olhar para mim.
     -- Isso no vai dar certo se voc for do tipo de pessoa que no quer ver os
trailers.
    Esperei por voc.
    Eu sorri.
    -- Trailers e crditos, e o cara da pipoca danando.
    Ela olhou para alm de mim, para os meus amigos, ou ao menos para as
pessoas que eram conhecidas dessa maneira.
    Ignore-os.
     -- Com manteiga ou sem manteiga?
     Ela estava irritada. Eu tinha me atrasado, e ela tinha encarado a brigada
social da Jackson sozinha. Agora era minha vez.
     -- Com manteiga -- confessei, sabendo que seria a resposta errada.
Lena fez uma careta. -- Mas troco a manteiga por sal extra -- falei.
     Os olhos dela seguiram para trs de mim, depois voltaram. Dava para
ouvir a risada de Emily se aproximando. Eu no me importava.
     s dizer que sairemos daqui, Lena.
   -- Sem manteiga, com sal e uns caramelos de chocolate misturados.
Voc vai gostar -- ela disse, os ombros relaxando um pouco.
    J gosto.
     A equipe de torcida e os caras passaram por ns. Emily fez questo de
no olhar para mim, enquanto Savannah andou por Lena como se ela
estivesse infectada com algum vrus transmitido pelo ar, Eu s podia imaginar
o que elas diriam para as mes quando chegassem em casa.
     Peguei a mo de Lena. Uma corrente percorreu meu corpo, mas dessa
vez no foi como o choque que senti aquela noite na chuva. Era mais como
uma confuso de sentidos. Como ser atingido por uma onda na praia e entrar
debaixo de um cobertor eltrico em uma noite de chuva, tudo ao mesmo
tempo. Deixei que se espalhasse. Savannah notou e cutucou Emily.
    Voc no precisa fazer isso.
    Apertei a mo dela.
    Fazer o qu?
    -- Ei, crianas. Vocs viram os caras? -- Link deu um tapinha no meu
ombro, carregando um pote de pipoca com manteiga e um refrigerante
gigantesco.


No Cineplex passava um filme de assassinato e mistrio, do tipo que Amma
teria gostado, considerando a queda dela por mistrios e cadveres. Link
tinha ido sentar na frente com os caras, examinando no percurso as fileiras 
procura de garotas de faculdade. No porque ele no quisesse sentar com
Lena, mas porque sups que quisssemos ficar sozinhos. Ns queramos. Ou,
pelo menos, eu queria.
     -- Onde voc quer sentar? L perto, no meio? -- Esperei que ela
decidisse.
     -- Aqui atrs.
     Segui-a pela ltima fileira de cadeiras.
     A principal razo para os adolescentes de Gatlin irem ao Cineplex era
para ficar, j que qualquer filme que passava l j tinha sado em DVD. Mas,
principalmente, era a nica razo para sentar nas trs ltimas fileiras. O
Cineplex, a torre de gua, e no vero, o lago. Fora isso, havia alguns
banheiros e pores, mas no muitas outras opes. Eu sabia que no amos
ficar, mas mesmo se as coisas estivessem assim entre ns, eu no a teria
trazido aqui para isso. Lena no era uma garota qualquer que a gente levava
para s trs ltimas fileiras do Cineplex. Ela era mais do que isso.
     Ainda assim, a escolha foi dela, e eu sabia por que ela tinha escolhido.
No havia lugar mais longe de Emily Asher do que a ltima fileira.
     Talvez eu devesse ter avisado. Antes da abertura do filme, as pessoas j
estavam comeando a se agarrar. Ns dois olhvamos para a pipoca, j que
no havia outro lugar seguro para olhar.
    Por que voc no disse nada?
    Eu no sabia.
    Mentiroso.
    Serei um cavalheiro perfeito. Prometo.
     Afastei as imagens para o fundo da minha mente e pensei sobre qualquer
coisa -- o tempo, basquete -- , e enfiei a mo no pote de pipoca. Lena fez o
mesmo ao mesmo tempo, e nossas mos se tocaram por um segundo,
causando um arrepio que subiu pelo meu brao, quente e frio misturado.
Pick'n'Roll. Picket Fences. Down the Lane. No havia jogadas o bastante no
manual de estratgias de basquete da Jackson. Isso ia ser mais difcil do que
eu tinha pensado.
     O filme era pssimo. Depois de dez minutos, eu j sabia o final.
     -- Foi ele -- sussurrei.
     -- O qu?
     -- Aquele cara. Ele  o assassino. No sei quem ele mata, mas  ele. Esse
era o outro motivo pelo qual Link no queria sentar do meu lado: eu sempre
sabia o final logo no comeo e no conseguia no compartilhar. Era minha
verso das palavras cruzadas. Por isso que eu era bom em videogames, jogos
de parque de diverso e damas com meu pai. Eu conseguia concluir coisas,
desde o primeiro momento.
     -- Como voc sabe?
     -- Apenas sei.
    Como isso termina?
    Eu sabia o que ela queria dizer. Mas pela primeira vez, no sabia a
resposta.
    Bem. Muito, muito bem.
    Mentiroso. Agora me d os caramelos.
     Ela enfiou a mo no bolso do meu casaco de moletom, procurando por
eles. S que foi do lado errado, e ela achou a ltima coisa que esperava achar.
L estava a bolsinha com o troo duro dentro que sabamos ser o medalho.
Lena sentou ereta de repente, puxando a bolsinha e segurando-a como se
fosse um rato morto.
     -- Por que voc ainda carrega isso por a no bolso?
     -- Shh.
     Estvamos irritando as pessoas a nossa volta, o que era engraado,
considerando que elas no estavam sequer assistindo ao filme. -- No posso
deixar em casa. Amma acha que o enterrei.
     -- Talvez devesse ter enterrado.
     -- No importa, a coisa tem vontade prpria. Quase nunca funciona.
Voc viu todas as vezes que funcionou.
     -- Podem calar a boca?
     O casal em frente a ns parou para respirar. Lena deu um pulo,
deixando o medalho cair. Ns dois o pegamos. Vi o leno caindo como se
fosse em cmera lenta. Eu mal conseguia ver o quadrado branco no escuro. A
tela grande se contorceu at virar um brilho de luz inconsequente, e ns j
sentiramos o cheiro da fumaa...
Queimar uma casa com mulheres dentro.
     No podia ser verdade. Mame. Evangeline. A mente de Genevieve
estava a mil. Talvez no fosse tarde demais. Ela saiu correndo, ignorando as
garras que eram os arbustos, incitando-a a voltar, e as vozes de Ethan e Ivy
gritando por ela. Os arbustos se abriram, e havia dois Federais em frente ao
que tinha sobrado da casa que o av de Genevieve tinha construdo. Dois
Federais jogando uma bandeja de prata em uma mochila do governo.
Genevieve era um emaranhado de tecido preto ondulado que voava com as
lufadas vindas do fogo.
     -- Mas que...
     -- Pegue-a, Emmett -- disse um dos adolescentes para o outro.
     Genevieve subiu as escadas dois degraus de cada vez, engasgando com a
fumaa que saa da abertura onde havia sido a porta. Estava fora de si.
Mame. Evangeline. Os pulmes dela ardiam. Ela se sentiu caindo. Seria a
fumaa? Ela ia desmaiar? No, era outra coisa. Uma mo no seu pulso,
puxando-a para baixo.
     -- Onde pensa que vai, garota?
     -- Solte-me! -- gritou ela, a voz rouca por causa da fumaa. Suas costas
bateram nos degraus, um por um, enquanto, ele a arrastava; uma mancha
azul e dourada. A cabea bateu em seguida. Calor, e depois algo quente
escorrendo pelo colarinho do seu vestido. Tontura e confuso misturadas com
desespero.
     Um tiro. O som foi to alto que afez voltar a si, partindo a escurido. A
mo segurando o pulso dela relaxou. Ela tentou forar os olhos a se focarem.
     Dois tiros mais soaram.
     Deus, por favor, poupe Mame e Evangeline. Mas no final, era demais
para pedir, ou talvez tivesse sido o pedido errado. Porque quando ela ouviu o
som do terceiro corpo caindo, seus olhos se focaram por tempo suficiente
para ver a jaqueta de l cinza de Ethan suja de sangue. Alvejado pelos
mesmos soldados contra quem ele tinha se recusado a lutar.
     E o cheiro de sangue misturado com plvora e limes queimando.


Os crditos estavam subindo, e as luzes estavam se acendendo. Os olhos de
Lena ainda estavam fechados, e ela estava recostada no assento. Seu cabelo
estava emaranhado, e nenhum de ns dois conseguia recuperar o flego. --
Lena? Voc est bem?
     Ela abriu os olhos e empurrou para trs o descanso de brao que havia
entre ns. Sem uma palavra, encostou a cabea no meu ombro. Eu podia
senti-la tremendo tanto que nem conseguia falar.
    Eu sei. Eu estava l tambm.
      Ainda estvamos sentados assim quando Link e os outros passaram. Link
piscou para mim e ergueu um punho quando passou, como se fosse encostar
no meu do jeito que fazia quando eu tinha feito um bom arremesso na
quadra.
      Mas ele entendeu errado, todos entenderam. Podamos estar na ltima
fileira, mas no estvamos nos beijando. Eu podia sentir o cheiro de sangue e
os tiros ainda soavam nos meus ouvidos.
      Tnhamos acabado de ver um homem morrer.
                           p 9 de outubro p
                          Dia de reunio
                                    d
D
      epois do Cineplex, no demorou muito. O boato de que a sobrinha do
      Velho Ravenwood estava saindo com Ethan Wate se espalhou. Se eu
      no fosse o Ethan Wate Cuja Me Tinha Acabado de Morrer no Ano
Passado, o boato poderia ter se espalhado com mais velocidade ou com mais
crueldade. At mesmo os caras do time tinham alguma coisa a dizer. S
levaram mais tempo que o normal para dizer, porque eu no dei a eles a
chance.
     Para um cara que no conseguia sobreviver sem trs almoos, eu vinha
pulando metade deles desde o Cineplex -- pelo menos pulando os com o
time. Mas eu no conseguia sobreviver muitos dias com meio sanduche na
arquibancada, e no havia muitos lugares para me esconder.
     Porque, na verdade, no era possvel se esconder. Jackson High era
apenas uma verso menor de Gatlin; no havia para onde ir. Meu ato de
desaparecimento no tinha passado despercebido pelos caras. Como eu disse,
a gente tinha que marcar presena, e se deixssemos uma garota interferir
nisso, principalmente uma que no estava na lista das aprovadas (quero dizer,
aprovada por Savannah e Emily), as coisas ficavam complicadas.
     Quando a garota era uma Ravenwood, o que Lena sempre seria para
eles, as coisas ficavam simplesmente impossveis.
     Eu tinha que ser corajoso. Era hora de encarar o refeitrio. No
importava que ns nem fssemos um casal de verdade. Na Jackson, dava na
mesma estacionar o carro escondido atrs da torre de gua ou almoar
juntos. Todos sempre supunham o pior, ou pelo menos a maioria. A primeira
vez que Lena e eu entramos no refeitrio juntos, ela quase se virou e foi
embora. Eu tive que segurar a ala de sua bolsa.
    No seja louca.  s um almoo.
    -- Acho que esqueci uma coisa no meu armrio. -- Ela se virou, mas eu
continuei segurando a ala.
    Amigos almoam juntos.
    No almoam. Ns no. Quero dizer, no a.
     Peguei duas bandejas de plstico laranja.
     -- Bandeja?
     Empurrei a bandeja para a frente dela e coloquei um tringulo brilhante
de fatia de pizza sobre ela.
     Comemos agora. Covarde.
     Voc pensa que no tentei isso antes?
     No tentou comigo. Achei que voc queria que as coisas aqui fossem
diferentes do que foram na sua velha escola.
   Lena olhou ao redor, com dvidas. Respirou fundo e colocou um prato
com cenouras e aipo na minha bandeja.
    Se comer isso, eu me sento onde voc quiser.
    Olhei para as cenouras, depois para o refeitrio. Os caras j estavam na
nossa mesa.
    Onde eu quiser?




Se isso fosse um filme, ns teramos sentado  mesa com os caras, e eles
teriam aprendido alguma lio valiosa, como a de no julgar as pessoas pela
aparncia, ou que no tinha nada demais ser diferente. E Lena teria
aprendido que nem todos os atletas eram burros e superficiais. Sempre
parecia dar certo nos filmes, mas isso no era um filme. Aqui era Gatlin, o
que limitava severamente o que podia acontecer. Link encontrou meu olhar
quando me virei em direo  mesa e comeou a balanar a cabea, como se
dissesse "de jeito nenhum, cara". Lena estava alguns passos atrs de mim,
pronta para sair correndo. Eu estava comeando a ver como isso ia se
desenrolar, e vamos apenas dizer que ningum ia aprender uma lio valiosa.
Quase me virei quando Earl olhou para mim.
     Aquele olhar dizia tudo. Dizia que se eu a levasse l, seria o meu fim.
Lena deve ter visto tambm, porque quando me virei para ela, ela havia
sumido.




Naquele dia depois do treino, Earl foi escolhido para ter uma conversa
comigo, o que era bem engraado, j que conversar nunca tinha sido seu
forte. Ele sentou no banco em frente ao meu armrio do vestirio. Eu sabia
que era planejado porque ele estava sozinho, e Earl Petty quase nunca ficava
sozinho. Ele no perdeu tempo algum.
     -- No faa isso, Wate.
     -- No estou fazendo nada. -- No tirei os olhos do meu armrio.
     -- Seja sensato. Esse no  voc.
     -- ? E se for? -- Vesti minha camiseta dos Transformers.
     -- Os caras no esto gostando. Se voc seguir esse caminho, no tem
volta.
     Se Lena no tivesse sumido no refeitrio, Earl saberia que no ligo para
o que eles pensam. J no ligava h um tempo. Bati a porta do armrio, e ele
saiu antes que eu pudesse falar o que pensava sobre ele e o caminho sem
volta.
     Tive a sensao de que era meu ltimo aviso. Eu no culpava Earl. Pela
primeira vez, concordava com ele. Os caras seguiam um caminho, e eu seguia
outro. Quem podia discutir sobre aquilo?




Ainda assim, Link se recusava a me abandonar. E eu ia aos treinos; as pessoas
at me passavam a bola. Eu estava jogando melhor do que nunca,
independentemente do que eles diziam, ou melhor, no diziam no vestirio.
Quando estava com os caras, eu tentava no mostrar que meu universo
estava partido ao meio, que at mesmo o cu parecia diferente para mim,
agora que eu no ligava se amos chegar s finais estaduais. Lena estava no
fundo da minha mente, no importava onde eu estivesse ou com quem
estivesse.
     No que eu tenha mencionado isso no treino, e nem hoje, depois do
treino, quando Link e eu fomos ao Pare & Roube para reabastecer no
caminho de casa. O resto dos caras estava l tambm, e eu estava tentando
agir como parte do time, pelo bem de Link. Minha boca estava cheia de
donut aucarado, com o qual quase engasguei quando entrei pelas portas
automticas.
     L estava ela. A segunda garota mais bonita que j vi.
     Ela era provavelmente um pouco mais velha do que eu porque, apesar
de parecer vagamente familiar, nunca tinha frequentado a Jackson enquanto
eu estivera l. Eu tinha certeza disso. Ela era o tipo de garota de quem um
cara se lembraria. Estava ouvindo uma msica que eu nunca tinha ouvido, e
descansava atrs do volante do Mini Cooper conversvel preto e branco que
estava estacionado de qualquer jeito em duas vagas do estacionamento. Ela
no pareceu perceber as linhas, ou no ligava. Chupava um pirulito como se
fosse um cigarro, e os lbios carnudos e vermelhos estavam ainda mais
vermelhos por causa do corante.
     Ela olhou para ns e aumentou a msica. Em um segundo, duas pernas
vieram voando at a lateral da porta, e ela estava de p em frente a ns, ainda
chupando o pirulito.
     -- Frank Zappa. "Drowning Witch", Um pouco anterior  poca de
vocs, meninos.
     Chegou mais perto, lentamente, como se estivesse nos dando tempo para
olhar bem para ela, coisa que admito, estvamos fazendo.
     Tinha cabelos longos e louros, com uma mecha grossa rosa em um dos
lados do rosto, junto  franja repicada. Estava usando culos de sol pretos
gigantescos e uma saia preta pregueada curta, como algum tipo de lder de
torcida gtica. A camiseta branca cortada era to fina que dava para ver
parte do que poderia ser um suti preto, e a maior parte de tudo mais. E
havia muito para se ver. Botas pretas de motociclista, um piercing no umbigo
e uma tatuagem. Era preta e parecia ser tribal, em torno do seu umbigo, mas
de onde eu estava no conseguia identificar, e eu estava tentando no ficar
olhando.
     -- Ethan? Ethan Wate?
     Fiquei paralisado. Metade do time de basquete colidiu com as minhas
costas.
     -- No  possvel. -- Shawn ficou to surpreso quanto eu quando meu
nome saiu dos lbios dela. Ele era o tipo de cara que atraa as meninas.
     -- Quente. -- Link s ficou encarando de boca aberta. -- Quente
QTG. -- Queimadura de terceiro grau. O maior elogio que Link pode fazer
a uma garota, ainda maior do que gostosa tipo Savannah Snow.
     -- Tem cara de ser problema.
     -- Garotas gostosas so problema. Esse  o ponto.
     Ela andou direto em minha direo, chupando o pirulito.
     -- Qual dos sortudos  Ethan Wate?
     Link me empurrou para a frente.
     -- Ethan! -- Ela jogou os braos ao redor do meu pescoo. As mos dela
estavam surpreendentemente frias, como se tivesse acabado de largar um saco
de gelo. Eu tremi e me afastei.
     -- Conheo voc?
     -- Nem um pouco. Sou Ridley, prima de Lena. Mas eu queria que voc
tivesse me conhecido antes...
     Com a meno de Lena, os caras me deram olhares esquisitos e,
relutantes, foram para seus carros. Em sequncia  minha conversa com Earl,
ns tnhamos chegado a um entendimento mtuo sobre Lena, do nico tipo
que caras chegam. Quero dizer, eu no falei sobre o assunto, e eles tambm
no falaram, e entre ns, meio que concordamos em seguir assim
indefinidamente. No pergunte, no fale. O que no ia durar muito tempo,
principalmente se parentes estranhos de Lena comeassem a aparecer na
cidade.
     -- Prima?
     Lena tinha mencionado uma Ridley?
     -- Para o feriado. Tia Del. Rima com fel. Lembra?
     Ela estava certa; Macon tinha mencionado no jantar.
     Eu sorri, aliviado, s que meu estmago ainda estava apertado em um
n, ento eu no devo ter parecido to aliviado.
     -- Certo. Desculpe, esqueci. Os primos.
     -- Querido, voc est olhando para a Prima. O resto so apenas crianas
que minha me por acaso teve depois de mim.
     Ridley pulou de volta no Mini Cooper. E quando digo isso, quero dizer
que ela literalmente pulou a lateral do carro e caiu sentada no banco do
motorista do Mini. Eu no estava brincando sobre o lance de lder de torcida.
A garota tinha pernas poderosas.
      Eu podia ver Link ainda olhando parado ao lado do Lata-Velha.
      Ridley bateu no banco ao lado dela.
      -- Pule aqui, Namorado, vamos nos atrasar.
      -- Eu no sou... Quero dizer, no somos...
      -- Voc  uma graa. Agora entre. No quer que a gente se atrase, n?
      -- Se atrase para qu?
      -- Jantar da famlia. As Grandes Festividades. A Reunio. Por que acha
que me mandaram aqui para esse lixo para encontrar voc?
      -- No sei. Lena nunca me convidou.
      -- Bem, vamos dizer que no h como impedir que tia Del examine o
primeiro cara que Lena j levou em casa. Ento voc foi convocado, e j que
Lena est ocupada com o jantar e Macon ainda est, voc sabe, "dormindo",
fui eu que puxei o palitinho menor.
      -- Ela no me levou. Eu passei l uma noite para levar o dever de casa.
      Ridley abriu a porta do carro por dentro.
      -- Entre, Palitinho.
      -- Lena teria me ligado se quisesse que eu fosse.
      Por algum motivo, eu sabia que ia entrar mesmo enquanto ainda dizia
isso. Hesitei.
      -- Voc  sempre assim? Ou est flertando comigo? Porque se voc
estiver bancando o difcil, diga logo, que podemos estacionar no pntano e ir
direto ao que interessa.
      Entrei no carro.
      -- Tudo bem. Vamos.
      Ela esticou o brao e tirou o cabelo dos meus olhos com a mo fria.
      -- Voc tem olhos bonitos, Namorado. No devia deix-los cobertos.


Quando chegamos a Ravenwood, eu no sabia o que tinha acontecido. Ela
continuou ouvindo msicas que eu nunca tinha ouvido, e comecei a falar e
continuei falando at contar a ela coisas que nunca tinha contado a ningum,
exceto Lena. No consigo explicar. Era como se eu tivesse perdido o controle
da minha lngua.
     Contei sobre minha me, sobre como ela morreu, apesar de eu quase
nunca falar sobre isso com ningum. Contei sobre Amma, sobre como ela lia
cartas e como ela era tipo minha me agora que eu no tinha uma, exceto
pelos amuletos e bonecos e sua natureza geralmente desagradvel. Contei
sobre Link, sobre a me dele e sobre como ela tinha mudado ultimamente e
passava todo o tempo tentando convencer todo mundo de que Lena era to
louca quanto Macon Ravenwood e um perigo para todos os alunos da
Jackson.
     Contei sobre meu pai, sobre como ele ficava enfiado no escritrio, com
seus livros e uma pintura secreta que nunca tive permisso de ver, e como eu
sentia que precisava proteg-lo, apesar de ser de algo que j tinha acontecido.
     Contei sobre Lena, sobre como nos conhecemos na chuva, como parecia
que j nos conhecamos mesmo antes de nos conhecermos e sobre a cena
confusa com a janela.
     Quase parecia que ela estava sugando isso tudo de mim, como ela sugava
aquele pirulito vermelho grudento, que, alis, ela continuava lambendo
enquanto dirigia. Precisei de toda minha fora para no contar a ela sobre o
medalho e os sonhos. Talvez o fato de ela ser prima de Lena tenha tornado
tudo um pouco mais fcil entre ns. Talvez fosse outra coisa.
     Quando eu estava comeando a me questionar, entramos em
Ravenwood e ela desligou o rdio. O sol tinha se posto, o pirulito acabou e eu
finalmente calei a boca. Quando foi que isso aconteceu?
     Ridley se inclinou em minha direo, bem perto. Eu conseguia ver meu
rosto refletido nos culos de sol dela. Inspirei fundo a atmosfera dela. Tinha
um cheiro doce e meio mido, nada parecido com o de Lena, mas ainda
assim um tanto familiar.
     -- Voc no precisa ficar preocupado, Palitinho.
     -- ? por que no?
     -- Voc  pra valer.
     Ela sorriu para mim, e seus olhos brilharam. Por trs dos culos, eu
conseguia ver um brilho dourado, como peixes dourados nadando em um
lago escuro. Eles eram hipnticos, mesmo atravs das lentes escuras. Talvez
fosse por isso que ela os usava. Ento os culos ficaram escuros e ela mexeu
no meu cabelo.
     -- Pena que provavelmente ela jamais volte a v-lo depois que voc
conhecer o resto de ns. Nossa famlia  um pouco pirada.
    Ela saiu do carro e eu a segui.
    -- Mais pirada do que voc?
    -- Infinitamente.
    Que timo.
     Ela colocou a mo gelada no meu brao mais uma vez quando chegamos
ao primeiro degrau em frente  casa.
     -- Mais uma coisa, Namorado. Quando Lena te der o fora, o que ela
far em uns cinco meses, me d uma ligada. Voc saber como me encontrar.
-- Ela passou o brao pelo meu, estranhamente formal de repente. -- Posso?
     Gesticulei com minha mo livre.
     -- Claro. Depois de voc.
     Enquanto subamos a escada, os degraus gemeram sob nosso peso. Levei
Ridley at a porta da frente sem saber se a escada ia aguentar nosso peso ou
no.
     Bati na porta, mas no houve resposta. Estiquei o brao e tateei em
busca da lua. A porta se abriu, lentamente...
     Ridley parecia hesitante. E enquanto cruzvamos o portal, eu quase
podia sentir a casa se ajustando, como se o clima l dentro tivesse mudado
quase imperceptivelmente.
     -- Ol, me.
     Uma mulher gorducha, ocupada arrumando abboras e folhas douradas
sobre a lareira, levou um susto e deixou cair uma pequena abbora branca,
que explodiu no cho, Ela se segurou na prateleira acima da lareira para se
equilibrar. Parecia estranha, como se usasse um vestido de cem anos atrs.
     -- Julia! Quero dizer, Ridley. O que voc est fazendo aqui? Devo estar
confusa. Pensei, pensei...
     Eu sabia que alguma coisa estava errada. Isso no parecia um
cumprimento normal entre me e filha.
     -- Jules?  voc? -- Uma verso mais nova de Ridley, de uns 10 anos,
entrou andando na sala da frente com Boo Radley, que usava uma capa azul
brilhante sobre as costas. Fantasiavam o lobo da famlia como se nada de
incomum estivesse acontecendo. Tudo na garota era claro e luminoso; ela
tinha cabelos louros e olhos azuis radiantes, como se tivessem pequenos
pedacinhos do cu em uma tarde ensolarada. A garota sorriu e depois franziu
a testa. -- Pensei que voc tinha ido embora.
     Boo comeou a rosnar.
     Ridley abriu os braos, esperando que a garotinha corresse at eles, mas
ela nem se moveu. Ento Ridley esticou as mos e abriu cada uma. Um
pirulito vermelho surgiu na primeira e, para no ser superada, um ratinho
cinzento usando uma capa azul brilhante que combinava com a de Boo
farejava o ar na outra, como um truque barato de parque de diverses,
     A garotinha deu um passo  frente, hesitante, como se a irm tivesse o
poder de pux-la pela sala sem nem um toque, como a lua com as mars. Eu
tinha sentido a mesma coisa.
     Quando Ridley falou, a voz estava grave, mas macia como mel.
     -- Venha, Ryan. Mame s estava provocando voc pra ver se
reclamava. No fui a lugar nenhum. No mesmo. Sua irm mais velha
favorita abandonaria voc?
     Ryan sorriu e correu para Ridley, pulando como se fosse saltar em seus
braos abertos. Boo latiu. Por um momento, Ryan ficou suspensa no ar, como
um daqueles personagens de desenho que acidentalmente pula de um
precipcio e fica l no ar por alguns segundos antes de cair. E ento ela caiu e
bateu abruptamente no cho, como se tivesse batido numa parede invisvel.
As luzes dentro da casa ficaram mais intensas, todas de uma vez, como se a
casa fosse um palco e a iluminao estivesse mudando para indicar o final de
um ato. Sob a luz, as feies de Ridley tinham sombras cruis.
     A luz mudava as coisas. Ridley colocou uma mo sobre os olhos,
gritando para a casa:
     -- Ah, por favor, tio Macon. Isso  mesmo necessrio?
     Boo deu um salto para a frente, se posicionando entre Ryan e Ridley.
Rosnando, o cachorro foi chegando cada vez mais perto, o pelo nas costas
eriado, fazendo-o parecer ainda mais com um lobo. Aparentemente, o
charme de Ridley no tinha efeito sobre Boo.

    Ridley enroscou o brao no meu com fora, e riu e rosnou ao mesmo
tempo, ou algo assim. No era um som amigvel, tentei manter o controle,
mas minha garganta estava muito seca.
    Com uma das mos sobre meu brao, ela levantou a outra sobre a
cabea e a moveu em direo ao teto.
     -- Bem, se voc vai ser rude...
     Todas as luzes da casa se apagaram. A casa inteira parecia em curto.
     A voz de Macon surgiu calmamente do alto da escurido.
     -- Ridley, minha querida, que surpresa. No estvamos esperando voc.
     No a estavam esperando? De que ele estava falando?
     -- Eu no perderia a Reunio por nada no mundo. E veja, trouxe um
convidado. Ou acho que voc poderia dizer que sou a convidada dele.
     Macon desceu a escadaria sem tirar os olhos de Ridley. Eu estava vendo
dois lees se cercando e estava parado no meio. Ridley tinha me enganado, e
eu tinha cado direitinho, como um otrio, manipulado como o pirulito que
ela continuava chupando.
     -- No acho que seja uma boa ideia. Tenho certeza de que voc 
esperada em algum outro lugar.
     Ela tirou o pirulito da boca com um estalo.
     -- Como eu disse, no perderia isso por nada. Alm do mais, voc no ia
querer que eu levasse Ethan de carro at a casa dele. Sobre o que a gente
conversaria?
     Eu queria sugerir que fssemos embora, mas no conseguia fazer as
palavras sarem. Todos ficaram parados na sala, olhando uns para os outros.
Ridley se apoiou em uma das colunas.
     Macon rompeu o silncio.
     -- Por que voc no leva Ethan at a sala de jantar? Tenho certeza que
voc se lembra onde .
     -- Mas Macon... -- A mulher que eu supus ser tia Del parecia em
pnico, e tambm confusa, como se no soubesse bem o que estava
acontecendo.
     -- Est tudo bem, Delphine.
     Eu podia ver no rosto de Macon que ele estava improvisando, dando um
passo de cada vez, um passo a frente de todos ns. Sem saber em que eu tinha
me metido, acabava sendo um alvio saber que ele estava l.
     O ltimo lugar onde eu queria ir era a sala de jantar. Queria sair
correndo dali, mas no conseguia fazer nada. Ridley no soltava meu brao, e
enquanto ela estava tocando em mim, eu sentia como se estivesse no piloto
automtico. Ela me levou at a sala de jantar formal onde eu tinha ofendido
Macon pela primeira vez. Olhei para Ridley, pendurada no meu brao. Essa
ofensa era muito pior.
     A sala estava iluminada por centenas de pequenas velas votivas pretas e
pedaos de cordo com contas pretas pendurados no lustre. Havia uma
enorme coroa, toda feita de penas pretas, na porta que levava  cozinha. A
mesa estava posta com pratos prateados e branco-perolados, que, na minha
opinio, eram feitos mesmo de prola.
     A porta da cozinha se abriu. Lena passou por ela de costas, carregando
uma enorme bandeja de prata, cheia de frutas com aparncia extica que
definitivamente no eram da Carolina do Sul. Ela usava um casaco justo,
preto e longo at o cho, amarrado na cintura. Parecia estranhamente
atemporal, como nada que eu tivesse visto neste pas ou mesmo neste sculo,
mas, quando olhei para baixo, vi que ela estava usando o All Star. Estava
ainda mais bonita do que quando eu tinha vindo jantar... Quando? H
algumas semanas?
     Minha mente parecia enevoada como se eu estivesse meio dormindo.
Respirei fundo, mas s conseguia sentir o cheiro de Ridley, um cheiro
almiscarado misturado com algo doce demais, como uma calda borbulhando
no fogo. Era forte e sufocante.
     -- Est quase pronto. S falta um pouco... -- Lena ficou paralisada, a
porta ainda entreaberta. Ela parecia ter visto um fantasma, ou algo muito
pior. Eu no tinha certeza se era apenas a viso de Ridley ou se era a de ns
dois ali parados de braos dados.
     -- Oi, prima. Quanto tempo. -- Ridley deu alguns passos, me
arrastando junto. -- No vai me dar um beijo?
     A bandeja que Lena carregava caiu no cho.
     -- O que voc est fazendo aqui? -- A voz de Lena mal chegava a um
sussurro.
     -- U, vim ver minha prima favorita,  claro, e trouxe um
acompanhante.
     -- No sou seu acompanhante -- eu disse com pouca convico, mal
pronunciando as palavras, ainda grudado no brao. Ela tirou um cigarro do
mao enfiado na bota e o acendeu, tudo isso com a mo livre.
     -- Ridley, por favor, no fume dentro de casa -- disse Macon, e o
cigarro instantaneamente se apagou. Ridley riu e o jogou em uma travessa
que parecia de pur de batata, mas que provavelmente no era.
     -- Tio Macon. Voc sempre foi chato com as regras da casa.
     -- As regras foram impostas h muito tempo, Ridley. No h nada que
voc ou eu possamos fazer para mud-las agora.
     Eles se entreolhavam. Macon gesticulou, e uma cadeira se arrastou
sozinha da mesa.
     -- Por que no nos sentamos? Lena, pode dizer  Cozinha que teremos
duas pessoas mais para o jantar?
     Lena apenas ficou parada, parecendo ferver.
     -- Ela no pode ficar.
     -- Est tudo bem. Nada pode te fazer mal aqui -- disse Macon de forma
tranquilizante. Mas Lena no parecia assustada. Parecia furiosa.
     Ridley sorriu.
     -- Tem certeza disso?
     -- O jantar est pronto, e voc sabe o que a Cozinha acha sobre servir
comida fria.
     Macon entrou na sala de jantar. Todos o seguiram, apesar de ele mal ter
falado alto o bastante para que ns quatro, que j estvamos na sala, o
ouvssemos.
     Boo entrou na frente, andando desajeitadamente ao lado de Ryan. Tia
Del veio em seguida, de braos dados com um homem grisalho da idade do
meu pai. Ele estava vestido como se tivesse sado de um dos livros do
escritrio da minha me, com botas at os joelhos, uma camisa com babados
e uma capa esquisita de pera. Os dois pareciam um item de exposio do
museu Smithsonian.
     Uma garota mais velha entrou na sala. Ela parecia muito com Ridley, s
que usava mais roupas e no parecia to perigosa. Tinha cabelos louros
longos e lisos com uma verso mais arrumadinha da franja repicada de
Ridley. Parecia o tipo de garota que podia ser vista carregando uma pilha de
livros em um velho campus de faculdade bacana no norte, tipo Yale ou
Harvard. A garota olhou nos olhos de Ridley, como se pudesse ver os olhos
dela pelos culos escuros que ainda estavam em seu rosto.
     -- Ethan, gostaria de apresentar minha irm mais velha, Annabel. Ah,
desculpe, eu quis dizer Reece.
     Quem no sabe o nome da prpria irm?
     Reece sorriu e falou lentamente, como se estivesse escolhendo as palavras
com cuidado.
     -- O que est fazendo aqui, Ridley? Pensei que voc tinha outro
compromisso hoje.
     -- Os planos mudam.
     -- As famlias tambm.
     Reece ergueu a mo e a balanou em frente ao rosto de Ridley, apenas
um simples floreio, como um mgico passando a mo sobre uma cartola. Eu
me encolhi; no sei o que estava pensando, mas por um segundo achei que
Ridley pudesse desaparecer. Ou, mais provavelmente, eu.
     Mas ela no desapareceu, e dessa vez foi Ridley que se encolheu e olhou
para o outro lado, como se fosse fisicamente doloroso encarar Reece.
     Reece examinou o rosto de Ridley como se fosse um espelho.
     -- Interessante. Por que, Rid, quando olho nos seus olhos, s vejo os
dela? Vocs duas so unha e carne, no so?
     -- Est tagarelando de novo, mana.
     Reece fechou os olhos, se concentrando. Ridley se contorceu como uma
borboleta capturada. Reece fez o movimento com a mo de novo e, por um
momento, o rosto de Ridley se dissolveu na imagem turva de outra mulher. O
rosto da mulher era meio familiar, s que eu no consegui lembrar por qu.
     Macon botou a mo com fora no ombro de Ridley. Foi a nica vez em
que vi algum toc-la alm de mim. Ridley fez uma careta, e eu pude sentir
uma pontada de dor irradiando da mo dela para o meu brao. Macon
Ravenwood obviamente no era um homem para no ser levado a srio.
     -- Agora. Gostem ou no, a Reunio j comeou. No vou aceitar que
ningum estrague as Grandes Festividades, no debaixo do meu teto. Ridley,
como ela mesma esclareceu, foi convidada para se juntar a ns. Nada mais
precisa ser dito. Por favor, sentem-se,
     Lena sentou com os olhos grudados em ns dois.
     Tia Del parecia ainda mais preocupada do que quando chegamos. O
homem de capa de pera bateu na mo dela para acalm-la. Um cara alto da
minha idade usando jeans preto, uma camisa preta gasta e botas surradas
entrou, parecendo entediado.
     Ridley fez as apresentaes.
     -- Voc j conhece minha me. E este  meu pai, Barclay Kent, e meu
irmo, Larkin.
     --  um prazer conhec-lo, Ethan.
     Barclay deu um passo como se fosse apertar minha mo, mas quando
reparou na mo de Ridley no meu brao, deu outro passo para trs. Larkin
passou o brao pelo meu ombro, mas quando olhei, o brao tinha virado uma
cobra, sacudindo a lngua para fora da boca.
     -- Larkin! -- sibilou Barclay. A cobra voltou a ser o brao de Larkin em
um instante.
     -- Nossa. S estou tentando melhorar o humor aqui. Vocs so todos um
bando de resmunges. -- Os olhos de Larkin ficaram amarelos, com uma
fenda vertical. Olhos de cobra.
     -- Larkin, eu disse que j foi o bastante. -- O pai olhou para ele de um
jeito que s um pai pode olhar para um filho que sempre o desaponta. Os
olhos de Larkin voltaram a ficar verdes.
     Macon se sentou na cabeceira da mesa.
     -- Por que no nos sentamos? A Cozinha preparou um de seus melhores
banquetes de festa. Lena e eu fomos sujeitados  barulheira por dias.
     Cada um tomou seu lugar na enorme mesa retangular com ps em
formas de garra. Era de madeira escura, quase preta, e havia desenhos
intrincados, como vinhas, entalhados nas pernas. Enormes velas pretas
brilhavam no centro da mesa.
     -- Sente aqui ao meu lado, Palitinho.
     Ridley me levou at uma cadeira vazia, em frente ao pssaro de prata
que trazia o marcador de lugar de Lena, como se eu tivesse escolha.
     Tentei fazer contato visual com Lena, mas seus olhos estavam fixados em
Ridley. E pareciam ferozes. Eu s esperava que sua raiva fosse direcionada
somente a Ridley.
     A mesa estava transbordando de comida, ainda mais do que a ltima vez
em que estive l; cada vez que eu olhava para a mesa, havia mais. Costelas de
cordeiro assadas, um fil assado com alecrim, e mais pratos exticos que eu
nunca tinha visto antes. Uma grande ave recheada com molho e peras estava
posta junto a penas de pavo arrumadas para parecerem a cauda aberta de
um pavo vivo. Eu esperava que no fosse um pavo de verdade, mas
considerando as penas da cauda, tinha quase certeza de que era. E doces
brilhosos, acho que no formato exato de cavalos-marinhos.
     Mas ningum estava comendo, ningum exceto Ridley. Ela parecia estar
se divertindo.
     -- Adoro cavalos de acar. -- Ela enfiou dois dos pequenos cavalos-
marinhos dourados na boca.
     Tia Del tossiu algumas vezes enquanto enchia uma taa com um lquido
negro da consistncia de vinho de um decantador sobre a mesa.
     Ridley olhou para Lena, do outro lado da mesa.
     -- E ento, prima, algum plano pro seu aniversrio? -- Ridley enfiou os
dedos em um molho marrom escuro em uma tigela ao lado da ave que eu
esperava que no fosse um pavo e o lambeu sugestivamente.
     -- No vamos falar do aniversrio de Lena esta noite -- avisou Macon.
     Ridley estava gostando da tenso. Colocou outro cavalo-marinho na
boca.
     -- Por que no?
     Os olhos de Lena estavam selvagens.
     -- Voc no precisa se preocupar com o meu aniversrio. No vai ser
convidada.
     -- Mas voc deveria se preocupar.  um aniversrio to importante,
afinal. -- Ridley riu.
     O cabelo de Lena comeou a se movimentar como se houvesse vento na
saa. No havia.
     -- Ridley, eu j disse que basta.
     Macon estava perdendo a pacincia. Reconheci seu tom como sendo o
mesmo que usou quando eu tirei o medalho do meu bolso durante minha
primeira visita.
     -- Por que est tomando o lado dela, tio M? Passei tanto tempo com
voc quanto Lena quando eu era pequena. Como ela de repente virou sua
favorita? -- Por um momento, ela quase soou magoada,
     -- Voc sabe que no tem nada a ver com favoritas. Voc foi Invocada.
Est fora do meu alcance.
     Invocada? Pelo qu? De que ele estava falando? O nevoeiro ao meu
redor estava ficando mais grosso. Eu no tinha certeza se ouvia tudo
corretamente.
     -- Mas voc e eu somos iguais -- implorava ela para Macon, como uma
criana mimada.
     A mesa comeou a tremer quase imperceptivelmente, o lquido negro nos
copos de vinho gentilmente ondulando de um lado para o outro. Ento ouvi
batidas rtmicas no telhado. Chuva.
     Lena segurava a borda da mesa, as dobras dos dedos brancas.
     -- Voc NO  igual -- sibilou ela.
     Senti o corpo de Ridley enrijecer contra meu brao, em torno do qual ela
ainda estava enrolada como uma cobra.
     -- Voc se acha muito melhor do que eu, Lena... no ? Voc nem sabe
seu nome real. Nem se d conta de que essa sua relao est condenada.
Apenas espere at que seja Invocada e descobrir como as coisas realmente
funcionam. -- Ela riu, um som sinistro e doloroso. -- Voc no tem ideia se
somos iguais ou no. Em alguns meses, voc pode acabar exatamente como
eu.
     Lena olhou para mim, em pnico. A mesa comeou a tremer com mais
intensidade, os pratos batendo na madeira. Houve um estalo de relmpago l
fora, e a chuva comeou a despencar pelas janelas como lgrimas.
     -- Cale a boca!
     -- Conte para ele, Lena. Voc no acha que o Palitinho aqui merece
saber de tudo? Que voc no tem ideia se  da Luz ou das Trevas? Que voc
no tem escolha?
     Lena deu um salto e ficou de p, e a cadeira atrs dela caiu no cho.
     -- Eu mandei calar a boca!
     Ridley estava relaxada de novo, se divertindo.
     -- Conte para ele como morvamos juntas, dormamos no mesmo
quarto, como irms, que eu era exatamente como voc h um ano e agora...
     Macon ficou de p na cabeceira da mesa, apoiado nas duas mos. Seu
rosto plido parecia mais branco que o normal.
     -- Ridley, j chega! Vou Conjurar voc para fora dessa casa se disser
mais uma palavra.
     -- Voc no pode me Conjurar para fora, tio. No  forte o bastante
para isso.
     -- No superestime suas habilidades. Nenhuma Conjuradora das Trevas
desse planeta  poderosa o bastante para entrar em Ravenwood sozinha. Eu
mesmo enfeiticei a propriedade. Todos ns fizemos.
     Conjuradora das Trevas? Isso no soava bem.
     -- Ah, tio Macon. Voc est se esquecendo da famosa hospitalidade
sulista. Eu no invadi. Fui convidada, vim guiada pelo brao do cavalheiro
mais bonito de Gat-lixo.
     Ridley se virou para mim e sorriu, tirando os culos de cima dos olhos.
Eles estavam esquisitos, brilhando dourados como se estivessem em chamas.
Tinham o formato de olhos de gato, com fendas negras no meio. Luz
emanava de seus olhos, e sob aquela luz, tudo mudava.
     Ela olhou para mim com aquele sorriso sinistro, e seu rosto estava
contorcido em trevas e sombras. As feies que tinham sido to femininas e
atraentes agora estavam ficando exageradas e duras, se modificando em
frente aos meus olhos. A pele parecia se apertar sobre os ossos, acentuando
cada veia at tal ponto que era quase possvel ver o sangue que pulsava nelas.
Ela parecia um monstro.
     Eu tinha levado um monstro para dentro de casa, para a casa de Lena.
     Quase imediatamente, a casa comeou a tremer violentamente. Os
lustres de cristal balanavam e as luzes piscavam. As janelas da fazenda
abriam e fechavam com fora, enquanto a chuva batia no telhado. O som era
to alto que era quase impossvel ouvir qualquer outra coisa, como na noite
em que quase atropelei Lena quando ela estava parada no meio da rua.
     Ridley segurou meu brao com mais fora gelada. Tentei me soltar dela,
mas mal conseguia me mover. O frio estava se espalhando; todo meu brao
estava comeando a ficar dormente.
     Lena olhou para mim horrorizada.
     -- Ethan!
     Tia Del bateu o p com fora no cho. As tbuas do piso pareceram
rolar sob seus ps.
     O frio tinha se espalhado pelo meu corpo. Minha garganta estava
congelada. Minhas pernas estavam paralisadas; eu no conseguia me mover.
No conseguia me soltar do brao de Ridley, e no conseguia dizer para
ningum o que estava acontecendo. Em alguns poucos minutos, eu no
conseguiria respirar.
     Uma voz de mulher veio por sobre a mesa. Tia Del.
     -- Ridley. Mandei voc ficar longe, criana. No h nada que possamos
fazer por voc agora. Lamento muito.
     A voz de Macon estava dura.
     -- Ridley, um ano pode fazer toda a diferena do mundo. Voc foi
Invocada. Encontrou seu ligar na Ordem das Coisas. No pertence mais a
este lugar. Voc tem que ir.
     Um segundo depois, ele estava parado bem na frente dela. Era isso, ou
eu estava perdendo a noo do que estava acontecendo. As vozes e rostos
comearam a girar ao meu redor. Eu mal conseguia respirar. Estava com
tanto frio, mas meu maxilar congelado nem se movia para que eu batesse o
queixo.
     -- V! -- ele gritou.
     -- No!
     -- Ridley! Se comporte! Voc tem que sair daqui. Ravenwood no  um
lugar para magia Negra. Este  um lugar Enfeitiado, um lugar de Luz. Voc
no consegue sobreviver aqui, no por muito tempo. -- A voz de tia Del era
firme.
     Ridley respondeu com um grunhido.
     -- No vou sair, me, e voc no pode me obrigar.
     A voz de Macon interrompeu o ataque de raiva dela.
     -- Voc sabe que isso no  verdade.
     -- Estou mais forte agora, tio Macon. Voc no pode me controlar.
     --  verdade, sua fora est crescendo, mas voc no est pronta para
me enfrentar, e vou fazer o que for necessrio para proteger Lena. Mesmo se
isso significar machucar voc, ou pior.
     O peso da ameaa dele foi demais para Ridley.
     -- Voc faria isso comigo? Ravenwood  um lugar Negro de poder.
Sempre foi, desde Abraham. Ele era um de ns. Ravenwood devia ser nossa.
Por que voc a Enfeitia com a Luz?
     -- Ravenwood  o lar de Lena agora.
     -- Seu lugar  comigo, tio M. Com Ela.
     Ridley ficou de p, me puxando junto. Os trs estavam de p agora,
Lena, Macon e Ridley, os trs vrtices de um tringulo verdadeiramente
assustador.
     -- No tenho medo da sua espcie.
     -- Pode at ser, mas voc no tem poder aqui. No contra todos ns e
uma Natural.
     Ridley gargalhou.
     -- Lena, uma Natural?  a coisa mais engraada que voc disse a noite
toda. J vi o que um Natural consegue fazer. Lena jamais poderia ser uma.
     -- Um Cataclista e um Natural no so a mesma coisa.
     -- Mas como no so? Um Cataclista  um Natural que foi para as
Trevas, dois lados da mesma moeda.
     De que ela estava falando? Eu no fazia a menor ideia do que estava
acontecendo.
     E ento senti meu corpo ficar paralisado e soube que estava desmaiando
-- que provavelmente ia morrer. Era como se toda a vida tivesse sido sugada
de meu corpo, junto com o calor do meu sangue. Eu consegui ouvir o som de
trovo. Um -- depois relmpago e o barulho de um galho de rvore caindo
do lado da janela. A tempestade tinha chegado. Estava bem sobre ns.
     -- Voc est errado, tio M. No vale a pena proteger Lena, e ela
certamente no  uma Natural. Voc no saber o destino dela at o
aniversrio. Acha que s porque ela  doce e inocente agora, ela ser
Invocada pela Luz? Isso no significa nada. No foi igual h um ano? E pelo
que o Palitinho aqui andou me contando, ela est mais perto de ir para as
Trevas do que para a Luz. Tempestades com relmpagos? Aterrorizando a
escola?
     O vento ficou mais forte, e Lena estava ficando mais irritada. Eu podia
ver a fria em seus olhos. Uma janela se quebrou, exatamente como na aula
de Ingls. Eu sabia onde isso ia parar.
     -- Cale a boca! Voc no sabe de que est falando!
     A chuva caiu com tudo na sala de jantar. O vento veio em seguida,
fazendo voar copos e pratos para o cho, lquido negro se espalhando pelo
piso em longos filetes. Ningum se moveu.
     Ridley se virou de novo para Macon.
     -- Voc sempre deu crdito demais a ela. Ela no  nada.
     Eu queria me soltar do toque de Ridley, peg-la e arrast-la para fora da
casa eu mesmo, mas no conseguia me mover.
     Uma segunda janela se quebrou, depois outra e mais outra. Havia vidro
quebrando em toda parte. Porcelana, copos de vinho, os vidros em cada
porta-retratos. A moblia batia contra a parede. E o vento; parecia que um
tornado tinha sido sugado para a sala conosco. O som era to alto que eu no
conseguia ouvir mais nada. A toalha saiu voando de cima da mesa, com velas,
travessa e pratos ainda em cima, jogando tudo contra a parede. A sala girava,
eu acho. Tudo estava sendo sugado para o corredor, em direo  porta da
frente. Boo Radley gritou, um horrvel grito humano. O aperto de Ridley
pareceu afrouxar em meu brao. Pisquei com fora, tentando no desmaiar.
     E ali, de p no meio de tudo, estava Lena. Estava perfeitamente imvel,
os cabelos sacudidos pelo vento em torno dela. O que estava acontecendo?
     Senti minhas pernas fraquejarem. Quando eu estava perdendo a
conscincia, senti o vento, uma onda de poder que literalmente arrancou meu
brao da mo de Ridley quando ela foi sugada para fora da sala, em direo 
porta da frente. Ca no cho enquanto ouvia a voz de Lena, ou pensei ouvir.
     -- Saia de perto do meu namorado, bruxa.
     Namorado.
     Era isso que eu era?
     Tentei sorrir. Em vez disso, apaguei.
                      p 9 de outubro p
                 Uma rachadura no gesso
                                     d
Q    uando acordei, no tinha ideia de onde estava. Tentei focalizar o olhar
     nas primeiras coisas que estavam  vista. Palavras. Expresses escritas 
     mo no que pareceu ser caneta permanente, bem no teto acima da cama.
     Momentos sangram juntos, sem dimenso de tempo.
     Havia centenas de outras tambm, escritas em toda parte, partes de
frases, partes de versos, grupos aleatrios de palavras. Na porta de um
armrio estava escrito o destino decide. Em outra, havia desafiada pelos
destinados. Para cima e para baixo na porta, eu via as palavras desesperada/
inexorvel/ condenada/ apoderada. O espelho dizia abra seus olhos as
vidraas da janela diziam e veja.
     At a plida cpula do abajur trazia escritas as palavras
ilumineaescuridoilu-mineaescurido vrias vezes, em um padro de
repetio infinito.
     A poesia de Lena. Eu finalmente estava lendo alguma coisa escrita por
ela. Mesmo ignorando a distinta escrita, esse quarto no se parecia com o
resto da casa. Era pequeno e aconchegante, bem debaixo do telhado. Um
ventilador de teto girava lentamente sobre minha cabea, cortando as
palavras. Havia pilhas de cadernos espiral em todas as superfcies, e uma
pilha de livros na mesa de cabeceira. Livros de poesia. Plath, Eliot, Bukowski,
Frost, Cummings -- pelo menos eu reconhecia os nomes.
     Eu estava deitado em uma pequena cama de ferro branca, minhas
pernas ultrapassando a beirada. Este era o quarto de Lena, e eu estava
deitado na cama dela. Lena estava encolhida em uma cadeira no p da cama,
a cabea descansando sobre o brao.
     Eu me sentei, grogue.
     -- Ei. O que houve?
     Eu tinha certeza de que tinha desmaiado, mas os detalhes me fugiam. A
ltima coisa de que eu lembrava era do frio congelante se deslocando pelo
meu corpo, minha garganta fechando e a voz de Lena. Achava que ela tinha
dito qualquer coisa sobre eu ser seu namorado, mas como eu estava prestes a
desmaiar naquele momento e nada tinha acontecido entre ns, achei que
deveria duvidar. Manifestao dos meus desejos, eu acho.
     -- Ethan! -- Ela pulou da cadeira e subiu na cama ao meu lado, apesar
de parecer tomar o cuidado de no me tocar. -- Voc est bem? Ridley no
soltava voc, e eu no sabia o que fazer. Voc parecia estar com tanta dor,
ento eu s reagi.
     -- Est falando do tornado no meio da sua sala de jantar?
     Ela olhou para o outro lado, infeliz.
     --  isso que acontece. Eu sinto coisas, fico com raiva ou com medo e
ento... as coisas apenas acontecem.
     Estiquei o brao e coloquei a mo sobre a dela, sentindo o calor subir.
     -- Coisas como janelas quebrarem?
     Ela olhou para mim e fechei meus dedos sobre a mo dela at que
estivesse toda dentro da minha. Uma rachadura no gesso velho no canto atrs
dela pareceu aumentar, at cruzar o teto, circundar o velho candelabro e
descer de novo. Parecia um corao. Um corao gigante, enroscado e
feminino tinha acabado de aparecer no gesso rachado do teto do quarto dela.
     -- Lena.
     -- O qu?
     -- Seu teto vai cair na nossa cabea?
     Ela se virou e olhou para a rachadura. Quando viu, mordeu o lbio e
ficou com as bochechas rosadas.
     -- Acho que no.  s uma rachadura no gesso.
     -- Voc fez isso de propsito?
     -- No. -- Um rubor rosado se espalhou no nariz e nas bochechas dela.
Lena olhou para o outro lado.
     Eu queria perguntar em que ela estava pensando, mas no queria deix-
la sem graa. Apenas esperava que tivesse alguma coisa a ver comigo, com a
mo dela aninhada na minha. Com a palavra que eu tinha pensado ouvi-la
dizer logo antes de eu desmaiar.
     Olhei com dvida para a rachadura. Havia muita coisa naquela
rachadura no gesso.
     -- Voc pode desfaz-las? Essas coisas que apenas... acontecem?
     Lena suspirou, aliviada por falar de outra coisa.
     -- s vezes. Depende. s vezes tico to sobrecarregada que no consigo
controlar nem consertar, nem mesmo depois. Acho que no conseguiria
colocar o vidro de volta na janela da escola. Acho que no conseguiria
impedir a chegada da tempestade no dia que nos conhecemos.
     -- Acho que aquela no foi sua culpa. Voc no pode se culpar por cada
tempestade que cai sobre o condado de Gatlin. A temporada de furaces nem
terminou ainda.
     Ela se virou de barriga para baixo e me olhou nos olhos. No soltou
minha mo, e nem eu soltei a dela. Meu corpo todo vibrava com o calor do
seu toque.
     -- Voc no viu o que aconteceu hoje?
     -- s vezes um furaco pode ser apenas um furaco, Lena.
     -- Enquanto eu estiver por aqui, sou a temporada de furaces do
condado de Gatlin. -- Ela tentou puxar a mo, mas isso s me fez segurar
com mais fora.
     -- Isso  engraado. Pra mim, voc parece mais uma garota.
     -- ? Pois bem, no sou. Sou um alerta meteorolgico, fora de controle.
A maioria dos Conjuradores consegue controlar seus dons quando chegam 
minha idade, mas na metade das vezes parece que o meu me controla. -- Ela
apontou para seu prprio reflexo no espelho da parede. O texto de caneta
permanente se escreveu sozinho sobre o reflexo enquanto olhvamos. Quem
 essa garota? -- Ainda estou tentando entender tudo, mas s vezes parece
que nunca vou conseguir.
     -- Todos os Conjuradores tm os mesmos poderes, dons, sei l?
     -- No. Conseguimos fazer coisas simples como mover objetos, mas cada
Conjurador tambm tem habilidades mais especficas relacionadas ao seu
dom.
     Nesse momento, desejei que houvesse algum tipo de aula que eu pudesse
frequentar para conseguir acompanhar essas conversas, Introduo 
Conjuradores, sei l, porque eu ficava sempre meio perdido. A nica pessoa
que eu conhecia que tinha alguma habilidade especial era Amma. Ler o
futuro e afastar espritos do mal tinha que contar para alguma coisa, certo? E
por tudo que eu sabia, Amma conseguia fazer eu me mexer; ela conseguia
botar meu rabo em movimento com apenas um olhar.
      -- E quanto  tia Del? O que ela consegue fazer?
      -- Ela  uma Palimpsesta. L o tempo.
      -- L o tempo?
      --  assim: eu e voc entramos em uma sala e vemos o presente. A tia
Del v diferentes pontos no passado e no presente, tudo de uma vez. Ela
consegue entrar em uma sala e ver como ela  hoje e como era h dez anos,
h vinte, h cinquenta, tudo ao mesmo tempo.  meio como quando tocamos
no medalho.  por isso que ela fica sempre to confusa. Nunca sabe
exatamente quando ou onde est.
      Pensei em como me senti depois de uma das vises, e de como seria me
sentir daquele jeito o tempo todo.
      -- Caramba. E Ridley?
      -- Ridley  uma Sirena. O dom dela  o Poder da Persuaso. Ela
consegue enfiar qualquer ideia na cabea de qualquer pessoa, fazer com que
contem a ela qualquer coisa, com que faam qualquer coisa. Se ela usasse o
poder dela em voc e mandasse voc pular de um penhasco, voc pularia.
      Eu me lembrei de como me senti no carro com Ridley, como se pudesse
contar a ela quase qualquer coisa.
      -- Eu no pularia.
      -- Pularia. Voc teria que pular. Um homem Mortal no  preo para
uma Sirena.
      -- Eu no pularia. -- Olhei para ela. O cabelo esvoaava em torno do
seu rosto com a brisa, apesar de no haver nenhuma janela aberta no quarto.
Procurei nos olhos dela algum sinal de que ela estivesse se sentindo do mesmo
jeito que eu. -- No se pode pular de um penhasco quando j se caiu de
outro maior.
      Ouvi as palavras saindo da minha boca e desejei no t-las dito assim que
as disse. Tinham soado muito melhor na minha cabea. Ela olhou para mim,
tentando ver se eu estava falando srio. Eu estava, mas no consegui dizer
isso. Em vez disso, mudei o assunto.
     -- E qual  o superpoder de Reece?
     -- Ela  uma Sibila, l rostos. Consegue ver o que voc viu, quando voc
viu e o que voc fez s de olhar nos seus olhos. Consegue abrir seu rosto e
literalmente l-lo como um livro.
     Lena ainda avaliava meu rosto.
     -- , quem era aquela? Aquela outra mulher em quem Ridley se
transformou por um segundo, quando Reece ficou olhando para ela? Voc
viu isso?
     Lena assentiu.
     -- Macon no queria me dizer, mas tem que ser algum das Trevas.
Alguma mulher poderosa.
     Continuei perguntando. Precisava saber. Era como descobrir que eu
tinha acabado de jantar com um bando de aliens.
     -- O que Larkin consegue fazer? Encantar cobras?
     -- Larkin  um Ilusionista.  como um Mutador. Mas tio Barclay  o
nico Mutador na famlia.
     -- Qual  a diferena?
     -- Larkin sabe Iludir, ou fazer qualquer coisa parecer com o que ele
quiser, por um tempo: pessoas, coisas, lugares. Ele cria iluses, mas elas no
so reais. Tio Barclay sabe Mutar, o que significa que ele consegue fazer um
objeto virar outro, pelo tempo que ele desejar.
     -- Ento seu primo muda a aparncia das coisas e seu tio muda o que
elas so?
     -- . De um modo geral, a vov diz que os poderes deles so parecidos.
Acontece s vezes entre pais e filhos. So muito parecidos, ento esto sempre
brigando.
     Eu sabia o que ela estava pensando, que ela jamais conheceria isso de
perto. Seu rosto se fechou e eu fiz uma tentativa idiota de aliviar a tenso.
     -- Ryan? Qual  o poder dela? Estilista de cachorros?
     --  cedo demais para saber. Ela s tem 10 anos.
     -- E Macon?
     -- Ele  apenas... o tio Macon. No h nada que tio Macon no saiba
fazer, ou que no faria por mim. Passei muito tempo com ele na infncia. --
Ela olhou para o outro lado, evitando a pergunta. No estava contando
alguma coisa, mas se tratando de Lena, era impossvel saber o qu. -- Ele 
como meu pai, ou como imagino meu pai. -- Ela no disse mais nada. Eu
sabia como era perder algum. Imaginei se seria pior nunca ter tido essa
pessoa.
     -- E voc? Qual  o seu dom?
     Como se ela tivesse s um. Como se eu no os tivesse visto em ao
desde o primeiro dia de aula. Como se eu no tivesse andado tentando juntar
coragem para fazer essa pergunta desde a noite em que ela se sentou em
minha varanda de pijama roxo.
     Ela fez uma pausa por um minuto, refletindo, ou decidindo se ia me
contar; era impossvel saber qual dos dois. Ento seus infinitos olhos verdes
me encararam.
     -- Sou uma Natural. Pelo menos tio Macon e tia Del acham que sou.
     Uma Natural. Fiquei aliviado. Pelo menos no soava to mal quanto
Sirena. Acho que no conseguiria lidar com algo assim.
     -- O que exatamente isso significa?
     -- Eu nem sei. No  apenas uma coisa. Quero dizer, supostamente uma
Natural consegue fazer muito mais do que outros Conjuradores. -- Ela disse
isso rapidamente, quase como se tivesse esperana de que eu no ouviria, mas
ouvi.
     Mais do que outros Conjuradores.
     Mais. Eu no tinha certeza de como me sentia em relao a mais. Com
menos eu conseguiria ter lidado. Menos teria sido bom.
     -- Mas, como voc viu hoje, nem sei o que consigo fazer.
     Ela puxou a colcha entre ns, nervosa. Eu puxei sua mo at que ela
estivesse deitada na cama ao meu lado, apoiada em um cotovelo.
     -- No ligo pra nada disso. Gosto de voc como voc .
     -- Ethan, voc mal sabe qualquer coisa sobre mim.
     Um calor sonolento estava se espalhando pelo meu corpo e, para ser
honesto, eu no dava a menor bola para o que ela estava dizendo. Era to
bom s estar perto dela, segurando sua mo, com apenas a colcha branca
entre ns.
     -- Isso no  verdade. Sei que voc escreve poesia e sei sobre o corvo em
seu cordo e sei que voc adora refrigerante de laranja e sua av, e caramelos
de chocolate misturados  pipoca.
     Por um segundo, achei que ela poderia sorrir.
     -- Isso no  quase nada.
     --  um comeo.
     Ela olhou bem nos meus olhos, os verdes dela examinando os meus azuis.
     -- Voc nem sabe meu nome,
     -- Seu nome  Lena Duchannes.
     -- Bem, pra comear, no .
     Eu me ergui e soltei da mo dela.
     -- De que voc est falando?
     -- No  meu nome. Ridley no estava mentindo sobre isso.
     Parte da conversa de antes comeou a voltar  minha mente. Me lembrei
de Ridley dizendo alguma coisa sobre Lena no saber seu verdadeiro nome
mas no achei que ela estivesse falando literalmente.
     -- Bem, qual  ento?
     -- No sei.
     -- Isso  alguma coisa de Conjuradores?
     -- Na verdade, no. A maioria dos Conjuradores sabe seu nome
verdadeiro, mas minha famlia  diferente. Na minha famlia, no sabemos
nosso nome de batismo at fazermos 16 anos. At ento, temos outros nomes.
O de Ridley era Julia. O de Reece era Annabel. O meu  Lena.
     -- Ento quem  Lena Duchannes?
     -- Sou uma Duchannes, isso eu sei. Mas Lena  apenas um nome que
minha av comeou a usar para me chamar.
     No falei nada por um segundo. Estava tentando absorver tudo.
     -- Certo, ento voc no sabe seu primeiro nome. Saber em alguns
meses.
     -- No  to simples. No sei nada sobre mim mesma.  por isso que sou
to louca o tempo todo. No sei meu nome e no sei o que aconteceu com
meus pais.
     -- Morreram em um acidente, no foi?
     --  o que me disseram, mas ningum fala sobre isso. No consigo achar
nenhum registro do acidente, e nunca vi os tmulos deles nem nada. Como
vou saber se  verdade?
     -- Quem mentiria sobre algo to horrvel assim?
     -- Conheceu minha famlia?
     -- Certo.
     -- E aquela monstra l embaixo, aquela bruxa que quase matou voc?
Acredite se quiser, ela era minha melhor amiga. Ridley e eu crescemos juntas
morando com minha av. Nos mudamos tanto que compartilhvamos a
mesma mala.
     --  por isso que vocs no tm sotaque. A maioria das pessoas jamais
acreditaria que j moraram no sul.
     -- Qual  a sua desculpa?
     -- Pais professores e uma jarra cheia de moedas cada vez que eu
pronunciava o G direito. -- Revirei os olhos. -- Ento Ridley no morava
com tia Del?
     -- No. Tia Del s visita nas frias. Na minha famlia, no se mora com
os pais.  perigoso demais. -- Obriguei a mim mesmo a no fazer as
prximas cinquenta perguntas enquanto Lena continuava disparada, como se
tivesse esperado uns cem anos para contar essa histria. -- Ridley e eu
ramos como irms. Dormamos no mesmo quarto e tnhamos aulas em casa
juntas. Quando nos mudamos pra Virgnia, convencemos minha av a nos
deixar ir pra escola normal. Queramos fazer amigos, ser normais. As nicas
vezes em que falvamos com Mortais era quando vov ia a museus, peras ou
para almoar no Olde Pink House e decidia nos levar.
     -- O que aconteceu quando vocs foram pra escola?
     -- Foi um desastre. Nossas roupas eram as roupas erradas, no tnhamos
TV, entregvamos todos os deveres de casa. ramos umas tremendas
perdedoras.
     -- Mas pelo menos esteve na companhia de Mortais.
     Ela no olhava para mim.
     -- Nunca tive um amigo Mortal at conhecer voc.
     --  mesmo?
     -- Eu s tinha Ridley. As coisas eram bem ruins pra ela tambm, mas ela
no ligava. Estava ocupada demais se certificando de que ningum me
incomodaria.
     Tive dificuldade em imaginar Ridley protegendo algum.
    As pessoas mudam, Ethan.
    No muito. Nem mesmo Conjuradores.
    Principalmente Conjuradores.  isso que estou tentando dizer a voc.
    Ela afastou a mo de mim.
     -- Ridley comeou a agir de um modo estranho, e ento os mesmos caras
que a ignoravam comearam a segui-la para todos os lados, e esperar por ela
depois da aula, e brigar pra ver quem a acompanharia at nossa casa.
     -- Ah, bem. Algumas garotas, simplesmente, so assim.
     -- Ridley no  uma garota qualquer. Eu falei, ela  uma Sirena.
Conseguia fazer com que as pessoas fizessem coisas, coisas que normalmente
no iam querer fazer. E aqueles garotos estavam pulando do penhasco, um
por um. -- Ela torceu o cordo nos dedos e continuou falando. -- Na noite
anterior ao seu aniversrio de 16 anos, eu segui Ridley at a estao de trem.
Ela estava apavorada. Disse que conseguia perceber que estava indo para as
Trevas, e tinha que ir embora antes que ferisse algum que amava. Antes que
me ferisse. Sou a nica pessoa que Ridley j amou. Ela desapareceu naquela
noite, e jamais tornei a v-la, at hoje. Acho que depois do que voc viu hoje,
est bem bvio que ela foi para as Trevas.
     -- Espere um segundo, de que voc est falando? O que quer dizer com
ir para as Trevas?
     Lena respirou fundo e hesitou, como se no tivesse certeza se queria me
dizer a resposta.
     -- Voc tem que me contar, Lena.
     -- Na minha famlia, quando voc faz 16 anos,  Invocado. Seu destino 
escolhido, e voc se torna da Luz, como tia Del e Reece, ou se torna das
Trevas, como Ridley. Trevas ou Luz, Preto ou Branco. No h cinza em
minha famlia. No podemos escolher, e no podemos desfazer depois que
somos Invocados.
     -- Como assim, no pode escolher?
     -- No podemos escolher se queremos ser da Luz ou das Trevas, bom ou
mau, como Mortais e outros Conjuradores podem. Na minha famlia, no h
livre arbtrio. Tudo  decidido no nosso dcimo-sexto aniversrio.
     Tentei entender o que ela estava dizendo, mas era louco demais. Eu
tinha morado com Amma tempo o bastante para saber que havia magia
Branca e Negra, mas era difcil acreditar que Lena no tinha escolha sobre
qual das duas era a sua.
     Sobre quem ela era.
     Ela ainda estava falando.
     --  por isso que no podemos morar com nossos pais.
     -- O que isso tem a ver?
     -- No era assim. Mas quando Althea, a irm da minha av, foi para as
Trevas, a me no conseguiu mandar Althea embora. Naquela poca,
quando um Conjurador ia para as Trevas, tinha que abandonar o lar e a
famlia, por motivos bvios. A me de Althea achou que podia ajud-la a
combater isso, mas no podia, e coisas terrveis comearam a acontecer na
cidade onde elas moravam.
     -- Que tipo de coisas?
     -- Althea era uma Evo. Eles so incrivelmente poderosos. Conseguem
influenciar pessoas como Ridley consegue, mas tambm conseguem Mudar,
se transformar em outras pessoas, em qualquer pessoa. Quando ela se
Transformou, acidentes inexplicveis comearam a acontecer na cidade.
Pessoas se feriram e, em um certo momento, uma garota se afogou. Foi
quando a me de Althea finalmente a mandou embora.
     E eu achava que a gente tinha problemas em Gatlin. No conseguia
imaginar uma verso mais poderosa de Ridley o tempo todo nas redondezas.
     -- Ento agora nenhum de vocs pode morar com os pais?
     -- Todos decidiram que seria difcil demais para os pais virar as costas
para os filhos se eles fossem para as Trevas. E desde ento, as crianas moram
com outros familiares at serem Invocadas.
     -- Ento por que Ryan mora com os pais dela?
     -- Ryan ... Ryan. Ela  um caso especial. -- Ela deu de ombros. --
Pelo menos,  o que tio Macon diz toda vez que pergunto.
     Tudo parecia surreal demais, a ideia de que todo mundo na famlia dela
possua poderes sobrenaturais. Tinham a mesma aparncia que eu, que todo
mundo em Gatlin; bem, talvez no todo mundo, mas eram completamente
diferentes. No eram? At mesmo Ridley, esperando na sada do Pare &
Roube. Nenhum dos caras suspeitou que ela fosse qualquer coisa alm de
uma garota incrivelmente gostosa, que estava obviamente bem confusa se
estava procurando por mim. Como acontecia? Como se era um Conjurador
em vez de um adolescente comum?
     -- Seus pais tinham dons? -- Eu odiava falar sobre os pais dela. Sabia
como era falar sobre um ente morto, mas precisava saber.
     -- Tinham. Todo mundo na famlia tem.
     -- Quais eram os dons deles? Se pareciam com o seu?
     -- No sei. Vov nunca disse nada. Eu falei,  como se eles nunca
tivessem existido. O que me faz pensar, sabe.
     -- Em qu?
     -- Talvez eles fossem das Trevas, e eu v para as Trevas tambm.
     -- No vai.
     -- Como voc sabe?
     -- Como posso ter os mesmos sonhos que voc? Como sei quando entro
em algum lugar se voc esteve ou no l?
    Ethan.
     verdade.
     Toquei na bochecha dela e disse baixinho:
     -- No sei como sei. Apenas sei.
     -- Sei que voc acredita nisso, mas no tem como saber. Nem eu sei o
que vai acontecer comigo.
     -- Essa  a maior merda que eu j ouvi. -- Era como todo o resto esta
noite; eu no tinha a inteno de dizer aquilo, pelo menos no em voz alta,
mas fiquei feliz por ter dito.
     -- O qu?
     -- Essa idiotice sobre destino. Ningum pode decidir o que acontece com
voc. Ningum alm de voc.
     -- No se voc  um Duchannes, Ethan. Outros Conjuradores podem
escolher, mas no ns, no na nossa famlia. Somos Invocados com 16 anos,
nos tornamos da Luz ou das Trevas. No h livre arbtrio.
     Levantei o queixo dela com minha mo.
     -- E da que voc  uma Natural. O que h de errado nisso?
     Olhei nos olhos dela e sabia que ia beij-la, e sabia que no havia nada
com que me preocupar desde que ficssemos juntos. E eu acreditava, naquele
um segundo, que sempre estaramos juntos.
     Parei de pensar no manual de estratgias de basquete da Jackson e
finalmente deixei que ela visse como eu me sentia, o que havia em minha
mente. O que eu estava prestes a fazer, e quanto tempo tinha demorado para
que eu tivesse coragem de fazer.
    Oh.
     Os olhos dela se arregalaram, ficaram maiores e mais verdes, se  que
isso era possvel.
    Ethan... No sei...
     Eu me inclinei e a beijei na boca. O gosto era salgado, como suas
lgrimas. Desta vez, no um calor, mas uma eletricidade irradiou da minha
boca aos meus dedos dos ps. Eu sentia as pontas dos dedos formigando. Era
como enfiar uma caneta em uma tomada, coisa que Link tinha duvidado que
eu faria aos 8 anos. Ela fechou os olhos e me puxou para ela, e por um
minuto, tudo ficou perfeito. Ela me beijou, os lbios sorrindo sob os meus, e
eu sabia que ela estava me esperando, talvez pelo mesmo tempo que eu
esperei por ela. Mas ento, to rapidamente quando tinha se aberto para
mim, ela me expulsou. Ou mais precisamente, me empurrou para longe.
    Ethan, no podemos fazer isso.
    Por qu? Pensei que sentamos a mesma coisa um pelo outro.
     Ou talvez no sentssemos. Talvez ela no sentisse.
     Eu a estava encarando, da extremidade de suas mos esticadas que ainda
estavam pousadas sobre meu peito. Ela provavelmente sentia como meu
corao estava batendo rpido.
    No  isso...
     Comeou a se afastar, e eu tinha certeza de que ela iria fugir como tinha
fugido no dia em que achamos o medalho em Greenbrier, como na noite em
que me deixou parado na varanda. Coloquei minha mo no pulso dela e
imediatamente senti o calor.
     -- Ento o que ?
     Ela me encarou de volta, e eu tentei ouvir seus pensamentos, mas no
aconteceu nada.
     -- Sei que voc pensa que tenho escolha sobre o que vai acontecer
comigo, mas no tenho. E o que Ridley fez hoje no foi nada. Ela poderia ter
matado voc, e talvez tivesse matado se eu no tivesse impedido. -- Ela
respirou fundo, os olhos brilhando. --  nisso que posso me transformar, em
um monstro, quer voc acredite ou no.
     Passei meus braos pelo pescoo dela, ignorando-a. Mas ela prosseguiu.
     -- No quero que voc me veja assim.
     -- No ligo. -- Beijei a bochecha dela.
     Ela saiu da cama, deslizando o brao pela minha mo.
     -- Voc no entende. -- Ela ergueu a mo. 122. Cento e vinte e dois
dias, ela tinha escrito em tinta azul, como se aquilo fosse tudo que tivssemos.
     -- Entendo. Voc est com medo. Mas pensaremos em alguma coisa.
Estamos destinados a ficar juntos.
     -- No estamos. Voc  um Mortal. No consegue entender. No quero
ver voc se ferir, e  isso que vai acontecer se ficar prximo demais de mim.
     -- Tarde demais.
     Eu tinha ouvido cada palavra que ela disse, mas sabia s de uma coisa.
     Eu j estava envolvido.
                             p 9 de outubro p
                             Os grandes
                                    d
T      inha feito sentido nas palavras de uma garota bonita. Agora que eu
       estava de volta em casa, sozinho e na minha prpria cama, percebi,
       finalmente, que tinha ficado louco. Nem Link acreditaria em nada
disso. Tentei pensar sobre como seria a conversa: a garota de quem eu gosto,
cujo nome real eu no sei,  uma bruxa. Perdo, uma Conjuradora, de uma
famlia inteira de Conjuradores, e em cinco meses ela vai basicamente
descobrir se  boa ou m. E ela pode causar furaces em lugares fechados e
quebrar vidros de janelas. E eu consigo ver o passado quando toco naquele
medalho doido que Amma e Macon Ravenwood, que no  um recluso em
absoluto, querem que eu enterre. Um medalho que se materializou no
pescoo de uma mulher em um quadro em Ravenwood, que, alis, no  uma
casa reformada  perfeio e que muda completamente a cada vez que entro
l, para. ver uma garota que me queima e d choque e me destri com um
simples toque.
     E eu a beijei. E ela retribuiu meu beijo.
     Era inacreditvel demais, at para mim. Rolei de lado.




Aoitando.
     O vento estava aoitando meu corpo.
     Eu me agarrava na rvore enquanto ele me aoitava, os sons dos seus
gritos ferindo meus ouvidos.  minha volta, os ventos rodopiavam, lutando
uns contra os outros, a velocidade e fora se multiplicando a cada segundo. O
granizo caa como se o prprio Cu tivesse se aberto. Eu tinha que sair dali.
    Mas no havia para onde ir.
    "Solte-me, Ethan. Salve-se!"
     Eu no conseguia v-la. O vento estava forte demais, mas eu conseguia
senti-la. Segurava em seu punho com fora. Eu tinha certeza de que
quebraria. Mas eu no ligava, no ia soltar. O vento mudou de direo, me
levantando do cho. Segurei-me na rvore com mais fora, segurei seu pulso
com mais fora. Mas eu conseguia sentir a fora do vento nos afastando.
     Me puxando para longe da rvore, para longe dela. Senti o brao dela
escorregando pelos meus dedos.
     No conseguia mais segurar.




Acordei tossindo. Ainda conseguia sentir a dor do vento que aoitou minha
pele. Como se minha experincia de quase morte em Ravenwood no tivesse
sido o bastante, agora os sonhos estavam de volta. Era demais para uma s
noite, at para mim. A porta do meu quarto estava escancarada, o que era
estranho, considerando que eu a trancava  noite ultimamente. A ltima coisa
de que eu precisava era Amma colocando algum amuleto vodu em mim
enquanto eu dormia. Eu tinha certeza de que tinha fechado a porta.
     Olhei para o teto. No conseguiria dormir to cedo. Suspirei e tateei
embaixo da cama. Acendi o velho abajur ao lado da cama e tirei o marcador
do ponto onde eu tinha parado em Nevasca quando ouvi alguma coisa.
Passos? Vinha da cozinha, baixinho, mas eu ainda assim conseguia ouvir.
Talvez meu pai estivesse dando uma pausa na escrita. Talvez isso nos desse a
chance de conversar. Talvez.
     Mas quando cheguei ao p da escada, soube que no era ele. A porta do
escritrio estava fechada e havia luz na fenda embaixo da porta. Tinha que
ser Amma. Assim que passei embaixo do portal da cozinha, a vi andando
apressada pelo corredor at seu quarto, pelo menos o tanto que ela conseguia
andar rpido. Ouvi a porta de tela nos fundos da casa ranger e fechar.
Algum estava vindo ou indo. Depois de tudo que tinha acontecido esta noite,
era uma diferena importante.
     Andei at a frente da casa. Havia uma picape velha e malcuidada, uma
Studebaker dos anos 1950, parada no meio-fo. Amma estava inclinada pela
janela falando com o motorista. Ela entregou sua bolsa a ele e entrou na
picape. Para onde estava indo no meio da noite?
     Eu tinha que segui-la. E seguir a mulher que podia muito bem ter sido
minha me quando ela tinha entrado em um carro  noite com um estranho
dirigindo era algo difcil de fazer pra algum que no tinha carro. Eu no
tinha escolha. Tinha que pegar o Volvo. Era o carro que minha me dirigia
quando aconteceu o acidente; era a primeira coisa que eu pensava cada vez
que o via.
     Sentei atrs do volante. Tinha cheiro de papel velho e limpador de
vidros, como sempre.




Dirigir sem ligar os faris era mais difcil do que eu pensava, mas consegui
perceber que a picape ia na direo de Wader's Creek. Amma devia estar
indo para casa. A picape saiu da autoestrada 9 em direo ao interior.
Quando finalmente diminuiu a velocidade e encostou fora da estrada,
desliguei o Volvo e o guiei at o acostamento.
     Amma abriu a porta e a luz interna acendeu. Apertei os olhos na
escurido. Reconheci o motorista; era Carlton Eaton, o diretor da agncia do
correio. Por que Amma pediria carona a Carlton Eaton no meio da noite? Eu
nunca tinha visto eles se falarem.
     Amma disse alguma coisa para Carlton e fechou a porta. A picape voltou
para a estrada sem ela. Sa do carro e a segui. Amma era uma criatura de
hbitos. Se alguma coisa mexeu tanto com ela a ponto de se esgueirar at o
pntano no meio da noite, eu podia adivinhar que envolvia mais do que um
de seus clientes habituais.
     Ela desapareceu na vegetao, por um caminho de cascalho que algum
teve um grande trabalho para fazer. Ela andou pelo caminho no escuro, o
cascalho estalando sob os ps. Andei na grama ao lado do caminho para
evitar esse barulho, que me entregaria com certeza. Falei para mim mesmo
que era porque eu queria ver o motivo de Amma se esgueirar para casa no
meio da noite, mas o principal era que eu estava com medo que ela me
pegasse seguindo-a.




Era fcil ver por que Wader's Creek tinha aquele nome; voc tinha mesmo
que cruzar com dificuldade crregos de gua negra1 para chegar l, pelo
menos por esse caminho que Amma estava seguindo. Se a lua no estivesse
cheia, eu teria quebrado meu pescoo tentando segui-la pelo labirinto de
carvalhos cobertos de musgo e arbustos. Estvamos prximos  gua. Eu
sentia o pntano no ar, quente e grudento como uma segunda pele.
     A extremidade do pntano estava repleta de plataformas de madeira
feitas de troncos de cipreste amarrados com corda; barcas de homens pobres.
Elas se alinhavam na margem como txis esperando para transportar pessoas
pela gua. Eu conseguia ver Amma sob a luz da lua, se equilibrando com
experincia em uma dessas plataformas, se afastando da margem com ajuda
de uma longa vara que ela usou como remo para ir at o outro lado.
     Eu no ia  casa de Amma h anos, mas teria me lembrado disso.
Devamos ter vindo por outro caminho naquela poca, mas era impossvel
saber no escuro. A nica coisa que eu conseguia ver era o quanto os troncos
nas plataformas estavam apodrecidos; cada um parecia mais instvel do que o
outro. Ento eu escolhi uma.
     Manobrar a plataforma era bem mais difcil do que Amma fazia parecer.
Em intervalos de poucos minutos, havia um som batida na gua, quando o
rabo de um jacar batia na gua na hora em que ele deslizava para o
pntano. Eu estava feliz por no ter pensado em atravessar andando.
     Empurrei contra o cho do pntano com minha vara comprida uma
ltima vez e a beirada da plataforma tocou na margem. Quando pulei na
areia, pude ver a casa de Amma, pequena e modesta, com uma nica luz na
janela. As molduras das janelas estavam pintadas do mesmo tom de azul-
plido que as da propriedade Wate. A casa era feita de cipreste, como se fosse
parte do pntano.
     Havia mais alguma coisa, algo no ar. Forte e predominante, como limo

1
    Wade: Cruzar com dificuldade. Creek: Crrego. (N.da T)
e alecrim. E to improvvel quanto, por duas razes. O jasmim-estrela no
floresce no outono, s na primavera, e no cresce no pntano. Ainda assim, l
estava. O cheiro era inconfundvel. Havia algo de impossvel aquilo, assim
como todo o resto da noite.
      Observei a casa. Nada. Talvez ela tenha apenas decidido ir para casa.
Talvez meu pai soubesse que ela tinha indo embora, e eu estava vagando por
a no meio da noite, me arriscando a ser comido por crocodilos,  toa.
      Eu estava prestes a voltar pelo pntano, desejando ter deixado migalhas
de po no caminho, quando a porta se abriu de novo. Amma ficou embaixo
da luz da porta aberta, colocando coisas que eu no conseguia ver na
tradicional bolsinha de couro branca. Ela estava usando seu melhor vestido
lils, de ir  igreja, luvas brancas e um chapu elegante combinando, com
flores ao redor.
      Ela comeou a andar de novo, indo em direo ao pntano. Ia para o
pntano vestindo aquilo? Por mais que eu no tenha gostado da jornada at a
casa de Amma, andar de jeans pelo pntano era pior. A lama era to grossa
que parecia que eu estava arrancando meus ps de cimento cada vez que
dava um passo. Eu no sabia como Amma conseguia passar, de vestido e na
idade dela.
      Amma parecia saber direitinho para onde estava indo e parou em uma
clareira de grama alta e algas. Os galhos dos ciprestes se enrascavam com os
de salgueiros, criando um teto. Um tremor me subiu pelas costas, apesar de
ainda fazer uns 21 graus. Mesmo depois de tudo o que vi naquela noite, havia
algo de assustador nesse lugar. Tinha uma nvoa vindo da gua, subindo
pelos lados, como vapor empurrando a tampa de uma chaleira. Cheguei mais
perto. Ela estava tirando alguma coisa da bolsa, o couro branco brilhando
sob a luz da lua.
      Ossos. Pareciam ossos de galinha.
      Ela sussurrou alguma coisa perto dos ossos e os colocou em um saquinho,
no muito diferente do que me deu para neutralizar o poder do medalho.
Procurou novamente alguma coisa na bolsa e tirou uma toalha de mo
elegante, do tipo que se encontra em lavabos, e a usou para limpar a lama da
saia. Havia suaves luzes brancas um pouco distantes, como vaga- lumes
piscando no escuro, e msica, uma msica lenta e sensual, e risadas. Em
algum lugar no muito longe, pessoas estavam bebendo e danando ali no
pntano.
     Ela olhou para a frente. Alguma coisa tinha chamado sua ateno, mas
eu no ouvi nada.
     -- Voc pode perfeitamente se mostrar. Sei que est a.
     Fiquei paralisado, em pnico. Ela tinha me visto.
     Mas ela no estava falando comigo. Da nvoa abafada saiu Macon
Ravenwood, fumando um charuto. Ele parecia relaxado, como se tivesse
acabado de sair de um carro com motorista em vez de ter andado por gua
negra imunda. Estava impecavelmente vestido, usando uma das suas camisas
brancas engomadas.
     E ele estava imaculado. Amma e eu estvamos cobertos de lama e grama
do pntano at os joelhos, e Macon Ravenwood estava de p ali sem vestgio
algum de sujeira.
     -- J era hora. Voc sabe que no tenho a noite toda, Melchizedek.
Tenho que voltar. E no vejo com simpatia ter sido chamada aqui, longe da
cidade. Achei rude. Sem mencionar inconveniente. -- Ela fungou. --
Incmodo, pode-se dizer.
     I-N-C--M-O-D-O. Oito vertical, soletrei na minha cabea.
     -- Tive uma noite bem agitada, Amarie, mas este assunto requer nossa
imediata ateno. -- Macon deu alguns passos a frente.
     Amma se encolheu e apontou um dedo ossudo na direo dele.
     -- Fique onde est. No gosto de estar aqui com a sua espcie numa
noite dessas. No gosto nem um pouco. Fique a que eu fico aqui.
     Ele deu um passo para trs casualmente, soprando anis de fumaa no
ar.
     -- Como eu estava dizendo, certos desenvolvimentos requerem nossa
imediata ateno. -- Ele exalou, um suspiro enfumaado. -- "A lua, quando
est cheia, fica mais longe do sol." Estou citando nossos bons amigos, o Clero.
     -- No fale com arrogncia e presuno comigo, Melchizedek. O que 
to importante que voc precisa me tirar da cama no meio da noite?
     -- Entre outras coisas, o medalho de Genevieve.
     Amma quase uivou e colocou a echarpe sobre o nariz. Ela obviamente
no suportava nem ouvir a palavra medalho.
     -- O que tem aquela coisa? Falei pra voc que o Enfeiticei e mandei-o
levar de volta para Greenbrier e enterr-lo. No pode causar mal algum se
estiver de volta  terra.
     -- Errada na primeira concluso. Errada na segunda. Ele ainda est com
o medalho. Mostrou para mim em meu lar sagrado. Alm disso, acho que
nada consegue Enfeitiar um talism to terrvel.
     -- Na sua casa... Quando ele foi  sua casa? Eu o mandei ficar longe de
Ravenwood. -- Agora ela estava claramente nervosa. timo, Amma
encontraria uma maneira de me fazer pagar por aquilo depois.
     -- Bem, talvez voc deva considerar control-lo melhor. Ele obviamente
no  muito obediente. Eu avisei a voc que essa amizade seria perigosa, que
poderia se desenvolver e virar algo mais. Um futuro entre os dois  uma
impossibilidade.
     Amma estava murmurando baixinho como sempre fazia quando eu no
escutava o que ela dizia.
     -- Ele sempre me obedeceu at conhecer sua sobrinha. E no me culpe.
No estaramos nessa situao se voc no a tivesse trazido para c. Vou
cuidar disso. Vou dizer para ele que no pode mais v-la.
     -- No seja ridcula. So adolescentes. Quanto mais os separarmos, mais
vo tentar ficar juntos. Isso no ser mais problema quando ela for Invocada,
se chegarmos a esse ponto. At l, controle o garoto, Amarie.  s por alguns
meses. As coisas so perigosas o bastante sem ele complicar ainda mais a
situao.
     -- No fale comigo sobre complicar, Melchizedek Ravenwood. Minha
famlia limpa todas as complicaes da sua h mais de cem anos. Guardo seus
segredos assim como voc guarda os meus.
     -- No sou eu a Vidente que falhou em prever que eles iam encontrar o
medalho. Como voc explica isso? Como seus amigos espritos conseguiram
no ver isso? -- Ele fez um gesto indicando o ar ao redor com um
movimento sarcstico do charuto.
     Ela se mexeu, os olhos arregalados.
     -- No insulte os Grandes. No aqui, no neste lugar. Eles tm seus
motivos. Deve haver alguma razo para no terem revelado.
     Ela se afastou de Macon,
     -- No prestem ateno nele. Eu trouxe camaro com canjica e torta de
limo. -- Ela claramente no estava mais falando com Macon. -- Seus
prediletos -- disse ela, tirando a comida de potes de plstico e a colocando
em um prato. Ps o prato no cho. Havia uma pequena lpide ao lado do
prato, e muitas outras espalhadas nas redondezas.
     "Essa  nossa Grande Casa, a grande casa da minha famlia, est
ouvindo? Minha tia-av Sissy. Meu tio-bisav Abner. Minha tatarav Sulla.
No desrespeite os Grandes na Casa deles. Se quer respostas, mostre
respeito."
     -- Peo desculpas.
     Ela esperou.
     -- Verdadeiramente.
     Ela fungou.
     -- E cuidado com as cinzas. No h cinzeiros nessa casa.  um hbito
nojento.
     Ele jogou o cigarro no musgo.
     -- Agora vamos acabar com isso. No temos muito tempo. Temos que
saber onde est Saraf...
     -- Shh -- sibilou ela. -- No diga o nome dela, no hoje. No devamos
estar aqui. A meia-lua  para fazer magia Branca, e a lua cheia  para fazer
magia Negra. Estamos aqui na noite errada,
     -- No temos escolha. Houve um episdio um tanto desagradvel esta
noite, infelizmente. Minha sobrinha, que se Transformou n Dia da
Invocao, apareceu na Reunio de hoje.
     -- A filha de Del? Aquela das Trevas, perigosa?
     -- Ridley. Sem ser convidada, claro. Ela adentrou minha porta com o
garoto. Preciso saber se foi coincidncia.
     -- Nada bom. Nada bom. Isso no  nada bom. -- Amma se balanava
para a frente e para trs sobre os saltos, furiosa.
     -- Bem?
     -- No h coincidncias. Voc sabe.
     -- Pelo menos concordamos sobre isso.
     Eu no conseguia entender nada daquilo. Macon Ravenwood nunca
botava os ps fora de casa, mas aqui estava ele, no meio do pntano,
discutindo com Amma, que eu nem tinha ideia de que ele conhecia, sobre
mim e Lena e o medalho.
     Amma mexeu na bolsa novamente.
     -- Voc trouxe o usque? Tio Abner ama Wild Turkey.
      Macon exibiu a garrafa.
      -- Coloque ali -- disse ela, apontando para o cho -- e d um passo
para trs.
      -- Vejo que voc ainda tem medo de tocar em mim depois de todos esses
anos.
      -- No tenho medo de nada. Fique a mesmo. No pergunto sobre suas
coisas e no quero saber nada sobre elas.
      Ele colocou a garrafa no cho a alguns metros de Amma. Ela a pegou,
serviu usque em um copo pequeno e o bebeu. Eu nunca tinha visto Amma
beber nada mais forte do que ch a minha vida inteira. Depois ela derramou
um pouco da bebida na grama, cobrindo o tmulo.
      -- Tio Abner, precisamos de sua interveno. Chamo seu esprito a este
lugar.
      Macon tossiu.
      -- Voc est abusando da minha pacincia, Melchizedek.
      Amma fechou os olhos e abriu os braos para o cu, a cabea jogada
para trs como se falasse com a prpria lua. Ela se inclinou e sacudiu a
bolsinha que tinha tirado da bolsa. O que havia dentro caiu sobre o tmulo.
Pequenos ossos de galinha. Eu esperava que no fossem os ossos do frango
frito que eu havia comido naquela tarde, mas tinha a sensao de que podiam
ser.
      -- O que eles dizem? -- perguntou Macon.
      Ela passou os dedos sobre os ossos, espalhando-os sobre a grama.
      -- No estou recebendo uma resposta.
      A perfeita compostura dele estava comeando a ruir.
      -- No temos tempo para isso! De que serve uma Vidente se voc no
consegue ver nada? Temos menos de cinco meses at ela fazer 16 anos. Caso
ela se Transforme, estamos todos condenados, Mortais e Conjuradores,
igualmente. Temos uma responsabilidade, uma que ambos aceitamos de bom
grado, h muito tempo. Voc com seus Mortais, eu com meus Conjuradores.
      -- No preciso que voc me lembre de minhas responsabilidades. E
mantenha sua voz baixa, ouviu? No preciso que nenhum de meus clientes
venha aqui e nos veja juntos. O que isso pareceria? Uma cidad respeitada da
comunidade como eu? No interfira meus negcios, Melchizedek.
      -- Se no descobrirmos onde Saraf... onde ela est e o que est
planejando, teremos problemas maiores em nossas mos do que voc
fracassar em seus negcios, Amarie.
     -- Ela  das Trevas. Nunca sabemos em que direo o vento vai soprar
com aquela ali.  como tentar ver onde um tufo vai surgir.
     -- Mesmo assim. Preciso saber se ela vai tentar fazer contato com Lena.
     -- No "se". Quando.
     Amma fechou os olhos de novo, tocando no amuleto pendurado no
cordo que ela nunca tirava. Era um disco, entalhado na forma do que
parecia um corao com algum tipo de cruz saindo de cima. A imagem
estava gasta pelas milhares de vezes que Amma deve t-la esfregado, como
fazia agora. Estava sussurrando algum tipo de cntico em uma lngua que eu
no entendia, mas j tinha ouvido em algum lugar antes.
     Macon andava de um lado para o outro, impaciente. Eu me mexi no
mato, tentando no fazer barulho.
     -- No estou conseguindo fazer uma leitura hoje. Est turvo. Acho que
tio Abner est de mau humor. Tenho certeza de que foi alguma coisa que
voc disse.
     Isso deve ter sido a gota d' gua, porque o rosto de Macon mudou, a pele
plida brilhando nas sombras. Quando ele deu um passo  frente, os ngulos
de seu rosto ficaram assustadores sob a luz da lua.
     -- Cansei desses jogos. Uma Conjuradora das Trevas entrou na minha
casa esta noite; isso por si s  impossvel. Ela chegou com seu garoto, Ethan,
o que pode significar apenas uma coisa. Ele tem poderes, e voc tem
escondido isso de mim.
     -- Bobagem. Aquele garoto tem poder tanto quanto eu tenho uma
cauda.
     -- Voc est errada, Amarie. Pergunte aos Grandes. Consulte os ossos.
No h outra explicao. Tem que ter sido Ethan. Ravenwood  protegida.
Uma Conjuradora do Mal jamais poderia burlar aquele tipo de proteo, no
sem alguma forma poderosa de ajuda.
     -- Voc enlouqueceu. Ele no tem nenhum tipo de poder. Eu criei
aquela criana. No acha que eu saberia?
     -- Voc est errada desta vez.  prxima demais dele; isso deturpa sua
viso. E h muito em jogo pra que se cometam erros. Ns dois temos nossos
talentos. Estou avisando voc, h mais naquele garoto do que qualquer um de
ns percebeu.
     -- Vou perguntar aos Grandes. Se houver algo a saber, eles faro com
que eu saiba. No esquea, Melchizedek, que temos compromisso tanto com
os vivos quanto com os mortos, e isso no  tarefa fcil. -- Ela mexeu na
bolsa e puxou um barbante de aparncia suja com uma fileira de pequenas
contas.
     -- Osso de Cemitrio. Leve. Os Grandes querem que fique com voc.
Protege espritos de espritos, e mortos de mortos. No tem utilidade para
Mortais. D para sua sobrinha, Macon. No vai machuc-la, mas pode
manter um Conjurador das Trevas afastado.
     Macon pegou o barbante, segurando-o displicentemente entre dois
dedos, e depois o colocou dentro do leno, como se estivesse guardando
algum bicho nojento.
     -- Eu agradeo.
     Amma tossiu.
     -- Por favor. Diga para eles que agradeo. Muito.
     Ele olhou para a lua como se estivesse verificando o relgio. Depois se
virou e desapareceu. Se dissolveu na nvoa do pntano como se tivesse voado
com a brisa.
                           p 10 de outubro p
                         Suter vermelho
                                    d
E
    u mal tinha chegado  minha cama quando o sol nasceu, e estava
    cansado -- cansado at os ossos, como Amma diria. Agora estava
    esperando por Link na esquina. Apesar de ser um dia ensolarado, havia
uma nuvem negra sobre a minha cabea. E estava faminto. No consegui
encarar Amma na cozinha de manh. Um vislumbre do meu rosto
denunciaria tudo que vira na noite anterior e tudo que sentia, e eu no podia
me arriscar tanto.
    Eu no sabia o que pensar. Amma, em quem eu confiava mais do que
em qualquer outra pessoa, tanto quanto nos meus pais, talvez mais -- estava
escondendo coisas de mim. Conhecia Macon, e os dois queriam manter Lena
e eu separados. Tinha alguma coisa a ver com o medalho e com o
aniversrio de Lena. E com perigo.
    Eu no conseguia juntar as peas, no sozinho. Precisava falar com Lena.
Era s o que eu conseguia pensar. Ento, quando o rabeco dobrou a esquina
em vez do Lata-Velha, eu no deveria ter ficado surpreso.
    -- Acho que voc ouviu. -- Deslizei no banco, colocando a mochila no
cho  minha frente.
    -- Ouvi o qu? -- Ela sorriu, quase timidamente, empurrando um saco
pelo banco. -- Que voc gosta de donuts? Consegui ouvir seu estmago
roncando l em Ravenwood.
    Olhamos um para o outro com desconforto. Lena olhou para baixo, sem
graa, puxando um pedao de l de um suter bordado macio e vermelho
que parecia o tipo de coisa que as Irms teriam em algum lugar do sto. Eu
conhecia Lena e sabia que no vinha do shopping em Summerville.
     Vermelho? Desde quando ela usava vermelho?
     Ela no estava sob uma nuvem negra; tinha acabado de sair de debaixo
de uma. No tinha ouvido meu pensamento. No sabia sobre Amma e
Macon. S queria me ver. Acho que algumas das coisas que eu disse na noite
anterior fizeram sentido. Sorri e abri o saco branco de papel.
     -- Espero que voc esteja com fome. Tive que brigar com o policial
gordo por eles. -- Ela manobrou o rabeco para longe do meio-fio.
     -- Ento voc s ficou com vontade de me dar carona para a escola? --
Isso era novidade.
     -- No. -- Ela abriu a janela, a brisa da manh soprando os cachos do
cabelo dela. Hoje, era realmente o vento.
     -- Tem alguma coisa melhor em mente?
     O rosto dela se iluminou.
     -- Como poderia haver algo melhor do que passar um dia assim na
Stonewall Jackson High?
     Ela estava feliz. Quando girou o volante, reparei em sua mo. Nada de
tinta. Nada de nmero. Nada de aniversrio. Ela no estava preocupada com
nada, no hoje.
     Cento e vinte. Eu sabia, como se estivesse escrito em tinta invisvel na
minha prpria mo. Cento e vinte dias at que aquilo que Macon e Amma
tanto temiam acontecesse.
     Olhei pela janela quando viramos na autoestrada 9, desejando que ela
pudesse continuar assim por mais um tempo. Fechei meus olhos, revendo o
manual de estratgias na minha mente. Picket Fences. Down the Lane. Full
Court Press.




Quando chegamos a Summerville, eu soube para onde estvamos indo. S
havia um lugar para onde adolescentes como ns iam em Summerville se no
fosse para as trs ultimas fileiras do Cineplex.
     O rabeco rodou pela poeira atrs da torre de gua na extremidade do
campo.
     -- Vai estacionar? Estamos estacionando? Na torre de gua? Agora? --
Link jamais acreditaria nisso.
     O motor foi desligado. Nossas janelas estavam abertas, tudo estava
silencioso e a brisa entrava pela janela dela e saa pela minha.
       No  isso que as pessoas fazem aqui?
       , no. No pessoas como ns. No no meio do horrio de aula.
       Pelo menos uma vez no podemos ser como eles? Temos sempre que ser
ns?
       Gosto de ser como somos.
     Ela tirou o cinto de segurana e eu tirei o meu, puxando-a para meu
colo. Eu podia senti-la, quente e feliz, se espalhando em mim.
       Ento  isso que  estacionar?
     Ela riu, esticando a mo para tirar o cabelo de cima dos meus olhos.
     -- O que  isso?
     Peguei seu brao direito. Pendurada no punho estava a pulseira que
Amma tinha dado a Macon na noite anterior no pntano. Meu estmago se
contraiu, e eu sabia que o humor de Lena ia mudar. Eu tinha que contar a
ela.
     -- Meu tio me deu.
     -- Tire.
     Girei a corda, procurando o n.
     -- O qu? -- O sorriso dela esmaeceu. -- O que voc quer dizer?
     -- Tire.
     -- Por qu? -- Ela afastou o brao de mim.
     -- Aconteceu uma coisa ontem  noite.
     -- O que aconteceu?
     -- Depois que cheguei em casa, segui Amma a Wader's Creek, onde ela
mora. Ela saiu da casa dela no meio da noite para encontrar uma pessoa no
pntano.
     -- Quem?
     -- Seu tio.
     -- O que eles estavam fazendo l? -- O rosto dela tinha ficado plido
como giz, e eu sabia que a diverso no carro tinha acabado.
     -- Estavam falando sobre voc, sobre ns. E sobre o medalho.
     Agora ela estava prestando ateno.
     -- O que sobre o medalho?
     --  algum tipo de talism das Trevas, seja l o que isso significa, e seu
tio contou pra Amma que eu no o enterrei. Estavam surtando por causa
disso.
     -- Como eles saberiam que  um talism?
     Eu estava comeando a ficar irritado. Ela no parecia estar se
concentrando na coisa certa.
     -- Que tal como eles se conhecem? Voc tinha alguma ideia de que seu
tio conhecia Amma?
     -- No, mas no sei de todo mundo que ele conhece.
     -- Lena, eles estavam falando de ns. Sobre manter o medalho longe de
ns, e sobre nos manter afastados. Fiquei com a sensao de que eles acham
que sou algum tipo de ameaa. Que estou atrapalhando alguma coisa. Seu tio
pensa...
     -- O qu?
     -- Ele acha que tenho algum tipo de poder.
     Ela riu alto, o que me irritou ainda mais.
     -- Por que ele acharia isso?
     -- Porque levei Ridley para dentro de Ravenwood. Ele disse que eu teria
que ter poder para fazer isso.
     Ela franziu a testa.
     -- Ele est certo.
     Essa no era a resposta que eu esperava.
     -- Voc est brincando, certo? Se eu tivesse poderes, no acha que eu
saberia?
     -- No sei.
     Talvez ela no soubesse, mas eu sabia. Meu pai era escritor e minha me
passava os dias lendo dirios de generais mortos da Guerra Civil. Eu estava
to distante de ser um Conjurador quanto possvel, a no ser que irritar
Amma contasse como poder. Tinha obviamente havido alguma falha que
permitiu que Ridley entrasse. Um dos fios no sistema de segurana dos
Conjuradores tinha entrado em curto.
     Lena devia estar pensando a mesma coisa.
     -- Relaxe. Tenho certeza de que h alguma explicao. Ento Macon e
Amma se conhecem. Agora sabemos.
     -- Voc no parece muito aborrecida com isso.
     -- O que voc quer dizer?
     -- Eles tm mentido pra ns. Os dois. Se encontram secretamente,
tentam nos separar. Querem que nos livremos do medalho.
     -- Ns nunca perguntamos se eles se conheciam.
     Por que ela estava agindo assim? Por que no estava aborrecida, com
raiva, ou alguma outra coisa?
     -- Por que perguntaramos? Voc no acha esquisito que seu tio v ao
pntano no meio da noite com Amma, para falar com espritos e ler ossos de
galinha?
     --  esquisito, mas tenho certeza de que s esto tentando nos proteger.
     -- De qu? Da verdade? Estavam falando sobre outra coisa tambm.
Estavam tentando encontrar algum, Sara alguma coisa. E sobre como voc
pode fazer mal a todos ns caso voc se Transforme.
     -- Como assim?
     -- No sei. Por que voc no pergunta ao seu tio? Veja se pelo menos
essa vez ele vai contar a verdade.
     Fui longe demais.
     -- Meu tio arrisca a vida dele pra me proteger. Sempre esteve ao meu
lado. Ele me acolheu mesmo sabendo que posso me tornar um monstro em
poucos meses.
     -- De que ele est protegendo voc? Voc ao menos sabe?
     -- De mim mesma! -- retorquiu ela.
     Foi o limite. Ela abriu a porta e saiu do meu colo, para o campo. A
sombra da enorme torre branca de gua nos escondia de Summerville, mas o
dia no parecia mais to ensolarado. Onde houvera um cu azul imaculado
h poucos minutos, agora havia traos de cinza.
     A tempestade estava chegando. Ela no queria falar sobre o assunto, mas
eu no ligava.
     -- Isso no faz sentido. Por que ele encontra Amma no meio da noite
para dizer a ela que ainda temos o medalho? Por que no quer que a gente
fique com ele? E o mais importante, por que no querem que a gente fique
junto?
     S havia ns dois gritando naquele campo. A brisa estava se
transformando em um vento forte. O cabelo de Lena comeou a voar ao
redor do rosto. Ela gritou de volta:
     -- No sei. Pais esto sempre tentando afastar adolescentes,  o que eles
fazem. Se quer saber por que, talvez devesse perguntar a Amma.  ela que
me Odeia. Eu nem posso pegar voc em casa porque voc tem medo de que
ela nos veja juntos.
     O n que estava crescendo na boca do meu estmago apertou. Eu estava
com raiva de Amma, com mais raiva do que jamais senti dela durante toda
minha vida, mas ainda a amava. Era ela quem tinha deixado as cartas da
Fada do Dente debaixo do meu travesseiro, feito curativos em cada joelho
ralado, feito milhares de arremessos para mim quando eu queria tentar jogar
beisebol na Little League. E desde que minha me morreu e meu pai se
isolou, Amma era a nica que cuidava de mim, que se importava ou mesmo
percebia se eu matava aula ou perdia um jogo. Eu queria acreditar que ela
tinha uma explicao para tudo aquilo.
     -- Voc s no a entende. Ela acha que est...
     -- O qu? Protegendo voc? Como meu tio est tentando me proteger?
Voc j pensou que talvez eles estejam ambos tentando nos proteger da
mesma coisa... eu?
     -- Por que voc sempre fala isso?
     Ela andou para longe de mim, como se fosse decolar se pudesse.
     -- O que mais h para falar?  disso que se trata. Esto com medo de
que eu v machucar voc ou alguma outra pessoa.
     -- Voc est errada. Isso  sobre o medalho. Tem alguma coisa que eles
no querem que a gente saiba. -- Revirei meu bolso, procurando a forma
familiar sob o leno. Depois da noite anterior, eu no ia deix-lo longe de
mim de modo algum. Tinha certeza de que Amma ia procur-lo hoje e, se ela
o encontrasse, jamais o veramos de novo. Eu o coloquei sobre o cap do
carro. -- Precisamos descobrir o que acontece depois.
     -- Agora?
     -- Por que no?
     -- Voc nem sabe se vai dar certo.
     Comecei a desembrulh-lo.
     -- S h um jeito de descobrir.
     Peguei sua mo, mesmo com ela tentando pux-la de mim. Toquei no
metal liso...
     A luz da manh ficou mais e mais intensa at ser a nica coisa que eu
conseguia ver. Senti o movimento familiar que j tinha me levado 150 anos
para o passado. Depois um sacolejo. Abri meus olhos. Mas em vez do campo
lamacento e das chamas ao longe, tudo que vi foi a sombra da torre de gua e
o rabeco. O medalho no nos mostrou nada.
    -- Voc sentiu? Comeou e depois parou.
    Ela assentiu, me empurrando para longe.
    -- Acho que estou enjoada do carro, ou sei l de qu.
    -- Voc bloqueou?
    -- Como assim? No fiz nada.
    -- Jura? No usou seus poderes de Conjuradora, nem nada assim?
    -- No, estou ocupada demais tentando afastar seu Poder da Burrice.
Mas no acho que sou forte o bastante.
    No fazia sentido, comear a nos levar e depois nos bloquear da viso
desse jeito. O que havia de diferente? Lena esticou o brao, dobrando o leno
sobre o medalho. A pulseira de couro sujo que Amma tinha dado a Macon
chamou minha ateno.
    -- Tire isso. -- Coloquei meu dedo sob o fio, erguendo a pulseira e o
brao dela at o nvel dos olhos.
    -- Ethan,  para proteo. Voc disse que Amma faz essas coisas o tempo
todo.
    -- Acho que no .
    -- O que quer dizer?
    -- Que talvez tenha sido por causa disso que o medalho no funcionou.
    -- No funciona sempre, voc sabe.
    -- Mas comeou a funcionar, e algo impediu.
    Ela sacudiu a cabea, e os cachos selvagens roaram seu ombro.
    -- Voc acredita mesmo nisso.
    -- Prove que estou errado. Tire isso.
    Ela olhou para mim como se eu fosse louco, mas estava pensando no
assunto. Eu conseguia perceber.
    -- Se eu estiver errado, voc pode colocar de volta. Ela hesitou por um
segundo, depois me deu o brao para que eu desamarrasse. Afrouxei o n e
coloquei o amuleto no meu bolso. Estiquei a mo para o medalho, e ela
colocou a mo sobre a minha.
    Fechei minha mo em torno dele, e giramos para o nada...
A chuva comeou quase imediatamente. Chuva forte, um aguaceiro. Como
se o cu despencasse. Ivy sempre dizia que as gotas da chuva eram as
lgrimas de Deus. Hoje, Genevieve acreditava. Eram poucos metros, mas
Genevieve no conseguia chegar l rpido o bastante. Ela se ajoelhou ao lado
de Ethan e aconchegou a cabea dele nas mos. A respirao dele estava
entrecortada. Ele estava vivo.
     -- No, no, no o garoto tambm. Vocs tiram muita coisa. Muita. No
esse garoto tambm. -- A voz de Ivy chegou a um tom frentico e ela
comeou a rezar.
     -- Ivy, chame ajuda. Preciso de gua, usque e alguma coisa para retirar
a bala.
     Genevieve pressionou o material acolchoado da saia no buraco que tinha
sido o peito de Ethan at poucos momentos antes.
     -- Eu te amo. E teria me casado com voc independente do que nossa
famlia pensa -- sussurrou ele.
     -- No diga isso, Ethan Carter Wate. No fale como se fosse morrer.
Voc vai ficar bem. Vai ficar bem -- repetiu ela, tentando convencer a si
mesma tanto quanto a ele.
     Genevieve fechou os olhos e se concentrou. Flores desabrochando. Bebs
recm-nascidos chorando. O sol nascendo. Nascimento, no morte.
     Ela viu as imagens na cabea, desejando que fosse assim. As imagens se
repetiam em sua mente. Nascimento, no morte.
     Ethan engasgou. Ela abriu os olhos, e os olhos dos dois se encontraram.
Por um instante, o tempo pareceu parar. E ento, os olhos de Ethan se
fecharam e a cabea dele virou para o lado.
     Genevieve fechou os olhos de novo, visualizando as imagens. Tinha que
ser um engano. Ele no podia estar morto. Ela tinha evocado seu poder.
Tinha feito isso um milho de vezes antes, tinha movido objetos na cozinha
da me para dar sustos em Ivy, curado filhotes de pssaro que tinham cado
dos ninhos.
     Por que no agora? Quando importava?
     -- Ethan, levante. Por favor, acorde.
Abri meus olhos. Estvamos parados no meio do campo, exatamente no
mesmo lugar de antes. Olhei para Lena. Os olhos dela brilhavam, prestes a
chorar.
      -- Oh, Deus.
      Me abaixei e toquei na grama onde estvamos. Uma mancha vermelha
marcava as plantas e o cho ao redor de ns.
      --  sangue.
      -- Sangue dele?
      -- Acho que sim.
      -- Voc estava certo. A pulseira estava nos impedindo de ter a viso. Mas
por que tio Macon me diria que era para proteo?
      -- Talvez seja. S que no s pra isso.
      -- Voc no precisa tentar me fazer sentir melhor,
      -- Obviamente, tem alguma coisa que eles no querem que a gente
descubra, e envolve o medalho, e estou disposto a apostar que envolve
Genevieve tambm. Temos que descobrir o mximo possvel sobre os dois, e
temos que fazer isso antes do seu aniversrio.
      -- Por que meu aniversrio?
      -- Ontem  noite, Amma e seu tio estavam conversando. Seja l o que
eles no querem que a gente saiba, tem a ver com seu aniversrio.
      Lena respirou fundo, como se tentasse se controlar.
      -- Eles sabem que vou para as Trevas.  disso que se trata.
      -- O que isso tem a ver com o medalho?
      -- No sei, mas no importa. Nada disso importa. Em quatro meses, no
serei mais eu. Voc viu Ridley. Vou ficar daquele jeito, ou pior. Se meu tio
estiver certo e eu for uma Natural, ento farei Ridley parecer uma voluntria
da Cruz Vermelha.
      Eu a puxei para perto de mim e passei meus braos em torno dela como
se pudesse proteg-la de alguma coisa que ns dois sabamos que eu no
podia.
      -- Voc no pode pensar assim. Tem que haver um meio de impedir
isso, se for mesmo a verdade.
      -- Voc no entende. No tem como impedir. Apenas acontece. -- A
voz dela estava ficando estridente. O vento comeava a ficar mais forte.
     -- T, talvez voc esteja certa. Talvez apenas acontea. Mas vamos
descobrir um jeito de fazer com que no acontea com voc.
     Os olhos dela estavam ficando nublados como o cu.
     -- No podemos apenas aproveitar o tempo que temos?
     Senti o peso das palavras pela primeira vez.
     O tempo que temos.
     Eu no podia perd-la. No queria. S o pensamento de no poder mais
tocar nela me enlouquecia. Mais do que perder todos os meus amigos. Mais
do que ser o cara menos popular da escola. Mais do que Amma ficar
eternamente com raiva de mim. Perd-la era a pior coisa que eu podia
imaginar. Como se eu estivesse caindo, mas dessa vez eu certamente ia bater
no cho.
     Pensei em Ethan Carter Wate batendo no cho, o sangue vermelho no
campo. O vento comeou a uivar. Era hora de ir.
     -- No fale assim. Vamos descobrir um jeito.
     Mas, mesmo enquanto eu falava isso, no sabia se acreditava.
                      p 13 de outubro p
                  Marian, a bibliotecria
                                    d

T
      rs dias tinham se passado e eu ainda no conseguia parar de pensar no
      assunto. Ethan Wate Carter tinha levado um tiro, e provavelmente
      estava morto. Eu tinha visto com meus prprios olhos. Bem,
tecnicamente, todo mundo daquela poca estava morto agora. Mas de um
Ethan Wate para outro, eu estava tendo dificuldade em superar a morte desse
soldado confederado em particular. Mais para desertor confederado. Meu
tatara-tio.
     Pensei nisso durante a aula de lgebra II, enquanto Savannah empacava
numa equao em frente  turma, mas o Sr. Bates estava ocupado demais
lendo a ltima edio da revista Guns and Ammo para reparar. Pensei nisso
durante a reunio dos Futuros Fazendeiros da Amrica, onde no consegui
encontrar Lena e acabei sentando com a banda. Link estava sentado com os
caras algumas fileiras atrs de mim, mas no reparei at Shawn e Emory
comearem a fazer barulhos de animais. Depois de um tempo, eu j no os
ouvia mais. Minha mente ficava voltando para Ethan Wate Carter.
     No era por ele ser confederado. Todo mundo no condado de Gatlin era
descendente de pessoas do lado errado da Guerra entre os Estados. J
estvamos acostumados com isso. Era como ter nascido na Alemanha depois
da 2a Guerra Mundial, ser japons depois de Pearl Harbor ou ser dos Estados
Unidos depois de Hiroshima. A histria era uma merda s vezes. A gente no
pode mudar de onde . Mas ainda assim, a gente no precisa ficar l. A gente
no precisa ficar preso ao passado, como as senhoras do FRA, a Sociedade
Histrica de Gatlin ou as Irms. E a gente no precisa aceitar que as coisas
tinham que ser do jeito que eram, como Lena. Ethan Carter Wate no
aceitou, e eu tambm no podia aceitar.
     Tudo o que eu sabia era que, agora que sabamos sobre o outro Ethan
Wate, tnhamos que descobrir mais sobre Genevieve. Talvez houvesse uma
razo para a gente ter encontrado aquele medalho, afinal. Talvez houvesse
uma razo para a gente ter se esbarrado em um sonho, mesmo se ele estivesse
mais para um pesadeio.
     Normalmente, eu teria perguntado  minha me o que fazer, isso na
poca em que as coisas estavam normais e ela ainda estava viva. Mas ela no
estava mais aqui, meu pai vivia fora do ar e no poderia me ajudar e Amma
no ia nos ajudar em nada que tivesse a ver com o medalho. Lena ainda
estava deprimida em relao a Macon; a chuva l fora entregava o humor
dela. Eu deveria estar fazendo meu dever de casa, o que significava que eu
precisava de uns 2 litros de achocolatado e quantos cookies eu conseguisse
carregar na outra mo.
     Andei pelo corredor vindo da cozinha e parei em frente ao escritrio.
Meu pai estava no andar de cima tomando um banho, que era a nica hora
em que ele saa do escritrio atualmente, ento a porta provavelmente estava
trancada. Sempre ficava, desde o incidente do manuscrito.
     Olhei para a maaneta, depois observei o corredor de um lado ao outro.
Apoiei os cookies precariamente sobre a caixa de leite e estiquei a mo. Antes
que tocasse na maaneta, ouvi o clique dela abrindo. A porta se destrancou
sozinha, como se algum abrisse a porta para mim por dentro. Os cookies
caram no cho.
     Um ms antes, eu no teria acreditado, mas agora eu sabia bem. Aqui
era Gatlin. No a Gatlin que eu achava que conhecia, mas alguma outra
Gatlin que aparentemente tinha ficado escondida bem  minha vista o tempo
todo. Uma cidade onde a garota de quem eu gostava vinha de uma longa
linhagem de Conjuradores, minha governanta era uma Vidente que lia ossos
de galinha no pntano e evocava os espritos dos ancestrais mortos e at meu
pai agia como um vampiro.
     Parecia no haver nada inacreditvel demais para esta Gatlin. 
engraado como a gente pode morar em um lugar a vida toda e mesmo assim
no v-lo de verdade.
     Empurrei a porta, lentamente, hesitante. Conseguia ver s uma parte do
escritrio, um canto das prateleiras embutidas, cheias dos livros da minha
me e dos restos da Guerra Civil que ela parecia pegar onde quer que fosse.
Respirei fundo e inspirei o ar do escritrio. No era difcil de entender por
que meu pai nunca saa de l.
      Eu podia quase v-la, enrascada na velha cadeira de leitura perto da
janela. Ela estaria na mquina de escrever, do outro lado da porta. Se eu
abrisse a porta um pouco mais, ela podia muito bem estar l agora. S que eu
no ouvia o barulho das teclas, e sabia que ela no estava l e nem jamais
estaria.
      Os livros de que eu precisava estavam naquelas prateleiras. Se algum
sabia mais sobre a histria do condado de Gatlin do que as Irms, era minha
me. Dei um passo a frente, empurrando a porta apenas mais alguns
centmetros.
      -- Pelo amor do cu e da terra, Ethan Wate, se voc pensa em botar um
p nesse recinto, seu pai vai te espancar at a semana que vem.
      Quase deixei cair o leite. Amma.
      -- No estou fazendo nada. A porta s abriu.
      -- Que vergonha. Nenhum fantasma em Gatlin ousaria botar o p no
escritrio de sua me e seu pai, exceto se fosse a sua prpria me. -- Ela
olhou para mim desafiadoramente. Havia algo em seus olhos que me fez
imaginar se ela estava tentando me dizer alguma coisa, talvez at a verdade.
Talvez tivesse sido minha me a abrir a porta.
      Porque uma coisa estava clara. Algum, alguma coisa, queria que eu
entrasse naquele escritrio, assim como uma outra pessoa queria me manter
fora.
      Amma bateu a porta e tirou uma chave do bolso, trancando-a. Ouvi o
clique e soube que tinha perdido minha chance, to rapidamente quanto
tinha sido encontrada. Ela cruzou os braos.
      -- Amanh tem escola. Voc no precisa estudar? Olhei para ela,
irritado.
      -- Vai voltar  biblioteca? Voc e Link terminaram aquele trabalho? E
de repente me ocorreu.
      -- , a biblioteca. Na verdade,  para l que estou indo agora. -- Beijei a
bochecha dela e sa correndo.
      -- Diga oi a Marian por mim, e no se atrase para o jantar.
      A velha e boa Amma. Sempre tinha as respostas, soubesse ou no, e
estivesse ou no disposta a d-las.




Lena estava me esperando no estacionamento na Biblioteca do Condado de
Gatlin. O concreto rachado ainda estava molhado da chuva. Apesar de a
biblioteca ainda ficar aberta por mais duas horas, o rabeco era o nico carro
no estacionamento, fora uma familiar picape turquesa. Vamos apenas dizer
que essa no era uma cidade para bibliotecas. No havia muito que a gente
quisesse saber sobre qualquer cidade alm da nossa, e se nosso bisav ou
tatarav no sabia contar, provavelmente a gente no precisava saber.
     Lena estava acomodada na lateral do prdio, escrevendo em seu
caderno. Usava jeans surrado, botas de chuva enormes e uma camiseta preta.
Pequenas tranas estavam cadas ao redor de seu rosto, perdidas nos cachos.
Ela quase parecia uma garota comum. Eu no tinha certeza se queria que ela
fosse uma garota comum. Tinha certeza de que queria beij-la de novo, mas
isso teria que esperar. Se Marian tivesse a resposta de que precisvamos, eu
teria mais chances de beij-la.
     Percorri meu manual de estratgias de novo. Pick'n'Roll bloqueio
seguido de passe para penetrar a rea adversria.
     -- Voc acha mesmo que h alguma coisa aqui que pode nos ajudar? --
Lena levantou os olhos do caderno e olhou para mim.
     Eu a puxei pela mo.
     -- No alguma coisa. Algum.

                                       ***

A biblioteca em si era linda. Eu tinha passado tantas horas nela quando
criana que tinha herdado a crena da minha me de que uma biblioteca era
um tipo de templo. Essa biblioteca em particular era um dos poucos prdios
que tinha sobrevivido  Marcha de Sherman e ao Grande Incndio. A
biblioteca e Sociedade Histrica eram os dois prdios mais velhos da cidade,
alm de Ravenwood. Era uma construo vitoriana de dois andares,
impressionante, velha e desgastada com tinta branca descascando e dcadas
de hera dormindo ao redor das portas e janelas. Cheirava a madeira
envelhecida e verniz, capas plsticas de livro e papel velho. Papel velho, que
minha me costumava dizer que era o cheiro do prprio tempo.
    -- No entendo. Por que a biblioteca?
    -- No  apenas a biblioteca.  Marian Ashcroft.
    -- A bibliotecria? Amiga de tio Macon?
    -- Marian era a melhor amiga da minha me e sua parceira de pesquisa.
 a nica outra pessoa que sabe tanto sobre o condado de Gatlin quanto
minha me, e  a pessoa mais inteligente de Gatlin atualmente.
    Lena olhou para mim com ceticismo.
    -- Mais inteligente do que tio Macon?
    -- T. Ela  a Mortal mais inteligente de Gatlin.




Nunca consegui entender o que algum como Marian fazia em uma cidade
como Gatlin. "S porque voc mora no meio do nada", Marian diria para
mim enquanto comia um sanduche de atum com minha me, "no significa
que voc no pode conhecer o lugar onde mora." Eu no tinha ideia do que
ela queria dizer. Eu no tinha ideia do que ela estava falando na metade do
tempo. Provavelmente era por isso que Marian se dava to bem com minha
me; eu tambm no sabia do que minha me estava falando metade do
tempo. Como eu disse, o maior crebro na cidade, ou talvez, simplesmente, a
personalidade mais forte,
     Quando entramos na biblioteca vazia, Marian estava andando entre as
estantes, de meias, gemendo sozinha como a louca de uma tragdia grega,
que ela gostava de recitar. Como a biblioteca era praticamente uma cidade
fantasma, exceto pela visita ocasional das senhoras do FRA para verificar
genealogias duvidosas, Marian tinha liberdade total.
     -- "Sabeis de alguma coisa?"
     Segui a voz dela para o meio das estantes.
     -- "Vs ouvistes?"
     Dobrei a esquina da parte de fico. L estava ela, se balanando,
segurando uma pilha de livros nos braos, olhando atravs de mim.
     -- "Ou est escondido de vs..."
     Lena saiu detrs de mim.
     -- "... que nossos amigos esto ameaados..."
     Marian olhou de mim para Lena sobre os culos de leitura quadrados.
     -- "... com o destino dos nossos inimigos?"
     Marian estava l, mas no estava l. Eu conhecia bem aquele olhar e
sabia que, apesar de ela ter uma citao para tudo, no as escolhia  toa. Que
destinos dos meus inimigos me ameaavam, ou aos meus amigos? Se essa
amiga era Lena, eu no tinha certeza se queria saber.
     Eu lia muito, mas no tragdias gregas.
     -- dipo-Rei?
     Abracei Marian por cima da pilha de livros. Ela me apertou com tanta
fora que no consegui respirar, uma enorme biografia do General Sher- man
me pressionando as costelas.
     -- Antgona -- falou Lena, novamente atrs de mim.
    Exibida.
     -- Muito bem. -- Marian sorriu sobre meu ombro.
     Fiz uma careta para Lena, que deu de ombros.
     -- Fui educada em casa.
     --  sempre impressionante encontrar uma pessoa jovem que conhece
Antgona.
     -- S o que lembro era que ela queria enterrar os mortos.
     Marian sorriu para ns dois. Jogou metade da pilha de livros nos meus
braos e a outra metade nos de Lena. Quando sorria, parecia que podia estar
na capa de uma revista. Tinha dentes brancos e uma bela pele morena, e
parecia mais com uma modeio do que com uma bibliotecria. Era muito
bonita e extica, uma mistura de tantas linhagens que era como olhar para a
histria do prprio sul, pessoas das Antilhas, do Caribe, da Inglaterra, da
Esccia e at dos Estados Unidos, todas se misturando at que seria
necessria uma floresta de rvores genealgicas para traar o caminho.
     Apesar de estarmos ao sul de Algum Lugar e ao norte de Nenhum Lugar,
como Amma costumava dizer, Marian Ashcroft se vestia como se estivesse
dando uma aula em Duke. Todas suas roupas, joias, coisas caractersticas e
echarpes com estampas exageradas pareciam vir de algum outro lugar e
complementar o cabelo curto simples e bacana.
     Marian no era do condado de Gatlin, tanto quanto Lena, mas ainda
assim ela estava l havia tanto tempo quando minha me. Agora at mais.
     -- Senti tanto sua falta, Ethan. E voc... Voc deve ser a sobrinha de
Macon, Lena. A famosa garota nova na cidade. A garota da janela. Ah, sim,
ouvi falar de voc. As senhoras, elas andam falando.
     Seguimos Marian at o balco da frente e colocamos os livros no
carrinho para serem guardados.
     -- No acredite em tudo que ouve, Dra. Ashcroft.
     -- Marian, por favor.
     Quase deixei cair um livro. Fora minha famlia, Marian era Dra.
Ashcroft para quase todo mundo ali. Lena estava recebendo acesso
instantneo ao nosso crculo fechado, e eu no tinha ideia do motivo.
     -- Marian. -- Lena sorriu.
     Fora Link e eu, essa era a primeira experincia de Lena com a famosa
hospitalidade sulista, e vinda de outra pessoa de fora.
     -- A nica coisa que quero saber  se, quando voc quebrou aquela
janela com sua vassoura, exterminou as futuras geraes da FRA? -- Marian
comeou a baixar as persianas, gesticulando para que a ajudssemos.
     -- Claro que no. Se eu tivesse feito isso, como teria essa publicidade
gratuita?
     Marian jogou a cabea para trs e gargalhou, passando um brao em
torno de Lena.
     -- Bom senso: de humor, Lena.  isso que voc precisa para aguentar
essa cidade.
     Lena suspirou.
     -- Ouvi muitas piadas. A maioria sobre mim.
     -- Ah, mas... "Os monumentos de humor sobrevivem aos monumentos
de poder."
     -- Isso  Shakespeare? -- Eu estava me sentindo meio ignorando.
     -- Quase. Sir Francis Bacon. Mas se voc for uma daquelas pessoas que
acha que ele escreveu as peas de Shakespeare, acho que acertou ento.
     -- Desisto.
     Marian bagunou meu cabelo.
     -- Voc cresceu meio metro desde a ltima vez que nos vimos, EW. O
que Amma d pra voc comer? Torta no caf, almoo e jantar? Parece que
no vejo voc h uns cem anos.
     Olhei para ela.
     -- Eu sei, desculpe. S no senti muita vontade de... ler.
     Ela sabia que eu estava mentindo, mas sabia o que eu queria dizer.
Marian foi at a porta e trocou a plaqueta de "aberto" para "fechado". Fechou
a tranca com um estalo. Me fez lembrar do escritrio.
     -- Achei que a biblioteca ficasse aberta at as 21 horas. -- Se no ficasse,
eu perderia uma tima desculpa para fugir at a casa de Lena.
     -- No hoje. A bibliotecria-chefe acabou de declarar que hoje  feriado
na Biblioteca do Condado de Gatlin. Ela  espontnea. -- Ela piscou. --
Para uma bibliotecria.
     -- Obrigada, tia Marian.
     -- Sei que voc no estaria aqui se no tivesse um motivo, e suspeito que
a sobrinha de Macon Ravenwood , se no for nenhuma outra coisa, um
motivo. Ento por que no vamos todos para a sala de trs, fazemos um bule
de ch e tentamos ter motivao? -- Marian adorava brincar com as
palavras.
     --  mais uma pergunta, na verdade. -- Apalpei meu bolso, onde o
medalho ainda estava embrulhado no leno de Sulla, a Profeta.
     -- "Pergunte tudo. Aprenda alguma coisa. No responda nada."
     -- Homero?
     -- Eurpedes.  melhor voc comear a acertar algumas dessas respostas,
EW, ou terei que ir s suas reunies de pais.
     -- Mas voc disse para no responder nada.
     Ela destrancou a porta onde estava escrito ARQUIVO PARTICULAR.
     -- Eu disse isso?
     Como Amma, Marian parecia sempre ter resposta. Como qualquer boa
bibliotecria. Como minha me.


Eu nunca tinha entrado no arquivo particular de Marian; a sala dos fundos.
Pensando bem, no conhecia ningum que tivesse entrado l alm da minha
me. Era o espao que elas compartilhavam, o lugar onde escreviam e
pesquisavam e quem sabe mais o qu. Nem meu pai podia entrar. Me lembro
de Marian o fazendo parar na entrada quando minha me estava
examinando um documento histrico l dentro.
     -- Particular  particular.
     --  uma biblioteca, Marian. Bibliotecas foram criadas para
democratizar o conhecimento e torn-lo pblico.
     -- Por aqui, as bibliotecas foram criadas para que os Alcolicos
Annimos tivessem um lugar para se reunir quando os batistas os
expulsassem.
     -- Marian, no seja ridcula.  s um arquivo.
     -- No pense em mim como uma bibliotecria. Pense em mim como
uma cientista louca, e aqui  meu laboratrio secreto.
     -- Voc  maluca. Vocs duas s esto olhando uns papis velhos caindo
aos pedaos.
     -- "Se voc revela seus segredos ao vento, no deve culpar o vento por
revel-los para as rvores."
     -- Khalil Gibran -- rebateu ele.
     -- "Trs pessoas conseguem guardar um segredo se duas delas estiverem
mortas."
     -- Benjamin Franklin.
     Em certo momento, at meu pai desistiu de tentar entrar no arquivo
delas. Iamos para casa e comamos sorvete de chocolate, e depois disso
sempre pensei em minha me e Marian como uma fora imbatvel da
natureza. Duas cientistas loucas, como Marian havia dito, acorrentada uma 
outra no laboratrio. Elas escreveram livro aps livro, e at chegaram uma
vez  pequena lista do Prmio Voice ofthe South, o equivalente sulista ao
Prmio
     Pulitzer. Meu pai ficou incrivelmente orgulhoso da minha me, das duas,
mesmo se estivssemos l s para acompanhar. "Cheia de vida na mente." Era
assim que ele costumava descrever minha me, principalmente quando ela
estava no meio de um projeto. Era quando ela ficava mais ausente, mas ainda
assim, era quando ele parecia am-la mais.
     E agora aqui estava eu, no arquivo particular, sem meu pai nem minha
me, sem mesmo uma tigela de sorvete de chocolate  vista. As coisas
estavam mudando bem rpido por aqui, para uma cidade que nunca
mudava.
     A sala era escura e coberta de lambris, a sala mais isolada, sem ar e sem
janelas do terceiro prdio mais velho de Gatlin. Havia quatro longas mesas de
carvalho alinhadas paralelamente no centro da sala. Cada centmetro de cada
parede era coberto de livros. Civil War Artillery and Munitions. King Cotton:
White Gold of the South. Estantes cheias de gavetas de metal guardavam
manuscritos e arquivos lotados preenchiam uma sala menor adjacente ao
final do arquivo.
     Marian se ocupou com o bule de ch e o aquecedor. Lena andou at
uma parede com mapas emoldurados do condado de Gatlin, se
despedaando atrs dos vidros, to velhos quanto as Irms.
     -- Olhe, Ravenwood. -- Lena passou o dedo pelo vidro. -- E ali est
Greenbrier. D pra ver os limites da propriedade bem melhor nesse mapa.
     Andei at a extremidade da sala, onde havia uma mesa solitria, coberta
com uma fina camada de poeira e uma ou outra teia de aranha. Um livro da
Sociedade Histrica estava aberto, com nomes circulados, um lpis ainda
enfiado na lombada. Havia um mapa feito de papel de seda, preso em um
mapa da Gatlin dos dias de hoje, parecendo que algum estava tentando
mentalmente escavar a velha cidade por debaixo da nova. E, em cima disso
tudo, havia uma foto da pintura da entrada da casa de Macon Ravenwood.
     A mulher com o medalho.
    Genevieve. Tem que ser Genevieve. Temos que contar para ela, L.
Temos que perguntar.
    No podemos. No podemos confiar em ningum. Nem sabemos por
que estamos tendo as vises.
    Lena. Confie em mim.
    -- O que so todas essas coisas aqui, tia Marian?
    Ela olhou para mim, o rosto ficando brevemente encoberto,
    --  nosso ltimo projeto. Da sua me e meu.
    Por que minha me tinha uma foto da pintura de Ravenwood?
    No sei.
    Lena andou at a mesa e pegou a foto da pintura.
    -- Marian, o que vocs estavam fazendo com esse quadro?
    Marian passou para cada um de ns uma xcara de ch com pires. Essa
era outra coisa sobre Gatlin. Sempre se usava pires, em todos os momentos,
independentemente da situao.
    -- Voc devia conhecer esse quadro, Lena. Pertence ao seu tio Macon.
Na verdade, ele mesmo me mandou essa foto.
     -- Mas quem  essa mulher?
     -- Genevieve Duchannes, mas eu esperava que voc soubesse disso.
     -- Na verdade, eu no sabia.
     -- Seu tio no ensinou nada a voc sobre sua genealogia?
     -- No falamos muito sobre meus parentes mortos. Ningum quer falar
dos meus pais.
     Marian andou at uma das estantes com gavetas, procurando alguma
coisa,
     -- Genevieve Duchannes foi sua tatara-tia. Era uma pessoa interessante
mesmo. Lila e eu estvamos traando a rvore genealgica de toda famlia
Duchannes, para um projeto com o qual seu tio Macon estava nos ajudando,
at... -- Ela olhou para baixo. -- Ano passado.
     Minha me tinha conhecido Macon Ravenwood? Pensei que ele tinha
dito que s a conhecia pelo trabalho dela.
     -- Voc deveria conhecer sua genealogia.
     Marian mexeu em algumas pginas amareladas de pergaminho. A
rvore genealgica de Lena apareceu, bem ao lado da de Macon.
     Apontei para a rvore genealgica de Lena.
     -- Que estranho. Todas as garotas na sua famlia tm o sobrenome
Duchannes, mesmo as que se casaram.
     --  uma coisa da minha famlia. As mulheres ficam com o sobrenome
mesmo depois de casadas. Sempre foi assim.
     Marian virou a pgina e olhou para Lena.
     --  comum no caso de linhagens em que as mulheres so consideradas
particularmente poderosas.
     Eu queria mudar o assunto. No queria ir muito a fundo com Marian
sobre as mulheres poderosas da famlia de Lena, principalmente
considerando que Lena certamente era uma delas.
     -- Por que voc e mame estavam fazendo a rvore da famlia
Duchannes? Qual era o projeto?
     Marian mexeu seu ch.
     -- Acar?
     Ela olhou para o outro lado enquanto eu botava as colheradas na minha
xcara.
     -- Na verdade, estvamos mais interessadas nesse medalho. -- Ela
apontou para outra foto de Genevieve. Nessa, ela est usando o medalho. --
Uma histria em particular. Era uma historia bem simples, na verdade, uma
histria de amor. -- Ela sorriu tristemente. -- Sua me era uma romntica,
Ethan.
     Prendi meu olhar no de Lena. Ns dois sabamos o que Marian ia dizer.
     -- O que  interessante para vocs dois  que essa histria de amor
envolve um Wate e uma Duchannes. Um soldado Confederado e uma bela
dama de Greenbrier.
     As vises do medalho. O incndio de Greenbrier. O ltimo livro da
minha me era sobre tudo que tnhamos visto acontecer entre Genevieve e
Ethan. A tatara-tia de Lena e meu tatara-tio.
     Minha me estava trabalhando naquele livro quando morreu. Minha
cabea girava. Gatlin era assim. Nada aqui acontecia s uma vez.
     Lena estava plida. Ela se inclinou e tocou na minha mo, que estava
apoiada na mesa empoeirada. Instantaneamente senti o formigar eltrico.
     -- Aqui. Essa carta que chegou a ns fez com que comessemos o
projeto.
     Marian colocou duas folhas de pergaminho na mesa de carvalho ao lado.
Secretamente, fiquei feliz por ela no ter mexido na mesa de trabalho da
minha me. Pensei na mesa como um monumento adequado, tinha mais a
ver com ela do que os cravos que todo mundo ps sobre o caixo. At mesmo
as senhoras do FRA foram ao enterro, colocando cravos l como loucas, o
que minha me teria odiado. A cidade inteira -- batistas, metodistas, at
pentecostais -- aparecia em casos de mortes, nascimentos ou casamentos.
     -- Podem ler, s no toquem.  uma das coisas mais velhas de Gatlin.
     Lena se inclinou sobre a carta, segurando o cabelo para impedir que
encostasse no velho pergaminho.
     -- Eles esto desesperadamente apaixonados, mas so diferentes demais.
-- Ela passou os olhos pela carta. -- "Separados por espcie"  como ele os
chama. A famlia dela est tentando mant-los separados, e ele se alistou,
apesar de no acreditar na guerra, na esperana de que lutar pelo sul faa
com que ele conquiste a aprovao da famlia dela.
     Marian fechou os olhos e recitou:
     -- "Eu podia muito bem ser macaco em vez de homem, pois no faria
diferena em Greenbrier. Apesar de meramente Mortal, meu corao se
parte com tamanha dor ao pensar em passar o resto da minha vida sem voc,
Genevieve."
     Era como poesia, como alguma coisa que eu imaginava que Lena
escreveria.
     Marian abriu os olhos de novo.
     -- Como se fosse Atlas carregando o peso do mundo nas costas.
     --  to triste -- disse Lena, olhando para mim.
     -- Estavam apaixonados. Havia uma guerra. Odeio dizer isso a vocs,
mas termina de uma maneira ruim, ao que parece. -- Marian terminou o
ch.
     -- E esse medalho? -- Apontei para a foto, quase com medo de
perguntar.
     -- Supostamente, Ethan o deu a Genevieve como smbolo de um
noivado secreto. Jamais saberemos o que aconteceu com ele. Ningum voltou
a v-lo depois da noite em que Ethan morreu. O pai de Genevieve a forou a
se casar com outra pessoa, mas a lenda diz que ela guardou o medalho e que
ele foi enterrado com ela. Diziam que era um poderoso talism, o elo partido
de um corao partido.
     Tremi. O poderoso talism no estava enterrado com Genevieve; estava
no meu bolso, e era um talism das Trevas de acordo com Macon e Amma.
Eu podia senti-lo pulsando, como se tivesse estado sobre carvo quente.
    Ethan, no.
    Temos que fazer isso. Ela pode nos ajudar. Minha me teria nos
ajudado.
     Enfiei a mo no bolso, empurrando o leno at tocar no camafeu
amassado. Em seguida segurei a mo de Marian, esperando que fosse uma
das vezes que o medalho funcionaria. A xcara de ch dela caiu no cho e
quebrou. A sala comeou a girar.
    -- Ethan! -- gritou Marian.
    Lena pegou a mo de Marian. A luz na sala se dissolvia at virar noite.
    -- No se preocupe. Estaremos com voc o tempo todo. -- A voz de
Lena soava distante, e ouvi o som de tiros ao longe.
    Em momentos, a biblioteca se encheu de chuva...


A chuva caa forte sobre eles. O vento diminuiu, comeando a aplacar as
chamas, apesar de ser tarde demais.
     Genevieve olhava para o que tinha sobrado da casa grande. Tinha
perdido tudo naquele dia. A me. Evangeline. No podia perder Ethan
tambm.
     Ivy correu pela lama na direo dela, usando a saia para carregar as
coisas que Genevieve tinha pedido.
     -- Cheguei tarde demais, meu Deus do cu, cheguei tarde demais. --
gritou Ivy. Ela olhou em volta, nervosa. -- Vamos, Srta. Genevieve, no tem
nada mais que possamos fazer aqui.
     Mas Ivy estava errada. Havia uma coisa.
     -- No  tarde demais. No  tarde demais. -- Genevieve ficava
repetindo essas palavras.
     -- Voc est falando uma loucura, criana. Ela olhou para Ivy,
desesperada.
     -- Preciso do livro.
     Ivy andou para trs, sacudindo a cabea.
     -- No. Voc no pode mexer naquele livro. No sabe o que est
fazendo.
     Yvy agarrou a velha mulher pelos ombros.
     -- Ivy,  o nico jeito, Voc tem que entreg-lo para mim.
     -- Voc no sabe o que est pedindo. No sabe nada daquele livro...
     -- D para mim ou vou encontr-lo sozinha.
     Fumaa negra subia atrs dela, o fogo ainda queimando enquanto
engolia o que tinha sobrado da casa.
     Ivy cedeu, puxando as saias esfarrapadas e guiando Genevieve pelo que
costumava ser o pomar de limes da me dela. Genevieve nunca tinha
passado daquele ponto. No havia nada l alm de campos de algodo, ou
pelo menos era isso que sempre tinham dito para ela. E ela nunca tinha tido
uma razo para ir at aqueles campos, exceto nas raras ocasies em que ela e
Evangeline brincaram de esconde-esconde.
     Mas o caminho de Ivy era certeiro. Ela sabia exatamente para onde
estava indo. Ao longe, Genevieve ainda podia ouvir o som de tiros e os gritos
agudos dos vizinhos ao verem suas casas arderem em chamas.
     Ivy parou perto de um emaranhado de arbustos de vinhas selvagens,
alecrim e jasmim que subiam pela lateral de uma velha parede de pedra.
Havia um pequeno arco escondido por trs das plantas. Ivy se abaixou e
passou sob o arco. Genevieve foi atrs. O arco devia estar preso  parede,
porque a rea era fechada. Um crculo perfeito, as paredes escondidas sob
anos de vinhas selvagens.
     -- Que lugar  esse?
     -- Um lugar sobre o qual sua me no queria que voc soubesse nada,
ou voc saberia o que .
     Ao longe, Genevieve podia ver pequenas pedras aparecendo no meio da
grama alta.  claro. O cemitrio da famlia. Genevieve se lembrava de ter ido
l uma vez quando era muito nova, quando a bisav morreu. Lembrava que
o enterro tinha sido  noite, e que a me tinha ficado em cima da grama alta,
sob a luz da lua, sussurrando palavras em uma lngua que Genevieve e a irm
no reconheceram.
     -- O que estamos fazendo aqui?
     -- Voc disse que queria aquele livro. No disse?
     -- Est aqui?
     Ivy parou e olhou para Genevieve, confusa.
     -- Onde mais estaria?
     Mais ao longe havia outra estrutura sendo estrangulada pelas vinhas
selvagens. Uma cripta. Ivy parou na porta.
     -- Tem certeza de que quer...
     -- No temos tempo para isso! -- Genevieve esticou a mo em direo 
maaneta, mas no havia nenhuma. -- Como isso abre?
     A mulher idosa ficou na ponta dos ps e esticou o brao para tocar acima
da porta. L, iluminada pela luz distante do fogo, Genevieve conseguia ver
um pequeno pedao de pedra lisa, com uma lua crescente entalhada nela. Ivy
colocou a mo sobre a pequena lua e empurrou. A porta comeou a se
mover, abrindo com o som de pedra arrastando sobre pedra. Ivy pegou
alguma coisa do outro lado do portal. Uma vela.
     A luz da vela iluminou o pequeno recinto. No podia ser maior do que
alguns poucos metros de largura. Mas havia velhas prateleiras de madeira de
cada lado, repletas de pequenos frascos e garrafas, cheias de flores de plantas,
ps e lquidos turvos. No centro do aposento havia uma mesa de pedra gasta,
com uma velha caixa de madeira sobre ela. A caixa era modesta vista por
qualquer padro, o nico adorno sendo uma pequenina lua crescente
entalhada na tampa. O mesmo entalhe da pedra acima da porta.
     -- No vou tocar nisso -- disse Ivy baixinho, como se achasse que a
prpria caixa pudesse ouvi-la.
     -- Ivy,  s um livro.
     -- No existe nada como s um livro, especialmente na sua famlia.
     Genevieve levantou a tampa devagar. A capa do livro era de couro preto
rachado, agora mais cinza do que preto. No havia ttulo, s a mesma lua
crescente em alto relevo na frente. Genevieve ergueu o livro da caixa,
hesitante. Sabia que Ivy era supersticiosa. Apesar de ter zombado da mulher
idosa, tambm sabia que Ivy era sbia. Lia cartas e folhas de ch, e a me de
Genevieve consultava Ivy para quase tudo: o melhor dia para plantar os
legumes e verduras para evitar que congelassem, as er vas certas para curar
um resfriado.
     O livro estava quente. Como se estivesse vivo, respirando.
     -- Por que no tem nome? -- perguntou Genevieve.
     -- S porque um livro no tem ttulo, no significa que no tenha nome.
Esse a  o Livro das Luas.
     No havia mais tempo a perder. Ela seguiu as chamas pela escurido. De
volta ao que tinha sobrado de Greenbrier e de Ethan.
     Folheou as pginas. Havia centenas de Conjuros. Como encontraria o
certo? Ento ela o viu. Estava em Latim, uma lngua que conhecia bem; a
me tinha trazido um tutor especial do norte para garantir que ela e
Evangeline aprendessem. A lngua mais importante na opinio de sua famlia.
     O Feitio de Atar. Para Atar a Morte  Vida.
     Genevieve colocou o livro no cho ao lado de Ethan, o dedo sob o
primeiro verso do encantamento.
     Ivy segurou o prprio brao e o apertou com fora.
     -- No  em qualquer noite que se faz isso. Meia lua  para fazer magia
Branca, a lua cheia  para fazer magia Negra. Lua nenhuma  outra coisa.
     Genevieve puxou o brao para solt-lo.
     -- No tenho escolha.  a nica noite que temos.
     -- Srta. Genevieve, voc precisa entender. Essas palavras so mais do
que um Conjuro. So uma troca. Voc no pode usar o Livro das Luas sem
dar algo em troca.
     -- No ligo para o preo. Estamos falando da vida de Ethan. Perdi todo
mundo.
     -- Aquele rapaz no tem mais vida. Foi tirada dele com um tiro. O que
voc est tentando fazer no  natural. E isso no pode estar certo.
     Genevieve sabia que Ivy estava certa. A me tinha avisado a ela e
Evangeline com frequncia sobre as Leis Naturais. Ela estava cruzando um
limite que nenhum dos Conjuradores da famlia dela jamais ousaria.
     Mas eles todos estavam mortos agora. Ela era a nica que tinha sobrado.
     E tinha que tentar.




-- No! -- Lena soltou nossas mos, quebrando o crculo. -- Ela foi para as
Trevas, vocs no entendem? Genevieve estava usando magia Negra.
    Segurei as mos dela. Ela tentou se soltar. Normalmente tudo que eu
conseguia sentir de Lena era um calor meio ensolarado, mas dessa vez ela
parecia mais um tornado.
    -- Lena, ela no  voc. Ele no sou eu. Isso aconteceu h mais de cem
anos.
     Ela estava histrica.
     -- Ela sou eu,  por isso que o medalho quer que eu veja isso. Est me
avisando para ficar longe de voc. Para que eu no sofra por voc depois que
for para as Trevas.
     Marian abriu os olhos, que estavam maiores do que eu jamais os tinha
visto. O cabelo curto, normalmente arrumado e perfeitamente no lugar,
estava bagunado e revirado. Ela parecia exausta, mas cheia de vida. Eu
conhecia aquele olhar. Era como se minha me estivesse ali, em seu rosto,
especialmente ao redor dos olhos.
     -- Voc no foi Invocada, Lena. No  boa nem ruim. O que voc sente
 por ter 15 anos e meio na famlia Duchannes. Conheci muitos
Conjuradores na minha vida, e muitos Duchannes, tanto das Trevas quanto
da Luz.
     Lena olhou para Marian, atnita.
     Marian tentou recuperar o flego.
     -- Voc no vai para as Trevas. Voc  to melodramtica quanto
Macon. Agora se acalme.
     Como ela sabia sobre o aniversrio de Lena? Como ela sabia sobre
Conjuradores?
     -- Vocs dois tm o medalho de Genevieve? Por que no me contaram?
     -- No sabemos o que fazer. Cada um nos diz pra fazer uma coisa.
     -- Me deixe v-lo.
     Enfiei a mo no bolso. Lena colocou a mo no meu brao e hesitei.
Marian era a melhor amiga da minha me, e era como se fosse da famlia. Sei
que no devia questionar os motivos dela, mas segui Amma at o pntano
para se encontrar com Macon Ravenwood, coisa que eu jamais imaginaria
ver.
     -- Como vamos saber que podemos confiar em voc? -- perguntei, me
sentindo mal at mesmo por perguntar.
     -- "A melhor maneira de descobrir se podemos confiar em algum 
confiando."
     -- Elton John?
     -- Quase. Ernest Hemingway.  maneira dele, foi como um rock star
daquela poca.
       Sorri, mas Lena no estava to disposta a ter as dvidas afastadas.
       -- Por que deveramos confiar em voc se todo mundo esconde coisas de
ns?
     Marian ficou sria.
     -- Precisamente porque no sou Amma e no sou tio Macon. No sou
sua av e nem sua tia Delphine. Sou Mortal. Sou neutra. Entre magia Negra
e magia Branca, Luz e Trevas. Tem que haver alguma coisa intermediria,
alguma coisa para resistir  influncia, e essa alguma coisa sou eu.
     Lena se afastou dela. Era inconcebvel, para ns dois. Como Marian
sabia tanto da famlia de Lena?
     -- O que voc ? -- Na famlia de Lena, aquela era uma pergunta
capciosa.
     -- Sou a bibliotecria-chefe do condado de Gatlin, como tenho sido
desde que me mudei para c e como sempre serei. No sou uma
Conjuradora. Apenas guardo as informaes. Cuido dos livros. -- Marian
ajeitou o cabelo. -- Sou a Guardi, apenas uma em uma longa linhagem de
Mortais a quem se confiou a histria e os segredos de um mundo do qual
jamais poderemos fazer parte completamente. Sempre tem que haver um, e
agora sou eu.
     -- Tia Marian? De que voc est falando? -- Eu estava perdido.
     -- Vamos apenas dizer que h bibliotecas e bibliotecas. Sirvo a todos os
bons cidados de Gatlin, sejam Conjuradores ou Mortais. O que funciona
muito bem, j que o outro ramo  mais um trabalho noturno, na verdade.
     -- Quer dizer...?
     -- A Biblioteca de Conjuradores do Condado de Gatlin. Eu sou,  claro,
a Bibliotecria dos Conjuradores. A Bibliotecria-Chefe dos Conjuradores.
     Encarei Marian com olhos arregalados, como se a visse pela primeira
vez. Ela olhou para mim com os mesmos olhos castanhos, o mesmo sorriso
sbio. Parecia a mesma, mas de alguma forma, estava completamente
diferente. Eu sempre tinha me perguntado por que Marian tinha ficado em
Gatlin todos esses anos. Achava que era por causa da minha me. Agora me
dei conta de que havia outra razo.
     Eu no sabia o que estava sentindo, mas fosse o que fosse, Lena sentia o
oposto.
     -- Ento voc pode nos ajudar. Temos que descobrir o que aconteceu
com Ethan e Genevieve, e o que isso tem a ver comigo e com Ethan, e temos
que descobrir antes do meu aniversrio. -- Lena olhou para ela com
expectativa. -- A Biblioteca de Conjuradores deve ter registros. Talvez o
Livro das Luas esteja aqui. Voc acha que ele poderia ter as respostas?
     Marian olhou para o outro lado.
     -- Talvez sim, talvez no. Sinto muito, mas no posso ajud-los. Me
desculpem.
     -- O que voc quer dizer? -- No fazia sentido. Eu nunca tinha visto
Marian recusar ajuda para ningum, principalmente eu.
     -- No posso me envolver, mesmo que eu queira. Faz parte da descrio
do meu trabalho. No escrevo os livros, nem as regras, apenas os guardo.
No posso interferir.
     -- Esse trabalho  mais importante do que nos ajudar? -- Fique na sua
frente, de modo que ela tivesse que me olhar nos olhos quando respondesse.
-- Mais importante do que eu?
     -- No  to simples, Ethan. H um equilbrio entre o mundo Mortal e o
mundo dos Conjuradores, entre a Luz e as Trevas. O Guardio  parte desse
equilbrio, parte da Ordem das Coisas. Se eu desafiar as leis s quais fiz um
Juramento, esse equilbrio fica ameaado. -- Ela olhou para mim e a voz
dela estava trmula. -- No posso interferir nem que isso me mate. Mesmo
que machuque as pessoas que amo.
     Eu no entendia o que ela estava falando, mas sabia que Marian me
amava, como havia amado minha me. Se ela no podia nos ajudar, tinha
que haver uma razo.
     -- Tudo bem. Voc no pode nos ajudar. S me leve at essa Biblioteca
de Conjuradores e vou descobrir sozinho.
     -- Voc no  Conjurador, Ethan. Essa deciso no  sua.
     Lena ficou do meu lado e segurou minha mo.
     -- E minha. E eu quero ir.
     Marian assentiu.
     -- Tudo bem, vou levar vocs na prxima vez que abrir. A Biblioteca de
Conjuradores no opera nos mesmos horrios que a Biblioteca do Condado
de Gatlin.  um pouco mais irregular.
     E claro que era.
                           p 31 de outubro p
                           Hallow E'em
                                   d

O    s nicos dias do ano em que a Biblioteca do Condado de Gatlin ficava
     fechada eram os feriados nacionais -- como Dia de Ao de Graas,
     Natal, Ano-Novo, Pscoa. A consequncia disso era que esses eram os
nicos dias em que a Biblioteca de Conjuradores do Condado de Gatlin
abria, o que pelo visto era uma coisa que Marian no controlava.
     --  culpa do condado. Como eu disse, no fao as regras.
     Fiquei pensando em qual era o condado do qual ela estava falando,
aquele no qual eu tinha morado minha vida inteira ou o que esteve escondido
de mim pelo mesmo tempo.
     Ainda assim, Lena parecia quase esperanosa. Pela primeira vez, era
como se realmente acreditasse que talvez houvesse um jeito de evitar o que
havia considerado inevitvel. Marian no podia nos dar resposta alguma, mas
era a nossa ncora na ausncia das duas pessoas nas quais confivamos mais,
que no tinham ido a lugar algum, mas que pareciam distantes ainda assim.
No falei nada para Lena, mas sem Amma eu ficava perdido. E sem Macon,
eu sabia que Lena no conseguia nem achar o caminho para ficar perdida.
     Marian nos deu uma coisa, as cartas de Ethan e Genevieve, to velhas e
delicadas que eram quase transparentes, e cada coisa que ela e minha me
tinham guardado sobre os dois: uma pilha de papis em uma caixa marrom
empoeirada, com o papelo pintado para parecer madeira nas laterais.
Apesar de Lena amar estudar o texto ("os dias sem voc sangram at que o
tempo no  nada mais do que um obstculo que temos que superar"), ele
parecia no passar de uma histria de amor com um final bem ruim e Negro.
Mas era tudo que tnhamos.
     Agora tudo o que tnhamos que fazer era descobrir o que estvamos
procurando. A agulha no palheiro, ou nesse caso, na caixa de papelo. Ento
fizemos a nica coisa que podamos. Comeamos a procurar.




Depois de duas semanas, eu j passara mais tempo com Lena olhando os
papis do medalho do que acharia possvel. Quanto mais lamos as cartas,
mais parecia que estvamos lendo sobre ns mesmos.  noite, ficvamos
acordados tentando resolver o mistrio de Ethan e Genevieve, um Mortal e
uma Conjuradora, desesperados para encontrarem um meio de ficarem
juntos mesmo contra todos os obstculos. Na escola, tambm encaramos
algumas dificuldades extremas apenas para conseguir aguentar oito horas na
Jackson, e piorava cada vez mais. A cada dia havia outro esquema para
afastar Lena ou nos separar. Principalmente se esse dia fosse o Halloween.
     Halloween era um evento bem carregado na Jackson. Para um garoto,
qualquer coisa que envolvesse fantasias era um perigo. E havia tambm o
estresse de saber se voc tinha conseguido ou no entrar na lista de
convidados da festa de Savannah Snow. Mas o Halloween assumia um novo
nvel de estresse quando a garota por quem voc  louco  uma Conjuradora.
     Eu no tinha ideia do que esperar quando Lena me buscou para irmos 
escola, a alguns quarteires da minha casa, depois de dobrar a esquina e estar
longe dos olhos que Amma tinha na nuca.
     -- Voc no est fantasiada -- falei, surpreso.
     -- De que voc est falando?
     -- Achei que voc estaria usando uma fantasia, ou algo assim. -- Eu
sabia que parecia um idiota no segundo em que as palavras saram da minha
boca.
     -- Ah, voc acha que os Conjuradores se arrumam no Halloween e voam
em suas vassouras? -- Ela riu.
     -- No era minha inteno...
     -- Desculpe desapont-lo. Apenas nos arrumamos para o jantar, como
fazemos em qualquer outro dia especial.
     -- Ento  um dia especial pra vocs tambm.
     --  a noite mais sagrada do ano, e a mais perigosa. A mais importante
das Grandes Festividades.  nossa verso do Ano-Novo, o final do ano velho
e o comeo do novo.
     -- O que voc quer dizer com perigoso?
     -- Minha av diz que  a noite em que o vu entre este mundo e o Outro
Mundo, o mundo dos espritos, fica mais fino. E uma noite de poder e uma
noite de lembranas.
     -- O Outro Mundo?  como uma vida aps a morte?
     -- Mais ou menos.  o reino dos espritos.
     -- Ento o Halloween na verdade se trata de espritos e fantasmas.
     Ela revirou os olhos.
     -- Nos lembramos dos Conjuradores que foram perseguidos por serem
diferentes. Homens e mulheres que foram queimados por usarem seus dons.
     -- Voc est falando dos julgamentos das Bruxas de Salem?
     -- Acho que  assim que vocs os chamam. Houve julgamentos de
bruxas por toda a costa leste, no s em Salem. Em todo o mundo at. Os
julgamentos das Bruxas de Salem so apenas aqueles que os livros de vocs
mencionam. -- Ela disse "vocs" como se fosse um palavro, e hoje, dentre
todos os dias, talvez fosse.
     Passamos na Pare & Roube. Boo estava sentado ao p da placa de pare
da esquina. Esperando. Viu o rabeco e marchou lentamente atrs do carro.
     -- Devamos dar uma carona a esse cachorro. Ele deve ficar cansado de
seguir voc dia e noite.
     Lena olhou pelo retrovisor.
     -- Ele jamais entraria.
     Eu sabia que ela estava certa. Mas quando me virei para olh-lo, poderia
jurar que ele assentiu com a cabea.




Vi Link no estacionamento. Ele estava usando uma peruca loura e um suter
azul com um emblema dos Wildcats costurado. At carregava pompons.
Estava assustador e meio que parecia com a me dele, na verdade. O time de
basquete tinha decidido se fantasiar de lderes de torcida da Jackson esse ano.
Com tudo que estava acontecendo, eu tinha esquecido -- pelo menos foi o
que eu disse para mim mesmo. Eu ia ouvir muita merda por causa disso, e
Earl estava s esperando por um motivo para cair em cima de mim. Desde
que comecei a passar meu tempo com Lena, eu estava com sorte na quadra.
Agora eu era o capito em vez de Earl, e ele no estava muito feliz com isso.
     Lena jurou que no havia nada de magia naquilo, pelo menos no magia
de Conjuradores. Ela foi a um jogo e eu acertei todos os arremesses. O lado
ruim era que ela estava na minha cabea durante o jogo todo, me
perguntando sobre lances livres, assistncia e a regra de trs segundos.
Aparentemente, ela nunca tinha ido a um jogo. Era pior do que levar as
Irms  feira do condado. Depois disso, ela parou de ir aos jogos. Mas eu
sabia que ela estava ouvindo quando eu jogava. Eu podia senti-la.
     Por outro lado, talvez ela fosse a razo pela qual a equipe de lderes de
torcida estava tendo um ano mais difcil do que o habitual. Emily estava
tendo dificuldade de ficar no topo da pirmide dos Wildcats, mas no
perguntei a Lena sobre isso.
     Hoje era difcil saber quem eram meus colegas de time at chegar perto o
bastante para ver as pernas cabeludas e os pelos no rosto. Link veio at ns. A
aparncia dele era ainda pior de perto. Ele tinha tentado colocar maquiagem,
com batom rosa borrado e tudo. Subiu a saia e puxou a meia- cala apertada
que usava por baixo.
     -- Voc  um babaca -- disse ele, apontando para mim sobre os carros.
-- Onde est sua fantasia?
     -- Desculpe, cara. Esqueci.
     -- Mentira. Voc no queria vestir toda essa porcaria. Conheo voc,
Wate. Voc deu pra trs.
     -- Juro, eu s esqueci.
     Lena sorriu para Link.
     -- Voc est timo.
     -- No sei como vocs garotas usam todo esse lixo no rosto. Coa pra
caramba.
     Lena fez uma careta. Ela quase nunca usava maquiagem; no precisava.
     -- Sabe, nem todas ns assinamos um contrato com a Maybelline
quando fazemos 13 anos.
     Link ajeitou a peruca e enfiou outra meia dentro do suter.
     -- Diga isso para Savannah.
     Andamos at os degraus de entrada, e Boo estava sentado no gramado,
ao lado do mastro da bandeira. Quase perguntei como aquele cachorro podia
ter chegado antes da gente na escola, mas a essa altura eu j sabia que nem
devia me dar ao trabalho.


Os corredores estavam lotados. Parecia que metade da escola tinha matado o
primeiro tempo. O resto do time de basquete estava de papo em frente ao
armrio de Link, todos vestidos de mulher, e fazendo muito sucesso. Mas no
comigo.
     -- Onde esto seus pompons, Wate? -- Emory sacudiu um no meu rosto.
-- Qual  o problema? Essas suas pernas de galinha no ficavam bem de saia?
     Shawn vestiu o suter.
     -- Aposto que nenhuma das meninas da equipe quis emprestar uma saia
pra ele.
     Alguns dos caras riram. Emory colocou o brao ao redor do meu ombro,
se inclinando em minha direo.
     -- Foi isso, Wate? Ou  Halloween todo dia quando voc est com uma
garota que mora na manso mal-assombrada?
     Peguei-o pela parte de trs do suter. Uma das meias enfiadas no suti
caiu no cho.
     -- Quer fazer isso agora, Em?
     Ele deu de ombros.
     -- Voc decide. Vai acontecer cedo ou tarde.
     Link entrou entre ns.
     -- Senhoritas, senhoritas. Estamos aqui para festejar. E voc no quer
estragar esse seu rostinho bonito, Em.
     Earl sacudiu a cabea, empurrando Emory pelo corredor na frente dele.
Como sempre, no disse nada, mas eu conhecia aquele olhar.
     "Se voc seguir esse caminho, Wate, no tem volta."


Parecia que o time de basquete era o assunto da escola, at eu ver a
verdadeira equipe de lderes de torcida. Meus colegas de time no foram os
nicos a escolherem uma fantasia em grupo. Lena e eu estvamos a caminho
da aula de ingls quando as vimos.
     -- Puta merda. -- Link bateu no meu brao com as costas da mo.
     -- O qu?
     Elas estavam marchando pelo corredor em fila. Emily, Savannah, Eden e
Charlotte, seguidas de cada membro da equipe de torcida da Jackson
Wildcats. Estavam vestidas de modo exatamente idntico com vestidos pretos
ridiculamente curtos,  claro, botas pretas de bico fino e chapus de bruxa
altos e com as pontas dobradas. Mas essa no era a pior parte. As perucas
longas e pretas estavam encaracoladas em cachos selvagens. E feitas com
maquiagem preta, bem embaixo dos olhos direitos, estavam detalhadamente
pintadas exageradas luas crescentes. A marca de nascena inconfundvel de
Lena. Para completar o efeito, carregavam vassouras, fingindo varrer
freneticamente em torno dos ps das pessoas enquanto desciam o corredor
em procisso.
    Bruxas? No Halloween? Que criativo.
   Apertei a mo dela. A expresso de seu rosto no mudou, mas eu sentia a
mo tremendo.
    Lamento, Lena.
    Se elas soubessem.
     Esperei que o prdio comeasse a tremer, que as janelas quebrassem ou
algo assim. Mas nada aconteceu. Lena apenas ficou l parada, fervendo.
     A futura gerao do FRA veio em nossa direo. Decidi encontrar com
elas no meio do caminho.
     -- Onde est sua fantasia, Emily? Esqueceu que era Halloween?
     Emily pareceu confusa. Ento sorriu para mim, o sorriso doce e grudento
de algum que tem orgulho demais de si mesma.
     -- De que voc est falando, Ethan? No  disso que voc gosta agora?
     -- Estvamos tentando fazer sua namorada se sentir em casa -- disse
Savannah, fazendo uma bola de chiclete.
     Lena me olhou.
    Ethan, pare. S vai piorar as coisas pra voc.
    No ligo.
    Posso lidar com isso.
    0 que acontece com voc acontece comigo.
    Link andou at o meu lado, puxando a meia-cala.
     -- Ei, garotas, pensei que vnhamos de piranhas. Ah, espere, isso  como
vocs vm todo dia.
     Lena no conseguiu no sorrir para Link.
     -- Cale sua boca, Wesley Lincoln. Vou contar pra sua me que voc est
andando com essa aberrao e ela no vai deixar voc sair de casa at o
Natal.
     -- Voc sabe o que  aquela coisa no rosto dela, no sabe? -- falou Emily
rindo, apontando da marca de nascena de Lena para a lua crescente que ela
tinha desenhado na prpria bochecha. --  chamada de marca da bruxa.
     -- Voc pesquisou isso na internet ontem? Voc  mais idiota ainda do
que eu pensava. -- Eu ri.
     -- Voc  o idiota. Est saindo com ela.
     Eu estava ficando vermelho, o que era a ltima coisa que eu queria. Essa
no era uma conversa que eu quisesse ter na frente de toda a escola, sem
mencionar o fato de que eu no tinha ideia se Lena e eu estvamos mesmo
saindo. Tnhamos dado um beijo uma vez. E estvamos sempre juntos, de um
modo ou de outro. Mas ela no era minha namorada, pelo menos eu no
achava que era, apesar de eu ter pensado que a ouvi dizer isso na Reunio. E
o que eu podia fazer, perguntar? Talvez fosse uma daquelas coisas que se
voc precisasse perguntar, a resposta provavelmente seria no. Havia alguma
parte dela que ainda parecia se afastar de mim, uma parte dela que eu no
conseguia alcanar.
     Emily me cutucou com a ponta da vassoura. Eu percebia que o conceito
de "estaca no corao" seria bem atrativo para ela nesse momento.
     -- Emily, por que vocs todas no vo pular de uma janela? Pra ver se
conseguem voar. Ou no.
     Seus olhos se apertaram.
     -- Espero que se divirtam sentados em casa juntos  noite, enquanto o
resto da escola estiver na festa de Savannah. Ser o ltimo evento dela na
Jackson.
     Emily deu meia-volta e voltou pelo corredor em direo a seu armrio,
com Savannah e as seguidoras delas atrs.
     Link estava brincando com Lena, tentando anim-la, o que no era
difcil, considerando o tanto que ele estava ridculo. Como eu disse, sempre
podia contar com Link.
     -- Elas me Odeiam mesmo. Nunca vai passar, vai? -- Lena suspirou.
Link comeou a fazer uma coreografia, pulando e balanando os pom-
     pons.
     -- Elas Odeiam voc, Odeiam sim. Odeiam todo mundo, e voc?
     -- Eu ficaria mais preocupado se elas gostassem de voc.
     Eu me inclinei e passei meu brao em torno dela, meio sem jeito. Ou
tentei. Ela se virou, e minha mo mal tocou em ombro. timo.
    Aqui no.
    Por que no?
    Voc s est piorando as coisas pra si mesmo.
    Sou faminto por punio.
     -- Chega de agarrao em pblico. -- Link me deu uma cotovelada nas
costelas. -- Voc vai conseguir fazer com que eu me sinta mal agora que
estou fadado a mais um ano sem uma namorada. Vamos nos atrasar pra aula
de ingls, e eu preciso tirar essa meia-cala no caminho. Fica entrando na
minha bunda.
     -- S preciso parar no meu armrio pra pegar meu livro -- disse Lena. O
cabelo dela comeou a se movimentar ao redor dos ombros. Suspeitei de
alguma coisa, mas no falei nada.




Emily, Savannah, Charlotte e Eden estavam paradas em frente aos seus
armrios, se ajeitando nos espelhos pendurados por dentro das portas. O
armrio de Lena era s um pouco depois no corredor.
    -- Apenas as ignore -- pedi.
    Emily estava esfregando a bochecha com um leno de papel. A marca
negra com formato de lua estava ficando maior e mais preta, em vez de sair.
    -- Charlotte, voc tem removedor de maquiagem?
    -- Claro.
    Emily esfregou a bochecha algumas vezes mais.
    -- Isso no est saindo. Savannah, achei que voc tinha dito que esse
negcio saa com gua e sabo.
    -- Sai.
    -- Ento por que no est saindo?
    Emily bateu a porta do armrio, irritada. O drama chamou a ateno de
Link.
    -- O que aquelas quatro esto fazendo ali?
    -- Parece que esto tendo algum tipo de problema -- disse Lena,
apoiando em seu armrio.
    Savannah tentou limpar a lua negra da prpria bochecha.
    -- A minha tambm no est saindo. -- A lua agora estava espalhada em
metade do rosto. Savannah comeou a revirar a bolsa. -- Estou com o lpis
bem aqui.
    Emily tirou a bolsa do armrio, enquanto procurava algo.
    -- Esquea. O meu est na minha bolsa.
    -- Mas o que... -- Savannah tirou algo da bolsa.
    -- Voc usou caneta permanente? -- Emily riu.
    Savannah segurou a caneta na frente dos olhos.
    -- Claro que no. No tenho ideia de como isso veio parar aqui.
    -- Voc  to burra. Isso nunca vai sair antes da festa de hoje.
    -- No posso ficar com essa coisa no meu rosto a noite toda. Vou vestida
de deusa grega. Afrodite. Isso vai arruinar minha fantasia.
    -- Voc devia ter tido mais cuidado. -- Emily revirou a pequena bolsa
prateada mais um pouco. Virou seu contedo no cho embaixo do armrio, e
tubos de gloss e vidros de esmalte rolaram pelo cho. -- Tem que estar aqui.
    -- De que voc est falando? -- perguntou Charlotte.
    -- A maquiagem que usei hoje de manh no est aqui.
    A essa altura, Emily estava atraindo uma plateia; as pessoas estavam
parando para ver o que estava acontecendo. Uma caneta permanente rolou
da bolsa de Emily at o meio do corredor.
    -- Voc usou caneta permanente tambm?
    -- Claro que no! -- gritou Emily, esfregando o rosto freneticamente.
Mas a lua negra s crescia mais e mais como as outras. -- Que diabos est
acontecendo?
    -- Sei que estou com o meu -- disse Charlotte, girando a tranca do
armrio. Quando abriu a porta e ficou ali alguns segundos, olhando para
dentro.
    -- O que ? -- perguntou Savannah.
    Charlotte tirou a mo de dentro do armrio. Estava segurando uma
caneta permanente.
    Link sacudiu um pompom.
    -- As lderes de torcida so demais!
    Olhei para Lena.
    Caneta permanente?
    Um sorriso malicioso cresceu em seu rosto.
    Pensei que voc tivesse dito que no conseguia controlar seus poderes.
    Sorte de principiante.




No fim do dia, todo mundo na Jackson falava sobre a equipe de lderes de
torcida. Ao que tudo indicava, todas as lderes de torcida que se vestiram de
Lena de alguma maneira usaram caneta permanente para desenhar a
inofensiva lua crescente no rosto em vez de lpis de olho. Lderes de torcida.
Uma fonte infinita de piadas.
     Todas elas andariam pela escola e pelo resto da cidade, cantariam nos
corais jovens das igrejas e fariam a torcida nos jogos com caneta permanente
na bochecha pelos prximos dias, at que a lua sumisse. A Sra. Lincoln e a
Sra. Snow teriam um ataque.
     Eu s desejava poder estar l para ver.
     Depois da escola, andei com Lena at o carro dela, o que na verdade era
uma desculpa para segurar sua mo por mais tempo. As sensaes fsicas
intensas que eu sentia quando tocava nela no serviam para me deter como se
poderia esperar. No importava como eu me sentia, se estava fervendo ou
explodindo como lmpadas ou sendo atingido por relmpagos, eu tinha que
estar perto dela. Era como comer ou respirar. Eu no tinha escolha. E isso era
mais assustador do que um ms de Halloween, e estava me matando.
     -- O que voc vai fazer hoje  noite?
     Enquanto eu falava, ela passou a mo distraidamente pelo cabelo. Estava
sentada no cap do rabeco, e eu estava de p na frente dela.
     -- Achei que voc podia ir pra minha casa, a gente podia ficar l
atendendo a porta para as crianas pedindo doces. Voc pode me ajudar a
ficar de olho no gramado pra que ningum queime uma cruz l. -- Tentei
no pensar muito nos meus planos que envolviam Lena, e nosso sof, e filmes
velhos e Amma passando a noite fora.
     -- No posso.  uma das Grandes Festividades. Tenho parentes que vm
de toda parte. Tio M no me deixaria sair de casa por 5 minutos, isso sem
mencionar o perigo. Eu jamais abriria minha porta para estranhos numa
noite com tanto poder das Trevas.
     -- Nunca pensei por esse lado.
     At agora.




Quando cheguei em casa, Amma estava se aprontando para ir embora.
Estava cozinhando um frango e sovando massa de po com as mos, "o nico
jeito de uma mulher que tem respeito prprio fazer pes." Olhei para a
panela com desconfiana, imaginando se essa refeio ia para nossa mesa de
jantar ou para a dos Grandes.
     Peguei um pouco de massa e ela pegou minha mo.
     -- L-A-R--P-I-O.
     Eu sorri.
     -- Que significa mantenha suas mos de ladro longe dos meus pes,
Ethan Wate. Tenho pessoas famintas para alimentar.
     Acho que isso queria dizer que eu no comeria frango nem pezinhos
naquela noite.
     Amma sempre ia para casa no Halloween. Ela dizia que era uma noite
especial na igreja, mas minha me costumava dizer que era apenas uma boa
noite para os negcios. Que noite melhor haveria para ler cartas do que a de
Halloween? O pblico no seria o mesmo na Pscoa ou no Dia dos
Namorados.
     Mas diante dos ltimos eventos, me perguntei se no havia outra razo.
Talvez fosse uma boa noite para ler ossos de galinha no cemitrio tambm.
Eu no podia perguntar, e no tinha certeza se queria saber. Sentia falta de
Amma, de conversar com ela, de confiar nela. Se ela estava sentindo a
diferena, no estava demonstrando. Talvez ela s pensasse que eu estava
crescendo, e talvez eu estivesse.
     -- Voc vai quela festa na casa dos Snow?
     -- No, vou ficar em casa esse ano.
     Ela ergueu uma sobrancelha, mas no ia perguntar. J sabia por que eu
no ia.
     -- Se voc faz a cama,  melhor estar pronto para deitar nela.
     Eu no disse nada. Sabia que no devia. Ela no estava esperando uma
resposta.
     -- Estou me aprontando para ir em alguns minutos. Atenda a porta
quando os pequenos passarem a. Seu pai est ocupado trabalhando.
     Como se meu pai fosse sair de seu exlio autoimposto para atender a
porta e distribuir doces.
     -- Claro.




Os sacos de doce estavam no corredor. Eu os abri e virei em uma grande
tigela de vidro. No conseguia tirar as palavras de Lena da cabea. Uma
noite com tanto poder das Trevas. Lembrei de Ridley parada em frente ao
carro do lado de fora do Pare & Roube, toda sorriso doce e pernas.
Obviamente, identificar as foras das Trevas no era um dos meus talentos, e
nem decidir para quem se devia ou no abrir a porta de casa. Como eu disse,
quando a garota que no sai da sua cabea  uma Conjuradora, o Halloween
assumia um novo significado. Olhei para a tigela de doces nas minhas mos.
Ento abri a porta da frente, coloquei a tigela na varanda e voltei para
dentro.
     Enquanto me ajeitava para ver O Iluminado, percebi que sentia falta de
Lena. Deixei minha mente vagar, porque eu costumava achar um meio de ir
at o ponto em que ela ficava, mas ela no estava l. Adormeci no sof
esperando que Lena me chamasse em sonho, ou algo assim,
     Uma batida na porta me assustou. Olhei para meu relgio. Eram quase
22 horas, tarde demais para crianas pedindo doces.
     -- Amma?
     Nenhuma resposta. Ouvi a batida de novo.
     --  voc?
     A varanda estava escura, e s a luz da TV estava piscando. Era o
momento em O Iluminado em que o pai quebra a porta do hotel com o
machado sangrento para ir atrs da famlia. No era um bom momento para
se abrir a porta, principalmente no Halloween. Outra batida.
     -- Link? -- Desliguei a TV e olhei ao redor para ver se tinha algo para eu
pegar, mas no havia nada. Peguei um velho console de videogame que
estava no cho com uma pilha de jogos. No era um taco de beisebol, mas
era uma slida pea de velha tecnologia japonesa. Pesava pelo menos uns 2,5
quilos. Levantei-o sobre a cabea e dei um passo em direo  parede que
separava a varanda do corredor de entrada. Outro passo, e puxei a cortina de
renda que cobria a porta com painis de vidro s um milmetro.
     Na escurido da varanda escura, no consegui ver o rosto dela. Mas eu
reconheceria aquela velha van bege, com o motor ainda ligado em frente 
minha casa, em qualquer lugar. "Areia do Deserto" era como ela costumava
chamar. Era a me de Link, segurando um prato de brownies. Eu ainda
estava segurando o videogame. Se Link me visse, jamais me deixaria
continuar vivendo sem mencionar isso.
     -- S um minuto, Sra. Lincoln.
     Acendi a luz da varanda e destranquei a porta da frente. Mas quando
tentei abri-la, a porta continuava presa. Verifiquei a fechadura de novo, e ela
ainda estava trancada, apesar de eu ter acabado de destranc-la.
     -- Ethan?
     Destranquei a porta de novo. Ela se trancou com um estalo, antes que eu
pudesse afastar minha mo da fechadura.
     -- Sra. Lincoln, desculpe, minha porta parece estar emperrada.
     Sacudi a porta com todo meu peso, equilibrando o console. Alguma coisa
caiu no cho na minha frente. Parei para pegar. Alho, enrolado em um dos
lenos de Amma. Se fosse para dar um palpite, diria que havia um em cada
porta e cada janela. Uma pequena tradio de Halloween de Amma.
     Ainda assim, alguma coisa estava impedindo que a porta abrisse, assim
como alguma coisa tinha tentado abrir a porta do escritrio para mim dias
atrs. Quantas trancas nessa casa iam ficar se abrindo e fechando sozinhas? O
que estava acontecendo?
     Destranquei a porta mais uma vez e dei um puxo final. Ela abriu de
repente e bateu na parede do corredor. A Sra. Lincoln estava iluminada por
trs, uma figura escura em uma poa de luz plida. A silhueta era inquietante.
     Ela olhou para o console na minha mo.
     -- Os videogames vo apodrecer seu crebro, Ethan.
     -- Sim, senhora.
     -- Trouxe brownies para voc. Uma oferta de paz.
     Ela os ofereceu com expectativa. Eu devia t-la convidado para entrar.
Havia regras para tudo. Acho que podia se chamar de educao,
hospitalidade sulista. Mas eu tinha tentado isso com Ridley, e no tinha ido
muito bem. Hesitei.
     -- O que a senhora faz aqui agora? Link no est aqui.
     --  claro que no. Est na casa dos Snow, onde todo integrante
honrado do corpo de alunos da Jackson High deveria ter sorte de estar.
Precisei dar muitos telefonemas para conseguir que ele fosse convidado,
devido ao comportamento recente dele.
     Eu ainda no estava entendendo. Conhecia a Sra. Lincoln a minha vida
inteira. Ela sempre tinha sido incomum. Se ocupava fazendo com que livros
fossem tirados das prateleiras da biblioteca, professores demitidos das escolas,
reputaes arruinadas em apenas uma tarde. Ultimamente, ela estava
diferente. A cruzada contra Lena era diferente. A Sra. Lincoln sempre teve
convices, mas isso era pessoal.
     -- Senhora?
     Ela parecia agitada.
     -- Fiz brownies para voc. Achei que podia entrar para conversarmos.
Minha briga no  com voc, Ethan. No  sua culpa que aquela garota
esteja usando a perversidade dela em voc. Voc devia estar na festa com seus
amigos. Com os adolescentes que so daqui de verdade. -- Ela esticou os
brownies, aqueles com pedaos de chocolate e calda de chocolate que eram
sempre a primeira coisa a acabar na venda beneficente da Igreja Batista.
Cresci comendo aqueles brownies. -- Ethan?
     -- Senhora?
     -- Posso entrar?
     No movi um msculo. Segurei o console com mais fora. Olhei para os
brownies e de repente no senti mais fome. Nem mesmo o prato, nem uma
migalha daquela mulher era bem-vinda na minha casa. Minha casa, como
Ravenwood, estava comeando a ter mente prpria, e no havia parte de
mim e nem da casa que iria deix-la entrar.
     -- No, senhora.
     -- O que voc falou, Ethan?
     -- No. Senhora.
     Os olhos dela se apertaram. Ela empurrou o prato em minha direo,
como se fosse entrar de qualquer jeito, mas ele balanou como se houvesse
uma parede invisvel entre ela e eu. Vi o prato se inclinar e cair lentamente
at o cho, onde se partiu em milhes de pedaos de cermica e chocolate,
tudo em cima do nosso capacho de Feliz Halloween. Amma teria um ataque
de manh.
     A Sra. Lincoln se afastou pelos degraus da varanda com cautela e
desapareceu na escurido do velho Areia do Deserto.


Ethan!
     A voz dela me arrancou do sono. Devo ter cochilado. A maratona de
horror tinha acabado e a televiso tinha passado a transmitir um chuvisco
alto e cinzento.
    Tio Macon! Ethan! Socorro!
     Lena estava gritando. Em algum lugar. Eu podia ouvir o terror em sua
voz, e minha cabea pulsava com tanta dor que por um segundo esqueci onde
estava.
    Algum, por favor, me ajude!
    A porta da frente da minha casa estava aberta, balanando e batendo ao
vento. O som ricocheteava pelas paredes como tiros.
    Achei que voc tivesse dito que era seguro aqui!
    Ravenwood.
    Peguei as chaves do velho Volvo e corri.


No consigo me lembrar de como cheguei a Ravenwood, mas sei que quase
sa da estrada algumas vezes. Meus olhos mal conseguiam se focar. Lena
estava sofrendo tanto e nossa ligao estava to prxima que eu quase
desmaiei s de senti-la.
     E os gritos.
     Os gritos eram constantes, desde o momento em que acordei at a hora
em que apertei a lua crescente e entrei em Ravenwood.
     Quando a porta se abriu, pude ver que Ravenwood tinha se
transformado mais uma vez. Esta noite, estava quase como um castelo antigo.
Candelabros jogavam sombras estranhas na multido de convidados de
vestidos negros, capas negras e jaquetas negras, em nmero bem maior do
que na Reunio.
    Ethan! Corra! No consigo aguentar...
      -- Lena! -- gritei. -- Macon! Onde ela est?
      Ningum sequer olhou em minha direo. No vi ningum que eu
conhecesse, embora o salo da frente estivesse repleto de convidados, indo de
aposento a aposento como fantasmas em um jantar assombrado. Eles no
eram daqui, pelo menos no h centenas de anos. Vi homens de saias escuras
e grosseiras tnicas escocesas, mulheres de vestidos com espartilhos. Tudo era
negro e envolvido em sombras.
      Passei pela multido empurrando e entrei no que parecia ser o grande
salo de baile. Eu no via nenhum deles; nada de tia Del, nem Reece, nem
mesmo a pequena Ryan. Velas ardiam em chamas nos cantos da sala, e o que
parecia ser uma orquestra translcida de estranhos instrumentos musicais
entrava e saa de foco, tocando sozinha, enquanto casais cobertos de sombras
iam girando e deslizando pelo cho que agora era de pedra. Os danarinos
nem pareciam me perceber.
      A msica era claramente msica de Conjuradores, conclamando um
feitio prprio. Eram cordas, principalmente. Eu ouvia violinos, uma viola,
um violoncelo. Quase via a teia que girava de danarino para danarino, o
modo como puxavam um ao outro, como se fosse um padro deiiberado, e
eles fizessem parte do design. E eu no.
    Ethan...
     Eu tinha que encontr-la.
     Uma repentina onda de dor. A voz dela estava ficando mais baixa agora.
Tropecei e me apoiei no ombro do convidado ao meu lado. Bastou toc-lo e a
dor, a dor de Lena, fluiu atravs de mim e at ele. Ele cambaleou e esbarrou
no casal danando ao lado dele.
     -- Macon! -- gritei a plenos pulmes.
     Vi Boo Radley no topo da escada, como se estivesse esperando por mim.
Os olhos redondos e humanos pareciam apavorados.
     -- Boo! Onde ela est?
     Boo olhou para mim e vi os olhos enevoados e duros de Macon
Ravenwood; pelo menos, eu podia ter jurado que vi. Ento Boo se virou e
correu. Corri atrs dele, ou pensei que o estava seguindo, correndo para cima
na escadaria de pedra em espiral do que agora era o Castelo Ravenwood. J
no alto, ele esperou que eu o alcanasse, depois correu em direo ao final do
corredor. Vindo de Boo, isso era praticamente um convite.
     Ele latiu, e duas portas slidas de carvalho abriram sozinhas com um
gemido. Era to longe da festa que eu nem conseguia ouvir a msica nem a
conversa dos convidados, Era como se tivssemos entrado em outro lugar e
tempo. At mesmo o castelo estava mudando debaixo dos meus ps, as pedras
se despedaando, as paredes ficando cheias de musgo e frias. As luzes agora
eram tochas penduradas na parede.
     Eu conhecia coisas antigas. Gatlin era velha. Eu tinha crescido com
coisas velhas. Isso era uma coisa totalmente diferente. Como Lena tinha dito,
um Ano-Novo. Uma noite fora do tempo.
     Quando entrei no quarto principal, dei de cara com o cu. O quarto se
abria para os cus como uma estufa. O cu acima estava preto, o cu mais
negro que eu j tinha visto. Como se estivssemos no meio de uma
tempestade terrvel, mas ainda assim o quarto estava silencioso.
     Lena estava deitada sobre uma pesada mesa de pedra, encolhida em
posio fetal. Estava encharcada, ensopada no prprio suor e se contorcendo
de dor. Eles estavam de p ao redor dela: Macon, tia Del, Barclay, Reece,
Larkin, at mesmo Ryan, e uma mulher que no reconheci, de mos dadas,
formando um crculo.
     Os olhos deles estavam abertos, mas eles no enxergavam. Nem mesmo
repararam que eu tinha entrado no quarto. Eu podia ver suas bocas se
mexendo, murmurando alguma coisa. Quando cheguei perto de Macon,
percebi que no estavam falando nossa lngua. Eu no tinha certeza, mas j
passara tempo o bastante com Marian para achar que era Latim.

    -- Sanguis sanguinis mei, tutela tua est.
    Sanguis sanguinis mei, tutela tua est.
    Sanguis sanguinis mei, tutela tua est.
    Sanguis sanguinis mei, tutela tua est.

    Eu s conseguia ouvir o murmrio baixo, o cantarolar. No conseguia
mais ouvir Lena. Minha cabea estava vazia. Ela tinha ido embora.
    Lena! Me responda!
     Nada. Ela continuava l deitada, murmurando baixinho, se contorcendo
lentamente como se estivesse tentando se livrar da prpria pele. Ainda
suando, o suor misturado s lgrimas.
     Dei quebrou o silncio, histrica.
     -- Macon, faa alguma coisa! No est funcionando.
     -- Estou tentando, Deiphine.
     Havia alguma coisa na voz dele que eu nunca tinha notado antes. Medo.
     -- No entendo. Enfeitiamos essa casa juntos. Essa casa  o nico lugar
onde ela deveria estar segura. -- Tia Del olhou para Macon em busca de
respostas.
     -- Estvamos errados. No h abrigo seguro para ela aqui -- disse uma
mulher bonita da idade da minha av com espirais de cabelos negros. Ela
usava contas em volta do pescoo, cordo em cima de cordo, e enfeitados
anis de prata nos polegares. Tinha a mesma qualidade extica que Marian
tinha, como se fosse de algum lugar longe dali.
     -- Voc no tem certeza, tia Arelia -- falou Dei, se virando para Reece.
-- Reece, o que est acontecendo? Consegue ver alguma coisa?
     Os olhos de Reece estavam fechados, as lgrimas correndo pelo rosto.
     -- No consigo ver nada, me.
     O corpo de Lena deu um espasmo e ela gritou, ou pelo menos abriu a
boca e parecia que estava gritando, mas no saiu som algum. Eu no
conseguia suportar.
     -- Faam alguma coisa! Ajudem! -- gritei.
     -- O que voc est fazendo aqui? Saia daqui. No  seguro -- avisou
Larkin. A famlia me notou pela primeira vez.
     -- Concentrem-se!
     Macon parecia desesperado. A voz dele subiu acima das outras, cada vez
mais alta, at que ele estava gritando:
    -- Sanguis sangunis mei, tutela tua est.
    Sanguis sangunis mei, tutela tua est.
    Sanguis sangunis mei, tutela tua est.
    Sanguis sangunis mei, tutela tua est.
    Sangue do meu sangue, a proteo  sua!

     Os integrantes do crculo contraram os braos como se quisessem dar
mais fora ao crculo, mas no funcionou. Lena ainda dava gritos silenciosos
de pavor. Aquilo era pior do que os sonhos. Era real. E se eles no iam acabar
com isso, eu ia. Corri em direo a ela, passando por baixo dos braos de
Reece e Larkin.
     -- Ethan, NO!
     Quando entrei no crculo, consegui ouvir. Um uivo. Sinistro, assustador,
como a voz do prprio vento. Ou seria mesmo uma voz? Eu no tinha
certeza. Apesar de estar apenas a alguns metros da mesa onde ela estava
deitada, senti como se estivesse a milhes de quilmetros de distncia.
Alguma coisa estava tentando me afastar, alguma coisa mais poderosa do que
qualquer coisa que j senti antes. At mais poderosa do que quando Ridley
estava congelando minha vida dentro de mim. Fiz fora contra com tudo o
que havia em mim.
    Estou indo, Lena! Aguente!
     Joguei meu corpo para a frente, esticando a mo, como nos sonhos. O
abismo negro no cu comeou a girar.
     Fechei meus olhos e saltei para a frente. Nossos dedos se tocaram, de
leve.
     Ouvi a voz dela.
    Ethan, eu...
     O ar dentro do crculo girou em torno de ns com violncia, como um
tufo. Girando em direo ao cu, se  que ainda podamos chamar de cu.
Em direo  escurido. Houve um estouro, como uma exploso, que
empurrou tio Macon, tia Del, todo mundo de costas, contra as paredes atrs
deles. No mesmo momento, o ar que girava dentro do crculo rompido foi
sugado para a escurido acima.
     E ento, acabou. O castelo virou um sto normal, com uma janela
retangular que se abria sob as calhas. Lena estava deitada no cho, em um
emaranhado de cabelos e membros e inconscincia, mas estava respirando.
     Macon se levantou do cho, olhando para mim espantado. Depois andou
at a janela e a fechou.
     Tia Del olhou para mim, lgrimas ainda escorrendo pelo rosto.
     -- Se eu mesma no tivesse visto...
     Ajoelhei ao lado de Lena. Ela no conseguia se mexer nem falar. Mas
estava viva. Eu conseguia senti-la, um pequeno latejar pulsando em sua mo.
Deitei minha cabea ao lado dela. Foi tudo que consegui fazer para no
desmoronar.
     A famlia de Lena lentamente se reuniu ao redor de ns, um crculo
escuro falando sobre minha cabea.
     -- Eu falei para voc. O garoto tem poder.
     -- No  possvel. Ele  Mortal. No  um de ns.
     -- Como um Mortal poderia quebrar um Crculo Sanguinis? Como um
Mortal poderia repelir um Mentem Interficere to poderoso que nem o
Feitio de Ravenwood conseguiu resistir?
     -- No sei, mas tem que haver uma explicao. -- Dei ergueu a mo
acima da cabea. -- Evinco, contineo, colligo, includo. -- Ela abriu os olhos.
-- A casa ainda est Enfeitiada, Macon. Consigo sentir. Ela atingiu Lena
mesmo assim.
     -- Claro que atingiu. No podemos impedi-la de vir atrs da criana.
     -- Os poderes de Sarafine crescem a cada dia. Reece consegue v-la
agora, quando olha nos olhos de Lena. -- A voz de Dei estava trmula.
     -- Nos atacar aqui, nesta noite. Ela estava apenas querendo mostrar pra
ns.
     -- Mostrar o qu, Macon?
     -- Que ela consegue.
     Senti uma mo na minha tmpora. Era quase um carinho, algum
acariciava minha testa. Tentei ouvir, mas a mo me deixava com sono.
Queria rastejar at minha casa e ir para a cama.
     -- Ou que no consegue. -- Olhei para cima. Arelia estava esfregando
minhas tmporas, como se eu fosse um pardalzinho ferido. S que eu sabia
que ela estava tentando me sentir, saber o que havia dentro de mim. Estava
procurando por alguma coisa, vasculhando minha mente como se procurasse
por um boto perdido ou uma meia velha. -- Ela foi tola. Cometeu um erro
crtico. Descobrimos a nica coisa que precisamos saber -- disse Arelia.
      -- Ento voc concorda com Macon? O garoto tem poder? -- Dei
parecia ainda mais nervosa agora.
      -- Voc estava certa antes, Deiphine. Deve haver alguma outra
explicao. Ele  Mortal, e sabemos que Mortais no possuem poder -- disse
Macon, como se estivesse tentando convencer a si mesmo e a todo mundo.
      Mas eu tinha comeado a me perguntar se no era verdade. Ele tinha
dito a mesma coisa para Amma no pntano, que eu tinha algum tipo de
poder. S no fazia sentido, nem mesmo para mim. Eu no era um deles, isso
eu sabia. No era um Conjurador.
      Arelia olhou para Macon.
      -- Pode Enfeitiar a casa o quanto quiser, Macon. Mas sou sua me e
estou dizendo que voc pode trazer para c todos os Duchannes, todos os
Ravenwood, tornar o Crculo to largo quanto esse condado esquecido, se
quiser. Conjurar toda a Vincula, se quiser. No  a casa que a protege.  o
garoto. Nunca vi nada assim. Nenhum Conjurador pode ficar entre eles.
      --  o que parece. -- Macon parecia furioso, mas no desafiou a me.
Eu estava cansado demais para me importar. Nem levantei minha cabea.
      Eu podia ouvir Arelia sussurrando alguma coisa no meu ouvido. Parecia
que ela estava falando latim de novo, mas as palavras pareciam diferentes.
      -- Cruor pectoris mei, tutela tua est! Sangue do meu corao, a proteo
 sua!
                        p 1 de novembro p
                    Os escritos na parede
                                     d
N
      a manh seguinte, eu no tinha ideia de onde estava. Ento vi as
      palavras cobrindo as paredes e a velha cama de ferro e as janelas e os
      espelhos, tudo escrito com caneta permanente e na letra de Lena, e
lembrei.
     Levantei a cabea e limpei a baba da minha bochecha. Lena ainda
estava dormindo; eu podia ver o p dela caindo pela lateral da cama. Me
levantei, as costas ainda doendo por ter dormido no cho. Me perguntei
quem nos trouxe do sto e como.
     Meu celular tocou; era meu despertador dirio, para que Amma s
tivesse que gritar pela escadaria trs vezes para me acordar. S que hoje, no
tocou "Bohemian Rhapsody". Tocou a msica. Lena se sentou, assustada,
grogue.
     -- O que acont...
     -- Shh. Escute.

    A msica tinha mudado.

    Dezesseis luas, dezesseis anos,
    Dezesseis vezes voc sonhou com meus medos,
    Dezesseis vo tentar Enfeitiar as esferas,
    Dezesseis gritos mas s um escuta...

    -- Pare!
    Ela pegou meu celular e o desligou, mas o verso continuou tocando.
    --  sobre voc, eu acho. Mas o que  Enfeitiar as esferas?
     -- Quase morri ontem  noite. Estou cansada de tudo ser sobre mim.
Estou cansada de todas essas coisas estranhas acontecendo comigo. Talvez a
msica idiota seja sobre voc, pra variar. Voc  o nico aqui que tem 16
anos.
     Frustrada, Lena ergueu a mo e a abriu. Depois fechou o punho e bateu
no cho como se estivesse matando uma aranha.
     A msica parou. Ningum ia mexer com Lena hoje. Eu no podia culp-
la, para ser honesto. Ela parecia estar enjoada, talvez at pior do que Link na
manh seguinte do dia em que Savannah o tinha desafiado a beber a velha
garrafa de licor de menta do bar da me dela, no ltimo dia de aula antes das
frias de inverno. Trs anos se passaram e ele ainda no comia doces de
hortel.
     O cabelo de Lena estava espetado em umas 15 direes diferentes, e os
olhos estavam pequenos e inchados de tanto chorar. Ento era assim que as
garotas ficavam de manh. Eu nunca tinha visto aquilo, no de perto. Tentei
no pensar em Amma e no inferno que teria que encarar quando chegasse
em casa.
     Rastejei at a cama e puxei Lena para o meu colo, passando minha mo
pelo seu cabelo louco.
     -- Voc est bem?
     Ela fechou os olhos e enterrou o rosto no meu moletom. Eu sabia que
devia estar fedendo como um gamb selvagem.
     -- Acho que sim.
     -- Eu ouvia voc gritando l da minha casa.
     -- Quem ia imaginar que fazer Kelt salvaria minha vida.
     Eu no estava entendendo, como sempre.
     -- O que  Kelt?
     --  assim que se chama o modo como conseguimos nos comunicar
independentemente de onde estamos. Alguns Conjuradores conseguem fazer
Kelt, outros no. Ridley e eu costumvamos conversar na escola desse jeito,
mas...
     -- Pensei que voc tivesse dito que nunca aconteceu com voc antes.
     -- Nunca aconteceu antes comigo e um Mortal. Tio Macon diz que 
muito raro.
    Gostei de ouvir isso.
     Lena me cutucou.
     -- Vem do lado celta de nossa famlia.  como os Conjuradores
costumavam mandar recados uns pros outros durante os julgamentos. Nos
Estados Unidos, costumavam chamar de "O Sussurro".
     -- Mas no sou Conjurador.
     -- Eu sei,  bem estranho. No devia funcionar com Mortais.
     Claro que no.
     -- No acha que  mais do que estranho? Conseguimos fazer esse
negcio de Kelt, Ridley entrou em Ravenwood por minha causa, at seu tio
disse que consigo proteger voc de alguma forma. Como isso  possvel?
Quero dizer, no sou Conjurador. Meus pais so diferentes, mas no so to
diferentes.
     Ela se apoiou no meu ombro.
     -- Talvez no seja preciso ser Conjurador para ter poder.
     Coloquei uma mecha de cabelo atrs da orelha dela.
     -- Talvez s seja preciso se apaixonar por uma.
     Falei como quem no quer nada. Sem piadinhas, sem mudar o assunto.
Pela primeira vez no fiquei sem jeito, porque era a verdade. Eu tinha me
apaixonado. Acho que estava me apaixonando desde o comeo. E ela tinha
que saber, se ainda no sabia, porque no tinha como voltar atrs agora. No
para mim.
     Ela olhou para mim, e o mundo inteiro desapareceu. Como se houvesse
ns dois, como se sempre s fosse haver ns dois. E no precisssemos de
magia para isso. Era meio que feliz e triste, tudo ao mesmo tempo. Eu no
conseguia ficar perto dela sem sentir coisas, sem sentir tudo.
    Em que voc est pensando?
    Ela sorriu.
    Acho que voc consegue descobrir. Pode ler o que est escrito na parede.
    E enquanto ela dizia, apareceu algo escrito na parede. Lentamente, uma
palavra de cada vez foi se formando.

    Voc.
    no-
    
    o
    nico-
    se
    apaixonando-.

     Apareceu escrito sozinho, com a mesma letra preta que cobria as paredes
do quarto. As bochechas de Lena ficaram um pouco vermelhas e ela cobriu o
rosto com as mos.
     -- Vai ser bem constrangedor se tudo que penso comear a aparecer nas
paredes.
     -- Voc no fez de propsito?
     -- No.
    Voc no precisa ficar constrangida, L.
    Afastei as mos dela do rosto.
    Porque sinto o mesmo por voc.
     Os olhos dela estavam fechados, e me inclinei para beij-la. Foi um
beijinho rpido, um beijinho de nada. Mas fez meu corao disparar mesmo
assim.
     Ela abriu os olhos e sorriu.
     -- Quero ouvir o resto. Quero saber como voc salvou minha vida.
     -- Nem me lembro como cheguei aqui, e depois eu no conseguia
encontrar voc, e sua casa estava cheia de pessoas assustadoras que pareciam
estar numa festa a fantasia.
     -- No estavam.
     -- Imaginei.
     -- Ento voc me encontrou? -- Ela deitou a cabea no meu colo,
erguendo os olhos para mim com um sorriso. -- Voc entrou no quarto com
seu cavalo branco e me salvou da morte certa nas mos de um Conjurador
das Trevas?
     -- No brinque. Foi apavorante. E no havia nenhum cavalo, era um
cachorro.
     -- A ltima coisa de que me lembro foi de tio Macon falando sobre o
Feitio. -- Lena torceu uma mecha de cabelo, pensativa.
     -- O que era aquela coisa de Circulo?
     -- O Crculo Sanguinis. O Crculo de Sangue.
     Tentei no parecer muito apavorado. Mal conseguia engolir a ideia de
Amma e os ossos de galinha. Achava que no poderia lidar com sangue de
galinha de verdade; pelo menos, eu esperava que fosse apenas sangue de
galinha.
     -- No vi sangue.
     -- No  sangue de verdade, seu idiota. Sangue no sentido de parentes,
famlia. Minha famlia inteira est aqui para a festividade, lembra?
     -- Certo. Desculpe.
     -- Eu te falei. O Halloween  uma noite poderosa para Conjuros.
     -- Ento era isso que vocs todos faziam l em cima? Naquele Crculo?
     -- Macon queria Enfeitiar Ravenwood. Sempre est Enfeitiada, mas
ele a Enfeitia novamente a cada Halloween para o Ano-Novo.
     -- Mas alguma coisa deu errado.
     -- Acho que sim, porque estvamos naquele crculo, e eu conseguia ouvir
tio Macon falando com tia Del, e depois todos comearam a gritar, e
comearam a falar de uma mulher. Sara alguma coisa.
     -- Sarafine. Eu ouvi tambm.
     -- Sarafine. Era esse o nome? Nunca o ouvi antes.
     -- Ela deve ser uma Conjuradora das Trevas. Todos pareciam, no sei,
com medo. Nunca ouvi seu tio falar daquele jeito antes. Voc sabe o que
estava acontecendo? Ela estava mesmo tentando matar voc? -- Eu no tinha
certeza se queria saber a resposta.
     -- No sei. No me lembro de muita coisa, a no ser uma voz, como se
algum estivesse falando comigo de muito longe. Mas no me lembro o que
dizia. -- Ela se mexeu no meu colo, se apoiando sem jeito no meu peito.
Quase conseguia sentir o corao dela pulsando junto ao meu, como um
pssaro batendo asas dentro de uma gaiola. Estvamos to prximos quanto
duas pessoas podiam ficar sem olhar uma para a outra. E acho que essa
manh era assim que ns precisvamos ficar. -- Ethan. Estamos ficando sem
tempo. No adianta. Seja o que fosse, seja l quem ela fosse, voc no acha
que ela estava vindo at mim porque em quatro meses vou para as Trevas?
     -- No.
     -- No?  s isso que voc tem a dizer sobre a pior noite da minha vida
inteira, quando quase morri? -- Lena se afastou.
     -- Pense bem. Essa Sarafine, seja l quem ela for, iria atrs de voc se
voc fosse um dos bandidos? No, os mocinhos iriam atrs de voc. Olhe
para Ridley. Ningum da sua famlia estava estendendo o tapete vermelho
para receb-la.
     -- Menos voc. Imbecil. -- Ela me deu um soco de brincadeira nas
costelas.
     -- Exatamente. Porque no sou um Conjurador. Sou um nfimo Mortal.
E voc mesma disse que se ela me mandasse pular de um penhasco, eu
pularia.
     Lena mexeu no cabelo.
     -- Sua me nunca perguntou a voc, Ethan Wate, se voc tambm
pularia de um penhasco caso seus amigos fossem pular de um?
     Passei os braos ao redor dela, me sentindo mais feliz do que deveria,
considerando a noite anterior. Ou talvez apenas fosse Lena que estivesse se
sentindo melhor, e eu estivesse em sintonia. Ultimamente, uma corrente forte
corria entre ns e era difcil saber o que era eu e o que era ela.
     Eu s sabia que queria beij-la.
    Voc vai para a Luz.
    E ento a beijei.
    Com certeza, para a Luz.
     Beijei-a de novo, puxando-a para meus braos. Beij-la era como
respirar. Eu tinha que fazer. No conseguia evitar. Comprimi meu corpo
contra o dela. Podia ouvi-la respirando, sentir seu corao batendo contra
meu peito. Meu sistema nervoso inteiro comeou a disparar de repente. Meu
cabelo ficou de p. O cabelo preto dela caiu sobre minhas mos, e ela relaxou
contra meu corpo. Cada toque do seu cabelo era como uma pontada de
eletricidade. Eu estava esperando para fazer aquilo desde que a conheci,
desde que sonhei com ela pela primeira vez.
     Era como um relmpago. ramos uma coisa s.
    Ethan.
     Mesmo na minha cabea, pude ouvir a urgncia na voz dela. Senti
tambm, como se no conseguisse chegar perto o bastante. A pele dela estava
macia e quente. Eu sentia as pontadas se intensificando. Nossos lbios
estavam doendo; no conseguamos nos beijar com mais intensidade. A cama
comeou a tremer e depois a flutuar. Eu a sentia balanando debaixo de ns.
Senti falta de ar. Minha pele ficou fria. As luzes no quarto piscaram e o
quarto girava, ou talvez estivesse escurecendo, eu no conseguia saber e no
sabia se era eu ou a luz no quarto.
    Ethan!
    A cama caiu no cho. Ouvi o barulho de vidro quebrado ao longe, como
se uma janela tivesse se despedaado. Ouvi Lena chorando.
    Depois, a voz de uma criana.
    -- O que houve, Lena? Por que est to triste?
    Senti uma mo pequena e quente no meu peito. O calor irradiou da
mo, passou para o meu corpo, o quarto parou de girar e eu consegui respirar
de novo. Abri os olhos.
    Ryan.




Me sentei, a cabea latejando. Lena estava ao meu lado, a cabea pressionada
contra meu peito, como tinha feito uma hora antes. S que desta vez as
janelas dela estavam quebradas, a cama tinha desmontado e uma pequena
loura de 10 anos estava parada na minha frente com a mo no meu peito.
Lena, ainda fungando, tentou empurrar parte de um espelho quebrado para
longe de mim, assim como o que tinha sobrado da cama dela.
     -- Acho que descobrimos o que Ryan .
     Lena sorriu, enxugando os olhos. Puxou Ryan para perto.
     -- Uma Taumaturga. Nunca tivemos uma na famlia.
     -- Imagino que seja uma palavra bacana de Conjuradores para
curandeira -- eu disse, esfregando a cabea.
     Lena assentiu e beijou a bochecha de Ryan.
     -- Algo do tipo.
                            p     27 de novembro   p
              Apenas um feriado americano comum

                                    d

D
      epois do Halloween, parecia a calmaria depois da tempestade.
      Estabelecemos uma rotina, apesar de sabermos que o tempo estava
      passando. Eu andava at a esquina para me esconder de Amma, Lena
me pegava com o rabeco, Boo Radley nos alcanava na frente do Pare &
Roube e nos seguia at a escola. Com a exceo ocasional de Winnie Reid, a
nica integrante da equipe de debate da Jackson, o que tornava o debate algo
difcil, ou Robert Lester Tate, que tinha ganhado o campeonato estadual de
soletrar dois anos seguidos, a nica pessoa que sentava conosco no refeitrio
era Link. Quando no estvamos na escola comendo nas arquibancadas ou
sendo espionados pelo diretor Harper, estvamos enfiados na biblioteca
relendo os papis sobre o medalho e torcendo para que Marian desse um
escorre- go e nos contasse alguma coisa. Sem sinal de primas Sirenas
paqueradoras portando pirulitos e toques mortais, sem tempestades nvel 3
inexplicveis ou ameaadoras nuvens negras no cu, nem mesmo uma
refeio esquisita com Macon, Nada fora do normal.
     Exceto uma coisa. A coisa mais importante. Eu estava louco por uma
garota que se sentia do mesmo jeito em relao a mim. Quando isso tinha
acontecido? O fato de ela ser uma Conjuradora era quase mais fcil de
acreditar do que o fato de que ela existia.
     Eu linha Lena. Ela era poderosa e bonita. Cada dia era apavorante, e
cada dia era perfeito.
     At que, do nada, o impensvel aconteceu. Amma convidou Lena para o
jantar de Ao de Graas.
-- No sei por que voc quer ir l em casa no dia de Ao de Graas.  bem
chato. -- Eu estava nervoso. Amma obviamente estava tramando alguma
coisa.
     Lena sorriu, ento relaxei. No havia nada melhor do que quando ela
sorria. Sempre me deixava maravilhado.
     -- No acho que seja chato.
     -- Voc nunca foi ao jantar de Ao de Graas na minha casa.
     -- Nunca fui a um jantar de Ao de Graas na casa de ningum.
Conjuradores no comemoram o dia de Ao de Graas.  um feriado
Mortal.
     -- Est brincando? Sem peru? Sem torta de abbora?
     -- Isso mesmo.
     -- Voc no comeu muito hoje, comeu?
     -- Na verdade, no.
     -- Ento voc ficar bem.
     Eu tinha preparado Lena para que ela no ficasse surpresa quando as
Irms enrolassem uns pezinhos em guardanapos e os enfiassem na bolsa. Ou
quando minha tia Caroline e Marian passassem metade da noite debatendo
sobre a localizao da primeira biblioteca pblica dos EUA (Charleston) ou
sobre as propores certas para fazer a tinta "verde Charleston" (duas partes
de preto "Yankee" e uma parte de amarelo "Rebel"). Tia Caroline era
curadora de um museu em Savannah e sabia tanto sobre arquitetura e
antiguidades de poca quanto minha me sabia sobre munio da Guerra
Civil e estratgias de batalha. Era para isso que Lena tinha que estar pronta:
Amma, meus parentes malucos, Marian e Harlon James, para completar.
     Deixei de fora o nico detalhe que ela realmente precisava saber.
Considerando os acontecimentos mais recentes, o dia de Ao de Graas
provavelmente tambm significava jantar com meu pai de pijama. Mas isso
era uma coisa que eu no poderia explicar.
     Amma levava o dia de Ao de Graas muito a srio, o que significava
duas coisas. Meu pai finalmente sairia do escritrio, se bem que j estaria
escuro, e portanto no seria uma grande exceo, e ele comeria  mesa
conosco. Nada de cereal. Era o mnimo que Amma permitiria. Ento em
homenagem  peregrinao do meu pai ao mundo que todos ns
habitvamos todo dia, Amma cozinhava muito. Peru, pur de batata com
molho, feijo manteiga e creme de milho, batata doce com marshmallow,
presunto com mel e pezinhos, torta de abbora e torta de limo com
merengue, a qual, depois da minha noite no pntano, eu tinha quase certeza
de que ela estava fazendo mais para o tio Abner do que para o resto de ns.
     Parei por um segundo na varanda, me lembrando de como me senti na
varanda de Ravenwood na primeira noite que fui l. Agora era a vez de Lena.
Ela tinha prendido o cabelo escuro, revelando o rosto, e toquei o ponto onde
um fio conseguiu escapar, se enroscando at seu queixo.
    Est pronta?
    Ela puxou o vestido preto para solt-lo da meia-cala.
    No.
    Deveria estar.
     Sorri e abri a porta.
     -- Pronta ou no...
     A casa cheirava como na minha infncia. Cheiro de pur de batata e de
trabalho rduo.
     -- Ethan Wate,  voc? -- gritou Amma da cozinha.
     -- Sim, senhora.
     -- Trouxe aquela garota? Traga-a aqui para que possamos dar uma boa
olhada nela.
     A cozinha estava fervilhando. Amma estava em frente ao fogo, usando o
avental e tinha uma colher de pau em cada mo. Tia Prue estava andando
pela cozinha, enfiando os dedos nos potes na bancada. Tia Mercy e tia Grace
estavam fazendo Palavras Cruzadas na mesa da cozinha; nenhuma das duas
parecia perceber que no estavam acertando palavra alguma.
     -- No fique a parado. Traga-a at aqui.
     Cada msculo do meu corpo se contraiu. No havia como prever o que
Amma ou as Irms iam dizer. Eu ainda no tinha ideia de por que Amma
tinha insistido que eu convidasse Lena.
     Lena deu um passo a frente.
     --  um prazer finalmente conhecer a senhora.
     Amma olhou Lena de cima a baixo, limpando as mos no avental.
     -- Ento  voc que tem mantido meu menino to ocupado. O carteiro
estava certo. Linda como numa foto. -- Me perguntei se Carlton Eaton tinha
mencionado isso na ida at Wader's Creek.
     Lena ficou vermelha.
     -- Obrigada,
     -- Ouvi dizer que voc deu uma sacudida nas coisas naquela escola. --
Tia Grace sorriu. -- Isso  bom. No sei o que andam ensinando a vocs l.
     Tia Mercy colocou peas no tabuleiro, uma de cada vez: C-0--A-N--0.
     Tia Grace se inclinou para mais perto do tabuleiro, apertando os olhos.
     -- Mercy Lynne, voc est roubando de novo! Que espcie de palavra 
essa? Use-a em uma frase.
     -- Estou me coano para comer um pouco daquela torta branca.
     -- No  assim que se escreve. -- Pelo menos uma delas sabia ortografia.
Tia Grace tirou uma das peas do tabuleiro. -- Coano no  com c cedilha.
-- Ou no.
    Voc no estava exagerando.
    Eu avisei.
     -- Ouvi a voz de Ethan? -- Tia Caroline entrou na cozinha bem na
hora, de braos abertos. -- Venha aqui e d um abrao na sua tia.
     Sempre me espantava por um segundo o tanto que ela se parecia com
minha me. O mesmo cabelo longo castanho, sempre preso, os mesmos olhos
castanhos escuros. Mas minha me sempre preferiu ps descalos e jeans,
enquanto tia Caroline estava mais para uma bela sulista com vestidos de
vero e suteres justos. Acho que minha tia gostava de ver a expresso nos
rostos das pessoas quando descobriam que ela era curadora no Museu de
Histria de Savannah e no uma debutante madura.
     -- Como esto as coisas aqui no norte? -- Tia Caroline sempre se referia
a Gatlin como "norte" por ser ao norte de Savannah.
     -- Tudo bem. Voc me trouxe doce de amndoa?
     -- No trago sempre?
     Peguei a mo de Lena, puxando-a para perto de ns.
     -- Lena, esta  minha tia Caroline, e estas so minhas tias-avs Pruden-
ce, Mercy e Grace.
     --  um prazer conhec-las. -- Ela esticou a mo, mas minha tia
Caroline a puxou e deu um abrao.
     A porta da frente bateu.
     -- Feliz Dia de Ao de Graas. -- Marian entrou carregando uma
travessa e um prato de torta, um em cima do outro. -- O que eu perdi?
     -- Esquilos. -- Tia Prue andou at ela e passou o brao pelo de Marian.
-- O que voc sabe sobre eles?
     -- J chega, todos vocs, saiam da minha cozinha. Preciso de espao
para fazer minha mgica, e Mercy Statham, estou vendo voc comendo
minhas balas de canela. -- Tia Mercy parou de mastigar por um segundo.
Lena olhou para mim, tentando no sorrir.
    Eu podia chamar a Cozinha.
    Confie em mim, Amma no precisa de ajuda alguma quando se trata de
cozinhar. Ela faz sua prpria mgica.
    Todo mundo foi para a sala de estar. Tia Caroline e tia Prue estavam
conversando sobre como plantar caquis em uma varanda e tia Grace e tia
Mercy ainda estavam brigando sobre como escrever "coando", enquanto
Marian era a juza. Era o bastante para deixar qualquer um maluco, mas
quando vi Lena entre as Irms, ela parecia feliz, exultante.
    Isso  legal.
    Est brincando?
     Era essa a ideia dela de uma festa em famlia? Comida e Palavras
Cruzadas e velhas senhoras brigando? Eu no tinha certeza, mas sabia que
isso era o mais distante possvel da Reunio.
    Pelo menos ningum est tentando matar ningum.
    D a elas uns 15 minutos, L.
     Vi o olhar de Amma pela porta da cozinha, mas no era para mim que
ela estava olhando. Era para Lena.
     Estava armando alguma coisa, com certeza.
     O jantar de Ao de Graas transcorreu como todo ano. S que nada era
igual. Meu pai estava de pijama, a cadeira de minha me estava vazia e eu
estava de mos dadas com uma garota Conjuradora por baixo da mesa. Por
um segundo, foi demais -- me sentir feliz e triste ao mesmo tempo --, como
se as duas coisas estivessem presas uma a outra de alguma forma. Mas s tive
um segundo para pensar nisso; mal tnhamos dito "amm" e as Irms
comearam a trocar pezinhos, Amma estava colocando colheradas enormes
de pur de batata e molho nos nossos pratos e tia Caroline comeou com a
conversa superficial.
     Eu sabia o que estava acontecendo. Se houvesse trabalho o bastante,
conversa o bastante, torta o bastante, talvez ningum notasse a cadeira vazia.
No havia torta o bastante no mundo para isso, nem mesmo na cozinha de
Amma.
     Ainda assim, tia Caroline estava determinada a me manter falando.
     -- Ethan, voc precisa de alguma coisa emprestada para a encenao?
Tenho umas jaquetas no sto que realmente parecem autnticas.
     -- Nem me lembre.
     Eu quase tinha esquecido que teria que me vestir de soldado
Confederado para a encenao da batalha de Honey Hill se quisesse passar
em Histria este ano. Todo ms de fevereiro havia uma encenao da Guerra
Civil em Gatlin; era a nica razo pela qual turistas apareciam aqui.
     Lena esticou a mo para pegar um pozinho.
     -- No entendo por que a encenao  to importante. Parece ser
trabalho demais para recriar uma batalha que aconteceu h mais de cem
anos, considerando que podemos ler sobre ela nos livros de histria.
    Oh-oh.
     Tia Prue ofegou; aquilo era blasfmia na opinio dela.
     -- Deviam queimar aquela escola de vocs at no sobrar nada! No
esto ensinando histria nenhuma l. Voc no pode aprender sobre a guerra
da Independncia Sulista em livro nenhum. Tem que ver por si mesma, e
cada um de vocs crianas deveria, porque o mesmo pas que lutou junto na
Revoluo Americana pela independncia virou contra si mesmo na Guerra.
   Ethan, diga alguma coisa. Mude o assunto.
   Tarde demais. Ela vai comear a cantar o hino nacional a qualquer
momento.
     Mrian abriu um pozinho e o recheou de presunto.
     -- A Srta. Statham tem razo. A Guerra Civil fez este pas se virar contra
si mesmo, muitas vezes irmo contra irmo. Foi um captulo trgico na
histria americana. Mais de meio milho de homens morreram, apesar de a
maior parte ter morrido de doenas e no em batalhas.
     -- Um captulo trgico,  o que isso foi -- assentiu Tia Prue.
     -- No fique nervosa, Prudence Jane.
     Tia Grace deu tapinhas no brao da irm. Tia Prue empurrou a mo
dela.
     -- No me diga que estou nervosa. S estou tentando fazer com que eles
diferenciem a cabea do rabo do porco. Sou a nica a ensinar alguma coisa.
Aquela escola devia me pagar.
    Eu devia ter avisado voc para no provoc-las.
    Agora que voc me diz.
    Lena se mexeu desconfortavelmente na cadeira.
    -- Desculpe. Eu no tive a inteno de ser desrespeitosa. Nunca conheci
ningum que soubesse tanto sobre a Guerra.
    Boa. Se voc estiver querendo dizer obcecada...
    -- No se sinta mal, querida. Prudence Jane fica meio irritada de vez em
quando. -- Tia Grace deu uma cotovelada em tia Prue.
     por isso que colocamos usque no ch dela.
    -- Foi aquele doce de amendoim que Carlton trouxe. -- Tia Prue olhou
para Lena se desculpando. -- Tenho dificuldade com muito acar.
    Dificuldade em ficar longe de muito acar.
     Meu pai tossiu e empurrou o pur de batata pelo prato distraidamente.
Lena viu uma oportunidade para mudar o assunto.
     -- Ethan disse que o senhor  escritor, Sr. Wate. Que tipo de livros o
senhor escreve?
     Meu pai olhou para ela, mas no disse nada. Provavelmente nem
percebeu que Lena estava falando com ele.
     -- Mitchell est trabalhando em um livro novo.  um livro grande.
Talvez o mais importante que ele j escreveu. Mas ele escreveu muitos livros.
     Quantos j tem, Mitchell? -- perguntou Amma, como se estivesse
falando com uma criana. Ela sabia quantos livros meu pai tinha publicado.
     -- Treze -- murmurou meu pai.
     Lena no foi desencorajada pelo apavorante traquejo social de meu pai,
apesar de eu sim. Olhei para ele, cabelo despenteado, olheiras sob os olhos.
Quando tinha chegado a esse ponto?
     Lena continuou.
     -- Sobre o qu  seu livro?
     Meu pai voltou  vida, animado pela primeira vez esta noite.
     --  uma histria de amor. Esse livro tem sido uma jornada, na verdade.
O grande romance americano. Alguns podem dizer que  O Som e a Fria
da minha carreira, mas no posso falar muito do enredo. No mesmo. No
neste ponto. No quando estou to perto... de... -- Ele estava divagando. De
repente parou de falar, como se algum tivesse mexido em um interruptor em
suas costas. Ele olhava para a cadeira vazia da minha me enquanto se
afastava mentalmente.
     Amma parecia ansiosa. Tia Caroline tentou distrair todo mundo daquela
que estava rapidamente se tornando a noite mais constrangedora da minha
vida.
     -- Lena, de onde voc falou que veio?
     Mas eu no pude ouvir a resposta. No pude ouvir nada. Em vez disso, o
que eu via era tudo em cmera lenta. Borrado, se expandindo e contraindo,
como as ondas de calor ficam quando se movem no ar.
     Ento...
     A sala estava paralisada, s que no estava. Eu estava paralisado. Meu
pai estava paralisado. Seus olhos estavam apertados, os lbios arredondados
pelos sons que no tiveram chance de passar. Ainda olhando para o prato
cheio de pur, intocado. As Irms, tia Caroline e Marian estavam como
esttuas. At o ar estava perfeitamente parado. O pndulo no relgio tinha
parado no meio do movimento.
    Ethan? Voc est bem?
     Tentei responder, mas no consegui. Quando Ridley me manteve preso
em seu toque mortal, tive certeza de que ia congelar e morrer. Agora eu
estava paralisado tambm, mas no estava com frio e nem morrendo.
     -- Eu fiz isso? -- perguntou Lena em voz alta.
     S Amma podia responder.
     -- Conjurar um Feitio do Tempo? Voc? To provvel quanto um
jacar sair de um ovo de peru -- bufou ela. -- No, voc no fez isso, criana.
Isso  maior do que voc. Os Grandes acham que  hora de termos uma
conversa de mulher para mulher. Ningum pode nos ouvir agora.
    Exceto eu. Eu ouo vocs.
    Mas as palavras no saram. Eu podia ouvi-las conversando, mas no
conseguia emitir som algum.
    Amma olhou para o teto.
    -- Obrigada, tia Delilah. Agradeo a ajuda. -- Ela andou at o buf e
cortou um pedao de torta de abbora. Colocou em um prato de porcelana
enfeitado e o deixou no meio da mesa. -- Agora vou deixar esse pedao para
voc e para os Grandes, e trate de lembrar que fiz isso.
     -- O que est acontecendo? O que voc fez a eles?
     -- No fiz nada a eles. S arrumei um tempinho para ns.
     -- Voc  Conjuradora?
     -- No, sou apenas uma Vidente. Vejo o que precisa ser visto, o que
ningum mais pode ver ou quer ver.
     -- Voc parou o tempo? -- Conjuradores podiam fazer isso, parar o
tempo. Lena tinha me contado. Mas s os incrivelmente poderosos.
     -- No fiz nada. S pedi aos Grandes um pouco de ajuda e tia Delilah
ajudou.
     Lena parecia confusa ou assustada.
     -- Quem so os Grandes?
     -- Os Grandes so minha famlia do Outro Mundo. Eles me ajudam de
vez em quando, e no esto sozinhos. H outros com eles. -- Amma se
inclinou sobre a mesa, olhando Lena nos olhos. -- Por que voc no est
usando a pulseira?
     -- O qu?
     -- Melchizedek no a deu para voc? Falei para ele que voc tinha que
usar.
     -- Ele me deu, mas eu tirei.
     -- Por que voc faria uma coisa dessas?
     -- Descobrimos que estava bloqueando as vises.
     -- Estava mesmo bloqueando uma coisa. At que voc parou de usar.
     -- O que estava bloqueando?
     Amma esticou a mo e pegou a de Lena, virando-a para revelar a palma.
     -- Eu no queria ser a pessoa a ter que lhe contar isso, criana. Mas
Melchizedek, sua famlia, eles no vo contar, nenhum deles. E voc precisa
saber. Precisa estar preparada.
     -- Preparada para qu?
     Amma olhou para o teto, murmurando baixinho.
     -- Ela est vindo, criana. Vindo atrs de voc, e ela  uma fora com a
qual se deve tomar cuidado. Trazendo tantas Trevas quanto a noite.
     -- Quem? Quem vem atrs de mim?
     -- Queria que os seus tivessem contado. No queria que fosse eu. Mas os
Grandes disseram que algum tem que contar a voc antes que seja tarde
demais.
     -- Contar o qu? Quem est vindo, Amma?
     Amma pegou uma pequena bolsinha que estava pendurada em uma
corda de couro em torno do seu pescoo por dentro da blusa e a segurou,
abaixando o tom de voz como se tivesse medo de que algum pudesse ouvir.
     -- Sarafine. A das Trevas.
     -- Quem  Sarafine?
     Amma hesitou, apertando a bolsinha com mais fora.
     -- Sua me.
     -- No entendo. Meus pais morreram quando eu era criana, e o nome
da minha me era Sara. Vi na rvore genealgica.
     -- Seu pai morreu,  verdade, mas sua me est to viva quanto eu aqui
na sua frente. E voc sabe como so as rvores genealgicas aqui no sul, elas
nunca esto to certas quanto alegam estar.
     A cor sumiu do rosto de Lena. Lutei para esticar a mo e pegar a dela,
mas s meu dedo tremeu. Eu estava impotente. No podia fazer nada alm
de olhar enquanto ela caa em um lugar escuro, sozinha. Assim como nos
sonhos.
     -- E ela  das Trevas?
     -- Ela  a maior Conjuradora das Trevas da atualidade.
     -- Por que meu tio no me contou? Ou minha av? Disseram que ela
estava morta. Por que mentiriam para mim?
     -- H a verdade e h a verdade. No so exatamente a mesma coisa.
Acho que estavam tentando proteger voc. Ainda acham que podem. Mas os
Grandes... Eles no tm tanta certeza. Eu no queria ter que contar a voc,
mas Melchizedek  teimoso.
     -- Por que est tentando me ajudar? Pensei... Pensei que voc no
gostasse de mim.
     -- No tem nada a ver com gostar ou no. Ela vem atrs de voc, e voc
no precisa de nada que a distraia. -- Amma ergueu uma sobrancelha. -- E
no quero que nada acontea com meu menino. Isso  maior do que voc,
maior do que vocs dois.
     -- O que  maior do que ns dois?
     -- Tudo isso. Voc e Ethan no esto destinados a ficarem juntos.
     Lena parecia confusa. Amma estava falando em charadas de novo.
     -- O que voc quer dizer?
     Amma se virou como se algum atrs dela tivesse lhe dado um tapinha
no ombro.
     -- O que disse, tia Delilah? -- Amma se virou para Lena. -- No temos
muito tempo.
     O pndulo no relgio comeou a se mover quase imperceptivelmente. A
sala comeou a voltar  vida. Os olhos de meu pai comearam a piscar
lentamente, to lentamente que demorou segundos para que os clios
roassem a plpebra inferior.
     -- Coloque a pulseira de volta. Voc precisa de toda ajuda que puder ter.
     O tempo voltou a se ajustar...
     Pisquei algumas vezes, olhando em volta. Meu pai ainda encarava para
as batatas. Tia Mercy ainda estava enrolando um pozinho no guardanapo.
Levantei as mos em frente ao rosto e balancei os dedos.
     -- Que diabos foi aquilo?
     -- Ethan Wate! -- disse Tia Grace, ofegante.
     Amma estava abrindo seus pezinhos e os recheando de presunto. Olhou
para mim, pega desprevenida. Era bvio que ela no tinha tido a inteno de
que eu ouvisse sua conversa. Ela me deu o Olhar. Significando: mantenha a
boca fechada, Ethan Wate.
     -- No use esse tipo de linguagem na minha mesa. Voc no est velho
demais para eu lavar sua boca com sabo. O que voc acha que ? Presunto e
pozinho. Peru recheado. Agora que passei o dia cozinhando, espero que
voc coma.
     Olhei para Lena. O sorriso dela tinha sumido. Ela estava olhando para o
prato.
     Lena. Volte pra mim. No vou deixar nada acontecer a voc. Tudo vai
ficar bem.
    Mas ela estava muito distante de mim.


Lena no disse uma palavra no caminho para casa. Quando chegamos a
Ravenwood, ela abriu a porta do carro, fechou-a com fora e saiu em direo
 casa sem uma palavra.
     Quase no a segui at a porta. Minha cabea estava girando. Eu no
conseguia imaginar o que Lena estava sentindo. Era ruim demais perder a
me, mas mesmo eu no podia imaginar como era descobrir que sua me
queria voc morta.
     Minha me estava perdida para mim, mas eu no estava perdido. Ela
tinha me ancorado, a Amma, ao meu pai, a Link, a Gatlin antes de partir. Eu
a sentia nas ruas, em minha casa, na biblioteca, at na despensa. Lena nunca
tivera nada disso. Cresceu solta e  deriva, Amma diria, como as balsas dos
pobres no pntano.
     Eu queria ser a ncora dela. Mas agora, acho que ningum poderia ser.




Lena passou por Boo, que estava sentado na varanda da frente e nem estava
ofegando, apesar de ter corrido atrs do nosso carro obedientemente durante
todo o trajeto. Tambm tinha ficado sentado no jardim da frente de minha
casa durante todo o jantar. Ele parecia gostar de batata doce e dos pequenos
marshmallows que joguei pela porta da frente quando Amma foi  cozinha
buscar mais molho.
    Eu podia ouvi-la gritando dentro da casa. Suspirei, sa do carro e sentei
nos degraus da varanda ao lado do cachorro. Minha cabea j estava late-
jando, com pouco acar no sangue.
    -- Tio Macon! Tio Macon! Acorde! O sol se ps, sei que voc no est
dormindo a!
    Eu conseguia ouvir Lena gritando dentro da minha cabea tambm.
    O sol se ps, sei que voc no est dormindo!
     Eu estava esperando pelo dia em que Lena fosse se abrir e me contar a
verdade sobre Macon, como tinha me contado a verdade sobre si mesma.
Seja l o que ele fosse, ele no parecia um Conjurador normal, se  que isso
existia. Pelo modo como ele dormia o dia todo e s aparecia e desaparecia
onde queria, no era preciso ser gnio para ver onde aquilo ia dar. Ainda
assim, eu no tinha certeza se queria entrar nesse assunto hoje.
     Boo olhou para mim. Estiquei minha mo para fazer carinho nele, e ele
virou a cabea, como se dissesse que no precisava. "Por favor no me toque,
garoto." Quando ouvimos coisas comearem a quebrar l dentro, Boo e eu
nos levantamos e seguimos o barulho. Lena estava batendo em uma das
portas no segundo andar.
     A casa tinha voltado para o que eu suspeitava ser o estilo preferido de
Macon, com ornamentos antiquados do perodo anterior  guerra. Fiquei
secretamente aliviado por no estar dentro de um castelo. Desejei poder parar
o tempo e voltar trs horas. Para ser honesto, eu ficaria perfeitamente feliz se
a casa de Lena tivesse se transformado em um trailer e estivssemos sentados
todos em frente a uma tigela de sobras de recheio de peru, como o resto de
Gatlin.
     -- Minha me? Minha prpria me?
     A porta abriu de repente. Macon estava l, todo bagunado. Usava um
pijama de linho amassado, que, odeio ter de admitir, era um camisolo. Os
olhos dele estavam mais vermelhos do que o habitual e a pele mais branca, o
cabelo desalinhado. Ele parecia ter sido atropelado por um caminho.
     A sua maneira, ele no era to diferente do meu pai, uma baguna.
Talvez uma baguna mais refinada. Exceto pelo camisolo; meu pai jamais
seria visto usando um vestido.
     -- Minha me  Sarafine? Aquela coisa que tentou me matar no
Halloween? Como voc pde esconder isso de mim?
     Macon balanou a cabea e passou a mo no cabelo, irritado.
     -- Amarie.
     Eu pagaria qualquer coisa para ver Macon e Amma acertando as contas
numa briga. Meu dinheiro seria apostado era Amma, sem dvida alguma.
     Macon passou pelo portal, fechando a porta atrs de si. Dei uma olhada
rpida no quarto dele. Parecia algo sado do Fantasma da pera, com
candelabros de ferro fundido mais altos do que eu e uma cama preta com
dossis adornada com veludo cinza e preto. As janelas tinham cortinas do
mesmo material, que caam pesadas sobre as janelas escuras da fazenda. At
as paredes eram cobertas de tecido pudo preto e cinza que tinha
provavelmente uns cem anos. O quarto era muito escuro, escuro como a
noite. O efeito era assustador.
     A escurido, a verdadeira escurido, era algo alm da pura ausncia de
luz.
     Quando Macon passou pelo portal, emergiu no corredor perfeitamente
vestido, sem um fio de cabelo fora do lugar, nenhuma ruga na cala ou na
camisa branca engomada. At os sapatos de couro no tinham um arranho.
Ele no parecia nada como em um momento antes, e tudo que tinha feito era
passar pela porta do prprio quarto.
      Olhei para Lena. Ela no tinha nem reparado, e senti frio ao lembrar por
um momento o quo diferente sua vida deve ter sempre sido em comparao
 minha.
      -- Minha me est viva?
      -- Temo que seja um pouco mais complicado do que isso.
      -- Voc quer dizer a parte sobre como minha prpria me quer me
matar? Quando voc ia me contar, tio Macon? Quando eu tivesse sido
Invocada?
      -- Por favor, no comece isso de novo. Voc no vai para as Trevas. --
Macon suspirou.
      -- No imagino como pode pensar diferente. J que sou a filha da, abre
aspas, Conjuradora das Trevas mais poderosa da atualidade, fecha aspas.
      -- Entendo que esteja chateada.  muita coisa para absorver, e eu
mesmo devia ter lhe contado. Mas voc tem que acreditar que eu estava
tentando lhe proteger.
      Lena estava mais do que irritada agora.
      -- Me proteger! Voc me deixou acreditar que o Halloween foi apenas
um ataque aleatrio, mas era minha me! Minha me est viva e estava
tentando me matar, e voc achou que eu no devia saber sobre isso?
      -- No sabemos se ela est tentando matar voc.
      Quadros comearam a bater contra as paredes. As lmpadas alinhadas
no corredor comearam a se apagar uma a uma. O som de chuva chegou s
janelas.
      -- J no tivemos tempo ruim o bastante nas ltimas semanas?
      -- Sobre o que mais voc tem mentido? O que vou descobrir agora? Que
meu pai est vivo tambm?
      -- Lamento dizer que no. -- Ele falou como se fosse uma tragdia, algo
triste demais para se mencionar. Era o mesmo tom que as pessoas usavam
quando falavam da morte da minha me.
      -- Voc tem que me ajudar. -- Sua voz estava falhando.
      -- Farei tudo que puder para ajudar voc, Lena. Sempre fiz.
     -- No  verdade -- respondeu ela. -- Voc no me contou sobre meus
poderes. No me ensinou a me proteger.
     -- No sei a extenso dos seus poderes. Voc  uma Natural. Quando
precisa fazer uma coisa, voc faz. Da sua maneira, no seu prprio tempo.
     -- Minha prpria me quer me matar. No tenho tempo.
     -- Como eu disse antes, no sabemos se ela est querendo matar voc.
     -- Ento como voc explica o Halloween?
     -- H outras possibilidades. Dei e eu estamos tentando descobrir. --
Macon se virou, como se fosse entrar de novo no quarto. -- Voc precisa se
acalmar. Podemos conversar depois.
     Lena se virou na direo de um vaso sobre uma prateleira no final do
corredor. Como se puxado por uma corda, o vaso seguiu o olhar dela at a
parede ao lado da porta do quarto de Macon, voando e se espatifando contra
o gesso. Foi longe o bastante de Macon para no machuc-lo, mas perto o
bastante para mostrar a opinio dela. No foi nenhum acidente.
     No era uma daquelas vezes em que Lena tinha perdido o controle e as
coisas apenas aconteceram. Ela tinha feito isso de propsito. Estava no
controle.
     Macon se virou to rpido que nem o vi se mover, mas de repente ele
estava parado na frente de Lena. Estava to chocado quanto eu, e tinha
percebido a mesma coisa: no tinha sido acidente. E o olhar no rosto dela
dizia que ela tambm estava surpresa. Ele parecia magoado, to magoado
quanto Macon Ravenwood podia ser capaz de demonstrar.
     -- Como eu disse, quando voc precisa fazer uma coisa, voc faz.
     Macon se virou para mim.
     -- Vai ficar mais perigoso, lamento dizer, nas prximas semanas. As
coisas mudaram. No a deixe sozinha. Quando ela estiver aqui, posso
proteg- la, mas minha me estava certa. Parece que voc tambm pode
proteg-la, talvez melhor do que eu.
     -- Ol? Eu estou ouvindo voc! -- Lena se recuperou de sua
demonstrao de poder e do olhar no rosto de Macon. Eu sabia que ela se
culparia mais tarde, mas agora estava irritada demais para ver isso. -- No
fale de mim como se eu no estivesse aqui.
     Uma lmpada explodiu atrs de Macon e ele no moveu um msculo.
     -- Voc est ouvindo o que voc mesmo diz? Preciso saber! Sou eu que
estou sendo caada. Sou eu que ela quer, e nem sei por qu.
     Eles olharam um para o outro, um Ravenwood e uma Duchannes, dois
braos da mesma rvore genealgica distorcida de Conjuradores. Me
perguntei se seria uma boa hora para eu ir embora.
     Macon olhou para mim. O rosto dele dizia que sim.
     Lena olhou para mim. O dela dizia que no.
     Ela me pegou pela mo, e eu pude sentir o calor, queimando. Ela estava
em chamas, mais furiosa do que eu jamais a tinha visto. Eu no acreditava
que as janelas da casa ainda no tivessem estourado.
     -- Voc sabe por que ela est me perseguindo, no sabe?
     -- ...
     -- Deixe-me adivinhar, complicado?
     Os dois ficaram olhando um para o outro. O cabelo de Lena estava se
mexendo. Macon estava girando o anel de prata.
     Boo estava se afastando, o corpo rente ao cho. Cachorro esperto. Eu
desejava poder rastejar para longe tambm. A ltima das lmpadas estourou,
e ento ficamos no escuro.
     -- Voc tem que me contar tudo que sabe sobre meus poderes. -- Esses
eram seus termos.
     Macon suspirou, e a escurido comeou a se dissipar.
     -- Lena. No  que eu no queira contar. Depois da sua pequena
demonstrao, est claro que nem sei do que voc  capaz. Ningum sabe.
Suspeito que nem voc. -- Ela no estava completamente convencida, mas
ouvia. --  isso que significa ser uma Natural.  parte do dom.
     Ela comeou a relaxar. A batalha tinha chegado ao fim, e ela tinha
vencido, por enquanto.
     -- Ento o que vou fazer?
     Macon parecia perturbadoramente com meu pai quando entrou no meu
quarto durante o 5 ano para explicar sobre a cegonha.
     -- Dominar seus poderes pode ser um momento muito confuso. Talvez
haja algum livro sobre o assunto. Se quiser, podemos ir ver Marian.
   Ah, t. Escolhas e Mudanas. O Guia da Garota Moderna Conjuradora.
Minha Me Quer Me Matar: Um Livro de Autoajuda para Adolescentes.
    Seriam longas semanas.
                         p 28 de novembro p
                       Domus Lunae Lbri
                                      d

--H            oje? Mas no  feriado.
                    Quando abri a porta da frente, Marian era a ltima pessoa
               que eu esperava ver, parada ali, de casaco. Agora eu estava
sentado com Lena no banco frio da picape turquesa velha de Marian, a
caminho da biblioteca de Conjuradores.
      -- Promessa  dvida.  o dia seguinte ao dia de Ao de Graas. Sexta-
feira negra. Pode no parecer um feriado, mas ningum trabalha, e isso basta.
-- Marian estava certa. Amma provavelmente estava numa fila na frente do
shopping com a mo cheia de cupons de desconto desde antes do amanhecer;
j tinha escurecido e ela ainda no tinha voltado. -- A Biblioteca do Condado
de Gatlin est fechada, ento a Biblioteca de Conjuradores est aberta.
      -- Durante o mesmo horrio? -- perguntei a Marian quando ela virou
na Main.
      Ela assentiu.
      -- Das nove s seis. -- Depois, completou: -- Das nove da noite s seis da
manh. Nem toda a minha clientela pode se aventurar  luz do dia.
      -- Isso no parece muito justo -- reclamou Lena. -- Os Mortais tm
muito mais tempo, e eles nem leem por aqui.
      Marian deu de ombros.
      -- Como eu disse, sou paga pelo Condado de Gatlin. Converse com eles.
Mas pense em quanto tempo mais voc vai ter at que seus Lunae Libri
tenham que ser devolvidos.
     No entendi nada.
     -- Lunae Libri. Traduzido livremente, Livros da Lua. Podem cham-los
de Manuscritos dos Conjuradores.
     Eu no ligava para como chamavam qualquer coisa. Mal podia esperar
para ver o que os livros na Biblioteca dos Conjuradores nos diriam, e um livro
em particular. Porque havia duas coisas que tnhamos pouco: respostas e
tempo.
     Quando samos da picape, eu no podia acreditar onde estvamos. A
picape de Marian estava estacionada ao lado do meio-fio, a 3 metros da
Sociedade Histrica de Gatlin, ou como minha me e Marian gostavam de
dizer, a Sociedade Histrica de Gatlin. A Sociedade Histrica tambm era o
quartel general do FRA. Marian parou a picape bem afastada, para evitar o
foco de luz do poste na porta.
     Boo Radley estava sentado na calada, como se soubesse.
     -- Aqui? O Lunae sei-la-o-qu  no quartel-general do FRA?
     -- Domus Lunae Libri. A Casa dos Livros das Luas. Lunae Libri, para
abreviar. E no, s a entrada de Gatlin para a biblioteca. -- Eu ca na
gargalhada. -- Voc tem o mesmo apreo que sua me pela ironia.
     Andamos at o prdio deserto. No podamos ter escolhido uma noite
melhor.
     -- Mas no  piada. A Sociedade Histrica  o prdio mais antigo do
condado, junto com Ravenwood. Nenhum outro sobreviveu ao Grande
Incndio -- acrescentou Marian.
     -- Mas o FRA e Conjuradores? Como podem ter alguma coisa em co-
mum? -- Lena estava chocada.
     -- Acho que vocs vo descobrir que tm mais em comum do que
pensam. -- Marian andou rpido at a velha construo de pedra, puxando o
chaveiro j conhecido. -- Eu, por exemplo, sou membro das duas sociedades.
-- Olhei para Marian sem acreditar. -- Sou neutra. Pensei que tinha deixado
isso bem claro. No sou como vocs. Voc  como Lila, se envolve demais...
     Eu podia terminar aquela frase sozinho. E veja o que aconteceu com ela.
     Marian parou, mas as palavras ficaram suspensas no ar. No havia nada
que ela pudesse dizer ou fazer para voltar atrs. Eu me senti dormente, mas
no falei nada. Lena esticou sua mo para pegar alcanar a minha, e eu podia
senti-la me puxando para fora de mim mesmo.
    Ethan. Voc est bem?
     Marian olhou para o relgio de novo.
     -- So cinco para as nove. Tecnicamente, eu no deveria deixar vocs
entrarem ainda. Mas preciso estar l embaixo s 21 horas caso tenhamos
algum outro visitante esta noite. Sigam-me.
     Passamos pelo jardim escuro atrs do prdio. Ela mexeu no chaveiro at
achar o que sempre pensei ser um enfeite, porque no se parecia com uma
chave em nada. Era um anel de ferro com um lado articulado. Com mo
treinada, Marian girou a articulao at que se encaixou no prprio anel, em
outra posio, se transformando em uma lua crescente. Uma lua
Conjuradora.
     Ela empurrou a chave no que parecia ser uma grade de ferro na
estrutura na parte de trs do prdio. Depois girou a chave, e a grade deslizou
e abriu. Atrs da grade havia uma escadaria escura de pedra que levava para
mais escurido abaixo, o poro abaixo do poro do FRA. Quando ela girou a
chave mais uma rotao para a esquerda, uma fileira de tochas se acendeu
nas laterais da parede. Agora a escadaria estava completamente iluminada
com luz tremeluzente, e eu podia at ver de leve as palavras domus lunae libri
entalhadas no arco de pedra na entrada abaixo. Marian girou a chave mais
uma vez, e a escadaria desapareceu, sendo substituda novamente pela grade
de ferro.
     --  isso? No vamos entrar? -- Lena parecia irritada.
     Marian enfiou a mo na grade. Era uma iluso.
     -- No posso Conjurar, como voc sabe, mas alguma coisa tinha que ser
feita. H vagabundos que andam por a  noite. Macon pediu que Larkin
ajeitasse para mim, e ele vem manter tudo intacto de tempos em tempos.
     Marian olhou para ns, repentinamente sria.
     -- Tudo bem. Se vocs tm certeza de que  isso que querem fazer, no
posso impedir vocs. Nem posso gui-los de maneira alguma depois que
descermos. No posso impedi-los de pegar um livro, nem tirar um de vocs
antes que a Lunae Libri se abra de novo.
     Ela colocou uma mo no meu ombro.
     -- Voc entendeu, Ethan? Isso no  brincadeira. H livros poderosos l
embaixo; livros de Feitio, manuscritos de Conjuradores, talisms da Luz e
das Trevas, objetos poderosos. Coisas que nenhum Mortal jamais viu exceto
eu e meus predecessores. Muitos livros so encantados, outros amaldioados.
Voc tem que ter cuidado. No toque em nada. Deixe que Lena mexa nos
livros por voc.
     O cabelo de Lena estava ondulando. Ela j sentia a magia do lugar. Eu
assenti, desconfiado. O que eu estava sentindo era menos mgico, meu
estmago se revirava como se fosse eu que tivesse bebido muito licor de
menta. Me perguntei com que frequncia a Sra. Lincoln e suas amigas
tinham andado de um lado para o outro no piso acima de ns, sem saber o
que havia abaixo delas.
     -- No importa o que acharem, lembrem que temos que sair antes do
nascer do sol. Nove s seis. So as horas de funcionamento da biblioteca, e a
entrada s pode ser aberta dentro desses horrios. O sol vai nascer
exatamente s 6 horas; sempre nasce em Dia de Biblioteca. Se no tiverem
subido a escadaria at o nascer do sol, ficaro presos at o prximo Dia, e eu
no tenho como saber se um Mortal sobreviveria bem a tal experincia. Estou
sendo perfeitamente clara?
     Lena assentiu, me pegando pela mo.
     -- Podemos entrar agora? Mal posso esperar.
     -- No acredito que estou fazendo isso. Seu tio Macon e Amma me
matariam se soubessem. -- Marian olhou para o relgio. -- Vo na frente.
     -- Marian? Voc... Minha me alguma vez viu isso? -- Eu no podia
deixar passar. No conseguia pensar em mais nada.
     Marian olhou para mim, os olhos brilhando estranhamente.
     -- Sua me foi a pessoa que me deu o emprego.
     E com isso ela desapareceu na frente de ns pela grade ilusria, e desceu
para o Lunae Libri abaixo. Boo Radley latiu, mas era tarde demais para
voltar agora.




Os degraus eram velhos e cobertos de musgo, o ar mido. Coisas molhadas,
coisas gosmentas, coisas enterradas, no era difcil imagin-las se
acomodando confortavelmente l embaixo.
     Tentei no pensar nas ltimas palavras de Marian. No podia imaginar
minha me descendo esta escadaria. No podia imaginar que ela sabia
qualquer coisa sobre esse mundo no qual eu tinha acabado de tropear, esse
mundo que tropeou em mim. Mas ela sabia, e eu no conseguia parar de
pensar em como. Teria ela tropeado nele tambm, ou algum a teria
convidado? De alguma forma, fazia tudo parecer mais real, que minha me e
eu compartilhssemos desse segredo, mesmo ela no estando aqui comigo.
     Mas era eu que estava l embaixo agora, descendo os degraus de pedra,
entalhados e planos como o cho de uma velha igreja. Nas laterais da
escadaria eu via paredes rsticas de pedra, a base de um aposento antigo que
tinha existido no local do prdio do FRA muito antes que a estrutura em si
tivesse sido erguida. Olhei para baixo, mas tudo que podia ver eram
contornos indefinidos, formas no escuro. No parecia uma biblioteca. Parecia
o que provavelmente era, o que sempre tinha sido. Uma cripta.
     No p da escadaria, nas sombras da cripta, inmeras pequenas cpulas
se curvavam no alto onde as colunas encontravam o teto abobadado, umas
quarenta ou cinquenta no total. Enquanto meus olhos se ajustavam ao escuro,
pude ver que cada coluna era diferente, e algumas delas eram inclinadas,
como velhos carvalhos tortos. Suas sombras faziam a cmara circular parecer
uma espcie de floresta escura e calma. Era um aposento apavorante de se
estar. No havia meio de saber at onde ia, j que todas as direes se
dissolviam na escurido.
     Marian inseriu a chave na primeira coluna, marcada com uma lua. As
tochas nas paredes se acenderam, iluminando o aposento com luz
bruxuleante.
     -- So lindas -- murmurou Lena. Eu via seu cabelo ainda ondulando, e
me perguntei que sensao esse lugar passava a ela, de maneiras que eu
jamais saberia.
     De vida. Poder. Como se a verdade, todas as verdades, estivessem aqui
de alguma forma.
    -- Recolhidas por todo o mundo, muito antes do meu tempo. Istambul.
-- Marian apontou para o topo das colunas, as partes decoradas. -- Tirada
da Babilnia. -- Ela apontou para outra, com quatro cabeas de gavio
saindo uma de cada lado. -- Egito, o Olho de Deus. -- Deu um tapinha em
outra, dramaticamente entalhada com a cabea de um leo. -- Assria.
    Passei a mo na parede. At as pedras nas paredes eram entalhadas.
Algumas tinham rostos, de homens, de criaturas similares a pssaros, olhando
de dentro da floresta de colunas, como predadores. Outras pedras estavam
entalhadas com smbolos que no reconheci, hierglifos de Conjuradores e
culturas que nunca conheci.
     Entramos mais na cmara, para fora da cripta, que parecia servir como
um tipo de saguo, e mais uma vez as tochas se acenderam, uma depois da
outra, como se nos seguissem. Eu podia ver que as colunas se curvavam ao
redor de uma mesa de pedra no meio do recinto. As estantes, ou o que achei
serem as estantes, radiavam do crculo central como raios de uma roda, e
pareciam subir at quase o teto, criando um labirinto assustador no qual um
Mortal podia se perder. No recinto em si, no havia nada alm das colunas e
da mesa circular de pedra.
     Marian calmamente pegou uma tocha de um crescente de ferro na
parede e passou para mim. Passou outra para Lena e pegou uma para si
mesma.
     -- Deem uma olhada por a. Tenho que verificar a correspondncia.
Talvez haja uma requisio de transferncia de outra filial.
     -- Para a Lunae Libri? -- Eu no tinha pensado que talvez houvesse
outras bibliotecas de Conjuradores.
     --  claro. -- Marian se virou de novo em direo  escadaria.
     -- Espere. Como voc recebe a correspondncia daqui?
     -- Do mesmo modo que voc. Carlton Eaton entrega, chova ou faa sol.
     Carlton Eaton sabia. Claro. Isso provavelmente explicava por que ele
     pegou Amma no meio da noite. Me perguntei se ele abria a
correspondncia dos Conjuradores tambm. Me perguntei o que mais eu no
sabia sobre Gatlin e sobre as pessoas daqui. Eu no precisava perguntar.
     -- No h muitos de ns, mas mais do que voc pensaria. Voc precisa
lembrar que Ravenwood est aqui h mais tempo do que este velho prdio.
Era um condado de Conjuradores antes de ser dos Mortais.
     -- Talvez seja por isso que vocs so todos to esquisitos por aqui. --
Lena me cutucou. Eu ainda estava espantado por saber de Carlton Eaton.
     Quem mais sabia o que realmente acontecia em Gatlin, na outra Gatlin,
com bibliotecas subterrneas mgicas e garotas que conseguem controlar o
tempo ou fazer voc pular de um penhasco? Quem mais estava envolvido na
jogada dos Conjuradores alm de Marian e Carlton Eaton? Como minha
me?
    Fatty? A Sra. English? O Sr. Lee?
    O Sr. Lee com certeza no.
      -- No se preocupe. Quando voc precisar deles, eles encontraro voc.
 assim que funciona, que sempre funcionou.
      -- Espere. -- Segurei o brao de Marian. -- Meu pai sabe?
      -- No.
      Pelo menos havia uma pessoa na minha casa que no estava vivendo
uma vida dupla, ainda que ele fosse louco.
      Marian deu um ltimo conselho.
      -- Agora  melhor vocs comearem. A Lunae Libri  milhares de vezes
maior do que qualquer biblioteca que vocs j tenham visto. Se vocs se
perderem, imediatamente sigam os passos dados de volta.  por isso que as
colunas irradiam desta cmara. Se vocs s forem para a frente e para trs,
tem menos chance de se perderem.
      -- Como podemos nos perder se s podemos ir numa linha reta?
      -- Experimente. Voc ver.
      Lena interrompeu.
      -- O que h no final das colunas? Quero dizer, no final dos corredores?
      Marian olhou para ela com um olhar estranho.
      -- Ningum sabe. Ningum chegou to longe a ponto de descobrir.
Alguns dos corredores viram tneis. Parte da Lunae Libri ainda no foi
mapeada. H muitas coisas aqui em baixo que nem eu vi. Um dia, talvez.
      -- Como assim? Tudo acaba em algum lugar. No pode haver fileiras e
fileiras de livros formando tneis embaixo da cidade inteira. Basta subir para
tomar um ch na casa da Sra. Lincoln? Virar a esquerda e deixar um livro
para tia Del na cidade ao lado? Entrar no tnel  direita para bater um papo
com Amma? -- Eu estava ctico.
      Marian sorriu para mim, divertida.
      -- Como voc acha que Macon pega livros? Como acha que o FRA
nunca v nenhum visitante entrando ou saindo? Gatlin  Gatlin. O pessoal
gosta do jeito que , do jeito que pensa que . Os Mortais s veem o que
querem ver. H uma comunidade fervilhante de Conjuradores neste condado
e ao redor dele desde antes da Guerra Civil. So centenas de anos, Ethan, e
isso no vai mudar de repente. No s porque agora voc sabe.
     -- No acredito que tio Macon nunca tenha me contado sobre esse
lugar. Pense em todos os Conjuradores que j passaram por aqui. -- Lena
levantou a tocha, puxando um livro encadernado da prateleira. O livro era
enfeitado, pesado e uma nuvem de poeira voou em todas as direes.
Comecei a tossir.
     -- Conjurao, uma Breve Histria. -- Ela puxou outro. -- Estamos na
seo da letra C, acho. -- Este estava em uma caixa de couro que se abria no
alto para revelar o pergaminho em p dentro dela. Lena puxou-o. At a
poeira parecia velha e mais escura. -- Conjurao para Criar e Confundir.
Esse  velho.
     -- Cuidado. Mais de algumas centenas de anos. Gutenberg inventou a
prensa mvel em 1455. -- Marian pegou o pergaminho cuidadosamente da
mo dela, como se segurasse um recm-nascido.
     Lena pegou outro livro, encapado com couro cinza.
     -- Conjurando a Confederao. Havia Conjuradores na Guerra?
     Marian assentiu.
     -- Dos dois lados, dos Cinzas e dos Azuis. Foi uma das grandes divises
da comunidade Conjuradora, infelizmente. Assim como foi para ns,
Mortais.
     Lena olhou para Marian, enfiando o livro empoeirado de volta na
prateleira.
     -- Os Conjuradores da minha famlia ainda esto em guerra, no ?
     Marian olhou para ela com tristeza.
     -- Uma Casa Dividida, foi como o presidente Lincoln chamou. E sim,
Lena, infelizmente vocs esto. -- Ela tocou na bochecha de Lena. -- E  por
isso que voc est aqui, lembra? Para descobrir uma coisa que voc precisa,
para entender algo sem sentido. Agora  melhor vocs comearem.
     -- H tantos livros, Marian. Voc no pode ao menos nos apontar a
direo certa?
     -- No olhem para mim. Como eu disse, no tenho as respostas. Isso 
com os livros. Comecem logo. Estamos seguindo o relgio lunar, e vocs
podem perder a noo do tempo. As coisas no so exatamente o que
parecem quando estamos aqui embaixo.
     Olhei de Lena para Marian. Estava com medo de perder qualquer uma
das duas de vista. A Lunae Libri era mais intimidante do que eu tinha
imaginado. Parecia menos com uma biblioteca e mais com, bem, uma
catacumba. E O Livro das Luas poderia estar em qualquer lugar,
      Lena e eu encaramos as prateleiras infinitas, mas nenhum de ns deu um
passo sequer.
      -- Como vamos encontr-lo? Deve haver um milho de livros aqui.
      -- No tenho ideia. Talvez...
      Eu sabia o que ela estava pensando.
      -- Ser que devemos tentar o medalho?
      -- Voc trouxe?
      Assenti e tirei a esfera quente do bolso do meu jeans. Passei a tocha para
Lena.
      -- Precisamos ver o que acontece. Tem que ter mais alguma coisa. --
Desenrolei o medalho e o coloquei na mesa redonda de pedra no centro do
aposento. Vi um olhar familiar no rosto de Marian, o mesmo que ela e minha
me compartilhavam quando encontravam algo especial. -- Voc quer ver
isso?
      -- Mais do que voc imagina.
      Lentamente, Marian pegou minha mo, e eu peguei a de Lena. Estiquei
a mo, os dedos entrelaados com os de Lena, e toquei no medalho.
      Uma luz intensa forou que eu fechasse os olhos.
      E ento pude ver a fumaa e sentir o cheiro do fogo, e todos estvamos
indo...




Genevieve levantou o Livro para que pudesse ler as palavras na chuva.
     Ela sabia que dizer as palavras seria desafiar as Leis Naturais. Podia
quase ouvir a voz da me pedindo que ela parasse -- para que pensasse sobre
a escolha que estava fazendo.
     Mas Genevieve no podia parar. No podia perder Ethan. Comeou a
recitar.

               "CRUOR PECTORIS ME1, TUTELA TUA EST.
               VITA   VITAE   MEAE,  CORRIPIENS   TUAM,
             CORRIPIENS MEAM.
                CORPUS CORPORIS MEI, MEDULLA MENSQUE,
                ANIMA ANIMAE MEAE, ANIMAM NOSTRAM
             CONECTE.
                CRUOR PECTORIS MEI, LUNA MEA, AESTUS
             MEUS.
                CRUOR PECTORIS MEI, FATUM MEUM, MEA
             SALUS."

     -- Pare, criana, antes que seja tarde demais! -- A voz de Ivy estava
desesperada.
     A chuva cata e um relmpago iluminou a fumaa. Genevieve prendeu a
respirao e esperou. Nada. Ela devia ter feito errado. Apertou os olhos para
ler as palavras mais claramente no escuro. Gritou-as na escurido, na lngua
que ela conhecia melhor.

                -- SANGUE DO MEU CORAO, A PROTEO 
             TUA. VIDA DA MINHA VIDA, TIRA A TUA, TIRA A
             MINHA. CORPO DO MEU CORPO, ESSNCIA E
             MENTE, ALMA DA MINHA ALMA, UNA A NOSSOS
             ESPRITOS. SANGUE DO MEU CORAO, MINHAS
             MARS, MINHA LUA. SANGUE DO MEU CORAO,
             MINHA SALVAO, MINHA PERDIO.

     Ela pensou que os olhos a estivessem enganando quando viu as plpebras
de Ethan lutando para se abrir.
     -- Ethan! -- Por uma frao de segundos, os olhares se encontraram.
Ethan lutou para respirar, claramente tentando falar. Genevieve colocou o
ouvido perto dos lbios dele e pde sentir a respirao quente na bochecha.
     -- Nunca acreditei em seu pai quando ele disse que era impossvel uma
Conjuradora e um Mortal ficarem juntos. Ns encontraramos um meio.
Amo voc, Genevieve.
     Ele colocou algo na mo dela. Um medalho. E to repentinamente
quanto os olhos se abriram, eles fecharam de novo, o peito cessando de subir
e descer.
     Antes que Genevieve pudesse reagir, uma onda de eletricidade percorreu
seu corpo. Ela sentia o sangue pulsando nas veias. Devia ter sido atingida por
um relmpago. As ondas de dor caram sobre ela.
     Genevieve tentou aguentar.
     Ento tudo ficou negro.



-- Meu Deus do Cu, no a leve tambm.
     Genevieve reconheceu a voz de Ivy. Onde ela estava? O cheiro a trouxe
de volta. Limes queimados. Tentou falar, mas a garganta doa como se
tivesse engolido areia. Os olhos tremeram.
     -- Oh, Deus, obrigada! -- Ivy estava olhando para ela, ajoelhada na
lama.
     Genevieve tossiu e esticou a mo para Ivy, tentando pux-la para mais
perto.
     -- Ethan est...? -- sussurrou ela.
     -- Lamento, criana. Ele se foi.
     Genevieve lutou para abrir os olhos. Ivy deu um salto para trs, como se
tivesse visto o demnio em pessoa.
     -- Deus tenha piedade!
     -- O qu? O que houve, Ivy?
     A velha senhora lutava para entender o que via.
     -- Seus olhos, criana. Eles... esto mudados.
     -- Do que voc est falando?
     -- No esto mais verdes. Esto amarelos, to amarelos quanto o sol.
     Genevieve no se importava com a cor de seus olhos. No ligava para
mais nada agora que tinha perdido Ethan. Comeou a chorar.
     A chuva aumentou, transformando a terra embaixo delas em lama.
     -- Voc precisa se levantar, Srta. Genevieve. Temos que nos reunir com
Aqueles do Outro Mundo. -- Ivy tentou coloc-la de p.
     -- Ivy, voc no est falando nada que faa sentido.
     -- Seus olhos... Eu avisei voc. Avisei sobre a lua, sobre no haver lua.
Temos que descobrir o que significa. Temos que consultar os Espritos.
     -- Se tem alguma coisa errada com meus olhos, tenho certeza de que foi
porque fui atingida por um raio.
     -- O que voc viu? -- Ivy parecia em pnico.
     -- Ivy, o que est acontecendo? Por que est agindo de forma estranha?
     -- Voc no foi atingida por um raio. Foi outra coisa.
     Ivy correu na direo dos campos de algodo em chamas. Genevieve
gritou por ela, tentando se levantar, mas ainda estava tonta. Deitou a cabea
na lama grossa, a chuva caindo sem parar em seu rosto. Chuva misturando-se
s lgrimas de derrota. Ela perdia noo do momento e depois se recuperava,
ficava inconsciente e voltava. Ouviu a voz de Ivy, baixa, ao longe, gritando
seu nome. Quando os olhos se focaram de novo, a velha senhora estava ao
seu lado, a saia presa nas mos.
     Ivy estava carregando alguma coisa nas dobras da saia, e ela a jogou no
cho molhado ao lado de Genevieve. Pequenos frascos de p e garrafas do
que parecia areia e terra bateram uns nos outros.
     -- O que est fazendo?
     -- Fazendo uma oferenda. Para os Espritos. So os nicos que podem
nos dizer o que isso significa.
     -- Ivy, se acalme. Voc est falando bobagem.
     A velha senhora tirou uma coisa do bolso do vestido. Era um pedao de
espelho. Ela o colocou na frente de Genevieve.
     Estava escuro, mas no tinha como no ver. Os olhos de Genevieve
brilhavam. Tinham se transformado de um verde profundo em dourado-fogo,
e no pareciam com os olhos dela por uma outra caracterstica inconfundvel.
No centro, onde deveria haver uma pupila redonda e preta, havia aberturas
amendoadas, como as pupilas de um gato. Genevieve jogou o espelho no
cho e virou-se para Ivy.
     Mas a velha senhora no estava prestando ateno. J tinha misturado os
ps com a terra e os passava de uma mo para a outra, sussurrando na velha
lngua Gullah de seus ancestrais.
     -- Ivy, o que voc...?
     -- Shh -- sibilou a velha senhora. -- Estou ouvindo os espritos. Eles
sabem o que voc fez. Vo nos dizer o que isso significa. Da terra aos ossos
dela e do sangue ao meu sangue. -- Ivy espetou o dedo na ponta do espelho
quebrado e espalhou as pequenas gotas de sangue na terra que ela misturava.
-- Deixe-me ouvir o que vocs ouvem. Ver o que vocs veem. Saber o que
vocs sabem.
     Ivy ficou de p, braos abertos para os cus. A chuva caa sobre ela, e a
lama escorria-lhe pelo vestido em filetes. Comeou a falar de novo na
estranha lngua e ento...
     -- No pode ser. Ela no sabia -- gritou para o cu escuro acima.
     -- Ivy, o que foi?
     Ivy estava tremendo, se abraando e gemendo.
     -- No pode ser. No pode ser.
     Genevieve segurou Ivy pelos ombros.
     -- O qu? O que foi? O que h de errado comigo?
     -- Eu avisei para no se meter com aquele livro. Avisei que era o tipo de
noite errada para Conjurar, mas agora  tarde demais, criana. No tem jeito
de voltar atrs.
     -- De que voc est falando?
     -- Voc est amaldioada, Srta. Genevieve. Voc foi Invocada.
Transformou, e no h nada que possamos fazer para impedir. Uma troca.
Voc no pode conseguir nada do Livro das Luas sem dar algo em retorno.
     -- O qu? O que eu dei?
     -- Seu destino, criana. Seu destino e o destino de todas as outras
crianas Duchannes que nascerem depois de voc.
     Genevieve no entendeu. Mas entendeu o bastante para saber que o que
ela tinha feito no podia ser desfeito.
     -- O que voc quer dizer?
     -- Na Dcima-Sexta Lua, no Dcimo-Sexto Ano, o Livro vai pegar o que
lhe foi prometido. O que voc deu em troca. O sangue de uma criana
Duchannes, e essa criana vai para as Trevas.
     -- Todas as crianas Duchannes?
     Ivy baixou a cabea. Genevieve no era a nica derrotada naquela noite.
     -- No todas.
     Genevieve ficou esperanosa.
     -- Quais? Como saberemos quais?
     -- O Livro vai escolher. Na Dcima-Sexta Lua, no dcimo-sexto
aniversrio da criana.


-- No deu certo. -- A voz de Lena parecia estrangulada, distante.
     Tudo que eu via era fumaa, e tudo que eu ouvia era a voz dela. No
estvamos na biblioteca e no estvamos na viso. Estvamos em algum lugar
entre um e outro, e era horrvel.
     -- Lena!
     E ento, por um momento, vi o rosto dela na fumaa. Seus olhos
estavam enormes e escuros, o verde quase preto. A voz parecia mais um
sussurro.
     -- Dois segundos. Ele ficou vivo por dois segundos, e ento ela o perdeu.
Ela fechou os olhos e desapareceu.
     -- Lena! Onde voc est?
     -- Ethan. O medalho. -- Eu podia ouvir Marian, como se de uma
grande distncia.




Senti a dureza do medalho nas minhas mos. E entendi. Deixei-o cair.
     Abri os olhos, tossindo pela fumaa ainda nos meus pulmes. A sala
estava girando, embaada.
     -- Que diabos vocs, crianas, esto fazendo aqui?
     Fixei meu olhar no medalho e a sala voltou a entrar em foco. Estava no
cho de pedra, parecendo pequeno e inocente. Marian soltou minha mo.
     Macon Ravenwood estava parado no meio da cripta, o casaco voando ao
redor dele. Amma estava ao seu lado, segurando a bolsinha, o casaco
displicentemente abotoado nos botes errados. Eu no sabia quem estava
mais zangado.
     -- Desculpe, Macon. Voc conhece as regras. Eles pediram ajuda, e eu
sou obrigada a dar. -- Marian parecia surpresa.
     Amma gritou com Marian, como se ela tivesse encharcado sua casa com
gasolina.
     -- No meu ponto de vista, voc tem obrigao de cuidar do filho de Lila
e da sobrinha de Macon. E no vejo como voc possa estar fazendo nenhuma
das duas coisas.
     Esperei que Macon casse em cima de Marian tambm, mas ele no disse
nada. Ento percebi por qu. Ele estava sacudindo Lena. Ela tinha cado
sobre a mesa de pedra no meio da sala. Os braos dela estavam abertos, o
rosto contra a pedra spera. Ela no parecia estar consciente.
     -- Lena!
     Puxei-a para meus braos, ignorando Macon, que j estava ao lado dela.
Seus olhos ainda estavam negros, olhando para cima, para mim.
     -- Ela no est morta. Est a deriva. Acredito que consigo chegar at ela.
-- Macon trabalhava em silncio. Eu podia v-lo girando o anel. Seus olhos
estavam estranhamente iluminados.
     -- Lena! Volte! -- Puxei seu corpo inerte para meus braos, inclinando-
rne sobre seu peito.
     Macon estava murmurando. Eu no conseguia decifrar as palavras, mas
pude ver o cabelo de Lena comear a se mover com o j familiar vento
sobrenatural que passei a chamar de brisa Conjuradora.
     -- Aqui no, Macon. Seu Conjuro no vai funcionar aqui. -- Marian
estava folheando um livro poeirento, a voz trmula.
     -- Ele no est Conjurando, Marian. Est Viajando. Nem mesmo um
Conjurador consegue fazer isso. Para onde ela foi, s a espcie de Macon
pode ir. Para baixo. -- Amma usava um tom tranquilizador, mas no era
muito convincente.
     Senti o frio tomando conta do corpo vazio de Lena e soube que Amma
estava certa. Seja l onde Lena estivesse, no era nos meus braos. Estava
longe. Eu podia sentir, e eu era apenas um Mortal.
     -- Eu avisei voc, Macon. Aqui  um lugar neutro. No h Feitio que
voc consiga realizar em uma sala da terra.
     Marian estava andando de um lado para outro, segurando o livro como
se ele a fizesse sentir que estava ajudando de alguma maneira. Mas no havia
respostas l dentro. Ela mesma tinha dito. Conjurar no teria efeito ali.
     Me lembrei dos sonhos, de puxar Lena pela lama. Me perguntei se este
era o lugar onde eu a perdi.
     Macon falou. Seus olhos estavam abertos, mas ele no estava en-
xergando. Era como se estivessem virados para dentro, para onde Lena
estava.
     -- Lena. Me escute. Ela no pode segurar voc.
     Ela. Olhei para os olhos vazios de Lena.
     Sarafine.
     -- Voc  forte, Lena; se liberte. Ela sabe que no posso ajudar voc
aqui. Estava esperando por voc nas sombras. Voc tem que fazer isso
sozinha.
     Marian apareceu com um copo de gua. Macon o derramou no rosto de
Lena, dentro da boca, mas ela no se moveu.
     Eu no podia mais suportar.
     Segurei-a e a beijei na boca, com fora. A gua escorreu, como se eu
estivesse fazendo boca a boca com uma vtima de afogamento.
    Acorde, L. Voc no pode me abandonar agora. No assim. Preciso de
voc mais do que ela.
    As plpebras de Lena tremeram.
    Ethan. Estou cansada.
     Ela voltou  vida, engasgando, cuspindo gua sobre a jaqueta. Eu sorri
apesar de tudo, e ela correspondeu. Se os sonhos eram sobre isso, tnhamos
mudado o modo como eles terminavam. Desta vez, eu a segurei. Mas no
fundo da minha mente, acho que eu sabia. Esse no era o momento em que
ela escorregava dos meus braos. Era s o comeo.
     Mesmo se isso fosse verdade, eu a tinha salvo desta vez.
     Estiquei os braos para abra-la. Queria sentir a corrente eltrica
familiar entre ns. Antes que eu pudesse passar os braos em torno dela, Lena
se sentou e saiu dos meus braos.
     -- Tio Macon!
     Macon estava do outro lado da sala, encostado na parede da cripta, mal
conseguindo aguentar o prprio peso. Encostou a cabea contra a pedra.
Suava, respirando pesadamente e o rosto estava branco como giz.
     Lena correu e o agarrou, uma criana preocupada com o pai.
     -- Voc no devia ter feito aquilo. Ela podia ter matado voc.
     Seja l o que ele tenha feito quando estava Viajando, seja l o que isso
significasse, o esforo tinha tivera ura preo alto.
     Ento aquela era Sarafine. Essa coisa, fosse l quem Ela fosse, era me de
Lena.
     Se uma ida  biblioteca era assim, eu no sabia se estava pronto para o
que aconteceria nos prximos meses.
     Contando da manh seguinte, 74 dias.
Lena estava sentada, pingando de suor, enrolada em um cobertor. Parecia ter
uns 5 anos de idade. Olhei para a velha porta de carvalho atrs dela,
imaginando se eu conseguiria achar o caminho da sada sozinho. Era
improvvel. Tnhamos andado uns trinta passos por um dos corredores,
depois descemos uma escadaria, passamos por uma srie de pequenas portas
at chegar a um aconchegante escritrio que parecia uma espcie de sala de
leitura. O corredor parecia infinito, com uma porta a cada poucos metros,
como uma espcie de hotel subterrneo.
     Assim que Macon sentou, um aparelho de ch de prata apareceu no
meio da mesa com exatamente cinco xcaras e um prato de pes doces.
Talvez a Cozinha estivesse aqui tambm.
     Olhei ao redor. No tinha ideia de onde eu estava, mas sabia de uma
coisa. Estava em algum lugar de Gatlin, mas ao mesmo tempo ficava o mais
longe de Gatlin que j estivera.
     De qualquer modo, no tinha nenhum domnio aqui.
     Tentei encontrar um lugar confortvel em uma cadeira estofada que
talvez tenha pertencido a Henrique VIII. Na verdade, no havia como saber
que no tinha pertencido a ele. A tapearia na parede tambm poderia ter
vindo de um antigo castelo, ou de Ravenwood. Estava bordada no formato de
uma constelao, fundo azul escuro e linha prateada. Cada vez que eu
olhava, a lua estava numa fase diferente.
     Macon, Marian e Amma estavam sentados do outro lado da mesa. Dizer
que Lena e eu estvamos encrencados era ser otimista. Macon estava furioso,
a xcara tremendo a sua frente. Amma estava mais do que isso.
     -- O que faz voc pensar que pode tomar para si a deciso de quando
meu menino est pronto para o Mundo Subterrneo? Lila arrancaria sua pele
com as prprias mos se estivesse aqui. Voc tem muita coragem, Marian
Ashcroft.
     As mos de Marian tremiam enquanto ela erguia sua xcara.
     -- Seu menino? E quanto  minha sobrinha? J que foi ela, afinal, que foi
atacada.
     Macon e Amma, depois de nos dar uma bronca gigantesca, comearam
a atacar um ao outro. No ousei olhar para Lena.
     -- Voc se mete em problemas desde o dia em que nasceu, Macon. --
Amma se virou para Lena. -- Mas no acredito que voc arrastaria meu
menino para isso, Lena Duchannes.
     Lena perdeu o controle.
     --  claro que eu o arrastei. Eu fao coisas ruins. Quando voc vai
entender isso? E s vai piorar!
     O conjunto de ch voou da mesa e parou no ar. Macon olhou sem nem
piscar. Um desafio. O conjunto todo se ajeitou e pousou gentilmente sobre a
mesa de volta. Lena olhou para Macon como se no houvesse mais ningum
no aposento.
     -- Eu vou para as Trevas, e no h nada que voc possa fazer para
impedir.
     -- Isso no  verdade.
     -- No ? Vou acabar que nem minha... -- Ela no conseguiu terminar a
frase.
     O cobertor caiu de seus ombros e ela pegou minha mo.
     -- Voc tem que se afastar de mim, Ethan. Antes que seja tarde demais.
     Macon olhou para ela, irritado.
     -- Voc no vai para as Trevas. No seja to ingnua. Ela s quer que
voc pense isso. -- O modo como disse ela me lembrou do modo como ele
dizia Gatlin.
     Marian colocou a xcara sobre a mesa.
     -- Adolescentes... Tudo  to apocalptico.
     Amma sacudiu a cabea.
     -- Algumas coisas esto predestinadas a acontecer, outras precisam de
um pouco de trabalho. Ainda no terminou por aqui.
     Eu podia sentir a mo de Lena tremendo na minha.
     -- Eles esto certos, L. Tudo vai ficar bem.
     Ela puxou a mo.
     -- Tudo vai ficar bem? Minha me, uma Cataclista, est tentando me
matar. Uma viso de cem anos atrs acabou de esclarecer que minha famlia
toda vive uma maldio desde a Guerra Civil. Meu dcimo-sexto aniversrio
ser em dois meses, e  isso que voc tem para dizer?
     Peguei a mo dela de novo, gentilmente, porque ela deixou.
     -- Vi a mesma viso que voc. O Livro escolhe quem ele leva. Talvez
no v escolher voc. -- Eu estava sendo otimista, mas era s isso que podia
fazer.
     Amma olhou para Marian, batendo o pires na mesa. A xcara tremeu.
     -- O Livro? -- Os olhos de Macon caram sobre mim.
     Tentei olhar nos olhos dele, mas no consegui.
     -- O Livro que vimos.
    No diga mais nada, Ethan.
    Devamos contar a eles. No podemos fazer isso sozinhos.
     -- No  nada, tio M. Nem sabemos o que as vises significam.
     Lena no ia se entregar, mas depois desta noite, eu sentia que tinha que
fazer alguma coisa. Ns tnhamos. A situao estava saindo de controle. Senti
que estava me afogando e no conseguia nem me salvar, muito menos a
Lena.
     -- Talvez as vises signifiquem que nem todo mundo v para as Trevas
quando  Invocado. E quanto  tia Del? Reece? Acha que a gracinha da
Ryan vai para o lado negro, quando tem o dom de curar pessoas? --
perguntei, chegando mais para perto dela.
     Lena se recostou na cadeira.
     -- Voc no sabe nada sobre minha famlia.
     -- Mas ele no est errado, Lena. -- Macon olhou para ela, exasperado.
     -- Voc no  Ridley. E voc no  sua me -- falei, da forma mais
convincente que pude.
     -- Como voc sabe? No conhece minha me. E alis, nem eu, exceto
em ataques psquicos que, aparentemente, ningum consegue impedir.
     Macon tentou parecer firme.
     -- No estvamos preparados para aquele tipo de ataque. Eu no sabia
que ela conseguia Viajar. Eu no sabia que Sarafine tinha alguns dos meus
poderes. No  um dom comum entre os Conjuradores.
     -- Ningum parece saber nada sobre minha me e sobre mim.
     --  por isso que precisamos do Livro. -- Desta vez, olhei diretamente
para Macon quando falei.
     -- Que livro  esse do qual vocs vivem falando? -- Macon estava
perdendo a pacincia.
    No conte para ele, Ethan.
    Temos que contar.
    -- O Livro que amaldioou Genevieve. -- Macon e Amma olharam um
para o outro. J sabiam o que eu ia dizer. -- O Livro das Luas. Se foi assim
que a maldio foi Conjurada, alguma coisa nele deve nos dizer como
quebr-la. Certo?
     A sala ficou em silncio.
     Marian olhou para Macon.
     -- Macon...
     -- Marian. Fique fora disso. Voc interferiu mais do que deveria, e o sol
vai nascer em alguns minutos.
     Marian sabia. Ela sabia onde encontrar O Livro das Luas, e Macon
queria ter certeza de que ela manteria a boca fechada.
     -- Tia Marian, onde est o Livro? -- Olhei nos olhos dela. -- Voc tem
que nos ajudar. Minha me teria nos ajudado, e voc no deve tomar o lado
de ningum, certo? -- Eu no estava jogando limpo, mas era verdade.
     Amma levantou as mos e depois as deixou cair no colo. Um raro sinal
de rendio.
     -- O que est feito, est feito. Eles j comearam a puxar os fios,
Melchizedek. Esse suter velho est destinado a se desfazer de alguma forma.
     -- Macon, h protocolos. Se eles perguntam, eu tenho Obrigao de
dizer a eles -- disse Marian. Depois ela olhou para mim. -- O Livro das Luas
no est na Lunae Libri.
     -- Como voc sabe?
     Macon ficou de p para ir embora e se virou para ns dois. O maxilar
dele estava contrado, os olhos escuros e furiosos. Quando ele finalmente
falou, a voz ecoou pela sala, sobre todos ns.
     -- Porque este  o livro em cuja homenagem este arquivo foi batizado. 
o livro mais poderoso daqui at o Outro Mundo. Tambm  o livro que
amaldioou nossa famlia por toda eternidade. E est desaparecido h mais
de cem anos.
                           p 1 de dezembro p
                         Rima com bruxa
                                     d
N
      a manh de segunda-feira, Link e eu dirigimos at a autoestrada 9 e
      paramos na bifurcao para pegar Lena. Link gostava de Lena, mas no
      iria at Ravenwood de maneira alguma. Ainda era a manso mal-
assombrada para ele.
     Imagina se soubesse a verdade. O feriado de Ao de Graas tinha sido
nada mais do que um final de semana prolongado, mas parecia ter durado
muito mais, considerando o jantar de Ao de Graas estilo "Alm da
Imaginao", os vasos voando entre Macon e Lena e nossa viagem ao centro
da terra, tudo sem sair dos limites da cidade de Gatlin. Ao contrrio de Link,
que tinha passado o final de semana assistindo futebol americano, batendo
nos primos e tentando determinar se as bolinhas de queijo tinham ou no
cebola esse ano.
     Mas, de acordo com Link, havia outro tipo de problema fermentando, e
a manh de hoje parecia igualmente perigosa. A me de Link no saiu do
telefone nas ltimas 24 horas, sussurrando, o longo fio esticado e a porta da
cozinha fechada. A Sra. Snow e a Sra. Asher tinham aparecido depois do
jantar, e as trs se enfiaram na cozinha, a Sala de Guerra. Quando Link
entrou, fingindo ir pegar um refrigerante, no pescou muito. Mas foi
suficiente para imaginar a jogada final da me dele. "Vamos tir-la da escola,
de uma maneira ou de outra." E o cachorrinho dela tambm.
     No era muito, mas se eu conhecia a Sra, Lmcoln.., j era o bastante
para ficar preocupado. Nunca se podia subestimar o quo longe mulheres
como a Sra. Lincoln iriam para proteger os filhos e a cidade da coisa que elas
mais odiavam: qualquer um diferente delas. Eu sabia. Minha me tinha me
contado histrias dos primeiros anos em que ela tinha morado aqui. Do
modo que contou, ela era uma criminosa que at as senhoras tementes a
Deus, frequentadoras de igreja, cansaram de falar dela; ela ia ao mercado aos
domingos, ia a qualquer igreja de que gostasse ou a nenhuma, era feminista
(que a Sra. Asher s vezes confundia com comunista), era democrata (que a
Sra. Lincoln dizia ter metade da palavra "demnio" s no nome), e pior de
tudo, era vegetariana (o que impedia qualquer convite para jantar da Sra.
Snow). Alm disso e de no ser membro da igreja certa ou do FRA ou da
Associao Nacional de Armas, havia o fato de que minha me era de fora.
     Mas meu pai tinha crescido aqui e era considerado um dos filhos de
Gatlin. Ento, quando minha me morreu, as mesmas mulheres que a
julgaram tanto quando estava viva apareceram com caarolas de sopas,
assados e espaguete com um ar de vingana estampado no rosto. Como se
estivessem finalmente tendo a palavra final. Minha me teria odiado, e elas
sabiam. Foi a primeira vez que meu pai entrou no escritrio e trancou a porta
durante dias. Amma e eu deixamos as caarolas se empilharem na varanda
at que as levaram embora e voltaram a nos julgar, como sempre tinham
feito.
     Sempre tinham a ltima palavra. Link e eu sabamos, mas Lena no.




Lena estava entre Link e eu no banco da frente do Lata-Velha, escrevendo na
mo. Eu s conseguia ler as palavras em pedaos como todo o resto. Ela
escrevia o tempo todo, do mesmo jeito que algumas pessoas mascavam
chiclete ou mexiam no cabelo; acho que ela nem se dava conta. Imaginei se
algum dia me deixaria ler um de seus poemas, se algum deles era sobre mim.
     Link olhou para baixo.
     -- Quando voc vai escrever uma msica pra mim?
     -- Assim que eu terminar a que estou escrevendo pro Bob Dylan.
     -- Cacete.
     Link enfiou o p no freio na entrada do estacionamento. Eu no podia
culp-lo. A viso da me dele no estacionamento antes das 8 horas da manh
era apavorante. E l estava ela.
     O estacionamento estava lotado de pessoas, bem mais do que o normal.
E cheio de pais; fora o incidente da janela, no havia pais no estacionamento
desde que a me de Jocelyn Walker apareceu para arranc-la da escola
durante o filme sobre o ciclo reprodutivo na aula de Desenvolvimento
Humano.
     Obviamente, alguma coisa estava acontecendo.
     A me de Link passou uma caixa para Emily, que estava junto com toda
a equipe de lderes de torcida -- time principal e reserva -- colocando papis
em todos os carros do estacionamento, uma espcie de folheto de neon.
Alguns balanavam ao vento, mas eu conseguia ler vrios  distncia, dentro
da segurana relativa do Lata-Velha. Era como se estivessem fazendo algum
tipo de campanha, s que sem candidato.
     DIGA NO  VIOLNCIA NA JACKSON!
     TOLERNCIA ZERO!
     Link ficou vermelho-vivo.
     -- Me desculpem. Vocs precisam sair. -- Ele se abaixou no banco do
motorista, to baixo que parecia que ningum estava dirigindo o carro. --
No quero que minha me me d uma surra na frente de toda a equipe de
lderes de torcida.
     Eu me abaixei e abri a porta da frente para Lena.
     -- Vemos voc l dentro, cara.
    Peguei a mo de Lena e a apertei.
    Pronta?
    To pronta quanto possvel
    Nos abaixamos entre os carros pela lateral do estacionamento. No
podamos ver Emily, mas podamos ouvir a voz dela atrs da picape de
Emory.
    -- Conheam os sinais! -- Emily estava se aproximando da janela de
Carrie Jensen. -- Estamos formando um novo clube na escola, os Anjos da
Alta Guarda da Jackson. Vamos ajudar a manter a escola segura
comunicando atos de violncia ou qualquer comportamento incomum que
virmos na escola. Pessoalmente, acho que  responsabilidade de todos os
alunos da
    Jackson manter nossa escola segura. Se voc quiser participar, temos um
encontro no refeitrio depois do oitavo tempo.
    Quando a voz de Emily foi sumindo ao longe, a mo de Lena apertou a
minha.
    O que esse encontro quer dizer?
    No tenho ideia. Mas elas perderam a cabea. Vamos.
    Tentei pux-la para cima, mas ela me puxou de volta para baixo. Ela se
encolheu ao lado do pneu.
    -- S preciso de um minuto.
    -- Voc est bem?
    -- Olhe para elas. Acham que sou um monstro. Formaram um clube.
    -- No conseguem suportar qualquer pessoa de fora, e voc  a garota
nova. Uma janela se quebrou. Precisam de algum para culpar. Isso 
apenas...
    -- Uma caa s bruxas.
    Eu no ia dizer isso.
    Mas estava pensando.
    Apertei a mo dela e meu cabelo ficou de p.
    Voc no precisa fazer isso.
    Preciso, sim. Deixei pessoas como elas me expulsarem da minha ltima
escola. No vou deixar acontecer de novo.
     Quando samos de trs da ltima fileira de carros, l estavam elas. A Sra.
Asher e Emily estavam colocando caixas extras de folhetos no porta- malas
das minivans. Eden e Savannah estavam entregando folhetos para algumas
lderes de torcida e qualquer cara que quisesse ver um pouco das pernas ou
do decote de Savannah. A Sra. Lincoln estava a alguns metros de distncia
falando com outras mes, provavelmente prometendo acrescentar as casas
delas ao Tour da Herana Sulista se elas fizessem algumas ligaes para o
diretor Harper. Entregou uma prancheta com uma caneta  me de Earl
Petty. Levei um minuto para me dar conta do que era. No era possvel.
     Parecia um abaixo-assinado.
     A Sra. Lincoln reparou que estvamos ali parados, e fixou o olhar em
ns. As outras mes seguiram o olhar dela. Por um segundo, no disseram
nada. Achei que talvez sentissem mal por mim e fossem guardar os folhetos,
fechar as minivans e os sedas e voltar para casa.  Sra. Lincoln, em cuja casa
eu tinha dormido quase tantas vezes quanto na minha. A Sra. Snow, que era
tecnicamente minha prima em terceiro grau. A Sra. Asher, que fez um
curativo na minha mo depois que a cortei com um anzol de pescar quando
tinha 10 anos. Srta. Ellery, que fez meu primeiro legtimo corte de cabelo.
Aquelas mulheres me conheciam. Elas me conheciam desde que eu era
criana. No era possvel que elas fossem fazer algo assim, no comigo. Elas
iam recuar.
     Se eu dissesse isso muitas vezes, talvez se tornasse verdade.
    Vai ficar tudo bem.
     Quando me dei conta de que estava errado, era tarde demais. Elas se
recuperaram do choque momentneo de ver Lena e eu.
     Quando a Sra. Lincoln nos viu, seus olhos se apertaram.
     -- O diretor Harper... -- Ela olhou de Lena para mim e sacudiu a
cabea. Vamos dizer que eu no seria convidado para jantar na casa de Link
no futuro prximo. Ela ergueu a voz. -- O diretor Harper prometeu apoio
incondicional. No vamos tolerar que exista na Jackson a violncia que tem
contaminado as escolas deste pas. Vocs jovens esto fazendo a coisa certa,
protegendo a escola, e ns, como pais preocupados -- ela olhou para ns --,
vamos fazer qualquer coisa que pudermos para apoiar vocs.
     Ainda de mos dadas, Lena e eu passamos por eles. Emily parou na
nossa frente e enfiou um folheto na minha mo, ignorando Lena.
     -- Ethan, venha ao encontro hoje. Voc seria til para os Anjos da
Guarda.
     Era a primeira vez que ela falava comigo em semanas. Captei a
mensagem. Voc  um de ns, ltima chance.
     Afastei a mo dela.
     --  disso mesmo que a Jackson precisa, de um pouco mais do seu
comportamento angelical. Por que voc no vai torturar umas crianas?
Arrancar as asas de uma borboleta? Derrubar um passarinho do ninho? --
Puxei Lena e segui adiante.
     -- O que sua pobre me diria, Ethan Wate? O que ela acharia da pessoa
que anda acompanhando voc?
     Eu me virei. A Sra. Lincoln estava parada bem atrs de mim. Estava
vestida como sempre se vestia, como algum tipo de bibliotecria que executa
punies em um filme, com culos baratos de farmcia e um corte de cabelo
raivoso com fios que no conseguiam decidir se eram castanhos ou grisalhos.
No dava para no pensar: de onde Link tinha vindo?
     -- Vou dizer o que sua me diria. Ela choraria. Ia se revirar no tmulo.
     Essa mulher tinha passado do limite.
      A Sra. Lincoln no sabia nada sobre minha me. No sabia que era
minha me quem havia mandado uma cpia de cada veredito contra
proibio de livros nos EUA para a Superintendncia Escolar. No sabia que
minha me odiava cada vez que a Sra, Lincoln a convidava para um
encontro do Auxlio das Mulheres ou do FRA. No porque ela odiasse o
Auxlio das Mulheres ou o FRA, mas porque odiava tudo que a Sra. Lincoln
representava. Aquele tipo de superioridade com uma mente limitada pelo
qual as mulheres de Gatlin, como a Sra. Lincoln e a Sra. Asher, eram to
famosas.
      Minha me sempre dizia: "O certo e o fcil nunca so a mesma coisa." E
agora, nesse exato segundo, eu sabia a coisa certa a fazer, mesmo no sendo
fcil. Ou pelo menos as consequncias do meu ato no seriam.
      Me virei para a Sra. Lincoln e olhei em seus olhos.
      -- "Muito bem, Ethan."  isso que minha pobre me diria. Senhora.
      Me virei em direo  porta do prdio administrativo e continuei
andando, puxando Lena ao meu lado. Estvamos apenas a alguns metros de
distncia. Lena estava tremendo, apesar de no parecer assustada. Eu no
parava de apertar a mo dela, tentando acalm-la. Seu cabelo longo e preto
se mexia, como se ela estivesse prestes a explodir, ou talvez eu estivesse.
Nunca pensei que eu fosse ficar to feliz de botar meus ps nos corredores da
Jackson, at que vi o diretor Harper parado na entrada. Ele estava olhando
para ns com tanta determinao que parecia que desejava no ser o diretor
para poder distribuir, ele mesmo, alguns folhetos.
      O cabelo de Lena voou ao redor dos ombros quando passamos por ele.
S que ele nem olhou para ns. Estava ocupado demais olhando l para fora.
      -- Mas que...?
      Olhei, para trs, a tempo de ver centenas de folhetos verdes-neon
soltando de para-brisas, de pilhas, de caixas, de vans e de mos. Voando e um
sopro repentino de vento, como se houvesse uma revoada de pssaros
subindo em direo s nuvens. Escapando, belos e livres. Meio como i filme
de Hitchcock, Os Pssaros, s que ao contrrio.
      Ouvimos a gritaria at que as portas pesadas de metal se fecharam.
      Lena ajeitou o cabelo.
      -- O tempo aqui  muito doido.
                         p 6 de dezembro p
                      Achados e perdidos
                                    d
E
     u estava quase aliviado por ser sbado. Havia alguma coisa reconfortante
     em passar o dia com mulheres cujo nico poder mgico era esquecer os
     prprios nomes, Quando cheguei  casa das Irms, a gata siamesa de tia
Mercy, Lucille Bali (as Irms adoravam I love Lucy) estava "se exercitando"
no jardim da frente. As Irms tinham um varal que percorria a extenso do
jardim, e toda manh tia Mercy colocava uma coleira em Lucille Bali,
prendendo-a ao varal para a gata se exercitar. Eu tinha tentado explicar que
era possvel deixar gatos sarem e que eles voltariam quando quisessem, mas
tia Mercy olhou para mim como se eu tivesse sugerido que ela sasse com um
homem casado. "No posso deixar Lucille Bali andar pelas ruas sozinha.
Tenho certeza que algum iria peg-la." No havia muitos sequestros de gatos
na cidade, mas era uma discusso que eu jamais venceria.
      Abri a porta, esperando o agito tradicional, mas hoje a casa estava
notadamente silenciosa. Um mau sinal.
      -- Tia Prue?
      Ouvi o familiar sotaque arrastado dela falar vindo da parte de trs da
casa.
      -- Estamos na varanda de trs, Ethan.
      Passei pela porta que dava na varanda de trs e vi as Irms andando de
um lado para outro, carregando o que pareciam pequenos ratos sem pelos.
      -- Que diabos  isso? -- perguntei sem nem pensar.
      -- Ethan Wate, olhe como fala ou vou ter que lavar sua boca com sabo.
Voc sabe que no deve profanar -- disse tia Grace. E no que dizia respeito a
ela, isso inclua palavras como calcinha, pelado e bexiga.
     -- Me desculpe, senhora. Mas o que  isso que est segurando?
     Tia Mercy andou at mim e esticou a mo com dois pequenos roedores
dormindo em cima.
     -- So esquilos bebs. Ruby Wilcox os achou no sto na tera-feira.
     -- Esquilos selvagens?
     -- So seis esquilos. No  a coisa mais fofa que voc j viu?
     Tudo que eu podia ver era um sinal de alerta piscando: perigo. A ideia
de minhas tias ancis pegando em animais selvagens, filhotes ou no, era um
pensamento assustador.
     -- Onde a senhora os pegou?
     -- Bem, Ruby no podia cuidar deles... -- comeou tia Mercy.
     -- Por causa daquele marido horrvel dela. Ele nem a deixa ir ao Pare 8c
Roube sem avisar a ele.
     -- Ento Ruby os deu para ns, j que tnhamos uma gaiola.
     As Irms tinham resgatado um guaxinim ferido depois de um furaco e
cuidaram dele at ficar saudvel novamente. Depois disso, o guaxinim comeu
o casal de pssaros de tia Prudence, Sonny e Cher, e Thelma colocou o
guaxinim para fora de casa, para que nunca mais tocassem no assunto. Mas
ainda tinham a gaiola.
     -- Sabem que esquilos podem passar raiva. No podem pegar nessas
coisas. E se um deles morder vocs?
     Tia Prue franziu a testa.
     -- Ethan, eles so nossos bebs e so umas douras. No nos morderiam.
Somos as mames deles.
     -- So to mansos quanto possvel, no so? -- disse tia Grace, fazendo
carinho em um deles.
     Eu s podia imaginar um desses pequenos vermes agarrado no pescoo
de uma das Irms e eu tendo que lev-las para o pronto-socorro para tomar
as vinte injees na barriga necessrias quando se  mordido por um animal
com raiva. Injees que, na idade delas, poderiam mat-las.
     Tentei argumentar com elas, uma total perda de tempo.
     -- Nunca se sabe. So animais selvagens.
     -- Ethan Wate, est claro que voc no  um amante dos animais. Esses
bebs jamais nos machucariam. -- Tia Grace olhava para mim com uma
careta de reprovao. -- E o que vocs quem a que fizssemos com eles? A
mame deles se foi. Vo morrer se no cuidarmos deles.
     -- Posso lev-los para a Sociedade Protetora dos Animais.
     Tia Mercy os puxou contra o peito de forma protetora.
     -- A Sociedade Protetora dos Animais! Aqueles assassinos. Vo mat-los,
com certeza!
     -- Chega de falar sobre a Sociedade Protetora dos Animais. Ethan, me
passe esse conta-gotas a.
     -- Para qu?
     -- Temos que aliment-los a cada quatro horas com esse conta-gotas --
explicou tia Grace. Tia Prue estava segurando um dos esquilos na mo, e ele
sugava desesperadamente a ponta do conta-gotas. -- E uma vez por dia
temos que limpar as partes ntimas deles com um cotonete, para que
aprendam a se limpar. -- Eu preferia nunca ter imaginado aquilo.
     -- Como vocs podem saber disso?
     -- Procuramos na internet. -- Tia Mercy sorriu com orgulho.
     Eu no podia imaginar como minhas tias sabiam qualquer coisa sobre
internet. As Irms no tinham nem uma torradeira.
     -- Como vocs entraram na internet?
     -- Thelma nos levou at a biblioteca e a Srta. Marian nos ajudou. Tem
computadores l. Voc sabia?
     -- E d para procurar qualquer coisa, at fotos pornogrficas. De vez em
quando, as fotos mais pornogrficas que se pode imaginar apareciam na tela.
Imagine! -- "Pornogrficas" para tia Grace provavelmente significava nuas,
coisa que eu achava que as manteria longe da internet para sempre.
     -- S quero deixar registrado que acho isso uma pssima ideia. Vocs
no podem ficar com eles para sempre. Vo crescer e ficar mais agressivos.
     -- Bem,  claro que no estamos planejando cuidar deles para sempre. --
Tia Prue estava balanando a cabea, como se fosse um pensamento ridculo.
-- Vamos deix-los no quintal assim que forem capazes de cuidar de si
mesmos.
     -- Mas no sabero como encontrar comida.  por isso que  m ideia
acolher animais selvagens. Quando os soltarem, vo morrer de fome. --
Parecia um argumento que teria apelo com as Irms e me manteria longe do
pronto-socorro.
     --  nisso que voc est errado. Est tudo escrito na internet -- disse tia
Grace. Que site era esse que tinha sobre criar esquilos selvagens e limpar as
partes ntimas deles com cotonete?
      -- Temos que ensinar a eles a juntar nozes. Enterramos nozes no jardim
e deixamos que os esquilos treinem como encontr-las.
      Eu via onde aquilo ia dar. O que levava  parte do dia na qual eu estava
no quintal enterrando frutas secas para bebs esquilos. Me perguntei quantos
buraquinhos eu teria que cavar at que as Irms ficassem satisfeitas.
      Meia hora depois de eu comear a cavar, comecei a achar coisas. Um
dedal, uma colher de prata e um anel de ametista que no parecia valioso,
mas me deu uma boa desculpa para parar de esconder amendoins no quintal.
Quando entrei na casa, tia Prue estava usando os culos grossos de leitura,
examinando uma pilha de papis amarelados.
      -- O que a senhora est lendo?
      -- S estou procurando umas coisas para a me do seu amigo Link O
FRA precisa de algumas anotaes sobre a histria de Gatlin para o landa
Herana Sulista. -- Ela examinou mais uma pilha. -- Mas  difcil achar algo
sobre a histria de Galtin. -- O ltimo nome que o FRA queria ouvir.
      -- Como assim?
      -- Bem, sem eles, acho que Gatlin no estaria mais aqui. Ento  difcil
escrever a histria da cidade e deix-los de fora.
      -- Eles foram mesmo os primeiros aqui? -- Ouvira Marian dizer isso,
mas era difcil de acreditar.
      Tia Mercy levantou um dos papis da pilha e o segurou to perto do
rosto que devia estar vendo dobrado. Tia Prue o pegou de volta.
      -- Me d isso. Estou trabalhando em um sistema.
      -- Bem, se voc no quer ajuda. -- Tia Mercy se virou para mim. -- Os
Ravenwood foram os primeiros nessas partes,  verdade. Receberam umas
terras do rei da Esccia, por volta de 1800.
      -- 1781. Estou com o papel bem aqui. -- Tia Prue sacudiu uma folha
amarela no ar. -- Eram fazendeiros, e o condado de Gatlin tinha o solo mais
frtil de toda a Carolina do Sul. Algodo, tabaco, arroz, anileira, tudo crescia
aqui, o que era peculiar pelo fato de essas plantas no crescerem
normalmente todas no mesmo lugar. Depois que as pessoas descobriram que
era possvel plantar praticamente tudo aqui, os Ravenwood passaram a ter
uma cidade.
     -- Gostando ou no -- acrescentou tia Grace, tirando os olhos do tric.
     Era irnico; sem os Ravenwood, Gatlin talvez nem existisse. As pessoas
que evitavam Macon Ravenwood e sua famlia tinham que agradecer a eles
por terem uma cidade. Eu me perguntei como a Sra. Lincoln se sentiria em
relao a isso. Aposto que ela j sabia, e que provavelmente fosse por isso que
todos odiassem tanto Macon Ravenwood.
     Olhei para minha mo, coberta daquele solo inexplicavelmente frtil.
Ainda estava segurando as coisas que desenterrei do quintal.
     -- Tia Prue, isso pertence a alguma de vocs? -- Lavei o anel na pia e o
exibi.
     -- Nossa,  o anel que meu segundo marido Wallace Pritchard me deu
no nosso primeiro e nico aniversrio de casamento. -- Ela baixou a voz at
chegar a um sussurro. -- Ele era um homem muito po duro. Onde voc
achou isso?
     -- Enterrado no quintal. Tambm achei uma colher e um dedal.
     -- Mercy, olhe o que Ethan achou, sua colher do Tennessee, da coleo.
Eu falei que no peguei! -- gritou Tia Prue.
     -- Deixe-me ver. -- Mercy colocou os culos para inspecionar a colher.
-- Bem,  mesmo. Finalmente tenho os 11 estados.
     -- Existem mais do que 11 estados, tia Mercy.
     -- S coleciono os estados da Confederao. -- Tia Grace e tia Prue
assentiram em concordncia.
     -- Falando em enterrar coisas, d para acreditar que Eunice Honeycutt
fez com que a enterrassem junto com o livro de receitas? Ela no queria que
ningum da igreja botasse as mos em sua receita de bolo de frutas. -- Tia
Mercy balanou a cabea.
     -- Ela era uma pessoa desprezvel, assim como a irm dela. -- Tia Grace
estava abrindo uma lata de doces com a colher do Tennessee.
     -- E aquela receita nem era boa -- disse tia Mercy.
     Tia Grace virou a tampa da lata para ler os nomes dos doces dentro.
     -- Mercy, qual  o com recheio de creme?
     -- Quando eu morrer, quero ser enterrada com minha estola de pele e
minha Bblia -- disse tia Prue.
     -- Voc no vai ganhar pontos extras com o Senhor por causa disso,
Prudence Jane.
    -- No estou tentando ganhar pontos, s quero ter alguma coisa para ler
durante a espera. Mas se houvesse distribuio de pontos, Grace Ann, eu teria
mais do que voc.
    Enterrada com o livro de receitas...
    E se O Livro das Luas estivesse enterrado em algum lugar? E se algum
quisesse que ningum o encontrasse, e por isso o escondeu? Talvez a pessoa
que entendia o poder dele melhor do que qualquer outra. Genevieve.
    Lena, acho que sei onde o Livro est.
    Por um segundo, s houve o silncio, e ento os pensamentos de Lena
encontraram o caminho at os meus.
    Corno assim?
    O Livro das Luas. Acho que est com Genevieve.
    Genevieve est morta.
    Eu sei.
    O que voc quer dizer, Ethan ?
    Acho que voc sabe o que quero dizer.
     Harlon James subiu mancando na mesa, com aparncia de dar d. A
perna ainda estava enfaixada, Tia Mercy comeou a dar chocolates de dentro
da lata para ele.
     -- Mercy, no d chocolate ao cachorro! Vai mat-lo. Vi no programa
da Oprah. Era chocolate ou molho de cebola?
     -- Ethan, quer que eu guarde os caramelos para voc? -- perguntou tia
Mercy. -- Ethan?
     Eu no estava mais ouvindo. Pensava em como abrir um tmulo.
                       p 7 de dezembro p
                    Abrindo um tmulo
                                   d
F    oi ideia de Lena. Era aniversrio de tia Del, e no ltimo minuto Lena
     decidiu dar uma festa para a famlia em Ravenwood. Foi tambm Lena
     que convidou Amma, sabendo muito bem que nada alm de interveno
divina faria com que Amma botasse os ps na propriedade dos Ravenwood.
Seja l o que fosse em relao a Macon, Amma reagia um pouquinho melhor
 presena dele do que ao medalho. Ainda assim ela preferia manter Macon
to longe quanto o medalho.
     Boo Radley apareceu de tarde carregando um papel enrolado na boca,
escrito com caligrafia cuidadosa. Amma no queria tocar no objeto, mesmo
sendo um convite, e quase no me deixou ir. Ainda bem que ela no me viu
entrar no rabeco com a velha p de jardim de minha me. Isso chamaria
ateno.
     Eu estava feliz por sair de casa, por qualquer razo, mesmo que essa
razo envolvesse violao de tmulo. Depois do dia de Ao de Graas, meu
pai tinha se fechado no escritrio, e desde que Macon e Amma tinham nos
visto na Lunae Libri, a nica interao de Amma comigo era um olhar de
reprovao.
     Lena e eu no tnhamos permisso de voltar  Lunae Libri, pelo menos
no nos prximos 68 dias. Macon e Amma pareciam no querer nos ver
caando mais informaes do que planejavam fornecer.
     -- Depois do dia 11 de fevereiro, vocs podem fazer o que quiserem --
tinha resmungado Amma. -- At l, vocs podem fazer o que todas as pessoas
da sua idade fazem. Ouvir msica. Ver televiso. Apenas mantenham o nariz
longe daqueles livros.
    Minha me teria rido da ideia de eu no ter permisso para ler um livro.
As coisas obviamente tinham ficado bem ruins por aqui.
    Est pior aqui, Ethan. Boo at dorme no p da minha cama agora.
    Isso no me parece to ruim.
    Ele espera por mim na porta do banheiro.
    Isso  s Macon sendo Macon.
     uma priso domiciliar.
     Era mesmo, e ns dois sabamos.
     Tnhamos que achar O Livro das Luas, e ele tinha que estar com
Genevieve. Era mais do que possvel que Genevieve tivesse sido enterrada em
Greenbrier. Havia algumas lpides desgastadas na clareira logo ao lado do
jardim. Dava para v-las da pedra onde costumvamos sentar, que tinha sido
a pedra da lareira da casa. Nosso lugar, era como eu pensava, mesmo nunca
tendo falado sobre isso. Genevieve tinha que estar enterrada l, a no ser que
tivesse se mudado depois da Guerra, mas ningum nunca ia embora de
Gatlin.
     Eu sempre pensei que eu seria o primeiro.
     Mas agora que eu sara de casa, como ia encontrar um livro perdido de
Conjurao que podia ou no salvar a vida de Lena, que podia ou no estar
enterrado no tmulo de uma ancestral Conjuradora amaldioada, que podia
ou no ser na casa ao lado da casa de Macon Ravenwood? Sem o tio dela me
ver, me parar ou me matar antes?
     O resto era com Lena.




-- Que espcie de projeto escolar exige que se visite um cemitrio  noite? --
perguntou tia Del, tropeando em um emaranhado de vinhas. -- Minha
nossa!
     -- Mame, cuidado.
     Reece passou o brao pelo da me, ajudando-a a caminhar pela
vegetao. Tia Del tinha dificuldade em andar por a sem esbarrar em tudo 
luz do dia, mas no escuro era pedir demais.
     -- Temos que fazer uma cpia da lpide de um dos nossos ancestrais.
Estamos estudando genealogia. -- Bem, isso era meio verdade.
     -- Por que Genevieve? -- perguntou Reece, olhando com desconfiana.
     Reece olhou para Lena, mas Lena imediatamente virou o rosto. Lena
     tinha me avisado para no deixar Reece ver meu rosto. Pelo que ela
disse, um olhar era suficiente para uma Sibila saber se a gente estava
mentindo. Mentir para uma Sibila era ainda mais difcil do que mentir para
Amma.
     --  ela no quadro, no hall. S achei que seria legal us-la. No temos
um grande cemitrio familiar para escolher, como a maioria das pessoas
daqui.
     A msica hipntica Conjuradora da festa estava comeando a sumir com
a distncia, substituda pelo som de folhas secas sendo esmagadas por nossos
ps. Tnhamos ido at Greenbrier. Estvamos chegando perto. Estava escuro,
mas a lua cheia brilhava tanto que nem precisvamos das lanternas. Me
lembrei do que Amma disse para Macon no cemitrio. A meia-lua  para
fazer magia Branca, e a lua cheia  para fazer magia Negra. No amos fazer
magia alguma, eu esperava, mas isso no tornava tudo menos assustador.
     -- Acho que Macon no ia querer que andssemos por aqui no escuro.
Voc disse para ele onde estvamos indo? -- Tia Del estava apreensiva. Ela
puxou a gola da blusa de renda de gola alta.
     -- Eu disse que amos dar uma volta. Ele s me pediu que ficasse com
vocs.
     -- No sei se estou em boa forma para isso. Odeio admitir, mas estou
meio sem flego. -- Tia Del estava ofegante, e o cabelo ao redor do seu rosto
tinha escapado do coque sempre meio descentralizado.
     Ento senti o aroma familiar.
     -- Chegamos.
     -- Graas a Deus.
     Andamos at a parede de pedra em runas do jardim, onde eu tinha
encontrado Lena chorando no dia em que a janela se quebrou. Me abaixei
sob o arco de vinhas e entrei no jardim. Parecia diferente  noite, menos um
local para olhar as nuvens e mais um lugar onde uma Conjuradora
amaldioada estaria enterrada.
     aqui, Ethan. Ela est aqui. Posso sentir.
    Eu tambm.
    Onde voc acha que est o tmulo dela?
     Enquanto passvamos pela pedra onde achei o medalho, pude ver outra
pedra a alguns metros a frente na clareira. Uma lpide, com uma imagem
difusa sentada em cima.
     Ouvi Lena ofegar, apenas alto o bastante para que eu ouvisse.
    Ethan, voc consegue v-la?
    Consigo.
     Genevieve. Estava apenas parcialmente materializada, uma mistura de
nvoa e luz, aparecendo e desaparecendo quando o ar passava pela forma
fantasmagrica, mas no havia como confundir. Era Genevieve, a mulher do
quadro. Tinha os mesmos olhos dourados e cabelo ruivo longo e ondulado.
Seu cabelo voava levemente com o vento, como se ela fosse apenas uma
mulher sentada em um banco no ponto de nibus, em vez de uma apario
sentada em uma lpide no cemitrio. Era bonita, mesmo no presente estado,
e assustadora ao mesmo tempo. Os cabelos da minha nuca se eriaram.
     Talvez fazer isso fosse errado.
     Tia Del ficou paralisada. Ela via Genevieve tambm, mas era claro que
achava que mais ningum conseguia ver. Provavelmente pensou que a
apario era o resultado de ver muitos momentos ao mesmo tempo, as
imagens desorganizadas desse lugar em vinte dcadas diferentes.
     -- Acho que devamos voltar para casa. No estou me sentindo muito
bem. -- Tia Del obviamente no queria interagir com um fantasma de 150
anos em um cemitrio de Conjuradores.
     Lena tropeou em uma vinha frouxa e caiu. Eu a peguei pelo brao para
segur-la, mas no fui rpido o bastante.
     -- Voc est bem?
     Ela se recuperou e olhou para mim por uma frao de segundo, mas
uma frao de segundo foi tudo de que Reece precisou. Ela viu os olhos de
Lena, o rosto, a expresso, seus pensamentos dela.
     -- Mame, eles esto mentindo! No esto fazendo trabalho de histria
nenhum. Esto procurando alguma coisa. -- Reece colocou uma mo na
tmpora como se estivesse ajustando uma pea do equipamento. -- Um livro!
     Tia Del parecia confusa, at mais confusa do que costumava parecer.
     -- Que tipo de livro se procuraria num cemitrio?
     Lena se libertou do olhar de Reece e do controle dela.
     --  um livro que pertenceu a Genevieve.
     Abri a sacola que carregava e tirei a p. Andei at o tmulo lentamente,
tentando ignorar o fato de que o fantasma de Genevieve estava me
observando o tempo todo. Talvez eu acabasse atingido por um raio ou algo
assim; no me surpreenderia. Mas tnhamos ido at ali. Enfiei a p no cho,
tirando um pouco de terra.
     -- Ah, Grande Me! Ethan, o que voc est fazendo? -- Pelo visto, cavar
um tmulo tinha trazido tia Del de volta ao presente.
     -- Estou procurando o livro.
     -- A? -- Tia Del parecia que ia desmaiar. -- Que tipo de livro estaria a?
     --  um livro de Conjuraes, um bem antigo. Nem sabemos se est a.
 s um palpite -- disse Lena, olhando para Genevieve, que ainda estava
sentada na lpide a meio metro de distncia.
     Tentei no olhar para Genevieve. Era perturbador o modo como o
corpo dela sumia e aparecia, e ela nos observava com aqueles olhos dourados
de gato apavorantes, vazios e sem vida como se fossem feitos de vidro.


O cho no era to duro, principalmente considerando que estvamos em
dezembro. Em poucos minutos, eu j havia cavado meio metro. Tia Del
andava de um lado para o outro, com expresso preocupada. De vez em
quando ela se virava para ter certeza de que nenhum de ns estava olhando,
depois olhava para Genevieve. Pelo menos eu no era o nico apavorado por
causa do fantasma dela.
    -- Devamos voltar. Isso  repulsivo -- disse Reece, tentando olhar nos
meus olhos.
    -- No seja to certinha -- disse Lena, ajoelhando perto do buraco.
     Reece consegue v-la?
     Acho que no. S no olhe nos olhos dela.
     E se Reece ler o rosto de tia Del?
     Ela no consegue. Ningum consegue. Tia Del v muita coisa de uma
vez s. Ningum alm de um Palimpsesto consegue processar toda aquela
informao e entend-la.
    -- Mame, voc vai mesmo deixar que eles cavem um tmulo?
    -- Pelo amor das estrelas, isso  ridculo. Vamos parar com essa tolice
agora e voltar para a festa.
    -- No podemos. Temos que saber se o livro est aqui. -- Lena se virou
para tia Del. -- Voc podia nos mostrar.
      De que voc est falando?
      Ela pode nos mostrar o que tem l embaixo. Ela consegue projetar o que
v.
     -- No sei. Macon no ia gostar. -- Tia Del mordia o lbio, nervosa.
     -- Voc acha que ele prefere que a gente cave um tmulo? -- respondeu
Lena.
     -- Est bem, est bem. Saia desse buraco, Ethan.
     Sa do buraco, limpando as mos na cala. Olhei para Genevieve. Ela
tinha uma expresso peculiar no rosto, quase como se estivesse interessada em
ver o que ia acontecer, ou talvez estivesse apenas prestes a nos vaporizar.
     -- Todos vocs, sentem-se. Isso pode deix-los tontos. Se por acaso se
sentirem enjoados, coloquem a cabea entre os joelhos -- instruiu tia Del,
como uma espcie de comissria de bordo sobrenatural. -- A primeira vez 
sempre a mais difcil. -- Tia Del esticou os braos para que dssemos as mos.
     -- No acredito que voc est tomando parte nisso, mame.
     Tia Del tirou a presilha do coque, deixando o cabelo cair em torno dos
ombros.
     -- No seja to certinha, Reece.
     Reece revirou os olhos e pegou minha mo. Olhei para Genevieve. Ela
olhou bem para mim, para dentro de mim, e levou um dedo aos lbios como
se pedisse silncio.
     O ar comeou a se dissolver ao redor de ns. Ento estvamos girando
como um daqueles brinquedos de parque em que nos prendem na parede e o
troo todo roda to rpido que voc pensa que vai vomitar.
     E ento, imagens...
     Uma depois da outra, abrindo e fechando como portas. Uma depois da
outra, segundo aps segundo.
     Duas garotas de vestidos brancos correndo na grama, de mos dadas,
rindo. Laos amarelos nos cabelos.
     Outra porta se abriu.
     Uma jovem com pele cor de caramelo, pendurando roupas em um varal,
cantarolando baixinho, a brisa levantando os lenis ao vento. A mulher se
vira em direo a uma grande casa de estilo federal e grita: "Genevieve!
Evangeline"
    E outra.
    Uma jovem andando pela clareira ao anoitecer. Ela olha para trs para
ver se algum a est seguindo, cabelo vermelho balanando atrs de si.
Genevieve. Ela corre para os braos de um rapaz alto e magro, um rapaz que
podia ser eu. Ele se inclina e a beija. "Eu amo voc, Genevieve. E um dia
vamos nos casar. No ligo para o que sua famlia diz. No pode ser
impossvel."
   Ela toca os lbios dele com doura. "Shh. No temos muito tempo."
     A porta se fecha e outra abre.
     Chuva, fumaa e som de fogo estalando, comendo, respirando.
Genevieve est parada na escurido; fumaa negra e lgrimas mancham o
rosto. H um livro encapado de couro preto na mo dela. No tem ttulo, s
uma lua crescente em alto relevo na capa. Ela olha para a mulher, a mesma
que estava pendurando roupas no varal. Ivy. "Por que no tem nome?" Os
olhos da velha senhora esto cheios de medo. "S porque um livro no tem
ttulo, no significa que no tenha nome. Esse a  o Livro das Luas."
     A porta se fecha.
     Ivy, mais velha e mais triste, parada em frente a um tmulo recm-cava-
do, com uma caixa de pinho no fundo do buraco. "Apesar de eu andar pelo
vale das sombras e da morte, no tenho medo do mal." Havia uma coisa em
sua mo. O Livro, couro preto com a lua crescente na capa. "Leve isso com
voc, Srta. Genevieve. Para que no cause mal a mais ningum." Ela joga o
livro no buraco junto com o caixo.
     Outra porta.
     Ns quatro sentados ao redor do buraco meio cavado, e abaixo da terra,
to longe que s podemos ver com a ajuda de Dei, a caixa de pinho. O Livro
est sobre ela. Mais abaixo, dentro do caixo, o corpo de Genevieve, repousa
na escurido. Os olhos dela esto fechados, a pele parece porcelana, como se
ela ainda respirasse, perfeitamente preservada de um modo que nenhum
cadver poderia estar. O cabelo longo ruivo cai pelos ombros.
     A viso volta para cima, saindo do cho. Volta para ns quatro, sentados
em volta do tmulo meio cavado, de mos dadas. De volta para a lpide e a
imagem fraca de Genevieve, olhando para ns.
     Reece gritou. A ltima porta bateu.
Tentei abrir meus olhos, mas estava tonto. Dei estava certa, eu sentia como se
fosse vomitar. Tentei me orientar, mas meus olhos no entravam em foco.
Senti Reece largar minha mo, se afastando de mim e tentando se afastar de
Genevieve e de seu olhar dourado apavorante.
    Voc est bem?
    Acho que sim.
     A cabea de Lena estava entre os joelhos.
     -- Est todo mundo bem? -- perguntou tia Del, a voz firme e segura. Tia
Del no parecia mais to confusa e desajeitada agora. Se eu tivesse que ver
tudo isso toda vez que olhasse para alguma coisa, desmaiaria ou
enlouqueceria.
     -- No consigo acreditar que  isso que voc v -- falei, olhando para
Dei, meus olhos finalmente comeando a se ajustar.
     -- O dom de uma Palimpsesta  uma grande honra e um grande peso.
     -- O Livro est l embaixo -- confirmei.
     --  verdade, mas parece que ele pertence a esta mulher -- disse Dei,
gesticulando na direo da apario de Genevieve -, que vocs dois no
parecem particularmente surpresos de ver.
     -- Ns a vimos antes -- admitiu Lena.
     -- Bem, ento ela decidiu se revelar a vocs. Ver os mortos no  um dos
dons de um Conjurador, mesmo uma Natural, e certamente no est entre os
talentos de um Mortal. S se pode ver um morto se ele quiser.
     Eu estava com medo. No do jeito que fiquei nos degraus de
Ravenwood, nem do jeito que fiquei quando Ridley estava me congelando
vivo. Era diferente. Parecia mais o medo que sentia quando acordava dos
sonhos, e quando pensava em perder Lena. Era um medo paralisante. Do
tipo que sentimos quando nos damos conta de que o fantasma poderoso de
uma Conjuradora das Trevas est olhando para voc no meio da noite, vendo
voc cavar o tmulo dela para roubar um livro de cima do seu caixo. O que
eu estava pensando? O que estvamos fazendo vindo aqui, cavando um
tmulo na lua cheia?
     Voc estava tentando consertar um erro. Havia uma voz na minha
cabea, mas no era de Lena.
     Me virei para Lena. Ela estava plida. Reece e tia Del estavam olhando
para o que restava de Genevieve. Podiam ouvi-la tambm. Olhei para os
olhos dourados brilhantes enquanto imagem dela oscilava. Ela parecia sentir
o que tnhamos vindo fazer aqui.
     Pegue-o.
     Olhei para Genevieve, inseguro. Ela fechou os olhos e assentiu
levemente.
     -- Ela quer que a gente pegue o Livro -- disse Lena. Acho que eu no
estava ficando louco.
     -- Como sabemos que podemos confiar nela? -- Ela era uma
Conjuradora das Trevas, afinal. Com os mesmos olhos dourados de Ridley.
     Lena olhou de volta para mim, com um brilho de excitao no olhar.
     -- No sabemos.
     S havia uma coisa a fazer.
     Cavar.




O Livro era exatamente como nas vises, de couro preto rachado, com uma
pequena lua crescente em relevo. Cheirava a desespero e era pesado, no
apenas fsica, mas psiquicamente. Era um livro das Trevas; eu sabia s pelos
segundos em que o segurei, antes de queimar as pontas dos meus dedos. Senti
que o Livro roubava um pouco da minha respirao cada vez que eu
inspirava.
     Estiquei o brao para fora do buraco, erguendo-o acima da cabea. Lena
o pegou da minha mo e sa do buraco. Eu queria sair dali o mais rpido
possvel. No tinha esquecido que estava em cima do caixo de Genevieve.
     Tia Del ofegou.
     -- Grande Me, eu nunca pensei que fosse v-lo. O Livro das Luas.
Tenham cuidado. Esse livro  velho como o tempo, talvez at mais. Macon
nunca vai acreditar que ns...
     -- Ele nunca vai saber. -- Lena limpou a terra da capa gentilmente.
     -- Agora voc realmente enlouqueceu. Se voc acha ao menos por um
minuto que no vamos contar ao tio Macon... -- Reece cruzou os braos
como uma bab irritada.
     Lena ergueu o livro mais alto, em frente do rosto de Reece.
     -- Sobre o qu?
     Lena olhava para Reece do mesmo modo que Reece tinha olhado nos
olhos de Ridley na Reunio, seriamente, com determinao. A expresso de
Reece mudou; ela parecia confusa, quase desorientada. Olhava para o Livro,
mas era como se ela no pudesse v-lo.
     -- O que h para contar, Reece?
     Recce fechou os olhos com fora, como se estivesse tentando afastar um
sonho ruim. Abriu a boca para dizer alguma coisa, depois a fechou de
repente. Uma sombra de sorriso se insinuou no rosto de Lena enquanto ela se
virava lentamente na direo da tia.
     -- Tia Del?
     Tia Del parecia to confusa quanto Reece, que era como ela parecia
estar a maior parte do tempo, de qualquer maneira, mas alguma coisa estava
diferente. E ela no respondeu a Lena tambm.
     Lena se virou um pouco e colocou o Livro em cima da minha bolsa.
Quando fez isso, vi fagulhas verdes em seus olhos e seu cabelo se moveu,
como se preso  luz da lua; a brisa Conjuradora. Era quase como se eu
pudesse ver a magia se revolvendo em torno dela no escuro. Eu no entendia
o que estava acontecendo, mas as trs pareciam presas em uma conversa
escura e sem palavras que eu no conseguia ouvir nem entender.
     E ento acabou. A luz da lua voltou a ser a luz da lua, e a noite voltou a
ser noite. Olhei para alm de Reece, para a lpide de Genevieve. Ela no
estava mais l, como se nunca tivesse estado.
     Reece mudou de posio, e sua expresso hipcrita tradicional voltou.
     -- Se voc acha ao menos por um minuto que no vamos contar ao tio
Macon que voc nos arrastou at um cemitrio sem nenhuma boa razo, por
causa de um trabalho idiota de escola que voc acabou nem fazendo...
     De que diabos ela estava falando? Mas Reece estava falando srio. Ela
no se lembrava do que tinha acabado de acontecer tanto quanto eu no
entendia.
    O que voc acabou de fazer?
    Tio Macon e eu temos praticado.
     Lena fechou o zper da minha bolsa com o Livro dentro.
     -- Eu sei. Desculpe.  que esse lugar  muito assustador  noite. Vamos
sair daqui.
    Reece se virou na direo de Ravenwood, arrastando tia Del atrs de si.
    -- Voc  to medrosa.
    Lena piscou para mim.
     Praticando o qu? Controle da mente?
     Pequenas coisas. Jogar pedrinhas com a fora da mente. Iluses
interiores. Feitios do tempo, mas esses so difceis.
     Isso foi fcil?
     Removi o Livro das mentes delas. Acho que se pode dizer que o apaguei.
Elas no vo se lembrar, porque, na realidade delas, nunca aconteceu.
     Eu sabia que precisvamos do Livro. Sabia por que Lena precisava. Mas
de alguma forma parecia que um limite havia sido cruzado, e agora eu no
sabia onde estvamos e nem se ela poderia voltar para o ponto onde eu
estava. Onde ela costumava estar.
     Reece e tia Del j estavam de volta ao jardim. Eu no precisava ser uma
Sibila para saber que Reece queria sair de l imediatamente. Lena comeou a
segui-las, mas alguma coisa me interrompeu.
    L, espere.
     Andei de volta at o buraco e enfiei a mo no bolso. Abri o leno com as
iniciais familiares e ergui o medalho em sua corrente. Nada. Nenhuma
viso, e alguma coisa me disse que no haveria mais nenhuma. O medalho
tinha nos trazido aqui, nos mostrou o que precisvamos ver.
     Segurei o medalho sobre o tmulo. Parecia a coisa certa, uma troca
justa. Eu estava prestes a soltar quando ouvi a voz de Genevieve de novo,
mais suave desta vez.
    No. No tem que ficar comigo.
     Olhei de volta para a lpide. Genevieve estava l de novo, o que restava
dela rompendo o nada cada vez que o vento soprava por ela. J no parecia
to assustadora.
     Ela parecia arrasada. Como as pessoas ficavam quando perdiam a nica
pessoa que amavam.
     Eu entendi.
                            p 8 de dezembro p
                            At a cintura
                                     d
Q
      uando nos metemos em encrencas, h um ponto em que ela  tanta que
      a ameaa de mais encrenca nem  mais ameaa. Em determinado
      momento, mergulhamos to fundo que no temos escolha alm de nadar
      no meio, se  que h chance de chegar ao outro lado. Era o tipo clssico
de lgica de Link, mas eu comeava a ver a lgica daquilo. Talvez no seja
possvel entender at que se esteja enterrado em encrenca at a cintura.
      No dia seguinte, era assim que ns estvamos, Lena e eu. Profundamente
envolvidos. Comeou com a falsificao de um bilhete com um dos lpis n 2
de Amma, depois matando aula para ler um livro roubado que no
deveramos ter pegado, e terminou com um monte de mentiras para ganhar
pontos extras em um "trabalho" que estvamos fazendo juntos. Eu tinha
certeza de que Amma ia nos pegar dois segundos depois que eu dissesse as
palavras pontos extras, mas ela estava ao telefone com minha tia Caroline
discutindo a "condio" do meu pai.
      Me senti culpado por todas as mentiras, sem mencionar o roubo a
falsificao e o apagar de mentes, mas no havia tempo para a escola;
tnhamos muito estudo de verdade para fazer.
      Porque tnhamos O Livro das Luas. Era real. Eu poderia segur-lo nas
minhas mos...
      -- Ai!
      Queimou minha mo, como se eu tivesse tocado em um fogo quente. O
Livro caiu no cho do quarto de Lena. Boo Radley latiu de algum lugar da
casa. Eu podia ouvir as patas enquanto ele subia as escadas, vindo em nossa
direo.
     -- Porta. -- Lena falou sem tirar os olhos de um velho dicionrio de
latim. A porta do quarto se fechou assim que Boo chegou ao segundo andar.
Ele protestou com um latido ressentido. -- Fique fora do meu quarto, Boo.
No estamos fazendo nada. Vou comear a treinar.
     Olhei para a porta, surpreso. Outra aula de Macon, pensei. Lena nem
reagiu, como se tivesse feito aquilo milhares de vezes. Era como o que ela
tinha feito com Reece e tia Del na noite anterior. Eu estava comeando a
pensar que quanto mais perto chegssemos do aniversrio dela, mais a
Conjuradora tomaria o lugar da menina.
     Eu estava tentando no reparar. Mas quanto mais tentava, mais eu
reparava.
     Ela olhou para mim, que estava esfregando as mos no jeans. Elas ainda
doam.
     -- Que parte sobre "no se pode tocar se no for Conjurador" voc no
entendeu?
     -- Certo. Essa parte.
     Ela abriu um estojo surrado e tirou a viola.
     -- So quase cinco da tarde. Tenho que comear a treinar ou tio Macon
vai saber quando acordar. Ele sempre sabe.
     -- O qu? Agora?
     Ela sorriu e se sentou numa cadeira no canto do quarto. Ajustou o
instrumento contra o queixo, pegou o arco e com ele tocou nas cordas. Por
um momento ela no se moveu, fechando os olhos como se estivssemos
numa filarmnica em vez de sentados em seu quarto. E comeou a tocar. A
msica rastejou das mos dela e se espalhou no quarto, movendo pelo ar
como outro dos seus poderes no-descobertos. As cortinas brancas da janela
comearam a se mexer, e ouvi a msica...

                 Dezesseis luas, dezesseis anos,
                 A Lua Invocadora, a hora se aproxima,
                 Nessas pginas a Escurido clareia,
                 Poderes Enfeitiam o que o fogo queima.

    Enquanto eu observava, Lena deslizou da cadeira e, cuidadosamente,
colocou a viola de arco onde ela estava sentada antes. No estava tocando
mais, mas a msica ainda flua do instrumento. Ela apoiou o arco na cadeira
e se sentou ao meu lado no cho.
    Shh.
    Isso  treinar?
     -- Tio M parece no perceber a diferena. E olhe... -- Ela apontou para
a porta, onde eu podia ver uma sombra e ouvir batidas rtmicas. O rabo de
Boo. -- Ele gosta, e eu gosto de t-lo em frente  minha porta. Pense que 
uma espcie de alarme antiadulto. -- Ela tinha razo.
     Lena se ajoelhou perto do Livro e o pegou facilmente nas mos. Quando
ela abriu as pginas de novo, vimos a mesma coisa que tnhamos visto o dia
todo. Centenas de Conjuros, listas cuidadosas escritas em ingls, latim, gals e
outras lnguas. Eu nunca tinha visto nada parecido antes. As pginas marrons
finas eram frgeis, quase transparentes. O pergaminho estava coberto de tinta
marrom, em uma caligrafia antiga e delicada. Pelo menos eu esperava que
fosse tinta.
     Ela bateu o dedo na estranha escrita e me passou o dicionrio de latim.
     -- No  latim. Veja voc mesmo.
     -- Acho que  gals. Voc j viu alguma coisa assim antes? -- Apontei
para a caligrafia rebuscada.
     -- No. Talvez seja alguma espcie de lngua de Conjuradores.
     -- Pena que no temos um dicionrio de Conjuradores.
     -- Temos, quero dizer, meu tio deve ter. Ele tem centenas de livros de
Conjuradores na biblioteca dele. No  nenhuma Lunae Libri, mas
provavelmente tem o que procuramos.
     -- Quanto tempo temos at ele acordar?
     -- No o bastante.
     Puxei a manga do meu moletom sobre a palma da mo e usei para pegar
o livro, como se estivesse usando uma das luvas de forno de Amma. Folheei as
pginas finas; elas se dobravam ruidosamente sob meu toque como se fossem
feitas de folhas secas em vez de papel.
     -- Alguma dessas coisas tm significado pra voc?
     Lena sacudiu a cabea.
     -- Na minha famlia, antes de voc ser Invocada, voc no tem
permisso para saber de nada. -- Ela fingiu meditar sobre as pginas. -- Para
o caso de ir para as Trevas, acho. -- Eu sabia o bastante para no perguntar
mais nada.
     Pgina depois de pgina, no havia nada que pudssemos nem comear
a entender. Havia figuras, algumas assustadoras, outras bonitas. Criaturas,
smbolos, animais, at as faces com aparncia humana de alguma maneira
conseguiam parecer qualquer coisa menos humanas no Livro das Luas. Aos
meus olhos, era como uma enciclopdia de outro planeta.
     Lena puxou o Livro para o colo.
     -- Tem tanta coisa que no sei, e  tudo to...
     -- Esquisito?
     Me reclinei na cama dela, olhando para o teto. Havia palavras em todo
canto, novas palavras, e nmeros. Eu podia ver a contagem regressiva, os
nmeros escritos na parede do quarto como acontece em uma cela de priso.
     100, 78, 50...
     Quanto tempo mais conseguiramos ficar assim? O aniversrio de Lena
estava chegando, e seus poderes pareciam aumentar. E se ela estivesse certa, e
se Lena se tornasse algo irreconhecvel, algo to das Trevas que ela nem
ligaria para mim e nem me reconheceria? Olhei para a viola de arco no canto
at que eu no queria mais v-la. Fechei os olhos e ouvi a melodia
Conjuradora. E ento escutei a voz de Lena...
     -- "...AT QUE O ESCURECER TRAGA A HORA DA
INVOCAO, NA DCIMA- SEXTA LUA, QUANDO A PESSOA DE
PODER TEM A LIBERDADE DE ESCOLHA E AO PARA
CONJURAR A ESCOLHA FINAL, NO FIM DO DIA, OU NO LTIMO
MOMENTO DA LTIMA HORA, SOB A LUA INVOCADORA..."
     Olhamos um para o outro.
     -- Como voc...? -- Olhei por sobre o ombro dela. Ela virou a pgina.
     --  ingls. Estas pginas esto escritas em ingls. Algum comeou a
traduzi-las, aqui atrs. V como a tinta  de cor diferente?
     Ela estava certa. At as pginas em ingls deviam ter centenas de anos. A
pgina estava escrita em outra caligrafia elegante, mas no era a mesma
caligrafia, e no estava escrita com mesma tinta marrom, ou fosse l o que
fosse.
     -- V para o final.
     Ela ergueu o Livro, e foi lendo:
     -- "A INVOCAO, DEPOIS DE CONCLUDA, NO PODE SER
DESFEITA, A
     ESCOLHA, UMA VEZ CONJURADA, NO PODE SER
RECONJURADA. A PESSOA DE PODER CAI NAS GRANDES
TREVAS OU NA GRANDE LUZ PARA TODO O SEMPRE. SE O
TEMPO PASSA E A LTIMA HORA DA DCIMA-SEXTA LUA PASSA
SEM A ESCOLHA, A ORDEM DAS COISAS  DESFEITA. ISSO NO
PODE ACONTECER. O LIVRO VAI ENFEITIAR TUDO QUE EST
DESENFEITIADO, POR TODOS OS TEMPOS."
     -- Ento no tem mesmo como contornar esse negcio de Invocao?
     -- E o que tenho tentado explicar a voc.
     Olhei aquelas palavras que no me levavam nem um pouco mais para
perto da compreenso.
     -- Mas o que acontece exatamente durante a Invocao? Essa Lua
Invocadora manda algum tipo de raio Conjurador ou algo assim?
     Ela passou os olhos pela pgina.
     -- No diz exatamente. S sei que acontece sob a lua,  meia-noite...
"NO MEIO DA GRANDE ESCURIDO E SOB A GRANDE LUZ, DE
ONDE TODOS NS VIEMOS." Mas pode acontecer em qualquer lugar.
No  nada que se possa ver, apenas acontece. No h nenhum raio
Conjurador envolvido.
     -- Mas o que acontece exatamente? -- Eu queria saber tudo, e ainda
sentia que ela estava escondendo alguma coisa. Ela mantinha os olhos na
pgina.
     -- Para a maioria dos Conjuradores,  uma coisa consciente, como diz
aqui. A Pessoa de Poder, o Conjurador, Conjura a Escolha Eterna. Escolhem
se querem se Invocar da Luz ou das Trevas.  disso que se trata a liberdade
de ao e escolha, como os Mortais escolhem serem bons ou maus, s que os
Conjuradores fazem a escolha para sempre. Escolhem a vida que querem ter,
o modo como vo interagir com o universo da magia, e uns com os outros. 
um acordo que fazem com o mundo natural, com a Ordem das Coisas. Sei
que parece loucura.
     -- Quando se tem 16 anos? Como algum pode saber quem  e quem
quer ser para o resto da vida com 16 anos?
     -- , bem, esses so os sortudos. Eu no tenho escolha.
     Quase no consegui pronunciar a pergunta seguinte.
     -- Ento o que vai acontecer a voc?
     -- Reece diz que voc apenas muda. Acontece em um segundo, como
uma batida de corao. Voc sente uma energia, uma fora passando por seu
corpo, quase como se estivesse vivo pela primeira vez. -- Ela parecia triste. --
Pelo menos foi o que Reece disse.
     -- Isso no parece to ruim.
     -- Reece descreveu como um calor devastador. Disse que sentiu como se
o sol brilhasse nela e em mais ningum. E que, naquele momento, voc
simplesmente sabe qual caminho tinha sido escolhido para voc. -- Parecia
fcil demais, indolor demais, como se ela estivesse deixando alguma parte de
fora. Como a parte sobre como era a sensao quando um Conjurador ia
para as Trevas. Mas eu no queria falar mais, mesmo sabendo que ns dois
estvamos pensando naquilo.
    Simples assim?
    Simples assim. No di nem nada, se  o que preocupa voc.
    Essa era uma das coisas com as quais eu me preocupava, mas no era a
nica.
    No estou preocupado.
    Nem eu.
     E desta vez, fizemos questo de afastar o que estvamos pensando, at
para ns mesmos.
     O sol se deslocou pelo tapete tranado no cho do quarto de Lena, a luz
laranja transformando todas as cores das linhas em centenas de tons de
dourado diferentes. Por um momento, o rosto de Lena, os olhos, o cabelo,
tudo que a luz tocava se transformava em ouro. Ela era bonita, fosse a cem
anos ou a cem quilmetros de distncia, e assim como os rostos no Livro, de
alguma forma no to humana.
     -- O pr do sol. Tio Macon vai levantar a qualquer minuto. Temos que
guardar o Livro. -- Ela o fechou e colocou dentro da minha bolsa. -- Leve.
Se meu tio achar, vai tentar esconder de mim, assim como todo o resto.
     -- S no consigo entender o que ele e Amma esto escondendo. Se toda
essa coisa vai acontecer e no h nada que ningum possa fazer para impedir,
por que no nos contam tudo?
     Ela no olhava para mim. Puxei-a para meus braos e ela apoiou a
cabea no meu peito. No disse uma palavra, mas entre duas camadas de
camisas e moletons, eu ainda podia sentir o corao dela batendo contra o
meu.
     Ela olhou para a viola at que a msica foi parando, aos poucos, como o
sol na janela.




No dia seguinte na escola, estava claro que ramos as nicas pessoas
pensando em qualquer coisa que tivesse a ver com qualquer tipo de livro.
Nenhuma mo foi levantada em nenhuma aula, a no ser que algum
precisasse de permisso para ir ao banheiro. Nenhuma caneta tocou um
pedao de papel, a no ser que fosse para escrever um bilhete sobre quem
tinha sido convidado, quem no tinha a menor chance de ser convidado e
quem j tinha levado fora.
     Dezembro significava s uma coisa na Jackson High: o baile de inverno.
Estvamos no refeitrio quando Lena tocou no assunto pela primeira vez.
     -- Voc convidou algum para ir ao baile?
     Lena no estava familiarizada com a estratgia no to secreta de Link
de ir a todos os bailes sozinho para que pudesse flertar com a treinadora
Cross, a tcnica de atletismo das meninas. Link era apaixonado por Maggie
Cross, que tinha se formado cinco anos antes e voltou depois da faculdade
para se tornar a treinadora Cross desde que estvamos no quinto ano.
     -- No, gosto de fazer meus voos sozinho. -- Link sorriu, a boca cheia de
batatas.
     -- A treinadora Cross toma conta do baile, ento Link sempre vai
sozinho para poder ficar rondando-a a noite toda -- expliquei.
     -- No quero desapontar as damas. Elas vo lutar por mim depois que
algum batizar o ponche.
     -- Nunca fui a um baile de escola antes. -- Lena olhou para a bandeja
dela e mexeu no sanduche. Parecia quase desapontada.
     Eu no a tinha convidado para o baile. No tinha ocorrido a mim que
ela ia querer ir. Tinha tanta coisa acontecendo entre ns, e cada uma delas
era to mais importante que um baile de escola.
     Link olhou para mim. Ele tinha me avisado que isso ia acontecer. "Toda
garota quer ser convidada para o baile, cara. No tenho ideia do motivo, mas
at eu sei disso." Quem ia imaginar que Link podia mesmo estar certo,
considerando que o plano de mestre dele com a treinadora Cross nunca tinha
dado certo?
      Link bebeu o resto da Coca.
      -- Uma garota bonita como voc? Voc poderia ser Rainha da Neve2.
      Lena tentou sorrir, mas no chegou nem perto.
      -- O que  esse negcio de Rainha da Neve? Vocs no tm uma Rainha
do Baile como em todos os lugares?
      -- No. Esse  o baile de inverno, ento  uma Rainha do Gelo, mas a
prima da Savannah, Suzanne, ganhou todos os anos at se formar e
Savannah ganhou ano passado, ento todo mundo chama de Rainha da
Neve . -- Link esticou a mo e pegou uma fatia de pizza do meu prato.
      Era bem bvio que Lena queria ser convidada. Outra coisa misteriosa
sobre as garotas: elas querem ser convidadas para coisas, mesmo que no
queiram ir. Mas eu tinha a sensao de que esse no era o caso de Lena. Era
quase como se ela tivesse uma lista com o que imaginava que uma garota
normal tinha de fazer na escola e estava determinada a faz-las. Era loucura.
O baile era o ltimo lugar onde eu queria ir agora. No ramos as pessoas
mais populares na ]ackson ultimamente. Eu no me importava que todo
mundo olhasse quando a gente andava pelo corredor, mesmo se no
estivssemos de mos dadas. Eu no me importava que as pessoas
provavelmente estivessem dizendo coisas agora, coisas cruis, enquanto ns
trs estvamos sentados sozinhos na nica mesa vazia do refeitrio lotado, ou
que um clube inteiro de Anjos da Jackson estivesse patrulhando os corredores
s esperando que fizssemos besteira.
      Mas o problema  que, antes de Lena, eu teria me importado. Estava
comeando a me perguntar se talvez eu estivesse sob a influncia de algum
feitio.
         Eu no fao isso.
         Eu no disse que voc fazia.
         Acabou de dizer.
     Eu no disse que voc tinha Conjurado um feitio. Apenas disse que
talvez eu estivesse sob o efeito de um.

2
    O sobrenome de Savannah  Snow, o que significa neve em ingls.
    Acha que sou Ridley?
    Acho que... esquea.
     Lena examinou meu rosto com ainda mais ateno, como se estivesse
tentando l-lo. Talvez ela pudesse fazer isso tambm agora, considerando o
que eu j tinha visto.
    O qu?
   Aquilo que voc disse na manh depois do Halloween no seu quarto.
Voc estava falando srio, L?
    Que coisa?
    O escrito da parede.
    Que parede?
     A parede do seu quarto. No aja como se no soubesse do que estou
falando. Voc disse que estava se sentindo do mesmo jeito que eu.
     Ela comeou a mexer no cordo.
    No sei do que voc est falando.
    Gostar.
    Gostar?
    Gostar... voc sabe.
    O qu?
    Deixa pra l.
    Diga, Ethan.
    Acabei de dizer.
    Olhe pra mim.
    Estou olhando bem pra voc.
     Olhei para meu leite com achocolatado.
     -- Entendeu? Savannah Snow? Rainha da Neve? -- Link colocou sorvete
de baunilha em cima da batata frita.
     Lena viu meu olhar e ficou vermelha. Esticou a mo por baixo da mesa.
Peguei a mo dela, depois quase puxei a minha de to forte que foi o choque
quando encostei nela. Era mesmo como enfiar a mo numa tomada. Pelo
modo como ela me olhava, mesmo eu no ouvindo o que ela estava dizendo,
eu saberia.
    Se tem alguma coisa a dizer, Ethan, diga.
    . Isso.
    Diga.
     Mas no precisvamos dizer. Estvamos sozinhos, no meio do refeitrio
lotado, no meio de uma conversa com Link. Ns dois no tnhamos nem mais
ideia do que Link estava falando.
     -- Entendeu? S  engraado porque  verdade. Sabe, Rainha da Neve,
Savannah  exatamente assim.
     Lena soltou minha mo e jogou uma cenoura em Link. Ela no
conseguia parar de sorrir. Ele pensou que ela estava sorrindo para ele.
     -- T, entendi, Rainha da Neve. Ainda assim  idiota.
     Link enfiou o garfo na gororoba em sua bandeja.
     -- No faz sentido. Nem neva aqui.
     Link sorriu para mim sobre a batata frita com sorvete.
     -- Ela est com cimes. E melhor voc tomar cuidado. Lena s quer ser
eleita Rainha do Gelo para poder danar comigo quando me elegerem Rei do
Gelo.
     Sem conseguir se controlar, ela riu.
     -- Com voc? Pensei que voc estava se guardando para a tcnica de
atletismo.
     -- Estou, e esse vai ser o ano em que ela vai se apaixonar por mim.
     -- Link passa a noite toda tentando pensar em coisas divertidas para
dizer quando ela passa.
     -- Ela me acha engraado.
     -- Acha sua cara engraada.
     -- Esse  meu ano. Posso sentir. Vou ser Rei do Gelo esse ano, e a
treinadora Cross vai finalmente me ver no palco com Savannah Snow.
     -- No consigo ver como isso vai acontecer. -- Lena comeou a
descascar uma laranja.
     -- Ah, voc sabe, ela vai ficar encantada com minha aparncia e charme
e talento musical, especialmente se voc escrever uma msica pra mim. Ento
ela vai ceder e danar comigo e me seguir at Nova York depois da formatura
para ser minha groupie.
     -- O que  isso, um filme de sesso da tarde? -- A casca da laranja caiu
em espiral.
     -- Sua namorada acha que sou especial, cara. -- Batatas caam da boca
dele.
     Lena olhou para mim. Namorada. Ns dois o ouvimos falar.
     isso que sou?
     isso que voc quer ser?
    Voc est me perguntando alguma coisa?
     No era a primeira vez que eu pensava naquilo. Lena j parecia ser
minha namorada h algum tempo. Quando se levava em conta tudo que
tnhamos passado juntos, era meio que bvio. Ento no sei por que eu nunca
tinha falado, e no sei por que era to difcil dizer agora. Mas havia alguma
coisa em dizer as palavras que tornariam tudo mais real.
    Acho que estou.
    Voc no parece muito seguro.
    Peguei a outra mo dela embaixo da mesa e olhei em seus olhos verdes.
    Tenho certeza, L.
    Ento acho que sou sua namorada.
     Link ainda estava falando.
     -- Vocs vo achar que sou especial quando a treinadora Cross ficar
dando em cima de mim no baile. -- Link ficou de p e jogou fora o que
sobrou na bandeja.
     -- S no que minha namorada vai danar com voc. -- Joguei fora o
que sobrou na minha.
     Os olhos de Lena se iluminaram. Eu estava certo: ela no s queria que
eu convidasse, ela queria ir. Naquele momento, eu soube que no me
importava mais com o que estava na lista dela de coisas que uma garota
normal de escola deve fazer. Eu ia me certificar que ela fizesse tudo que
estava na lista.
     -- Vocs vo?
     Olhei para Lena com expectativa e ela apertou minha mo.
     -- , acho que sim.
     Dessa vez ela sorriu de verdade.
     -- E Link, que tal se eu danar com voc duas vezes? Meu namorado
no vai se importar. Ele jamais me diria com quem posso e no posso danar.
     Revirei os olhos. Link ergueu o punho e bati meus dedos fechados contra
os dele.
     -- , aposto que sim.
     O sinal tocou e o almoo acabou. Assim, de repente, eu no s tinha um
par para o baile de inverno, mas tambm uma namorada. E no apenas uma
namorada, pela primeira vez na minha vida quase usei a palavra que comea
com A. No meio do refeitrio, em frente a Link.
   Isso  que  almoo interessante.
                           p 13 de dezembro p
                           Derretendo
                                   d

--N
               o vejo por que ela no pode encontrar voc aqui. Eu estava
               esperando ver a sobrinha de Melchizedek toda arrumadinha
               com o vestido de baile.
     Eu estava parado na frente de Amma para ela poder amarrar minha
gravata borboleta. Amma era to baixa que precisava subir trs degraus da
escada para alcanar meu colarinho. Quando eu era criana, ela costumava
me pentear e arrumar minha gravata antes de irmos  igreja aos domingos.
Sempre parecia orgulhosa, e era assim que estava me olhando agora.
     -- Desculpe. No temos tempo para uma sesso de fotos. Vou peg-la em
casa. O cara tem que buscar a garota, lembra? -- Seria engraado,
considerando que eu ia peg-la com o Lata-Velha. Link ia pegar uma carona
com Shawn. Os caras do time ainda guardavam um lugar para ele na nova
mesa de almoo, apesar de ele normalmente sentar comigo e coro Lena.
     Amma puxou minha gravata e deu uma risada. No sei o que ela achava
to engraado, mas me irritou.
     -- Est apertada demais. Est me enforcando. -- Tentei enfiar um dedo
entre meu pescoo e o colarinho da roupa alugada do Buck's Tux, mas no
consegui.
     -- No  a gravata, voc est nervoso. Vai dar tudo certo. -- Ela me
examinou com aprovao, como eu imagino que minha me faria se estivesse
aqui. -- Agora me deixe ver essas flores.
     Peguei atrs de mim uma pequena caixa com uma rosa vermelha e flores
do campo em volta. Eu achava feio, mas no dava para conseguir nada muito
melhor da Gardens of Eden, a nica floricultura de Gatlin.
     -- As flores mais sem graa que j vi. -- Amma deu uma olhada e as
jogou na lata de lixo no p da escadaria. Ela me deu as costas e desapareceu
na cozinha.
     -- Por que voc fez isso?
     Ela abriu a geladeira e pegou um corsage de pulso, pequeno e deiicado.
Jasmim-estrela branco e alecrim selvagem, amarrados com um lao claro
prateado. Prateado e branco, as cores do baile de inverno. Era perfeito.
     Eu sabia que Amma no gostava do meu relacionamento com Lena, mas
ela tinha feito isso mesmo assim. Fizera por mim. Era algo que minha me
teria feito. S depois que minha me morreu, eu me dei conta do quanto
contava com Amma, do quanto sempre contara. Ela era a nica coisa que
tinha me mantido na superfcie. Sem ela, eu provavelmente teria me afogado,
como meu pai.
     -- Tudo tem um significado. No tente transformar uma coisa selvagem
em algo domado.
     Segurei o corsage perto da lmpada da cozinha. Senti a extenso do lao,
apalpando de leve com meus dedos. Debaixo do lao havia um pequeno osso.
     -- Amma!
     Ela deu de ombros.
     -- O qu, voc vai criar caso com um ossinho de cemitrio to pequeno
assim? Depois de tanto tempo crescendo nessa casa, depois de ver as coisas
que voc j viu, onde est seu juzo? Um pouco de proteo nunca fez mal a
ningum. Nem a voc, Ethan Wate.
     Suspirei e coloquei o corsage de volta na caixa.
     -- Tambm amo voc, Amma.
     Ela me deu um abrao de esmagar ossos, ento desci os degraus
correndo e entrei na noite.
     -- Tome cuidado, ouviu? No se deixe levar.
     Eu no tinha ideia do que Amma estava falando, mas sorri para ela
mesmo assim.
     -- Sim, senhora.
     A luz do escritrio do meu pai estava acesa quando me afastei dirigindo.
Me perguntei se ele ao menos sabia que hoje era o baile de inverno.
Quando Lena abriu a porta, meu corao quase parou, o que era algo
notvel, considerando que ela nem estava me tocando. Eu sabia que ela
estava como nenhuma outra das garotas do baile estaria hoje. S havia dois
tipos de vestido de baile no condado de Gatlin, e todos vinham de apenas
duas lojas: Little Miss, o fornecedor local de vestidos para desfiles, e Southern
Belle, a loja de noivas a duas cidades de distncia.
     As garotas que iam at o Little Miss usavam vestidos vulgares com rabo
de sereia, cheios de fendas, decotes generosos e lantejoulas; essas eram as
garotas com quem Amma jamais me deixaria ser visto num piquenique da
igreja, muito menos no baile de inverno. Eram as misses da cidade ou as
filhas de ex-misses, como Eden, cuja me tinha sido a primeira substituta da
Miss Carolina do Sul, ou, mais frequentemente, apenas as filhas de mulheres
que desejavam ter sido misses. Eram as mesmas garotas que em algum
momento veramos com bebs no colo na formatura da Jackson High School
em dois anos.
     Os vestidos da Southern Belle eram vestidos do estilo de Scarlett 0'Hara,
com formatos de sinos gigantes. As garotas Southern Belle eram as filhas das
senhoras do FRA e do Auxilio das Mulheres -- as Emily Asher e Savannah
Snow --, e voc podia lev-las a qualquer lugar se aguentasse tudo, se as
aguentasse e se aguentasse o modo como parecia que voc estava danando
com uma noiva em seu prprio casamento.
     Independentemente de quem estivesse usando, tudo era brilhoso, era
colorido e envolvia muitos acabamentos metlicos e um tom especfico de
laranja que chamavam de Pssego de Gatlin, que provavelmente era
exclusivo de vestidos brega de damas-de-honra em todos os outros lugares
menos no condado de Gatlin.
     Para os garotos, a presso era menos bvia, mas no era mais fcil.
Tnhamos que combinar, geralmente com nosso par, o que podia envolver o
temido Pssego de Gatlin. Neste ano, o time de basquete ia com gravatas
borboleta prateadas e faixas de cintura prateadas tambm, o que os poupava
da humilhao de gravatas borboleta rosa, roxa ou pssego.
     Lena certamente nunca tinha usado Pssego de Gatlin em toda sua vida.
Quando olhei pra ela, meus joelhos fraquejaram, uma sensao que estava
comeando a se tornar familiar. Estava to linda que doa.
    Uau.
    Gostou?
     Ela deu uma voltinha. Seu cabelo caa em cachos em torno dos ombros,
comprido e cascateando, preso com grampos brilhantes, de uma daquelas
formas mgicas que as garotas tm de fazer o cabelo parecer que deveria estar
preso, mas tambm meio solto. Eu queria passar meus dedos entre os fios,
mas no ousava toc-la, nem um fio de cabelo. O vestido de Lena caa sobre
o corpo, justo nos lugares certos, mas sem parecer coisa do Little Miss, em um
tecido prateado, to deiicado quanto uma teia de aranha prateada, tecida por
aranhas prateadas.
    Foi mesmo? Tecido por aranhas prateadas?
    Quem sabe? Pode ser. Foi um presente do tio Macon.
     Ela riu e me puxou para dentro de casa. At Ravenwood parecia refletir
o tema de inverno do baile. Hoje, o hall de entrada parecia com a Hollywood
antiga; o piso era preto e branco, quadriculado, e flocos de neve prateado
brilhavam, flutuando no ar sobre ns. Uma mesa laqueada preta estava em
frente s cortinas prateadas iridescentes, e mais para trs, eu podia ver uma
coisa que brilhava como o oceano, mesmo sabendo que no podia ser. Velas
bruxuleantes flutuavam acima da moblia, criando pequenas piscinas de luz
da lua para onde quer que eu olhasse.
     --  mesmo? Aranhas?
     Eu podia ver a luz das velas refletidas em seus lbios brilhantes. Tentei
no pensar nisso. Tentei no querer beijar o pequeno crescente na bochecha
dela. Um brilho prateado sutil cintilava em seus ombros, rosto e cabelo. At
mesmo a marca de nascena parecia estar prateada hoje.
     -- Estou brincando. Provavelmente  s uma coisa que ele achou em
uma lojinha em Paris ou Roma ou Nova York. Tio Macon gosta de coisas
bonitas. -- Ela tocou o medalho de prata em forma de lua crescente no
pescoo, acima da corrente de recordaes. Outro presente de Macon,
deduzi.
     A fala arrastada familiar veio do corredor escuro, acompanhada de uma
vela de prata.
     -- Budapeste, no Paris. Fora isso, me declaro culpado. -- Macon surgiu
usando palet com cala preta e uma camisa branca. Os botes prateados da
camisa brilhavam com a luz da vela.
     -- Ethan, eu teria grande apreo se voc pudesse ter todo cuidado do
mundo com minha sobrinha hoje. Como voc sabe, prefiro que ela fique em
casa  noite. -- Ele me entregou um corsage para Lena, um pequeno arranjo
de jasmim-estrela. -- Todo cuidado possvel.
     -- Tio M! -- Lena parecia irritada.
     Olhei para o corsage mais de perto. Um anel de prata estava pendurado
no alfinete que prendia as flores. Tinha uma inscrio em uma lngua que
no entendi, mas reconheci do Livro das Luas. Eu no precisava ver muito de
perto para saber que era o anel que ele usava dia e noite, at agora. Peguei o
corsage, era quase idntico ao de Amma. Considerando as centenas de
Conjuradores a quem o anel provavelmente devia ter pertencido e todos os
Grandes de Amma, no havia um esprito na cidade que mexeria conosco.
Eu esperava.
     -- Acho que, entre Amma e o senhor, Lena vai sobreviver sem
problemas ao baile de inverno da Jackson High.
     Eu sorri. Macon no.
     -- No  com o baile que me preocupo, mas fico agradecido a Amarie
mesmo assim.
     Lena franziu a testa, olhando do tio para mim. Talvez ns no
parecssemos ser os dois caras mais felizes da cidade.
     -- Sua vez. -- Ela pegou uma flor de lapela de cima da mesa, uma rosa
branca com um pequeno ramo de jasmim, e a prendeu no meu palet. --
Gostaria que vocs parassem de se preocupar por um minuto. Est ficando
constrangedor. Posso cuidar de mim mesma.
     Macon no pareceu convencido.
     -- Em todo caso, eu no ia querer que ningum se machucasse.
     Eu no sabia se ele estava se referindo s bruxas da Jackson High ou 
poderosa Conjuradora das Trevas, Sarafine. Seja qual fosse, eu j tinha visto
o bastante nos ltimos meses para levar um aviso daqueles a srio.
     -- E traga-a de volta  meia-noite.
     --  alguma hora poderosa para Conjuradores?
     -- No.  a hora que ela tem que voltar mesmo. Segurei um sorriso.
Lena parecia ansiosa no caminho at a escola. Ficou sentada ereta no banco
da frente, mexendo no rdio, no vestido, no cinto de segurana.
     -- Relaxe.
     --  loucura ns irmos hoje? -- Lena olhou para mim com expectativa.
     -- Como assim?
     -- Quero dizer que todo mundo me Odeia. -- Ela olhou para as mos.
     -- Voc quer dizer que todo mundo nos Odeia.
     -- Certo, todo mundo nos Odeia.
     -- No temos que ir.
     -- No, eu quero ir. Esse  o ponto... -- Ela mexeu no corsage no punho
algumas vezes. -- Ano passado, Ridley e eu tnhamos planejado de irmos
juntas. Mas a...
     Eu no pude ouvir a resposta dela, nem mesmo na minha cabea.
     -- As coisas j tinham dado errado naquela poca. Ridley fez 16 anos.
Depois ela foi embora e eu tive que sair da escola.
     -- Bom, no estamos no ano passado.  s um baile. Nada deu errado.
Ela franziu a testa e fechou o espelho.
    Ainda no.



Quando entramos no ginsio, at eu fiquei impressionado com o quanto o
Conselho Estudantil deve ter trabalhado duro durante todo o final de
semana. A Jackson estava completamente imersa no conceito de Sonho de
uma Noite de Inverno. Centenas de pequenos flocos de neve de papel (alguns
brancos, alguns brilhando com alumnio, glitter, lantejoulas e qualquer outra
coisa que brilhasse) estavam pendurados no teto do ginsio com linha de
pesca. Neve feita de flocos de sabonete rolava nos cantos do ginsio, e luzes
brancas que piscavam estavam penduradas nas vigas.
     -- Oi, Ethan. Lena, voc est linda. -- A treinadora Cross nos deu copos
de ponche de pssego. Estava usando um vestido preto que mostrava um
pouco demais as pernas, pensei, j preocupado com Link.
     Olhei para Lena, pensando nos flocos de neve prateados flutuando no ar
em Ravenwood, sem linha de pesca ou papel alumnio. Ainda assim, os olhos
dela brilhavam e ela segurava minha mo com fora, como se fosse uma
criana na primeira festa de aniversrio. Eu nunca acreditei em Link quando
ele dizia que bailes de escola tinham algum tipo de efeito inexplicvel nas
garotas. Mas estava claro que era verdade, afetavam todas as garotas,
incluindo as Conjuradoras.
     --  lindo. -- Honestamente, no era. Era apenas um tpico baile da
Jackson, mas acho que para Lena, isso era algo lindo. Talvez a mgica no
estivesse na magia quando se crescia acostumada com ela.
     Ento ouvi uma voz familiar. No podia ser.
     -- Vamos comear essa festa!
    Ethan, olhe...
     Eu me virei e quase engasguei com o ponche. Link sorriu para mim,
vestindo o que parecia um smoking prateado. Usava uma daquelas camisetas
com um desenho da frente de um smoking por baixo e o Ali Star preto de
cano alto. Parecia um artista de rua de Charleston.
     -- Oi, Palitinho! Oi, prima! -- Ouvi a voz inconfundvel de novo, acima
da multido, acima do DJ, acima da batida do baixo e dos casais na pista de
dana. Mel, acar, melado e pirulitos de cereja, tudo misturado. Foi a nica
vez na minha vida que achei algo doce demais.
     A mo de Lena apertou mais a minha. De brao dado com Link,
inacreditavelmente, no menor pedao de tecido de lantejoula prateada que j
se usou para um baile na Jackson High, talvez para qualquer baile, estava
Ridley. Eu nem sabia para onde olhar; ela era toda pernas e curvas e cabelo
louro para todo lado. Eu podia sentir a temperatura do ambiente subindo s
de olhar para ela. Pelos inmeros caras que tinham parado de danar com
seus pares que pareciam adereos de bolo de noiva, e que estavam furiosas, eu
no era o nico. Em um mundo onde todos os vestidos de baile vinham de
uma de duas lojas, Ridley tinha ultrapassado at as que usavam um Little
Miss. Ela fazia a treinadora Cross parecer uma Madre Superiora. Em outras
palavras, Link estava ferrado.
     Lena olhou de mim para a prima dela, com hostilidade.
     -- Ridley, o que voc est fazendo aqui?
     -- Prima. Finalmente conseguimos vir ao baile. Voc no est
empolgada? Isso no  fantstico?
     Eu podia ver o cabelo de Lena comear a se mexer com o vento
inexistente. Ela piscou e meia fileira de luzes se apagou. Eu tinha que agir
rpido. Puxei Link para perto da tigela de ponche.
     -- O que voc est fazendo com ela?
     -- Cara, voc acredita? Ela  a garota mais gostosa de Gatlin, sem querer
ofender. E ela estava l no Pare & Roube quando entrei para comprar Slim
Jims antes de vir para c. J estava at de vestido.
     -- Voc no acha isso meio estranho?
     -- Voc acha que eu ligo?
     -- E se ela for algum tipo de psicopata?
     -- Voc acha que ela vai me amarrar ou algo assim? -- Ele sorriu, j
imaginando.
     -- No estou brincando.
     -- Voc est sempre brincando. O que foi? Ah, entendi, voc est com
cime. Porque pelo que me lembro, voc entrou no carro dela rapidinho.
No me diga que voc tentou ficar com ela...
     -- Lgico que no. Ela  prima de Lena.
     -- No importa. S sei que estou no baile com a gostosa mais gostosa dos
trs condados.  igual s chances de um meteoro cair nessa cidade. Nunca vai
acontecer de novo. Fica tranquilo, t bom? No estrague isso para mim. --
Ele j estava sob o feitio dela, no que ela precisasse se esforar muito com
Link. No importava o que eu dissesse.
     Fiz outra tentativa pouco enrgica.
     -- Ela  problema, cara. Est virando sua cabea. Vai usar voc e depois
jogar fora quando tiver terminado.
     Ele segurou meus ombros com as duas mos.
     -- Que use.
     Link passou o brao ao redor da cintura de Ridley e foi para a pista de
dana. Nem olhou para a treinadora Cross ao passar por ela.
     Puxei Lena em outra direo, para o canto onde o fotgrafo tirava fotos
dos casais em frente a uma montanha de neve falsa com um boneco de neve
falso, enquanto integrantes do Conselho Estudantil se revezavam sacudindo
neve falsa no cenrio. Dei de cara com Emily.
     Ela olhou para Lena.
     -- Lena. Voc est... brilhosa.
     Lena olhou para ela.
     -- Emily. Voc est... inchada.
     Era verdade. Emily "Odeio-Ethan" Southern Belle parecia uma torta de
creme dourada e pssego, estufada, enfeitada e decorada com tafet. O
cabelo, em cachos anelados assustadores, parecia feito de fitilho amarelo. O
rosto parecia ter sido esticado um pouco demais quando ela foi fazer o cabelo
no Snip `n' Curl, como se tivesse sido esfaqueada na cabea muitas vezes com
grampos.
     O que ser que tinha visto de interessante nelas?
     -- Eu no sabia que seu tipo danava.
     -- Danamos. -- Lena olhava para ela.
     -- Em volta de uma fogueira? -- O rosto de Emily se contorceu em um
sorriso malvado.
     O cabelo de Lena comeou a se mover de novo.
     -- Por qu? Est procurando uma fogueira para poder queimar seu
vestido? -- O resto da fileira de luzes se apagou. Eu via o Conselho Estudantil
correndo para verificar as ligaes eltricas.
    No a deixe vencer. Ela  a nica bruxa aqui.
    Ela no  a nica, Ethan.
     Savannah apareceu ao lado de Emily, arrastando Earl a seu lado. Ela
estava exatamente como Emily, s que de prateado e rosa em vez de prateado
e pssego. A saia era to volumosa quanto a de Emily. Se a gente apertasse os
olhos, dava para visualizar o casamento das duas agora. Era apavorante.
     Earl olhou para o cho, tentando evitar contato visual comigo.
     -- Vamos, Em, esto anunciando a Corte Real. -- Savannah olhou para
Emily de forma expressiva.
     -- No me deixe atrapalhar vocs. -- Savannah apontou para a fila para
tirar fotos. -- Ser que voc vai aparecer nas fotos, Lena? -- Ela saiu farfa-
Ihando, arrastando o enorme vestido.
     -- Prximos!
     O cabelo de Lena ainda estava se mexendo.
    So umas idiotas. No importa. Nada disso importa.
    Ouvi a voz do fotgrafo de novo.
    -- Prximos!
    Peguei a mo de Lena e a puxei para o monte de neve falsa. Ela olhou
para mim, os olhos cheios de nuvens. E ento as nuvens se foram, e ela estava
de volta. Pude sentir a tempestade se acalmar.
    -- Marca na neve -- ouvi algum dizer atrs de ns,
    Voc est certo. No importa.
    Me inclinei para beij-la.
    O que importa  voc.
     Nos beijamos, e um flash de cmera piscou. Por um segundo, um
segundo perfeito, pareceu que no havia mais ningum no mundo e nada
mais importava.
     Houve a luz cegante de uma lmpada e depois uma coisa grudenta
estava caindo de todos os lados, sobre ns dois.
    Mas o que...?
     Lena ofegou. Tentei limpar o grude dos meus olhos, mas ele estava por
toda a parte. Quando vi Lena, foi muito pior, o cabelo, o rosto, o lindo
vestido. O primeiro baile dela. Arruinado.
     Estava fazendo espuma, com a consistncia de massa da panqueca,
pingando de um balde sobre nossas cabeas, aquele que deveria soltar os
flocos falsos de neve para que, lentamente, cassem durante a foto. Olhei para
cima, mas recebi mais gosma no rosto. O balde caiu no cho.
     -- Quem ps gua na neve? -- O fotgrafo estava furioso. Ningum disse
uma palavra, e eu estava disposto a apostar que os Anjos da Jackson no
tinham visto nada.
     -- Ela est derretendo! -- algum gritou.
     Estvamos em uma poa de sabo branco ou cola ou sei l o qu,
desejando que pudssemos encolher at desaparecer; pelo menos, foi assim
que deve ter parecido para a multido parada ao nosso redor, rindo.
Savannah e Emily estavam na lateral, apreciando cada minuto do que
provavelmente era o momento mais humilhante da vida de Lena.
     Um cara gritou mais alto do que o rudo ambiente.
     -- Vocs deviam ter ficado em casa.
     Eu reconheceria aquela voz idiota em qualquer lugar. Eu a ouvi vezes o
bastante na quadra, o nico lugar em que ele a usava. Earl estava sussurrando
no ouvido de Savannah, o brao em torno dos ombros dela.
     Eu surtei. Voei to rpido que Earl nem me viu ir para cima dele. Enfiei
meu punho coberto de sabo na sua mandbula e ele caiu no cho,
derrubando Savannah de bunda no cho com a saia armada para cima.
     -- Mas que diabos? Voc enlouqueceu, Wate? -- Earl comeou a se
levantar, mas eu o empurrei de novo para baixo com o p.
      --  melhor voc ficar a embaixo.
      Earl se sentou e puxou o colarinho do palet para ajeit-lo, como se
ainda pudesse ficar bem sentado no cho do ginsio.
      --  bom voc saber o que est fazendo.
      Mas ele no se levantou. Podia dizer o que quisesse, mas ns dis
sabamos que se ele levantasse, ele era o nico que ia acabar de novo no cho.
      -- Eu sei. -- Puxei Lena da gosma branca que deveria apenas ser neve
falsa.
      -- Vamos, Earl, esto anunciando a Corte Real -- disse Savannah,
irritada. Earl se levantou e se endireitou.
      Limpei meus olhos e balancei o cabelo molhado. Lena ficou parada
tremendo, pingando neve falsa que parecia cal. At mesmo no meio da
multido havia um crculo vazio em torno dela. Ningum ousava chegar
perto demais, s eu. Tentei limpar seu rosto com a manga da minha camisa,
mas ela se afastou.
     sempre assim.
    -- Lena.
    Eu devia saber.
     Ridley apareceu ao lado dela, com Link logo atrs. Estava furiosa, eu
podia perceber ao menos isso.
     -- No entendo, prima. No vejo por que voc quer estar perto da
espcie deles. -- Ela cuspiu as palavras, parecendo Emily falando. --
Ningum nos trata assim, seja da Luz ou das Trevas, nem um deles. Onde
est seu respeito prprio, Lena?
     -- No vale a pena. Hoje no. S quero ir pra casa. -- Lena estava com
vergonha demais para sentir tanta raiva quanto Ridley. Era lutar ou fugir, e
agora Lena estava escolhendo fugir. -- Me leve para casa, Ethan.
     Link tirou o palet prateado e o colocou nos ombros dela.
     -- Isso foi uma sacanagem.
     Ridley no conseguia se acalmar, ou no queria.
     -- Eles so ruins, prima, com exceo do Palitinho. E do meu novo
namorado, Shrinky Dink.
     -- Link J falei que meu nome  Link.
     -- Cale a boca, Ridley. Ela j passou por muita coisa. -- O efeito da
Sirena no estava funcionando mais em mim.
     Ridley se virar para me olhar e sorriu, um sorriso maldoso.
     -- Pensando bem, j estou de saco cheio.
     Segui o olhar dela. A Rainha do Gelo e sua Corte tinham ido at o palco
e estavam sorrindo l de cima. Mais uma vez, Savannah era a Rainha da
Neve. Nada mudava. Ela estava sorrindo para Emily, mais uma vez a
Princesa do Gelo, assim como no ano passado.
     Ridley tirou os culos de estrela de cinema, s um pouco. Seus olhos
comearam a brilhar. Quase dava para sentir o calor saindo deles. Um
pirulito apareceu em sua mo, e senti o cheiro doce intenso e enjoativo no ar.
    No, Ridley.
    No se trata de voc, prima.  maior do que isso. As coisas esto prestes
a mudar nessa cidadezinha de merda.
     Eu podia ouvir a voz de Ridley na minha cabea to claramente quanto
a de Lena. Balancei a cabea.
    Deixa pra l, Ridley. Voc s vai piorar as coisas.
    Abra os olhos; no pode piorar. Ou talvez possa.
    Ela bateu no ombro de Lena.
    Observe e aprenda.
    Ela estava olhando para a Corte Real, chupando o pirulito de cereja.
Torci para que estivesse escuro o bastante para que eles no vissem seus
apavorantes olhos de gato.
    No! Eles vo me culpar, Ridley. No.
    Gat-lixo precisa aprender uma lio. E sou eu que vou ensinar.
     Ridley andou em direo ao palco, os saltos brilhosos estalando ao bater
no cho.
     -- Ei, gata, aonde voc vai? -- Link estava bem atrs dela.
     Charlotte estava subindo a escada, em metros de tafet lils brilhoso
pequeno demais para ela, em direo  coroa de plstico brilhante e  posio
tradicional de Corte Real, atrs de Eden -- Donzela do Gelo, eu acho.
Quando ela estava dando o ltimo passo, o gigantesco vestido lils ficou preso
na ponta do degrau, e quando subiu o ltimo degrau, a parte de trs do
vestido rasgou bem na costura mal-feita. Charlotte levou alguns segundos
para se dar conta e, nessa hora, metade da escola estava olhando para sua
calcinha rosa do tamanho do estado do Texas. Charlotte deu um grito
arrepiante de agora-todo-mundo-sabe-o-quanto-sou-gorda.
    Ridley sorriu.
    Opa!
    Ridley, para!
    S estou comeando.
      Charlotte estava gritando, enquanto Emily, Eden e Savannah tentavam
escond-la com seus prprios vestidos de casamento verso adolescente. O
som de um disco arranhado surgiu nas caixas de som quando o disco que
estava tocando de repente mudou para os Stones.
      "Sympathy for the Devil." Podia ser a msica-tema de Ridley. Ela estava
se apresentando, e daria um espetculo.
      As pessoas da pista de dana simplesmente concluram que devia ser
mais um erro de Dickey Wix, que estava prestes a se tornar o DJ de 35 anos
mais famoso no circuito de bailes. Mas eles eram a piada. Nem pense em
fileiras de lmpadas se apagando; em segundos, todas as lmpadas sobre o
palco e as sobre a pista de dana comearam a estourar, uma a uma, como
domin.
      Ridley levou Link para a pista de dana, e ele a rodopiou enquanto
alunos da Jackson gritavam, empurrando uns aos outros para sair dali, sair de
baixo da chuva de cacos d lmpada. Tenho certeza de que todos acharam
que estavam no meio de um desastre de fiao eltrica pelo qual Red Sweet, o
nico eletricista de Gatlin, levaria a culpa. Ridley jogou a cabea para trs,
gargalhando e girando em torno de Link com aquele vestidinho minsculo.
    Ethan, temos que fazer alguma coisa!
    O qu?
     Era tarde demais para fazer qualquer coisa. Lena se virou e correu, e fui
logo atrs. Antes que chegssemos s portas do ginsio, os dispositivos contra
incndio se acionaram, ao longo de todo o teto. Choveu gua no ginsio. O
equipamento de udio comeou a dar curto, brilhando como uma
eletrocuo prestes a acontecer. Flocos de neve molhados caam no cho
virando panquecas encharcadas, e a neve de sabo virou uma baguna de
espuma.
     Todos comearam a gritar, e garotas com rimei borrado e cumes de
cabelo pingando correram para a porta em suas saias de tafet encharcadas.
Na baguna, no dava para diferenciar uma Little Miss de uma Southern
Belle. Todas pareciam ratos afogados em tons pastis.
     Quando cheguei  porta, ouvi um barulho alto. Me virei para o palco na
hora em que o floco gigante de glitter do cenrio caiu. Emily perdeu o
equilbrio no palco escorregadio. Ainda acenando para a multido, ela tentou
se equilibrar, mas seus ps escorregaram e ela caiu no cho do ginsio.
Desabou em uma pilha de tafet pssego e prata. A treinadora Cross foi
correndo.
     Eu no senti pena dela, mas sentia das pessoas que seriam culpadas por
esse pesadeio: o Conselho Estudantil pelo cenrio perigosamente instvel,
Dickey Wix por capitalizar na infelicidade de uma lder de torcida gorda de
calcinha e Red Sweet pelo nada profissional e potencialmente ameaador
trabalho com as luzes no ginsio da Jackson High.
    Vejo voc depois, prima. Isso foi at melhor do que um baile.
     Empurrei Lena pela porta na minha frente.
     -- V!
     Ela estava to fria que eu mal conseguia toc-la. Quando chegamos ao
carro, Boo Radley estava nos alcanando.
     Macon no devia ter se preocupado com a hora dela voltar para casa.
No passava nem das 21 horas.
     Macon estava furioso, ou talvez estivesse apenas preocupado. Eu no
sabia qual, porque toda vez que ele olhava para mim, eu olhava para o outro
lado. Nem Boo ousava olhar para ele enquanto estava deitado aos ps de
Lena, batendo o rabo no cho.
     A casa no parecia mais com o baile. Aposto que Macon jamais
permitiria que um floco de neve prateado passasse pelas portas de
Ravenwood novamente. Tudo estava preto agora. Tudo: o piso, a moblia, as
cortinas, o teto. S o fogo na lareira ardia firmemente, iluminando o
aposento. Talvez a casa refletisse os humores variados dele, e esse era bem
sombrio.
     -- Cozinha! -- Uma caneca preta de chocolate quente apareceu na mo
de Macon. Ele a passou para Lena, que estava enrolada em um cobertor de l
em frente ao fogo. Ela pegou a caneca com as duas mos, o cabelo molhado
preso atrs das orelhas, se aproximando do calor. Ele andava em frente a ela.
-- Voc devia ter ido embora no momento em que a viu, Lena.
     -- Eu estava meio ocupada sendo encharcada de sabo e virando motivo
de piada na frente da escola inteira.
      -- Bem, voc no vai mais ficar ocupada. Est de castigo at seu
aniversrio, para o seu prprio bem.
      -- Meu prprio bem obviamente no  o importante aqui. -- Ela ainda
estava tremendo, mas eu achava que agora no era mais de frio.
      Ele olhou para mim, os olhos frios e escuros. Macon estava furioso, tive
certeza.
      -- Voc devia t-la feito ir embora.
      -- Eu no sabia o que fazer, senhor. No sabia que Ridley ia destruir o
ginsio. E Lena nunca tinha ido a um baile. -- Soou estpido na hora que
falei.
      Macon apenas olhou para mim, balanando o usque no copo.
      --  interessante que vocs nem tenham danado. Nem uma dana.
      -- Como voc sabe? -- Lena botou a caneca na mesa.
      Macon andava de um lado para o outro.
      -- Isso no  importante.
      -- Na verdade,  importante para mim.
      Macon deu de ombros.
      -- Foi Boo. Ele , por falta de palavras melhores, meus olhos.
      -- O qu?
      -- Ele v o que eu vejo. Eu vejo o que ele v. Ele  um cachorro
Conjurador, sabe.
      -- Tio Macon! Voc tem me espionado!
      -- No voc, particularmente. Como acha que consigo me virar como
recluso da cidade? Eu no iria longe sem o melhor amigo do homem. Boo
aqui v tudo, ento eu vejo tudo.
      Olhei para Boo. Eu podia ver os olhos, olhos humanos. Eu devia ter
sabido, talvez sempre tivesse. Ele tinha os olhos de Macon.
      E vi outra coisa, uma coisa que ele estava mastigando. Ele tinha uma
bola de alguma coisa na boca. Me abaixei na frente dele. Era uma foto
Polaroid amassada e mida. Ele tinha trazido do ginsio.
      Nossa foto do baile. Eu estava parado ali com Lena, no meio da neve
falsa. Emily estava errada. A espcie de Lena aparecia sim em fotos, s que
ela estava cintilante, transparente, como se da cintura para baixo ela j tivesse
comeado a se dissolver em uma apario fantasmagrica. Como se ela
estivesse mesmo derretendo antes da neve t-la atingido.
     Fiz um carinho na cabea de Boo e guardei a foto. Isso era uma coisa
que Lena no precisava ver, no agora. Faltavam dois meses para o
aniversrio dela. Eu no precisava da foto para saber que o nosso tempo
estava acabando.
                p 16 de dezembro p
     Quando os santos chegam sem aviso
                                     d
L    ena estava sentada na varanda quando encostei o carro. Insisti em dirigir
     porque Link queria ir conosco, e ele no podia se arriscar a ser visto
     rabeco. E eu no queria que Lena tivesse que entrar sozinha. Eu nem
queria que ela fosse, mas no havia como convenc-la de no ir. Ela parecia
que estava pronta para a guerra. Estava usando um suter azul de gola alta,
jeans pretos e um colete preto com capuz de bordas de pele. Estava prestes a
encarar o peloto de fuzilamento e sabia disso.
     S tinham se passado trs dias desde o baile, e o FRA no tinha perdido
tempo. A reunio do Comit Disciplinar da Jackson desta tarde no ia ser
muito diferente de um julgamento de bruxas, e no era preciso ser
Conjuradora para saber disso. Emily estava mancando com a perna
engessada, o desastre do baile de inverno tinha virado o assunto da cidade, e
a Sra. Lincoln linha finalmente todo o apoio de que precisava. Testemunhas
tinham se apresentado. E se voc distorcesse tudo que todo mundo alegava
ter visto, ouvido ou de que se lembrava ligeiramente, podia apertar os olhos,
virar a cabea um pouquinho e tentar ver o lgico: Lena Duchannes era
responsvel. Tudo estava bem at que ela veio para a cidade.

                                       ***

Link pulou do carro e abriu a porta para Lena. Estava to consumido pela
culpa que parecia prestes a vomitar.
    -- Oi, Lena. Como vai?
    -- Bem.
    Mentirosa.
    No quero que ele se sinta mal. No  culpa dele.
     Link limpou a garganta.
     -- Sinto muito por isso. Briguei com minha me o final de semana todo.
Ela sempre foi maluca, mas dessa vez  diferente.
     -- No  sua culpa, mas agradeo por voc tentar falar com ela.
     -- Poderia ter feito alguma diferena se todas aquelas bruxas do FRA
no estivesse enchendo os ouvidos dela. A Sra. Snow e a Sra. Asher devem ter
ligado pra a minha casa umas cem vezes nos ltimos dois dias.
     Passamos pelo Pare & Roube. Nem Fatty estava l. As ruas estavam
desertas, como se estivssemos dirigindo por uma cidade fantasma. A reunio
do Comit Disciplinar estava marcada para as 17 horas, e ns amos chegar
pontualmente. A reunio seria no ginsio porque era o nico lugar na Jackson
grande o bastante para acomodar o nmero de pessoas que provavelmente ia
aparecer. Essa era outra coisa sobre Gatlin, tudo que acontecia envolvia todo
mundo. No havia procedimentos fechados aqui. Pela aparncia das ruas, a
cidade inteira tinha fechado, o que queria dizer que praticamente todo
mundo estaria na reunio.
     -- S no entendo como sua me organizou isso to rpido.  rpido at
pra ela.
     -- Pelo que ouvi, Doe Asher se envolveu. Ele caa com o diretor Harper
e outros figures do Conselho Escolar. -- Doe Asher era pai de Emily e o
nico mdico da cidade.
     -- timo.
     -- Vocs sabem que eu provavelmente vou ser expulsa, certo? Aposto
que j foi decidido. Esse encontro  s encenao.
     Link parecia confuso.
     -- No podem expulsar voc sem ouvir seu lado da histria. Voc nem
fez nada.
     -- Nada disso importa. Essas coisas so decididas a portas fechadas.
Nada que eu diga vai importar.
     Ela estava certa, e ns dois sabamos. Ento eu no disse nada. Em vez
disso, levei a mo dela aos meus lbios e a beijei, desejando pela centsima
vez que fosse eu indo contra todo o Conselho e no Lena.
     Mas o negcio  que jamais seria eu. No importava o que eu fizesse, no
importava o que eu dissesse, eu sempre seria um deles. Lena jamais seria. E
acho que era isso que me deixava mais furioso, e mais constrangido. Eu os
odiava ainda mais porque l no fundo eles ainda me tratavam como um
deles, mesmo eu namorando a sobrinha do Velho Ravenwood, tendo
enfrentado a Sra. Lincoln e no tendo sido convidado para as festas de
Savannah Snow. Eu era um deles. Eu pertencia a eles, e no havia nada que
pudesse fazer para mudar isso. E se o oposto fosse verdade, de certa forma
eles pertenciam a mim, ento o que Lena enfrentaria no era s eles. Era eu.
     A verdade estava me matando. Lena seria Invocada em seu dcimo-
sexto aniversrio, mas eu tinha sido invocado desde meu nascimento. Eu no
tinha mais controle sobre meu destino do que ela. Talvez nenhum de ns
tivesse.




Parei o carro no estacionamento. Estava cheio. Havia um grupo de pessoas
em fila na entrada principal, esperando. Eu no via tanta gente no mesmo
lugar desde a estreia de Gods and Generais, o filme mais longo e chato sobre
a Guerra Civil j feito e no qual metade dos meus parentes participaram
como figurantes, pois tinham os prprios uniformes.
     Link se abaixou no banco de trs.
     -- Vou descer aqui. Vejo vocs l dentro. -- Ele abriu a porta e saiu
abaixado entre os carros. -- Boa sorte.
     As mos de Lena estavam sobre o colo, tremendo. Eu odiava v-la to
nervosa.
     -- Voc no precisa entrar. Podemos dar a volta e levo voc direto pra
casa.
     -- No. Eu vou entrar.
     -- Por que quer se sujeitar a isso? Voc mesma disse que provavelmente 
s encenao.
     -- No vou deix-los pensar que tenho medo de encar-los. Sa da minha
ltima escola, mas no vou fugir dessa vez. -- Ela respirou fundo.
     -- No  fugir.
     -- Para mim, .
     -- Seu tio vem, pelo menos?
     -- Ele no pode.
     -- Por que diabos no pode? -- Ela estava completamente sozinha nisso,
apesar de eu estar parado ao lado dela.
     -- E cedo demais. Nem contei a ele.
     -- Cedo demais? O que isso tem a ver? Ele fica trancado numa cripta ou
o qu?
     -- Mais para ou o qu.
     No valia a pena tentar conversar agora. Ela teria que lidar com muita
coisa nos prximos minutos.
     Andamos na direo do prdio. Comeou a chover. Olhei para ela.
    Acredite, estou tentando. Se no estivesse, seria um tornado.
    As pessoas estavam olhando, at apontando, no que eu estivesse
surpreso. Ningum se deu ao trabalho de ser civilizado. Olhei em volta, meio
esperando ver Boo Radley sentado na porta, mas hoje ele no estava  vista.




Entramos no ginsio pela lateral, que era, por acaso, a entrada de visitantes,
uma ideia de Link que acabou sendo uma boa ideia. Porque, assim que
entramos, percebi que as pessoas no estavam paradas do lado de fora
esperando para entrar, estavam apenas torcendo para conseguir ouvir a
reunio. Dentro, s havia lugar de p.
      Parecia uma verso pattica de uma audincia para o grande jri de um
episdio daqueles programas de advogado da televiso. Havia uma grande
mesa dobrvel de plstico na frente, e alguns professores -- o Sr. Lee,  claro,
ostentando uma gravata borboleta vermelha e seu prprio estilo homem do
interior preconceituoso; o diretor Harper; e duas pessoas que deviam ser
integrantes do Conselho -- sentados lado a lado  mesa. Todos pareciam
velhos e irritados, como se desejassem poder estar em casa assistindo canais
de venda ou programas religiosos.
      As arquibancadas estavam lotadas de cidados proeminentes de Gatlin.
A Sra. Lincoln e o grupo linchador do FRA ocupavam as trs primeiras
fileiras, com os membros das Irms da Confederao, do Primeiro Coro
Metodista e da Sociedade Histrica ocupando as seguintes. Logo atrs
estavam os Anjos da Jackson -- tambm conhecidos como as garotas que
queriam ser Emily e Savannah e os caras que queriam tirar a calcinha de
Emily e Savannah --, usando suas camisetas novinhas em folha. Nelas havia
uma imagem de um anjo que parecia muito com Emily Asher, com as
enormes asas de anjo abertas e usando nada menos do que uma camiseta dos
Wildcats da Jackson High. Na parte de trs, havia apenas um par de asas
brancas desenhadas para parecer que estavam saindo direto das costas da
pessoa, e o grito de guerra dos Anjos, "Estamos observando voc."
      Emily estava sentada ao lado da Sra. Asher, a perna e o enorme gesso
apoiados sobre uma das cadeiras laranjas do refeitrio. A Sra. Lincoln
apertou os olhos quando nos viu, e a Sra. Asher passou o brao nos ombros
de Emily de forma protetora, como se um de ns pudesse correr at l e bater
nela com um porrete como em um beb foca indefeso, Vi Emily tirar seu
telefone da minscula bolsa prateada, pronto para o envio de mensagens.
Logo os dedos dela estariam se mexendo freneticamente. O ginsio da escola
era provavelmente o epicentro da fofoca local de quatro condados esta noite.
      Amma estava sentada algumas fileiras para trs, mexendo no talism que
tinha no pescoo. Eu esperava que ele fizesse crescer na Sra. Lincoln os
chifres que ela sempre havia escondido to bem todos esses anos.  claro que
meu pai no estava l, mas as Irms estavam sentadas ao lado de Thelma, na
fileira ao lado de Amma. As coisas deviam estar piores do que eu pensava. As
Irms no saam de casa to tarde desde 1980, quando tia Grace comeu
comida apimentada demais e achou que estava tendo um ataque cardaco.
Tia Mercy me viu e acenou com o leno.
      Acompanhei Lena at o assento na frente do salo, obviamente
destinado a ela. Era bem em frente ao peloto de fuzilamento.
    Vai ficar tudo bem.
    Jura?
    Eu ouvia a chuva batendo no teto l fora.
    Juro que isso no importa. Juro que essas pessoas so idiotas. Juro que
nada do que digam vai mudar o que sinto por voc.
    Interpreto isso como um no.
    A chuva caiu com mais fora no telhado, um mau sinal. Peguei a mo
dela e coloquei algo ali. O botozinho prateado do colete dela, que eu tinha
encontrado no estofamento rachado do Lata-Velha na noite em que nos
conhecemos na chuva. Parecia lixo, mas eu o carregava no bolso do meu
jeans desde ento.
     Tome.  uma espcie de amuleto da sorte. Pelo menos trouxe uma coisa
boa para mim.
     Eu podia ver o quanto ela estava se esforando para no chorar. Sem
dizer uma palavra, Lena puxou o cordo e acrescentou o boto  coleo
particular de lixo valioso.
    Obrigada.
     Se ela conseguisse sorrir, teria sorrido.
     Andei at onde as Irms e Amma estavam sentadas. Tia Grace ficou de
p e se apoiou na bengala.
     -- Ethan, aqui. Guardamos seu lugar, querido.
     -- Por que voc no senta, Grace Statham -- sibilou uma senhora de
cabelo azul atrs das Irms.
     Tia Prue se virou.
     -- Por que voc no toma conta da sua prpria vida, Sadie Honeycutt,
ou eu vou fazer isso por voc.
     Tia Grace se virou para a Sra. Honeycutt e sorriu.
     -- Venha para c, Ethan.
     Me espremi entre tia Mercy e tia Grace.
     -- Como voc est, docinho? -- Thelma sorriu e beliscou meu brao.
     Um trovo soou l fora, e as luzes piscaram. Algumas velhas senhoras
ofegaram.
     Um homem parecendo tenso, sentado no meio das pessoas em frente 
mesa dobrvel, limpou a garganta.
     -- S uma instabilidade na eletricidade, mais nada. Por que vocs no
fazem a gentileza de se sentarem para comearmos? Meu nome  Bertrand
Hollingsworth, e sou o presidente do Conselho Escolar. Essa reunio foi
convocada em resposta  petio que requeria a expulso de uma aluna da
Jackson, Srta. Lena Duchannes, certo?
     O diretor Harper se dirigiu ao Sr. Hollingsworth de seu lugar na mesa,
da Acusao, ou melhor, o enforcador da Sra. Lincoln.
     -- Sim, senhor. A petio foi trazida at mim por vrios pais
preocupados, e foi assinada por mais de duzentos pais e cidados respeitveis
de Gatlin, e por vrios alunos tambm. --  claro que foi.
    -- Quais so os motivos para a expulso?
    O Sr. Harper virou algumas pginas em seu bloco de folhas amarelas
como se estivesse lendo uma ficha de antecedentes criminais.
    -- Agresso. Destruio de propriedade escolar. E a Srta. Duchannes j
tinha sido advertida.
    Agresso? No agredi ningum.
     s uma acusao. No podem provar nada.
     Eu estava de p antes que ele terminasse.
     -- Nada disso  verdade!
     Outro cara aparentando estar nervoso na outra ponta da mesa elevou a
voz para ser ouvido acima da chuva, e das vinte ou trinta senhoras
sussurrando sobre minha falta de educao.
     -- Meu jovem, sente-se. Essa reunio no  aberta a manifestaes do
pblico.
     O Sr. Hollingsworth continuou falando acima do rudo.
     -- Temos testemunhas para substanciar essas acusaes?
     Agora havia mais do que algumas pessoas sussurrando para saber se
algum sabia o que significava "substanciar".
     O diretor Harper limpou a garganta, sem jeito.
     -- Temos. E recentemente recebi informaes de que a Srta. Duchannes
teve problemas similares na escola que frequentou anteriormente.
    Do que ele est falando? Como sabem sobre minha antiga escola?
    No sei. O que aconteceu na sua outra escola?
    Nada.
     Uma mulher do Conselho Escolar folheou alguns papis.
     -- Acho que gostaramos de ouvir primeiro a presidente da Associao de
Pais da Jackson, Sra. Lincoln.
     A me de Link ficou de p dramaticamente e andou pelo corredor at o
Grande Jri de Gatlin. Ela j tinha visto alguns programas de televiso sobre
julgamentos.
     -- Boa-noite, senhoras e senhores.
     -- Sra. Lincoln, pode nos dizer o que sabe sobre essa situao, j que
voc faz do grupo que criou a petio?
     --  claro. A Srta. Ravenwood, quero dizer, a Srta. Duchannes se
mudou para c h alguns meses, e desde ento houve vrios tipos de
problema na Jackson. Primeiro, ela quebrou uma janela na aula de ingls...
     -- Isso quase cortou meu beb em pedaos -- gritou a Sra. Snow.
     -- Quase feriu seriamente vrias crianas, e muitas delas sofreram cortes
com o vidro quebrado.
     -- Ningum alm de Lena se feriu, e foi um acidente! -- Link gritou de
onde estava, no fundo do ginsio.
     -- Wesley Jefferson Lincoln,  melhor que voc v para casa agora
mesmo antes que eu faa voc ver o que  bom! -- sibilou a Sra. Lincoln.
     Ela recuperou a compostura, esticou a saia e se virou para encarar o
Comit Disciplinar.
     -- O charme da Srta. Duchannes parece funcionar muito bem com o
sexo frgil -- disse a Srta. Lincoln com um sorriso. -- Como eu ia dizendo,
ela quebrou uma janela na aula de Ingls, o que assustou tanto os alunos que
algumas jovens de mente cvica decidiram sozinhas criar os Anjos da Guarda
da Jackson, um grupo cujo nico propsito  proteger os alunos da escola.
Como a Observao de Vizinhana faz.
     Os Anjos assentiram em unssono da arquibancada, como se algum
estivesse puxando cordinhas invisveis presas s cabeas deles, o que, de certa
forma, algum estava mesmo fazendo.
     O Sr. Hollingsworth estava escrevendo em um bloco amarelo.
     -- Esse foi o nico incidente envolvendo a Srta. Duchannes?
     A Sra. Lincoln tentou parecer chocada.
     -- Meu Deus, no! No baile de inverno, ela acionou o alarme de
incndio, estragando o baile e destruindo equipamentos no valor de
quatrocentos dlares. Como se no fosse o bastante, ela empurrou a Srta.
Asher do palco, fazendo com que ela quebrasse a perna. Eu soube de fonte
segura que levar meses para ficar boa.
     Lena olhava para a frente, se recusando a olhar para qualquer pessoa.
     -- Obrigada, Sra, Lincoln.
     A me de Link se virou e sorriu para Lena. No um sorriso genuno e
nem mesmo um sorriso sarcstico, mas um sorriso de vou-arruinar-sua- vida-
e-gostar.
     A Sra. Lincoln andou de volta at o lugar dela. Ento parou e olhou di-
retamente para Lena.
     -- Quase me esqueci. Tem mais uma coisa. -- Ela tirou uns papis da
bolsa. -- Tenho registros da escola anterior da Srta. Duchannes na Virgnia.
Apesar de talvez ser mais preciso chamar de instituio.
    No era uma instituio. Era uma escola particular.
     -- Como o diretor Harper mencionou, essa no  a primeira vez que a
Srta. Duchannes se envolve em episdios violentos.
     A voz de Lena na minha mente estava  beira da histeria. Tentei acalm-
la.
    No se preocupe.
     Mas eu estava preocupado. A Sra. Lincoln no diria isso se no pudesse
provar.
     -- A Srta. Duchannes  uma garota muito perturbada. Ela sofre de uma
doena mental. Deixe-me ver... -- Ela passou o dedo pela pgina como se
procurasse alguma coisa. Esperei para ouvir o diagnstico da doena mental
que a Sra. Lincoln achava que Lena tinha, o mal de ser diferente. -- Ah, sim,
aqui est. Parece que a Srta. Duchannes sofre de distrbio bipolar, que o Dr.
Asher pode comprovar ser uma doena mental muito sria. Essas pessoas que
sofrem desse mal tm tendncia  violncia e comportamento imprevisvel.
Essas coisas so genticas; a me dela sofria disso tambm.
    Isso no pode estar acontecendo.
     A chuva despencava sobre o teto. O vento aumentou, sacudindo a porta
do ginsio,
     -- Na verdade, ela assassinou o pai da menina h 14 anos.
     O ginsio inteiro ofegou.
     Ponto. Partida ganha.
     Todo mundo comeou a falar ao mesmo tempo.
     -- Senhoras e senhores, por favor. -- O diretor Harper tentou acalmar
todo mundo, mas era como encostar com um fsforo em palha seca. Quando
o fogo comeava, no havia como acabar com ele.




Levou dez minutos para o ginsio inteiro se acalmar de novo, mas Lena no
se acalmou. Eu sentia o corao dela disparado como se fosse o meu, e seu n
na garganta por engolir as lgrimas. Entretanto, julgando pela chuvarada l
fora, ela estava tendo dificuldade em se controlar. Eu estava surpreso por ela
no ter fugido correndo do ginsio, mas ela estava com coragem demais ou
aparvalhada demais para se mover.
     Eu sabia que a Sra. Lincoln estava mentindo. No acreditava que Lena
tinha sido posta em uma instituio assim como no acreditava que os Anjos
queriam proteger os alunos da Jackson. O que eu no sabia era se a Sra.
Lincoln estava mentindo sobre o resto, sobre a parte da me de Lena
assassinar o pai dela.
     Mas eu sabia que queria matar a Sra. Lincoln. Eu conhecia a me de
Link desde sempre, mas ultimamente no conseguia pensar mais nela do
mesmo jeito. Ela no parecia a mulher que arrancou o aparelho de TV a
cabo da parede ou que nos passava sermes de horas sobre as virtudes da
abstinncia. Isso no parecia uma de suas causas irritantes, porm inocentes.
Isso parecia mais vingativo e pessoal. Eu s no conseguia entender por que
ela odiava tanto Lena.
     O Sr. Hollingsworth tentou recuperar o controle.
     -- Certo, todo mundo se acalme. Sra. Lincoln, obrigada por se dar ao
trabalho de vir aqui hoje. Eu gostaria de verificar esses documentos, se no se
importar.
     Fiquei de p de novo.
     -- Isso tudo  ridculo. Por que no colocam fogo nela para ver se ela
queima?
     O Sr. Hollingsworth tentou novamente recuperar o controle da reunio,
que estava quase se tornando um programa de Jerry Springer.
     -- Sr. Wate, sente-se ou ser convidado a se retirar. No haver mais
interrupes nessa reunio. Li as declaraes escritas das testemunhas sobre o
que aconteceu, e ao que parece o assunto  bem simples e s h uma coisa
sensata a se fazer.
     Houve um estrondo, e as portas enormes de metal no fundo do ginsio se
abriram. Uma rajada de vento entrou, assim como rajadas de chuva.
     E algo mais.
     Macon Ravenwood entrou casualmente no ginsio, usando um
sobretudo de cashmere preto e um terno elegante de risca-de-giz cinza, com
Marian Ashcroft de brao dado com ele. Marian estava segurando um
guarda-chuva xadrez pequeno, com o tamanho suficiente para proteg-la da
chuva. Macon no trazia um guarda-chuva, mas estava completamente seco.
Boo entrou atrs deles, o pelo preto molhado e eriado, deixando bvio que
era mais lobo do que cachorro.
     Lena se virou na cadeira laranja de plstico e, por um segundo, ela
aparentou estar to vulnervel quanto se sentia. Eu podia ver o alvio em seus
olhos, e pude ver o quanto ela se esforava para ficar na cadeira, se segurando
para no se jogar aos prantos nos braos dele.
     Os olhos de Macon brilharam na direo dela, e Lena se endireitou na
cadeira. Ele andou pelo corredor em direo aos membros do Conselho
Escolar.
     -- Lamento nosso atraso. O tempo est terrvel hoje. No me deixe
interromper. Vocs estavam prestes a fazer uma coisa sensata, se ouvi
corretamente.
     O Sr. Hollingsworth parecia confuso. Na verdade, a maioria das pessoas
no ginsio parecia confusa. Nenhuma delas jamais tinha visto Macon
Ravenwood em pessoa.
     -- Desculpe, senhor. No sei quem voc pensa que , mas est no meio
dos procedimentos. E no pode trazer esse... esse cachorro aqui para dentro.
S animais de servio so permitidos em territrio escolar.
     -- Entendo perfeitamente. Acontece que Boo Radley  meu co-guia.
     No consegui segurar um sorriso. Acho que, tecnicamente, era verdade.
     Boo sacudiu o enorme corpo, e a gua do pelo encharcado voou em todo
mundo que estava sentado perto.
     -- Bem, senhor...?
     -- Ravenwood. Macon Ravenwood.
     Houve outro ofegar audvel vindo da arquibancada, seguido pelo
burburinho de sussurros percorrendo as arquibancadas. A cidade inteira
esperava esse dia desde antes de eu nascer. Dava para sentir a temperatura no
ginsio aumentando, pelo simples espetculo que era isso tudo. No havia
nada, nada que Gatlin amasse mais do que um espetculo.
     -- Senhoras e senhores de Gatlin.  um prazer finalmente conhec-los.
Acredito que j conheam minha querida amiga, a bela Dra. Ashcroft. Ela foi
gentil em me acompanhar esta noite, j que no sei andar pela nossa linda
cidade.
     Marian acenou.
      -- Quero pedir desculpas mais uma vez por ter me atrasado; por favor,
continuem. Tenho certeza de que estavam prestes a explicar que as acusaes
contra minha sobrinha so completamente infundadas e a encorajar essas
crianas a irem para casa e dormir uma boa noite de sono antes de irem para
a escola amanh.
      Por um minuto, o Sr. Hollingsworth parecia que poderia ser convencido
a fazer exatamente aquilo, e me perguntei se talvez Macon Ravenwood
tivesse o mesmo Poder de Persuaso de Ridley. Uma mulher com um coque
no alto da cabea sussurrou alguma coisa para o Sr. Hollingsworth e ele
pareceu recuperar sua linha de pensamento original.
      -- No, senhor, no era isso que eu estava prestes a fazer, no mesmo.
Na verdade, as acusaes contra sua sobrinha so muito srias. Parece que h
vrias testemunhas dos eventos citados. Baseado nos testemunhos escritos e
na informao apresentada nessa reunio, lamento dizer que no temos
escolha alm de expuls-la.
      Macon sacudiu a mo na direo de Emily, Savannah, Charlotte e Eden.
      -- Essas so suas testemunhas? Um bando de garotinhas de imaginao
frtil que sofrem de uma profunda inveja?
      A Sra. Snow ficou de p.
      -- Est insinuando que minha filha est mentindo?
      Macon deu seu sorriso de gal de cinema.
      -- Absolutamente, minha cara. Estou afirmando que sua filha est
mentindo. Tenho certeza de que voc entende a diferena.
      -- Como voc ousa! -- gritou a me de Link como um animal selvagem.
-- Voc no tem direito de estar aqui, ameaando os procedimentos.
      Marian sorriu e deu um passo a frente.
      -- Como um grande homem disse, "A injustia em qualquer lugar  uma
ameaa  justia em todo lugar." E no vejo justia nesse recinto, Sra.
Lincoln.
      -- No venha com seu discurso de Harvard aqui.
      Marian fechou o guarda-chuva.
      -- Acredito que Martin Luther King Jr no frequentou Harvard.
      O Sr. Hollingsworth falou alto de forma autoritria.
      -- Prevalece o fato que, de acordo com testemunhas, a Srta. Duchannes
acionou o alarme de incndio, resultando em milhares de dlares em danos
aos bens materiais da Jackson High School, e empurrou a Srta. Asher do
palco, resultando em ferimentos. Baseado s nesses eventos, temos o bastante
para expuls-la.
     Marian suspirou alto.
     -- " difcil libertar os tolos das correntes que eles idolatram." -- Ela
olhou diretamente para a Sra. Lincoln. -- Voltaire, outro homem que no
frequentou Harvard.
     Macon permaneceu calmo, o que parecia irritar todo mundo ainda mais.
     -- Senhor...?
     -- Hollingsworth.
     -- Sr. Hollingsworth, seria uma vergonha continuar nessa linha de ao.
Veja bem,  ilegal impedir uma menor de frequentar a escola no Grande
Estado da Carolina do Sul. A educao  compulsria, o que quer dizer
obrigatria. Voc no pode dispensar uma garota inocente da escola sem
fundamento. Esses dias acabaram, mesmo no sul.
     -- Como expliquei, Sr. Ravenwood, temos fundamentos, e est dentro da
nossa esfera o poder de expulsar sua sobrinha.
     A Sra. Lincoln deu um pulo e ficou de p.
     -- Voc no pode aparecer assim de repente e interferir nos assuntos da
cidade. Voc no sai de sua casa h anos! O que lhe d o direito de emitir
opinio no que acontece nessa cidade, com nossas crianas?
     -- Est se referindo  sua pequena coleo de marionetes, vestidas de... o
que  isso? Unicrnios? Perdoe minha vista fraca. -- Macon gesticulou em
direo aos Anjos.
     -- So anjos, Sr. Ravenwood, no unicrnios. No que eu espere que
voc reconhea os mensageiros de Nosso Senhor, j que no me lembro de
v-lo na igreja.
     -- "Aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra", Sra. Lincoln. --
Macon fez uma pausa de um segundo, como se achasse que a Sra. Lincoln
precisasse de um momento para entender aquilo. -- Quanto ao que falou
antes, voc est absolutamente certa, Sra. Lincoln. Passo muito tempo em
minha casa, coisa que no me incomoda.  um lugar realmente encantador.
Mas talvez eu devesse passar mais tempo na cidade, com todos vocs. Dar
uma sacudida nas coisas, por falta de expresso melhor.
     A Sra. Lincoln parecia horrorizada, e os membros do FRA estavam se
revirando nos assentos, olhando uns para os outros nervosamente s de
cogitarem a ideia.
     -- Na verdade, se Lena no vai voltar  Jackson, ela vai ter que ter aulas
em casa. Talvez eu devesse convidar alguns dos primos dela para morar
comigo tambm. Eu no ia querer que ela perdesse os aspectos sociais da
educao. Alguns dos primos dela so encantadores. Na verdade, acho que
conheceram uma delas no Baile de Mscaras de Inverno.
     -- No era baile de mscaras...
     -- Perdo. Supus que fossem fantasias, baseado no espalhafato das
vestimentas.
     A Sra. Lincoln enrubesceu. Ela no era mais apenas uma mulher
tentando banir livros. Aquela no era uma mulher que se enfrentava. Eu
estava preocupado com Macon. Estava preocupado com todos ns.
     -- Vamos ser honestos, Sr. Ravenwood. Voc no se encaixa nessa
cidade. No  parte dela e claramente sua sobrinha tambm no. Acho que
voc no est em posio de fazer exigncias.
     A expresso de Macon mudou ligeiramente. Ele girou o anel no dedo.
     -- Sra. Lincoln, aprecio sua sinceridade, e vou tentar ser to franco
quanto voc tem sido comigo. Seria um erro grave se voc ou qualquer outra
pessoa dessa cidade fosse em frente com esse assunto. Sabe, eu tenho muitos
meios. Sou um tanto perdulrio, pode-se dizer. Se vocs quiserem impedir
minha sobrinha de voltar  Stonewall Jackson High School, serei forado a
gastar parte desse dinheiro. Quem sabe, talvez eu mande abrir um Wal-Mart
aqui. -- Ouve outro ofegar na arquibancada.
     -- Isso  uma ameaa?
     -- Em absoluto. Coincidentemente, tambm sou proprietrio da terra
onde fica o Southern Comfort Hotel. O fechamento dele seria muito
inconveniente para voc, Sra. Snow, j que seu marido teria que dirigir muito
mais para encontrar as amigas, o que tenho certeza que o faria se atrasar para
o jantar regularmente. Isso no pode acontecer, no ?
     O Sr. Snow ficou vermelho-escuro e se escondeu atrs de dois caras do
time de futebol, mas Macon estava apenas comeando.
     -- E Sr. Hollingsworth, voc me parece familiar. Assim como essa bela
flor da Confederao  sua esquerda. -- Macon gesticulou para a senhora do
Conselho Escolar sentada ao lado dele. -- Eu j no vi vocs dois em algum
lugar antes? Poderia jurar...
     O Sr. Hollingsworth se remexeu um pouco.
     -- De modo algum, Sr. Ravenwood. Sou um homem casado!
     Macon virou sua ateno para o homem careca sentado do outro lado do
Sr. Hollingsworth.
     -- E Sr. Ebitt, se eu decidir parar de alugar o terreno para o Wayward
Dog, onde voc vai passar as noites bebendo, quando sua esposa pensa que
voc est estudando com o Grupo da Bblia?
     -- Wilson, como voc pde? Usar o Poderoso Nosso Senhor como libi.
Vai queimar nas chamas do inferno, com certeza! -- A Sra. Ebitt pegou a
bolsa e comeou a empurrar as pessoas para sair.
     -- No  verdade, Rosalie!
     -- No ? -- Macon sorriu. -- Nem posso imaginar o que Boo me
contaria se soubesse falar. Sabe, ele circula por todos os jardins e
estacionamentos dessa cidade, e aposto que ele viu uma ou outra coisa.
     Eu sufoquei uma risada.
     As orelhas de Boo ficaram de p ao ouvir o prprio nome, e mais do que
algumas pessoas comearam a se remexer nos assentos, como se Boo pudesse
abrir a boca e comear a falar. Depois da noite de Halloween, isso no me
surpreenderia, e considerando a reputao de Macon Ravenwood, ningum
em Gatlin teria ficado chocado.
     -- Como vocs podem ver, h mais do que algumas pessoas nessa cidade
que no so l muito honestas. Ento vocs podem imaginar minha
preocupao quando soube que quatro adolescentes so as nicas
testemunhas dessas terrveis acusaes contra minha prpria famlia. No
seria do interesse de todos ns esquecer esse assunto? No seria a coisa mais
cavalheiresca a se fazer, senhor?
     O Sr. Hollingsworth parecia que ia vomitar, e a mulher ao lado dele
parecia ter esperanas de ser engolida pelo cho. O Sr. Ebitt, cujo nome me
dei conta jamais ter sido mencionado antes de Macon faz-lo, j tinha sado,
atrs da esposa. Os integrantes do tribunal que sobraram pareciam
apavorados, como se a qualquer momento Macon Ravenwood, ou seu
cachorro, pudesse comear a contar para a cidade inteira seus segredinhos
sujos.
     -- Acho que voc talvez esteja certo, Sr. Ravenwood. Talvez ns
precisemos investigar essas acusaes melhor antes de seguir com o assunto.
Pode haver inconsistncias.
     -- Uma deciso sbia, Sr. Hollingsworth. Muito sbia. -- Macon andou
em direo  pequena mesa onde Lena estava e ofereceu o brao. -- Vamos,
Lena. Est tarde. Voc tem aula amanh.
     Lena ficou de p, ainda mais ereta do que o normal. A chuva diminuiu
para um leve chuvisco. Marian amarrou uma echarpe em volta do cabelo e os
trs desceram o corredor, com Boo seguindo atrs deles. Nem olharam para
mais ningum no ginsio.
     A Sra. Lincoln ficou de p.
     -- A me dela  uma assassina! -- gritou ela, apontando para Lena.
     Macon se virou para encontrar o olhar da Sra. Lincoln. Havia algo na
expresso dele. Era a mesma expresso de quando mostrei a ele o medalho
de Genevieve. Boo rosnou ameaadoramente.
     -- Cuidado, Martha. Voc nunca sabe quando vamos nos esbarrar de
novo.
     -- Ah, mas eu sei, Macon. -- Ela sorriu, mas no se parecia em nada
com um sorriso. No sei o que havia entre eles, mas no parecia mais que
Macon estava lutando apenas com a Sra. Lincoln.
     Marian abriu o guarda-chuva de novo, apesar de ainda no estarem do
lado de fora. Sorriu diplomaticamente para a multido.
     -- Espero ver todos vocs na biblioteca. No se esqueam de que ficamos
abertos at s 18 horas durante a semana.
     Ela assentiu para o ginsio.
     -- "Sem bibliotecas, o que ns temos? No temos passado nem futuro."
Perguntem a Ray Bradbury. Ou vo at Charlotte e leiam na parede da
biblioteca pblica. -- Macon pegou o brao de Marian, mas ela no tinha
terminado. -- E ele tambm no frequentou Harvard, Sra. Lincoln. Ele nem
fez faculdade.
     Com isso, eles se foram.
                            p 19 de dezembro p
                            Natal branco
                                    d
D
      epois da reunio do Comit Disciplinar, acho que ningum acreditava
      que Lena apareceria na escola no dia seguinte. Mas ela foi, exatamente
      como eu sabia que faria. Ningum mais sabia que, anteriormente, ela
tinha aberto mo do direito de ir  escola. No deixaria ningum tirar isso
dela de novo. Para todas as outras pessoas, a escola era uma priso. Para
Lena, era liberdade. S que no importava, porque foi naquele dia que Lena
virou um fantasma na Jackson -- ningum olhava para Lena, falava com ela,
sentava perto dela em nenhuma mesa, arquibancada ou carteira. Na quinta-
feira, metade dos alunos da escola estavam usando camisetas dos Anjos da
Jackson, com as asas brancas nas costas. Pelo modo como olhavam para ela,
parecia que metade dos professores desejavam poder usar as camisetas
tambm. Na sexta-feira, entreguei meu uniforme de basquete. No parecia
mais que eu estava no mesmo time que eles.
     O treinador ficou furioso. Depois que toda a gritaria acabou, ele apenas
balanou a cabea.
     -- Voc est louco, Wate. Veja a temporada que voc est tendo, e est
jogando isso no lixo por uma garota qualquer. -- Eu percebia no tom de voz
dele. Urna garota qualquer. A sobrinha do Velho Ravenwood.
     Ainda assim, ningum dizia palavras grosseiras para nenhum de ns dois,
pelo menos no na nossa cara. Se a Sra. Lincoln tinha colocado o medo de
Deus neles, Macon Ravenwood tinha dado ao povo de Gatlin um motivo
para ter medo de algo ainda pior. A verdade.
     Enquanto eu via os nmeros na parede e na mo de Lena ficarem
menores e menores, a possibilidade foi se tornando mais real. E se ns no
pudssemos impedir? E se Lena estivesse certa o tempo todo, e depois do
aniversrio dela, a garota que eu conhecia desaparecesse? Como se jamais
tivesse estado aqui.
     Tudo que tnhamos era O Livro das Luas. Mas cada vez mais, havia um
pensamento que eu tentava manter fora da cabea de Lena e da minha.
     Eu no tinha certeza de que o Livro seria o bastante.




"DENTRE AS PESSOAS DE PODER, H FORAS GMEAS DAS
QUAIS BROTA
     TODA MAGIA, A DAS TREVAS E DA LUZ."
     -- Acho que entendemos bem esse negcio de Trevas e Luz. Acha que
podemos ir para a parte boa? A parte chamada Brechas no Dia de
Invocao? Como Derrotar uma Cataclista Malvada? Como Reverter a
Passagem do Tempo? -- Eu estava frustrado, e Lena no falava nada.
     De onde estvamos sentados na arquibancada fria, a escola parecia
deserta. Deveramos estar em uma feira de cincias, vendo Alice Milkhouse
afundar um ovo em vinagre, ouvindo Jackson Freeman discutir que no
existia essa histria de aquecimento global e Annie Honeycutt retorquir
ensinando como tornar Jackson uma escola verde. Talvez os Anjos fossem
comear a reciclar os folhetos.
     Olhei para o livro de lgebra II, bem visvel na minha mochila. No
parecia haver nada que valesse a pena aprender nesse lugar. Eu tinha
aprendido o bastante nos ltimos meses. Lena estava a milhes de
quilmetros de distncia, ainda afundada no Livro. Eu tinha comeado a
carreg-lo na minha mochila, por medo de Amma encontr-lo se eu o
deixasse no quarto.
     -- Aqui tem mais sobre Cataclistas.
     "O MAIOR SER DAS TREVAS, O PODER MAIS PRXIMO DO
MUNDO E DO SUBMUNDO, O CATACLISTA. O MAIOR SER DA
LUZ, O PODER MAIS PRXIMO DO MUNDO E DO SUBMUNDO,
O NATURAL. ONDE NO H UM, NO PODE HAVER O OUTRO,
POIS SEM TREVAS NO PODE HAVER LUZ."
     -- Est vendo? Voc no vai para as Trevas. Voc  da Luz porque voc
 uma Natural.
     Lena sacudiu a cabea e apontou para o pargrafo seguinte.
     -- No necessariamente.  isso o que meu tio pensa. Mas oua isso:
     "NA HORA DA INVOCAO, A VERDADE SE MANIFESTAR. O
QUE PARECE TREVAS PODE SER A MAIOR DAS LUZES, O QUE
PARECE LUZ PODE SER A MAIOR DAS TREVAS."
     Ela estava certa, no havia como ter certeza.
     -- Depois fica muito complicado. Nem sei se entendi direito.
     "A MATRIA DAS TREVAS FEZ O FOGO DAS TREVAS, E O
FOGO DAS TREVAS FEZ OS PODERES DE TODOS OS LILUM NO
MUNDO DOS DEMNIOS E DOS CON- JURADORES DAS TREVAS
E DA LUZ. SEM TODO O PODER, NO PODE HAVER PODER. O
FOGO DAS TREVAS FEZ A GRANDE TREVA E A GRANDE LUZ.
TODO PODER  DAS TREVAS, ENQUANTO PODER DAS TREVAS
 AT MESMO LUZ."
     -- Matria das Trevas? Fogo das Trevas? O que  isso, o Big Bang dos
Conjuradores?
     -- E Lilum? Nunca ouvi nada disso, mas por outro lado, ningum me
conta nada. Eu nem sabia que minha prpria me estava viva. -- Ela tentou
parecer sarcstica, mas eu podia perceber a dor em sua voz.
     -- Talvez Lilum seja uma palavra antiga para Conjuradores, ou algo
assim.
     -- Quanto mais descubro, menos entendo.
    E menos tempo ns temos.
    No diga isso.
     O sinal tocou e me levantei.
     -- Voc vem?
     Ela sacudiu a cabea.
     -- Vou ficar aqui mais um pouco.
     Sozinha, no frio. Cada vez mais era assim: ela nem tinha me olhado nos
olhos desde a reunio do Comit Disciplinar, quase como se eu fosse um
deles, Eu no podia culp-la, considerando que a escola toda e metade da
cidade tinham concludo que ela era a filha bipolar de uma assassina que fora
internada em uma instituio.
     --  melhor voc aparecer na aula mais cedo ou mais tarde. No d mais
munio para o diretor Harper.
     Ela olhou na direo do prdio.
     -- No vejo como isso possa importar agora.




Pelo resto da tarde, ela no estava em nenhum lugar onde pudesse ser
encontrada. Pelo menos, se estava, no estava ouvindo. Na aula de Qumica,
ela no compareceu para o teste sobre a tabela peridica.
    Voc no  das Trevas, L. Eu saberia.
     Na aula de histria, ela no compareceu  encenao do debate entre
Lincoln e Douglas, e o Sr. Lee tentou me fazer debater no lado a favor da
escravido, provavelmente como punio por algum trabalho de
"mentalidade liberal" que eu ainda iria escrever.
    No deixe que a atinjam assim. No so importantes.
     Na aula de linguagem dos sinais, ela no estava quando tive que ficar na
frente da sala e fazer os sinais de "Brilha, Brilha, Estrelinha", enquanto o
restante do time de basquete ria baixinho.
    No vou a lugar algum, L. Voc no pode me afastar.
    Foi quando me dei conta de que ela podia.




Na hora do almoo, eu no aguentava mais. Esperei que ela sasse da aula de
Trigonometria e a puxei para o lado do corredor, deixando minha mochila
cair no cho. Peguei o rosto dela nas minhas mos e a fiz olhar para mim.
    Ethan, o que voc est fazendo?
    Isso.
     Puxei o rosto dela em direo ao meu com as duas mos. Quando nossos
lbios se tocaram, senti o calor do meu corpo percorrer a frieza do dela. Senti
o corpo dela derretendo contra o meu, a atrao inexplicvel que nos unia
desde o comeo, nos unindo de novo. Lena deixou os livros carem e passou
os braos em volta do meu pescoo, correspondendo ao meu toque. Eu estava
ficando tonto.
     O sinal tocou. Ela se afastou de mim, ofegando. Me abaixei para pegar o
exemplar dela de Pleasures ofthe Damned, de Bukowski, e o caderno espiral
surrado. O caderno estava praticamente despencando, mas ela tinha muito
assunto sobre o qual escrever ultimamente.
     Voc no devia ter feito isso.
     Por que no? Voc  minha namorada, e sinto saudades.
     Cinquenta e quatro dias, Ethan.  tudo que temos.  hora de pararmos
de fingir que podemos mudar alguma coisa. Ser mais fcil se ns dois
aceitarmos.
     Houve algo no jeito que ela falou que pareceu que estava falando de algo
alm do aniversrio. Falava de outras coisas que no podamos mudar.
     Ela se virou, mas peguei seu brao antes que virasse as costas para mim.
Se ela estava dizendo o que eu pensava que estava dizendo, queria que me
olhasse quando dissesse.
     -- O que voc quer dizer, L? -- Quase no consegui perguntar.
     Ela olhou para o outro lado.
     -- Ethan, sei que voc acha que isso pode ter um final feliz, e por um
tempo eu talvez tambm tenha achado. Mas no vivemos no mesmo mundo,
e no meu, querer muito uma coisa no faz com que ela acontea. -- Ela no
olhava para mim. -- Somos diferentes demais.
     -- Agora somos diferentes? Depois de tudo que passamos? -- Minha voz
estava ficando mais alta. Algumas pessoas se viraram, olhando para mim.
Nem olharam para Lena.
     Somos diferentes. Voc  Mortal e eu sou Conjuradora. Esses mundos
podem se cruzar, mas jamais sero a mesma coisa. No podemos viver nos
dois.
    O que ela estava dizendo era que ela no podia viver nos dois. Emily e
Savannah, o time de basquete, a Sra. Lincoln, o Sr. Harper, os Anjos da
Jackson, todos estavam finalmente conseguindo o que queriam.
   Isso  sobre a reunio disciplinar, no ? No deixe...
   No  s sobre a reunio.  tudo. No perteno a esse mundo, Ethan.
Voc pertence.
   Ento agora eu sou um deles.  isso que voc est dizendo?
    Ela fechou os olhos e eu quase pude ver seus pensamentos, se
confundindo na cabea.
    No estou dizendo que voc  como eles, mas voc  um deles.  aqui
que voc viveu sua vida toda. E depois que tudo isso acabar, depois que eu for
Invocada, voc ainda estar aqui. Vai ter que andar por esses corredores e
por essas ruas de novo, e eu provavelmente no estarei aqui. Mas voc estar,
sabe-se l por quanto tempo, e como voc mesmo disse -- as pessoas de
Gatlin nunca esquecem nada.
    Dois anos.
    O qu?
    E durante esse tempo que estarei aqui.
    Dois anos  muito tempo para ficar invisvel. Acredite, eu sei.
     Por um minuto, nenhum de ns disse nada. Ela apenas ficou ali parada,
puxando fiapos de papel da espiral do caderno.
     -- Estou cansada de lutar. Estou cansada de tentar fingir que sou normal.
     -- Voc no pode desistir. No pode deix-los vencer.
     -- J venceram. Venceram no dia que quebrei a janela na aula de ingls.
     Havia alguma coisa em sua voz que revelava que ela estava desistindo de
algo alm da Jackson.
     -- Voc est terminando comigo? -- Prendi a respirao.
     -- Por favor, no torne isso mais difcil. No  o que eu quero tambm.
    Ento no faa.
     Eu no conseguia respirar. No conseguia pensar. Era como se o tempo
tivesse parado de novo, como no jantar de Ao de Graas. S que dessa vez
no havia magia. Havia o oposto de magia.
     -- S acho que as coisas vo ser mais fceis assim. No muda o que sinto
por voc. -- Ela olhou para mim, os grandes olhos verdes brilhando com as
lgrimas. Depois se virou e saiu correndo pelo corredor, que estava to
silencioso que daria para ouvir um lpis caindo.
    Feliz Natal, Lena.
     Mas no havia nada para ouvir. Ela foi embora, e isso era uma coisa
para a qual eu no estaria pronto, nem em 53 dias, nem em 53 anos, nem em
53 sculos.
Cinquenta e trs minutos depois, eu estava sentado sozinho, olhando pela
janela, o que era algo chamativo, considerando o quanto o refeitrio estava
cheio. Gatlin estava cinza; as nuvens tinham chegado. Eu no chamaria de
tempestade exatamente; no nevava h anos. Se tivssemos sorte, tnhamos
uma nevasca ou duas, talvez uma vez por ano. Mas no nevou nem um dia
desde que eu tinha 12 anos.
     Desejei que nevasse. Desejei que eu pudesse apertar o boto de rebobinar
para estar de volta quele corredor com Lena. Desejei poder dizer a ela que
eu no ligava se todo mundo na cidade me odiasse, porque no importava.
Eu estava perdido antes de t-la encontrado nos meus sonhos, e ela me
encontrou naquele dia na chuva. Eu sabia que parecia que era sempre eu que
estava tentando salvar Lena, mas a verdade era que ela tinha me salvado, e
eu no estava pronto para que ela parasse agora.
     -- Oi, cara. -- Link sentou no banco  frente do meu na mesa vazia. --
Onde est Lena? Eu queria agradecer a ela.
     -- Pelo qu?
     Link pegou uma folha de caderno dobrada que estava no bolso.
     -- Ela escreveu uma msica pra mim. Legal, n?
     Eu no conseguia nem olhar. Ela falava com Link, s no falava comigo.
     Link pegou uma fatia da minha pizza intocada.
     -- Escuta, tenho um favor pra te pedir.
     -- Claro. De que voc precisa?
     -- Ridley e eu vamos at Nova York no final do ano. Se algum
perguntar, estou no acampamento da igreja em Savannah.
     -- No tem acampamento da igreja em Savannah.
     -- , mas minha me no sabe disso. Falei que tinha me inscrito porque
eles tm uma espcie de banda de rock batista.
     -- E ela acreditou?
     -- Ela est meio estranha ultimamente, mas no ligo. Falou que eu podia
ir.
     -- No importa o que sua me diz, voc no pode ir. Tem coisas que
voc no sabe sobre Ridley. Ela ... perigosa. Coisas podem acontecer com
voc.
     Os olhos dele se iluminaram. Eu nunca tinha visto Link assim. Mas
tambm, eu no o via muito ultimamente. Eu vinha passando todo meu
tempo com Lena ou pensando nela, no Livro, no aniversrio dela. As coisas
em torno das quais meu mundo girava, pelo menos at uma hora atrs.
     --  isso que espero. Alm do mais, estou muito a fim dela. Ela provoca
uma coisa em mim, sabe? -- Ele pegou o ltimo pedao de pizza do meu
prato.
     Por um segundo, considerei contar tudo a Link, assim como antigamente
-- sobre Lena e sua famlia; Ridley, Genevieve e Ethan Carter Wate. Link
sabia de tudo no comeo, mas eu no sabia se ele acreditaria no resto, ou se
ele conseguiria. Algumas coisas eram demais para se pedir, mesmo para um
melhor amigo. Agora eu no podia me arriscar a perder Link tambm, mas
tinha que fazer alguma coisa. No podia deix-lo ir para Nova York e nem
para nenhum outro lugar com Ridley.
     -- Escute, cara, voc tem que confiar em mim. No se envolva com ela.
Ela s est usando voc. Voc vai se machucar.
     Ele esmagou uma lata de Coca na mo.
     -- Ah, entendi. Se a garota mais gostosa da cidade est saindo comigo,
ela deve estar me usando? Acho que voc pensa que  o nico que consegue
pegar uma menina gostosa. Quando foi que ficou to metido?
     -- No  isso que estou dizendo.
     Link ficou de p.
     -- Acho que ns dois sabemos o que voc est dizendo. Esquea que
pedi.
     Era tarde demais. Ridley j o tinha afetado. Nada que eu dissesse ia faz-
lo mudar de ideia . E eu no podia perder minha namorada e meu melhor
amigo no mesmo dia.
     -- Olha, no foi isso que eu quis dizer. No vou dizer nada, afinal sua
me nem tem falado comigo.
     -- Tudo bem. Deve ser difcil ter um melhor amigo que  to bonito e
talentoso como eu.
     Link pegou o biscoito que havia na minha bandeja e o partiu ao meio.
Podia muito bem ter sido o Twinkie sujo do cho do nibus. Tinha passado.
Seria preciso bem mais do que uma garota, at mesmo uma Sirena, para
entrar entre ns.
     Emily estava olhando para ele.
     --  melhor voc ir antes que Emily dedure voc para sua me. E a voc
no vai pra nenhum acampamento de igreja, real ou imaginrio.
    -- No estou preocupado com ela.
    Mas estava. Ele no queria ficar preso em casa com a me pelo fim de
ano todo. E no queria levar gelo do time, por todo mundo na Jackson,
mesmo que ele fosse burro demais ou leal demais para se dar conta.




Na segunda-feira, ajudei Amma a tirar as caixas de decoraes natalinas do
sto. A poeira fez meus olhos lacrimejarem; pelo menos foi isso que eu disse
para mim mesmo. Encontrei uma cidadezinha iluminada por pequenas luzes
brancas que minha me costumava colocar todo ano embaixo da rvore de
Natal, sobre um pedao de algodo que fingamos que era neve. As casinhas
eram da av dela, e ela as amava tanto que eu as amava, apesar de serem
feitas de papelo, cola e purpurina, e metade das vezes carem enquanto eu
tentava mont-las. "Coisas velhas so melhores do que as novas porque elas
tm histria, Ethan." Ela segurava um velho carrinho de lata e dizia:
"Imagine minha bisav brincando com o mesmo carro, arrumando a mesma
cidade debaixo da rvore, assim como ns agora."
     Eu no via a cidade desde quando? Desde que no via minha me, pelo
menos. Parecia menor do que antes, o papelo mais amassado e esfarrapado.
Eu no conseguia achar as pessoas em nenhuma das caixas, nem os bichos. A
cidade parecia solitria, e me deixou triste. De alguma forma, a magia tinha
sumido junto com ela. Me vi tentando alcanar Lena, apesar de tudo.
    Sinto saudade de tudo. As caixas esto aqui, mas est tudo errado. Ela
no est aqui. Nem  mais uma cidade. E ela nunca vai conhecer voc.
     Mas no houve resposta. Lena tinha sumido, ou s me banira. Eu no
sabia o que era pior. Eu estava mesmo sozinho, e a nica coisa pior do que
estar sozinho era todo mundo ver o quanto voc estava sozinho. Ento fui
para o nico lugar na cidade onde eu sabia que no encontraria ningum. A
Biblioteca do Condado de Gatlin.

-- Tia Marian?
    A biblioteca estava congelante e completamente vazia, como sempre.
Depois do modo como a reunio do Comit Disciplinar tinha decorrido, eu
supunha que Marian no tivera nenhum visitante.
     -- Estou aqui atrs.
     Ela estava sentada no cho, de sobretudo, com uma pilha de livros
abertos at a cintura, como se tivessem acabado de cair das prateleiras ao seu
redor. Estava segurando um livro, lendo em voz alta, em um de seus
familiares transes literrios.
     "Ns O vemos chegando, e sabemos que Ele  dos nossos,
     Quem, com Seu brilho do Sol, e Suas chuvas,
     Transforma todo solo paciente em flores.
     O Querido do mundo chegou..."
     Ela fechou o livro.
     -- Robert Herrick. E uma cantiga de Natal, cantada para o rei no
Whitehall Palace. -- Ela parecia to distante quanto Lena ultimamente, eu
percebia agora.
     -- Desculpe, no conheo o cara. -- Estava to frio que eu podia ver na
respirao se condensando.
     -- Isso o lembra de quem? Transformar o cho em flores, o querido do
mundo.
     -- Est falando de Lena? Aposto que a Sra. Lincoln teria alguma coisa a
dizer sobre isso. -- Sentei ao lado de Marian, espalhando livros pelo corredor.
     -- A Sra. Lincoln. Que criatura triste. -- Ela balanou a cabea e pegou
outro livro. -- Dickens acha que o Natal  uma poca para as pessoas
"abrirem livremente seus coraes fechados e pensar nas pessoas abaixo delas
como se fosse companheiros passageiros at o tmulo, e no outra raa de
criaturas."
     -- O aquecedor est quebrado? Voc quer que eu ligue para a
companhia eltrica?
     -- Esqueci de ligar. Acho que me distra. -- Ela jogou o livro de volta na
pilha ao seu redor. -- Uma pena que Dickens nunca veio a Gatlin. Temos
mais do que nossa cota de coraes fechados por aqui.
     Peguei um livro. Richard Wilbur. Eu o abri, afundando meu rosto no
cheiro das palavras. Olhei para as palavras. "Qual  o oposto de dois? Um eu
solitrio, um voc solitrio," Esquisito,  exatamente assim que eu estava me
sentindo. Fechei o livro e olhei para Marian.
     -- Obrigado por ir  reunio, tia Marian. Espero que no cause
problemas para voc. Senti como se fosse tudo minha culpa.
     -- No foi.
     -- Parece que foi. -- Joguei o livro na pilha.
     -- Como assim, agora voc  o autor de toda ignorncia? Ensinou a Sra.
Lincoln a odiar e o Sr. Hollingsworth a ter medo?
     Ficamos os dois sentados ali, cercados por uma montanha de livros. Ela
esticou a mo e apertou a minha.
     -- Essa batalha no comeou com voc, Ethan. No vai terminar com
voc tambm, lamento, nem comigo, alis. -- O rosto dela ficou srio. --
Quando entrei aqui hoje de manh, esses livros estavam empilhados no cho.
No sei como chegaram aqui, nem por qu. Tranquei as portas quando sa
ontem  noite, e ainda estavam trancadas hoje de manh. S sei que sentei
para dar uma olhada, e cada um desses livros, todos eles, tinham alguma
mensagem para mim sobre esse momento, nessa cidade, agora. Sobre Lena,
voc, eu, at.
     Balanou minha cabea.
     --  coincidncia. Livros so assim.
     Ela pegou um livro aleatrio da pilha e o passou para mim.
     -- Tente voc. Abra.
     Peguei o livro da mo dela.
     -- Que livro ?
     -- Shakespeare. Jlio Csar.
     Eu o abri e comecei a ler.
     "Os homens em algum momento so os mestres do prprio destino:
     A culpa, prezado Brutus, no est nas nossas estrelas,
     Mas em ns mesmos, que somos subordinados."
     -- O que isso tem a ver comigo?
     Marian olhou para mim por cima dos culos.
     -- Sou apenas a bibliotecria. S posso lhe dar os livros. No posso dar
as respostas. -- Mas ela sorriu mesmo assim. -- A questo sobre o destino  a
seguinte:  voc o mestre do seu destino, ou so as estrelas?
     -- Voc est falando sobre Lena ou sobre Jlio Csar? Porque odeio
confessar, mas jamais li essa pea.
     -- Responda voc.
Passamos o resto daquela hora verificando a pilha, nos revezando na leitura
em voz alta. Finalmente, eu soube por que tinha vindo.
     -- Tia Marian, acho que preciso voltar no arquivo.
     -- Hoje? Voc no tem coisas a fazer? Compras de Natal, pelo menos?
     -- No fao compras.
     -- Palavras sbias. Quanto a mim, "Gosto do Natal como um todo... De
seu modo desajeitado, chega prximo  Paz e Boa-vontade. Mas fica mais
desajeitado a cada ano."
     -- Mais Dickens?
     -- E.M. Forster.
     Suspirei.
     -- No consigo explicar. Acho que preciso ficar perto da minha me.
     -- Eu sei. Tambm sinto saudades dela.
     Eu no tinha pensado sobre o que diria para Marian em relao aos
meus sentimentos. Quanto  cidade, e como tudo o mais estava errado. Agora
as palavras pareciam entaladas na minha garganta, como se outra pessoa as
estivesse gaguejando.
     -- S pensei que, se eu pudesse ficar perto dos livros dela, talvez pudesse
me sentir como antes. Talvez pudesse falar com ela. Tentei ir ao cemitrio
uma vez, mas no me fez sentir como se ela estivesse l, na terra. -- Olhei
para uma mancha no carpete.
     -- Eu sei.
     -- Ainda no consigo pensar nela estando l. No faz sentido. Por que
voc enfiaria algum que ama em um buraco solitrio na terra? Onde  frio,
sujo e cheio de insetos? No pode ser assim que termina, depois de tudo,
depois de tudo que ela foi. -- Tentei no pensar sobre isso, sobre o corpo dela
virando osso e lama e poeira l embaixo. Odiava a ideia de ela ter que passar
por isso sozinha, como eu estava passando por tudo sozinho agora.
     -- Como voc quer que termine? -- Marian colocou uma mo no meu
ombro.
     -- No sei. Eu devia, algum devia construir um monumento para ela ou
algo assim.
     -- Como o General? Sua me teria achado graa disso. -- Marian passou
o brao em volta de mim. -- Sei o que voc quer dizer. Ela no est l, ela
est aqui.
     Ela esticou a mo e eu a ajudei a se levantar. Ficamos de mos dadas no
caminho at o arquivo, como se eu ainda fosse uma criana de quem ela
estivesse cuidando enquanto minha me trabalhava l atrs. Ela puxou um
chaveiro pesado e abriu a porta. No me seguiu quando entrei.
     De volta ao arquivo, me afundei na cadeira em frente  escrivaninha da
minha me. Na cadeira da minha me. Era de madeira, e tinha a insgnia da
Universidade de Duke. Acho que deram a ela por ter se formado com honra,
ou alguma coisa do tipo. No era confortvel, mas era reconfortante e
familiar. Senti o cheiro de verniz velho, o mesmo verniz que eu
provavelmente tinha mastigado quando beb, e imediatamente me senti
melhor do que me sentia h meses. Eu podia sentir o cheiro das pilhas de
livros embrulhados em plstico, do pergaminho se desfazendo, de poeira e
dos arquivos baratos. Podia inspirar o ar especial da atmosfera especial do
planeta muito especial da minha me. Para mim, era como se eu tivesse 7
anos e estivesse sentado no colo dela com o rosto afundado em seu ombro.
     Eu queria ir para a casa. Sem Lena, no tinha nenhum outro lugar para
ir.
     Peguei uma fotografia pequena emoldurada na escrivaninha de minha
me, quase escondida entre os livros. Era dela e meu pai no escritrio l de
casa. Algum a tinha tirado em preto e branco, h muito tempo.
Provavelmente para a contracapa do livro, em um de seus primeiros projetos,
quando meu pai ainda era historiador e eles trabalhavam juntos. Quando
tinham cabelos engraados e usavam calas feias, e dava para ver a felicidade
em seus rostos. Era difcil de olhar, mas era mais difcil coloc-la de volta.
Quando a pus sobre a escrivaninha, ao lado das pilhas poeirentas de livros,
um livro me chamou a ateno. Tirei-o de debaixo de uma enciclopdia
sobre armas da Guerra Civil e de um catlogo de plantas nativas da Carolina
do Sul. Eu no sabia que livro era aquele. S sabia que estava marcado com
um longo ramo de alecrim. Sorri. Pelo menos no era uma meia e nem uma
colher velha de plstico.
     O livro de receitas da Liga de Beisebol Infantil do Condado de Gatlin,
Frango Frito e Audcia. Ele se abriu sozinho em uma pgina. "Tomates Fritos
com Soro de Leite de Betty Burton", a receita favorita de minha me. O
aroma de alecrim subiu das pginas. Olhei para o alecrim mais de perto.
Estava fresco, como se tivesse sido colhido ontem. Minha me no podia t-lo
posto ali, mas ningum mais usaria alecrim como marcador. A receita
favorita de minha me estava marcada com o aroma familiar de Lena. Talvez
os livros estivessem mesmo tentando me dizer alguma coisa.
      -- Tia Marian? Voc andou querendo fritar tomates?
      Ela enfiou a cabea pela passagem da porta.
      -- Voc acha que eu tocaria em um tomate? Imagine fritar um!
      Olhei para o alecrim em minha mo.
      -- Foi o que pensei.
      -- Acho que era a nica coisa sobre o que sua me e eu discordvamos.
      -- Posso pegar esse livro emprestado? S por uns dias?
      -- Ethan, voc no precisa pedir. So as coisas da sua me; no h nada
nessa sala que ela no gostaria que ficasse para voc.
      Eu queria perguntar a Marian sobre o alecrim no livro de receitas, mas
no consegui. No podia suportar mostrar para mais ningum, nem me
separar dele. Embora eu jamais tivesse fritado e talvez nunca fritasse um
tomate na minha vida, enfiei o livro debaixo do brao enquanto Marian me
acompanhava at a porta.
      -- Se precisar de mim, estou aqui para voc. Para voc e para Lena.
Sabe disso. No h nada que eu no faria por voc. -- Ela tirou o cabelo da
frente dos meus olhos e me deu um sorriso. No era o sorriso da minha me,
mas era um dos sorrisos favoritos da minha me.
      Marian me abraou e enrugou o nariz.
      -- Est sentindo cheiro de alecrim?
      Dei de ombros e sa pela porta, para o dia cinzento. Talvez Jlio Csar
estivesse certo. Talvez fosse hora de confrontar meu destino, e o destino de
      Lena. Se dependia de ns ou das estrelas, eu no podia ficar sentado
esperando para descobrir.




Quando cheguei do lado de fora, estava nevando. Eu no podia acreditar.
Olhei para o cu e deixei a neve cair no meu rosto congelado. Os flocos
grossos e leves caam sem motivo nenhum em particular. No era uma
tempestade, de modo algum. Era um presente, talvez at um milagre: um
Natal branco, assim como nas canes.
     Quando subi a varanda da frente, l estava ela, sentada sem o capuz nos
degraus da frente. No momento em que a vi, percebi o que a neve realmente
era. Uma oferta de paz.
     Lena sorriu para mim. Naquele segundo, os pedaos da minha vida que
estavam se despedaando voltaram para o lugar. Tudo que estava errado se
consertou; talvez no tudo, mas o bastante.
     Sentei ao lado dela no degrau.
     -- Obrigado, L.
     Ela se inclinou em minha direo.
     -- Eu s queria fazer voc se sentir melhor. Estou to confusa, Ethan.
No quero que voc se machuque. No sei o que eu faria se alguma coisa
acontecesse a voc.
     Passei minha mo pelo seu cabelo mido.
     -- No me afaste, por favor. No suporto perder mais ningum de quem
eu gosto.
     Abri o zper da parka que ela vestia, passando meu brao em torno de
sua cintura para pux-la em minha direo. Beijei-a enquanto ela se apertava
contra mim, at que senti que derreteramos toda neve do jardim se no
parssemos.
     -- O que foi isso? -- perguntou ela, recuperando o flego. Beijei-a de
novo, at que no pudemos mais suportar, e nos afastamos.
     -- Acho que se chama destino. Estou esperando para fazer isso desde o
baile de inverno, e no vou esperar mais.
     -- No vai?
     -- No.
     -- Bem, vai ter que esperar mais um pouco. Ainda estou de castigo. Tio
M pensa que estou na biblioteca.
     -- No ligo se voc est de castigo. Eu no estou. Me mudo para sua casa
se eu precisar, e durmo com Boo na casinha dele.
     -- Ele tem um quarto. Dorme numa cama de dossel.
     -- Melhor ainda.
     Ela sorriu e segurou minha mo. Os flocos de neve derretiam quando
pousavam em nossa pele quente.
     -- Senti sua falta, Ethan Wate. -- Ela me beijou. A neve caiu mais forte,
nos encharcando. Estvamos praticamente radioativos. -- Talvez voc
estivesse certo. Devamos passar o mximo de tempo possvel juntos antes
que... -- Ela parou, mas eu sabia em que estava pensando.
     -- Vamos pensar em alguma coisa, L. Prometo.
     Ela assentiu sem convico e se aconchegou nos meus braos. Eu podia
sentir a calma comeando a tomar conta de ns.
     -- No quero pensar nisso hoje. -- Ela me afastou, brincando, de volta 
terra dos vivos.
     -- E? Em que voc quer pensar, ento?
     -- Anjos de neve. Nunca fiz um.
     --  mesmo? Vocs no fazem anjos?
     -- No  porque so anjos. S moramos na Virgnia por alguns meses,
ento nunca morei em um lugar que nevasse.




Uma hora depois, estvamos encharcados e sentados  mesa da cozinha.
Amma tinha ido at o Pare & Roube, e estvamos bebendo o lamentvel
chocolate quente que eu tentara fazer sozinho.
     -- No tenho certeza de que seja assim que se faz chocolate quente --
provocou Lena enquanto eu derramava uma tigela de gotas de chocolate
derretidas em leite quente. O resultado era marrom e branco, e cheio de
pedaos. Para mim, parecia timo.
     -- ? E como voc poderia saber? "Faz um chocolate quente, por favor?"
-- Imitei sua voz fina com minha voz grave e o resultado foi um estranho
falsete falhado. Ela sorriu. Eu estava com saudade daquele sorriso, apesar de
s terem se passado alguns dias; sentia saudade dele mesmo depois de apenas
alguns minutos.
     -- Falando em Cozinha, tenho que ir. Falei pro meu tio que estava na
biblioteca, e ela j fechou.
     Puxei-a para o meu colo, sentado  mesa da cozinha. Eu estava tendo
dificuldade para no toc-la a cada segundo, agora que podia de novo. Me vi
inventando desculpas para fazer ccegas, qualquer coisa para tocar em seu
cabelo, nas mos, nos joelhos. A atrao entre ns era como um m. Ela se
encostou no meu peito e ficamos ali sentados, at que ouvi ps caminhando
no cho do andar de cima. Ela pulou do meu colo como um gato assustado.
     -- No se preocupe,  o meu pai. Ele est s tomando banho. Esta  a
nica hora que ele sai do escritrio.
     -- Ele est piorando, no est? -- Ela pegou minha mo. Ns dois
sabamos que aquilo no era uma pergunta.
     -- Meu pai no era assim at minha me morrer. Ele pirou depois disso.
     Eu no precisava explicar o resto; ela tinha me ouvido pensar vrias
vezes. Sobre como minha me morreu, como paramos de fazer tomates fritos,
como perdemos as pecinhas da cidade de Natal, como ela no estava l para
enfrentar a Sra. Lincoln e como nada nunca mais foi o mesmo.
     -- Sinto muito.
     -- Eu sei.
     --  por isso que voc foi  biblioteca hoje? Para procurar sua me?
     Olhei para Lena, tirando o cabelo do seu rosto. Assenti e tirei o alecrim
do bolso, depois o coloquei com cuidado no balco.
     -- Vamos. Quero te mostrar uma coisa.
     Puxei-a da cadeira e peguei a mo dela. Deslizamos pelo cho de
madeira usando meias midas e paramos na porta do escritrio. Olhei pela
escada para o quarto do meu pai. Eu ainda no ouvia o chuveiro; tnhamos
bastante tempo. Tentei abrir a maaneta.
     -- Est trancada. -- Lena franziu a testa. -- Voc tem a chave?
     -- Espere, veja o que acontece.
     Ficamos ali, olhando para a porta. Eu me sentia idiota parado ali, e Lena
tambm devia se sentir, porque comeou a rir. Quando eu estava prestes a
dar uma gargalhada, a porta comeou a se destrancar. Ela parou de rir.
    Isso no  Conjuro. Eu poderia sentir.
    Acho que eu tenho que entrar; ou ns dois.
     Dei um passo para trs e a porta se trancou de novo, Lena ergueu a mo,
como se fosse usar os poderes para abrir a porta para mim. Toquei nas costas
dela de leve.
     -- L, acho que eu preciso fazer isso.
     Toquei de novo na maaneta. A porta se destrancou e abriu, e eu entrei
no escritrio pela primeira vez em anos. Ainda era um lugar escuro e
assustador. O quadro coberto com um lenol ainda estava pendurado sobre o
sof desbotado. Embaixo da janela, a escrivaninha entalhada de mogno do
meu pai estava cheia de papis, empilhados sobre o computador, empilhados
sobre a cadeira, empilhados meticulosamente sobre o tapete persa no cho --
provavelmente pesquisa para seu novo livro.
     -- No toque em nada. Ele vai saber.
     Lena se agachou e olhou para a pilha mais prxima. E ento ela pegou
uma folha de papel, ligando o abajur de leitura.
     -- Ethan.
     -- No acenda a luz. No quero que ele desa aqui e tenha um chilique
com a gente. Ele me mataria se soubesse que entramos aqui. S se preocupa
com o livro.
     Ela me passou o papel sem dar uma palavra. Eu o peguei. Estava coberto
de rabiscos. No palavras rabiscadas, s rabiscos. Peguei um punhado dos
papis mais perto de mim. Estavam cobertos com linhas rabiscadas e formas,
e mais rabiscos. Peguei uma folha do cho: nada alm de pequenas linhas de
crculos. Percorri as pilhas de papel branco que entulhavam a escrivaninha e
o cho. Mais rabiscos e formas, pginas e pginas deles. Nem uma nica
palavra.
     Ento eu entendi. No tinha livro algum.
     Meu pai no era um escritor. No era sequer um vampiro.
     Era um louco.
     Eu me agachei, as mos no joelho. Ia vomitar. Devia ter previsto isso.
Lena massageou minhas costas.
    Est tudo bem. Ele s est passando por um momento difcil. Vai voltar
para voc.
    No vai. Ele se foi. Ela se foi, e agora vou perd-lo tambm.
     O que meu pai fez esse tempo todo, me evitou? Qual era o sentido de
dormir o dia inteiro e trabalhar a noite inteira se voc no estava trabalhando
em um grande romance? Se voc estava rabiscando linhas e linhas de
crculos? Fugindo do seu nico filho? Amma sabia? Todo mundo sabia da
brincadeira menos eu?
    No  sua culpa. No faa isso com voc mesmo.
     Dessa vez era eu que estava sem controle. A raiva cresceu dentro de
mim, e empurrei seu laptop da escrivaninha, fazendo com que os papis
sassem voando. Derrubei o abajur de leitura, e sem pensar, arranquei o
lenol do quadro acima do sof. O quadro caiu no cho, derrubando uma
estante baixa. Uma pilha de livros voou no cho, se abrindo no tapete.
      -- Olhe para o quadro. -- Ela o endireitou no meio dos livros no cho.
      Era uma pintura minha.
      Eu, como soldado da Confederao, em 1865. Mas era eu, mesmo assim.
      Nenhum de ns dois precisou ler o ttulo escrito a lpis na parte de trs
da moldura para saber quem era aquele. Ele at tinha o cabelo castanho fino
caindo sobre os olhos.
      -- J era hora de conhecermos voc, Ethan Carter Wate -- falei no
momento em que ouvi meu pai descendo a escada.
      -- Ethan Wate!
      Lena olhou para a porta, entrando em pnico.
      -- Porta!
      Ela bateu sozinha e se trancou. Ergui uma sobrancelha. Pensei que
jamais me acostumaria com aquilo.
      Houve algumas batidas na porta.
      -- Ethan, voc est bem? O que est acontecendo a dentro?
      Eu o ignorei. No consegui pensar em outra coisa para fazer, e no podia
suportar olhar para ele agora. Ento reparei nos livros.
      -- Olhe. -- Fiquei de joelhos no cho em frente ao mais prximo. Estava
aberto na pgina 3. Virei para a pgina 4 e ele voltou para a 3. Assim como a
tranca da porta. -- Voc fez isso?
      -- De que voc est falando? No podemos ficar aqui a noite toda.
      -- Marian e eu passamos o dia na biblioteca. E por mais louco que possa
parecer, ela achava que os livros estavam nos dizendo coisas.
      -- Que coisas?
      -- No sei. Coisas sobre destino, a Sra. Lincoln e voc.
      -- Eu?
      -- Ethan! Abra essa porta! -- Meu pai estava esmurrando a porta, mas
ele tinha me mantido de fora muito tempo. Agora era minha vez.
      -- No arquivo, achei uma foto da minha me nesse escritrio e depois
um livro de receitas aberto na receita favorita dela, com um marcador feito
de alecrim. Alecrim fresco. Voc no v? Tem a ver com voc, de alguma
forma, e minha me. E agora estamos aqui, como se alguma coisa quisesse
que a gente entrasse. Ou, sei l... algum.
     -- Ou talvez voc apenas tenha pensado nisso porque viu a foto dela.
     -- Talvez, mas olhe para isso. -- Virei a pgina do livro Constitutional
History  minha frente, mudando da pgina 3 para a 4. Mais uma vez, assim
que a virei, a pgina voltou sozinha.
     -- Isso  estranho. -- Ela se virou para outro livro. South Carolina:
Cradle to Grave. Estava aberto na pgina 12. Ela virou para a pgina 11.
Voltou sozinho para a 12.
     Tirei o cabelo dos meus olhos.
     -- Mas essa pgina no diz nada,  um grfico. Os livros de Marian
estavam abertos em certas pginas porque estavam tentando nos dizer
alguma coisa, eram mensagens. Os livros da minha me no parecem estar
nos dizendo nada.
     -- Talvez seja alguma espcie de cdigo.
     -- Minha me era pssima em matemtica. Ela era escritora -- falei,
como se isso fosse explicao suficiente. Mas no era, e minha me sabia disso
melhor do que ningum.
     Lena pegou o prximo livro.
     -- Pgina 1.  apenas a pgina do ttulo. No pode ser o contedo.
     -- Por que ela me deixaria um cdigo? -- Eu pensava alto, mas Lena
tambm tinha a resposta.
     -- Porque voc sempre sabe o final do filme. Porque cresceu com Amma
e os livros de mistrio e as palavras-cruzadas. Talvez sua me achasse que
voc descobriria alguma coisa que ningum mais entenderia.
     Meu pai bateu na porta sem convico. Olhei para o livro seguinte.
Pgina 9, depois a 13. Nenhum dos nmeros era maior do que 26. E, ainda
assim, muitos dos livros tinham muito mais pginas do que isso...
     -- H 26 letras no alfabeto, certo?
     -- Sim.
     --  isso. Quando eu era pequeno e no conseguia ficar parado na igreja
com as Irms, minha me inventava brincadeiras pra mim no verso do livreto
da igreja. Forca, anagramas e isso, o cdigo do alfabeto.
     -- Espere, vou pegar uma caneta. -- Ela pegou uma na escrivaninha. --
Se A  1 e B  2... Deixe-me escrever.
     -- Cuidado. s vezes eu fazia ao contrrio, e o Z era 1.
     Lena e eu nos sentamos no meio de um crculo de livros, indo de um
para o outro, enquanto meu pai batia na porta do lado de fora. Eu o ignorei,
assim como ele sempre me ignorava. Eu no ia respond-lo, nem dar
nenhuma explicao. Ele que visse como era para variar.
     -- 9, 14,22,15,17,21,5...
     -- Ethan! O que voc est fazendo a dentro? Que barulheira foi aquela?
     -- 1,19,9,13, 5,19,13,1.
     Olhei para Lena e ergui a folha de papel. Eu j estava um passo  frente.
     -- Acho que a mensagem  pra voc.
     Estava to claro como se minha me estivesse no escritrio, nos dizendo
com as palavras dela, na voz dela.
    INVOQUE A SI MESMA.
     Era uma mensagem para Lena.
     Minha me estava ali, em alguma forma, em algum sentido, em algum
universo. Minha me ainda era minha me, mesmo se s vivesse em meio a
livros, maanetas, cheiro de tomate frito e papel velho.
     Ela vivia.




Quando finalmente abri a porta, meu pai estava logo em frente, parado, de
roupo. Ele olhou para alm de mim, para dentro do escritrio, onde as
pginas do romance imaginrio dele estavam espalhadas pelo cho e o
quadro de Ethan Carter Wate estava apoiado no sof, descoberto.
     -- Ethan, eu...
     -- O qu? Ia me contar que estava trancado no escritrio h meses
fazendo isso? -- Ergui uma das pginas amassadas na mo.
     Ele olhou para o cho. Meu pai podia ser louco, mas ainda estava so o
bastante para saber que eu entendera a verdade. Lena estava sentada no sof,
parecendo desconfortvel.
     -- Por qu?  s o que quero saber. Houve em algum momento algum
livro ou voc s estava tentando me evitar?
     Meu pai ergueu a cabea lentamente, os olhos cansados e injetados. Ele
parecia velho, como se a vida o tivesse esgotado, uma decepo de cada vez.
     -- Eu s queria ficar mais prximo dela. Quando estou a dentro, com os
livros e as coisas dela, parece que ela no se foi. Ainda sinto o cheiro dela.
Tomate frito... -- A voz dele sumiu, como se ele estivesse perdido dentro da
prpria mente de novo e o raro momento de lucidez tivesse acabado.
     Ele passou por mim, entrou no estdio e se inclinou para pegar uma das
pginas cobertas de crculos. Sua mo tremia.
     -- Eu estava tentando escrever. -- Ele olhou para a cadeira da minha
me. -- S no sei mais o qu.
     No era por minha causa. Nunca tinha sido. Era por causa da minha
me. H algumas horas, eu tinha me sentido da mesma maneira na
biblioteca, sentado em meio s coisas dela, tentando senti-la ali comigo. Mas
agora eu sabia que ela no tinha ido embora, e tudo era diferente. Meu pai
no sabia. Ela no destrancava portas para ele e nem deixava mensagens. Ele
no tinha nem isso.




Na semana seguinte, na vspera de Natal, a gasta e torta cidade de papelo
no parecia to pequena. A torre inclinada permaneceu na igreja, e a fazenda
at ficava de p sozinha, se fosse colocada na posio certa. A cola branca
com purpurina brilhava e o mesmo pedao de neve de algodo segurava a
cidade, constante como o tempo.
     Fiquei deitado de bruos no cho, com a cabea enfiada debaixo dos
galhos mais baixos do pinheiro branco, como sempre fazia. As folhas que
pareciam agulhas verdes arranharam meu pescoo enquanto eu,
cuidadosamente, empurrava uma corda de luzinhas brancas, uma a uma,
para dentro dos buracos circulares na parte de trs da cidade quebrada. Me
sentei um pouco distante para dar uma olhada, a luz branca suave ficando
colorida pelas janelas de papel colorido da cidade. No encontramos as
pessoas, e os carros de lata e os animais ainda estavam sumidos. A cidade
estava vazia, mas pela primeira vez ela no parecia deserta, e eu no me
sentia sozinho.
     Enquanto eu estava sentado ali, ouvindo o lpis de Amma arranhando o
papel e o velho disco de Natal arranhado do meu pai, uma coisa chamou
minha ateno. Era pequena e escura, e aparecia entre camadas da neve de
algodo. Era uma estrela, do tamanho de uma moeda, pintada de prata e
ouro, e cercada de um halo retorcido que parecia um clipe de papel. Era da
rvore de Natal da cidade, feita de uma escovinha, e no a encontrvamos h
anos. Minha me a tinha feito na escola, quando era uma garotinha em
Savannah.
    Coloquei-a no bolso. Eu a daria a Lena na prxima vez em que a visse,
para o cordo de penduricalhos, s para garantir. Para que no se perdesse
de novo. Para que eu no me perdesse de novo.
    Minha me teria gostado disso. Gostaria disso. Assim como teria gostado
de Lena -- ou talvez at gostasse.
    Invoque a si mesma.
     A resposta estava na nossa frente o tempo todo. Estava apenas trancada
com todos os livros no escritrio do meu pai, enfiada entre as pginas no livro
de receitas da minha me.
     Perdida em meio a neve poeirenta.
                             p 12 de janeiro p
                              Promessa
                                   d

H
     avia alguma coisa no ar. Normalmente, quando se ouve tal frase, no h
     nada no ar. Mas, quanto mais o aniversrio de Lena se aproximava,
     mais eu me questionava. Quando voltamos das frias de inverno, os
corredores estavam marcados de tinta spray, cobrindo armrios e paredes.
Mas no era o tipo de pichao tradicional; as palavras nem pareciam estar
na nossa lngua. No se acharia que eram palavras, a no ser para quem viu
O Livro das Luas.
     Uma semana depois, todas as janelas da sala de Ingls se quebraram.
Mais uma vez, podia ter sido o vento, s que no tinha nem brisa. E como o
vento podia se direcionar para uma nica sala de aula?
     Agora que eu no jogava mais basquete, tinha que fazer Educao Fsica
pelo resto do ano, disparado a pior de todas as aulas da Jackson. Depois de
uma hora de corridas de velocidade cronometradas e mos ardendo por
escalar uma corda com ns at o teto do ginsio, cheguei ao meu armrio e
encontrei a porta aberta e meus papis espalhados pelo corredor. Minha
mochila tinha sumido. Apesar de Link t-la achado algumas horas depois em
uma lata de lixo do lado de fora do ginsio, aprendi minha lio. Jackson
High no era lugar para O Livro das Luas.
     Dali em diante, guardamos o Livro no meu armrio em casa. Eu
esperava que Amma o descobrisse, dissesse alguma coisa, cobrisse meu quarto
com sal, mas isso no. Nas ltimas seis semanas, vinha passando todo o meu
tempo lendo o velho livro de couro, com e sem Lena, usando o dicionrio
surrado de latim da minha me. As luvas de forno de Amma me ajudaram a
minimizar as queimaduras. Havia centenas de Conjuros, e s alguns poucos
eram em ingls. O resto estava escrito em lnguas que eu no conseguia ler, e
na lngua Conjuradora que no tnhamos como decifrar. Eu ia ficando mais
familiarizado com as pginas e Lena ficava mais agitada.
     -- Invoque a si mesma. Isso no significa nada.
     -- Claro que significa.
     -- Nenhum dos captulos diz nada sobre isso. No est em nenhuma
descrio de Invocao no Livro.
     -- S temos que continuar procurando. No vamos encontrar nenhum
guia sobre isso.
     O Livro das Luas tinha que ter uma resposta; se ns ao menos
consegussemos ach-la. No conseguamos pensar em mais nada, exceto no
fato de que em um ms podamos perder tudo.




De noite, ficvamos acordados at tarde conversando, cada um na sua cama,
porque agora cada noite parecia mais prxima da noite que podia ser nossa
ltima.
    Em que voc est pensando, L?
    Voc quer mesmo saber?
    Sempre quero saber.
    Queria? Olhei para o mapa enrugado na minha parede, para a fina linha
verde ligando todos os pontos sobre os quais eu tinha lido. L estavam elas,
todas as cidades do meu futuro imaginrio, unidos por fita adesiva, caneta e
tachinhas. Em seis meses, muita coisa tinha mudado. No havia linha verde
alguma que pudesse me levar at meu futuro. S uma garota.
    Mas agora a voz dela estava baixa e eu tinha que me esforar para ouvi-
la.
    H uma parte de mim que gostaria que jamais tivssemos nos conhecido.
    Voc est brincando, no ?
    Ela no respondeu. No imediatamente.
    S torna tudo to mais difcil. Achei que tinha muito a perder antes, mas
agora tenho voc.
    Entendo.
    Tirei a cpula do abajur ao lado da minha cama e olhei direto para a
impada. Se eu olhasse bem para ela, o brilho faria meus olhos doerem e me
impediria de chorar.
    E eu posso perder voc.
    Isso no vai acontecer, L.
     Ela ficou em silncio. Meus olhos ficaram temporariamente cegos pelos
raios e espirais da luz. Eu no conseguia nem ver o azul do teto do meu
quarto, apesar de estar olhando diretamente para l.
    Promete?
    Prometo.
     Era uma promessa que ela sabia que eu talvez no pudesse cumprir. Mas
eu a fiz mesmo assim, porque ia dar um jeito de faz-la ser verdadeira.
     Queimei minha mo quando fui tentar apagar a luz.
                     p 4 de fevereiro p
               Sandman ou algo como ele
                                     d
E
    m uma semana seria o aniversrio de Lena.
        Sete dias.
        Cento e sessenta e seis horas.
    Dez mil e oito segundos.
    Invoque a si mesma.
     Lena e eu estvamos exaustos, mas ainda assim matamos aula para
passar o dia com O Livro das Luas. Eu havia me tornado um especialista na
assinatura de Amma, e a Srta. Hester no ousaria pedir a Lena um bilhete de
Macon Ravenwood. Era um dia claro e frio, e nos enroscamos no jardim
congelante de Greenbrier, encolhidos no velho saco de dormir do Lata-
Velha, tentando descobrir pela milsima vez se alguma coisa no Livro poderia
ajudar.
     Eu percebia que Lena comeava a desistir. O teto do quarto dela estava
completamente coberto de tinta de caneta, as paredes repletas das palavras
que ela no podia dizer, e pensamentos assustados demais para serem
expressados.
     fogo das trevas, luz trevas / matria das trevas, o que importa? a grande
treva engole a grande luz, com engolem a minha vida / conjuradora / garota
super / natural antes / primeira vista sete dias sete dias sete dias
777777777777777.
     Eu no podia culp-la. Parecia no haver esperanas, mas eu no estava
pronto para desistir. Jamais estaria. Lena se apoiou no velho muro de pedra
que estava desmoronando, assim como a mnima chance que tnhamos.
     -- Isso  impossvel. H Conjuros demais. Nem sabemos o que estamos
procurando.
    Havia Conjuros para todo objetivo concebvel: Cegar os Infiis, Trazer
gua do Mar, Enfeitiar Runas.
    Mas nada que dizia Conjuro para Tirar Maldio sobre a Famlia
Causada por Conjuro das Trevas, ou Conjuro para Desfazer o Ato de Tentar
Trazer o Heri de Guerra da Tatara-tatarav Genevieve de Volta  Vida, ou
Conjuro para Evitar Ir para as Trevas na Invocao. Ou o que eu realmente
procurava, Conjuro para Salvar sua Namorada (Agora que Voc Finalmente
Tem Uma) Antes que Seja Tarde Demais.
      Voltei para o sumrio: OBSECRATIONES, INCANTAMINA,
NECTENTES, MALEDICENTES, MALFICA.
      -- No se preocupe, L. Vamos dar um jeito. -- Mas na hora em que eu
falei, j no tinha tanta certeza.




Quanto mais tempo o livro ficava na prateleira do alto do meu armrio, mais
eu sentia que meu quarto estava ficando assombrado. Estava acontecendo
com ns dois, a cada noite; os sonhos, que mais pareciam pesadeios, estavam
piorando. Eu no dormia por mais que umas poucas horas h dias. Cada vez
que eu fechava os olhos, cada vez que adormecia, l estavam eles. Esperando.
Mas o pior de tudo era o mesmo pesadeio repetido constantemente. Toda
noite eu perdia Lena novamente, e isso estava me matando.
     Minha nica estratgia era ficar acordado. Me entupir de acar e
cafena de tanto beber Coca e Red Buli enquanto jogava vdeo game. Ler
tudo, desde O Corao das Trevas at minha edio favorita do Surfista
Prateado, na qual Galactus engole o universo repetidas vezes. Mas como
qualquer um que ficou dias sem dormir sabe, na terceira ou quarta noite voc
est to cansado que poderia adormecer de p.
     Nem Galactus tinha chance.
Queimando.
     Havia fogo para todo lado.
     E fumaa. Engasguei na fumaa e nas cinzas. Estava completamente
escuro, impossvel de enxergar. E o calor era como lixa arranhando minha
pele.
     Eu no conseguia ouvir nada alm do rugido do fogo.
     No conseguia nem ouvir Lena gritando, exceto na minha cabea.
    Solte! Voc tem que sair!
     Eu podia sentir os ossos do meu punho estalando, como finas cordas de
violo arrebentando uma a uma. Ela soltou do meu brao como se estivesse
se preparando para que eu a soltasse, mas eu jamais soltaria.
    No faa isso, L! No solte!
    Me solte! Por favor... Se salve!
   Eu jamais soltaria.
   Mas eu podia senti-la escorregando pelos meus dedos. Tentei segurar
com mais fora, mas ela estava indo...




Sentei de repente na cama, tossindo. Era to real que eu sentia o gosto de
fumaa. Mas meu quarto no estava quente; estava frio. Minha janela estava
aberta de novo. A luz da lua permitiu que meus olhos se ajustassem mais
rapidamente  escurido habitual.
    Reparei em alguma coisa com o canto do olho. Alguma coisa estava se
movendo nas sombras.
    Tinha algum no meu quarto.
    -- Puta merda!
    Ele tentou sair antes que eu o percebesse, mas no foi rpido o bastante.
Sabia que eu o tinha visto. Ento ele fez a nica coisa que podia. Se virou
para me encarar.
    -- Apesar do seu terrvel linguajar, quem sou eu para chamar sua
ateno depois de sada to indelicada? -- Macon deu seu sorriso de Cary
Grant e se aproximou da ponta da minha cama. Estava usando um longo
casaco preto e cala preta. Parecia vestido para algum tipo de noitada na
cidade na virada do sculo passado em vez de uma invaso de domiclio nos
dias modernos. -- Oi, Ethan.
     -- Que diabos voc est fazendo no meu quarto?
     Ele parecia perdido, no padro de Macon, o que apenas significava que
no tinha uma explicao imediata e encantadora na ponta da lngua.
     --  complicado.
     -- Bem, descomplique. Pois voc subiu pela minha janela no meio da
noite, ento ou voc  algum tipo de vampiro ou algum tipo de pervertido, ou
os dois. Qual deles?
     -- Mortais. Tudo  to preto e branco para vocs. No sou Caador nem
Devastador. Voc estaria me confundindo com meu irmo, Hunting. Sangue
no me interessa. -- Ele tremeu com a ideia . -- Nem sangue, nem carne. --
Acendeu um charuto, fazendo-o rolar entre os dedos. Amma ia ter um ataque
quando sentisse o cheiro daquilo amanh. -- Na verdade, tudo isso me deixa
meio enjoado.
     Eu estava perdendo a pacincia. No dormia h dias e estava cansado de
todo mundo desviando das minhas perguntas o tempo todo. Queria respostas,
e queria j.
     -- J cansei dos seus enigmas. Responda  pergunta. O que est fazendo
no meu quarto?
     Ele andou at a cadeira giratria vagabunda perto da minha
escrivaninha e sentou rapidamente.
     -- Vamos apenas dizer que eu estava bisbilhotando.
     Peguei uma camiseta velha da Jackson embolada no cho e a enfiei pela
cabea.
     -- Bisbilhotando o qu, exatamente? No tem ningum aqui. Eu estava
dormindo.
     -- No, na verdade voc estava sonhando.
     -- Como voc sabe disso?  um dos seus poderes Conjuradores?
     -- Na verdade, no. No sou um Conjurador, no tecnicamente.
     O ar ficou preso na minha garganta. Macon Ravenwood nunca saa de
casa durante o dia; podia aparecer do nada, observar as pessoas pelos olhos
do lobo que passava por cachorro e quase acabou com a vida de uma
Conjuradora das Trevas sem nem piscar. Se ele no era Conjurador, ento s
havia uma explicao.
     -- Ento voc  um vampiro.
     -- Isso decididamente no sou. -- Ele parecia irritado. -- Essa  uma
concluso to comum, to clich e nada lisonjeira. No existem vampiros.
Suponho que voc acredite em lobisomens e aliengenas tambm. Culpo a
televiso. -- Ele tragou profundamente o charuto. -- Odeio desapont-lo.
Sou um Incubus. Tenho certeza de que seria apenas uma questo de tempo
at que Amarie contasse para voc, j que ela parece to dedicada a revelar
todos os meus segredos.
     Um Incubus? Eu nem sabia se devia ficar com medo. Devo ter parecido
confuso, porque Macon se sentiu compelido a explicar melhor.
     -- Por natureza, cavalheiros como eu tm certos poderes, mas esses
poderes so apenas relativos s nossas foras, que precisamos recarregar
regularmente. -- Houve alguma coisa perturbadora no modo como ele disse
recarregar.
     -- O que voc quer dizer com recarregar?
     -- Nos alimentamos, por falta de uma palavra melhor, de Mortais para
recarregar nossa fora.
     O quarto comeou a rodar. Ou talvez Macon estivesse rodando.
     -- Ethan, sente-se. Voc est absolutamente plido. -- Macon veio at
mim e me guiou at a beirada da cama. -- Como eu disse, uso a palavra
"alimentar" por falta de um termo melhor. S um Incubus de Sangue se
alimenta de sangue Mortal, e no sou um Incubus de Sangue. Apesar de
sermos ambos Lilum, ou seja, aqueles que residem nas Trevas Absolutas, eu
sou uma criatura infinitamente mais evoluda. Pego uma coisa que vocs
Mortais tm em abundncia, uma coisa de que vocs nem precisam.
     -- O qu?
     -- Sonhos. Partes e pedaos fragmentados. Ideias, desejos, medos,
lembranas... Nada de que voc sentir falta. -- As palavras saram da sua
boca como se estivesse dizendo um feitio. Me vi lutando para process-las,
tentando entender o que ele estava dizendo. Minha mente parecia estar
embrulhada em l grossa.
     Mas ento eu entendi. Podia sentir as peas se unindo como um quebra-
cabea na minha mente.
     -- Os sonhos... Voc vem pegando partes deles? Sugando da minha
cabea?  por isso que no consigo lembrar o sonho todo?
     Ele sorriu e apagou o charuto em uma lata de Coca vazia na minha
escrivaninha.
     -- Me declaro culpado. Exceto pela parte de "sugar". No  uma nomen-
clatura muito educada.
     -- Se  voc que anda sugando... roubando meus sonhos, ento voc
sabe o resto. Sabe o que acontece no final. Pode nos contar, para podermos
impedir.
     -- Receio que no. Seleciono os pedaos que pego intencionalmente.
     -- Por que no quer que a gente saiba o que acontece? Se soubermos o
resto do sonho, talvez possamos impedir que acontea.
     -- Parece que voc j sabe demais, no que eu mesmo o entenda
completamente.
     -- Pare de falar de maneira enigmtica pelo menos uma vez. Voc fica
dizendo que posso proteger Lena, que eu tenho poder. Por que no me conta
que diabos est acontecendo de verdade, Sr. Ravenwood, porque estou
cansado e de saco cheio de ser enrolado.
     -- No posso contar o que no sei, filho. Voc  um mistrio.
     -- No sou seu filho.
     -- Melchizedek Ravenwood! -- A voz de Amma soou como um sino.
     Macon comeou a perder a compostura.
     -- Como voc ousa entrar nessa casa sem minha permisso? -- Ela
estava em seu roupo segurando um cordo cheio de contas. Se eu no a
conhecesse, teria pensado que era um colar. Amma sacudiu o amuleto de
contas com raiva. -- Temos um acordo. Essa casa est fora do seu territrio.
Encontre outro lugar para seus negcios sujos.
     -- No  to simples, Amarie. O garoto est vendo coisas nos sonhos,
coisas que so perigosas para os dois.
     Os olhos de Amma estavam selvagens.
     -- Voc est se alimentando do meu menino?  isso que est dizendo?
Isso deveria me fazer sentir melhor?
     -- Acalme-se. No seja to literal. S estou fazendo o que  necessrio
para proteger os dois.
     -- Sei o que voc faz e o que voc , Melchizedek, e voc vai lidar com o
demnio na sua hora. No traga esse mal para a minha casa.
     -- Fiz uma escolha h muito tempo, Amarie. Lutei contra o que eu
estava destinado a me tornar. Luto cada noite da minha vida. Mas no sou
das Trevas, no enquanto tenho a criana que  minha responsabilidade.
     -- No muda o que voc . Isso no  uma escolha sua.
     Os olhos de Macon se apertaram. Estava claro que a barganha entre eles
dois era delicada, e ele a tinha ameaado ao ir l. Quantas vezes? Eu nem
sabia.
     -- Por que voc simplesmente no me conta o que acontece no final do
sonho? Tenho direito de saber.  meu sonho.
     --  um sonho poderoso, perturbador, e Lena no precisa v-lo. Ela no
est pronta para v-lo, e vocs dois esto inexplicavelmente ligados. Ela v o
que voc v. Ento voc pode entender por que eu tive que tir-lo de voc.
     A fria cresceu dentro de mim. Eu estava to furioso, mais do que
quando a Sra. Lincoln se levantou e mentiu sobre Lena na reunio do
Comit Disciplinar, mais do que quando descobri as pginas de rabiscos no
escritrio do meu pai.
     -- No. No entendo. Se voc sabe de alguma coisa que pode ajud-la,
por que no conta para ns? Ou apenas para de usar seus truques mentais de
Jedi em mim sonhos e me deixa ver o que sonho por conta prpria?
     -- S estou tentando proteg-la. Amo Lena, e jamais...
     -- Eu sei. J ouvi. Voc jamais faria algo para machuc-la. O que voc se
esqueceu de dizer  que voc no faz nada para ajud-la tambm.
     O maxilar dele travou. Agora era ele que estava furioso; eu j sabia como
reconhecer. Mas no perdeu a pose, nem por um minuto.
     -- Estou tentando proteg-la, Ethan, e voc tambm. Sei que voc se
preocupa com Lena, e oferece a ela algum tipo de proteo, mas h coisas
que voc no v agora, coisas que esto alm do nosso controle. Um dia voc
vai entender. Voc e Lena so diferentes demais.
     Separados por espcie. Como o outro Ethan escreveu para Genevieve.
Eu entendia sim. Nada tinha mudado em mais de cem anos.
     A expresso dele se suavizou. Pensei que talvez ele tivesse pena de mim,
mas era outra coisa.
     -- No fim das contas, o peso ser seu e voc ter que carregar.  sempre
o Mortal que carrega. Confie em mim, eu sei.
     -- No confio em voc e voc est errado. No somos to diferentes.
     -- Mortais. Tenho inveja de vocs. Acham que podem mudar as coisas.
Parar o universo. Desfazer o que foi feito muito antes de vocs surgirem.
Vocs so criaturas to lindas. -- Ele estava falando comigo, mas no parecia
que estava falando mais sobre mim. -- Peo desculpas pela intromisso. Vou
deix-lo dormir.
     -- Fique fora do meu quarto, Sr. Ravenwood. E fora da minha cabea.
Ele se virou em direo  porta, o que me surpreendeu. Eu esperava que
     ele sasse pelo caminho que entrou.
     -- Mais uma coisa. Lena sabe que voc est aqui? Ele sorriu.
     -- E claro. No h segredos entre ns.
     Eu no retribu o sorriso. Havia mais do que alguns segredos entre eles,
mesmo que eu no fosse um deles, e Macon e eu sabamos disso. Ele se virou
de costas com um balano do casaco e se foi. De repente.
                       p 5 de fevereiro p
                 A batalha de Honey Hill
                                    d

N     a manh seguinte, acordei com uma dor de cabea latejante. No achei,
      como acontece com frequncia nas histrias, que a coisa toda no tinha
      acontecido. No achei que Macon Ravenwood aparecer e desaparecer
do meu quarto na noite anterior tinha sido um sonho. Todo dia de manh
durante meses depois do acidente de minha me, eu acordei acreditando que
tudo tinha sido um sonho ruim. Jamais cometeria o mesmo erro de novo.
     Dessa vez eu sabia que, se parecia que tudo tinha mudado, era porque
tinha mudado. Se parecia que as coisas estavam ficando cada vez mais
estranhas, era porque estavam. Se parecia que Lena e eu estvamos ficando
sem tempo, era porque estvamos.




Faltam seis dias a contar de hoje. As coisas no pareciam muito favorveis a
ns. Era tudo que havia para dizer. Ento  claro que no dizamos nada. Na
escola, fizemos o que sempre fazamos. Ficvamos de mos dadas no
corredor. Nos beijvamos perto dos armrios dos fundos at que nossos lbios
doessem e eu me sentisse perto de ser eletrocutado. Ficvamos em nossa
bolha, aprecivamos o que tentvamos fingir ser nossas vidas comuns, ou o
pouco que tnhamos delas. E conversvamos, o dia todo, a cada minuto de
cada aula, mesmo as que no tnhamos juntos.
    Lena me contou de Barbados, onde a gua e o cu se encontravam em
uma fina linha azul at que no desse para saber qual era qual, enquanto eu
deveria estar fazendo uma tigela de corda e argila na aula de cermica.
    Lena me contou sobre a av, que a deixava beber 7-Up usando alcauz
como canudo, enquanto escrevamos nossa redao sobre O Mdico e o
Monstro na aula de ingls e Savannah Snow estourava bolas de chiclete.
    Lena me contou sobre Macon, que, apesar de tudo, tinha comparecido a
cada aniversrio, onde quer que ela estivesse, desde que ela podia se lembrar.
    Naquela noite, depois de ficarmos acordados hora aps hora com O
Livro das Luas, observamos o nascer do sol, apesar de ela estar em
Ravenwood e eu estar em casa.
    Ethan?
    Estou aqui.
    Estou com medo.
    Eu sei. Voc devia tentar dormir um pouco, L.
    No quero perder tempo dormindo.
    Nem eu.
    Mas ns dois sabamos que no era isso. Nenhum de ns estava a fim de
sonhar.




"A NOITE DA INVOCAO  A NOITE DA GRANDE FRAQUEZA,
QUANDO AS TREVAS INTERIORES APRECIAM AS TREVAS
EXTERIORES E A PESSOA DE PODER SE ABRE PARA A GRANDE
TREVA, DESPIDA DE PROTEES, FEITIOS E CONJUROS DE
BLOQUEIO E IMUNIDADE. A MORTE, NA HORA DA INVOCAO,
 DEFINITIVA E ETERNA..."
    Lena fechou o livro.
    -- No consigo mais ler nada disso.
    -- Nem me fale. No me surpreendo que seu tio esteja o tempo todo
preocupado.
    -- No  o bastante que eu possa virar algum tipo de demnio do mal.
Tambm posso sofrer morte eterna. Acrescente isso  lista de maldies
iminentes.
     -- Pode deixar. Demnio. Morte. Maldio.
     Estvamos no jardim de Greenbrier de novo. Lena me passou o livro e
deitou de costas, olhando para o cu. Eu esperava que ela estivesse brincando
com as nuvens em vez de pensando sobre o quo pouco tnhamos descoberto
durante essas tardes com o Livro. Mas no pedi que me ajudasse enquanto eu
o folheava, usando as luvas velhas de jardinagem de Amma que eram
pequenas demais.
     Havia milhares de pginas em O Livro das Luas, e algumas pginas
continham mais de um Conjuro. No havia lgica alguma no modo como
estavam organizados, pelo menos no que eu pudesse ver. O Sumrio era
uma espcie de brincadeira que pouco correspondia a alguns dos que podiam
ser encontrados nele. Virei as pginas na esperana de dar de cara com
alguma coisa. Mas a maioria das pginas parecia baboseira. Olhei para as
palavras que eu no conseguia entender.

    I DDARGANFOD YR HYN SYDD AR GOLL
    DATODWCH Y CWLWM, TROELLWCH A THROWCH EF
    BWRIWCH Y RHWYMYN HWN
    FEL Y CAF GANFOD
    YR HYN RWY'N DYHEU AMDANO
    YR HYN RWY'N EI GEISIO.

    Algo saltou  minha vista, uma palavra que reconheci de uma citao
pregada na parede do escritrio dos meus pais: "PETE ET INVENIES."
Procure e voc vai encontrar, "INVENIES." Encontrar.

    UT INVENIAS QUOD ABEST
    EXPEDI NODUM, TORQUE ET CONVOLVE
    ELICE HOC VINCULUM
    UT INVENIAM
    QUOD DESIDERO
    QUOD PETO.
    Revirei as pginas do dicionrio de latim da minha me, rabiscando as
palavras atrs conforme eu as traduzia. As palavras do Conjuro pareciam
olhar para mim Encontrar.

    Para encontrar o que est faltando,
    Desate o lao, trance e enrole
    Conjure esse feitio
    Para que eu possa achar
    Aquilo pelo que anseio
    Aquilo que procuro.

     -- Encontrei uma coisa!
     Lena se sentou, olhando por cima do meu ombro.
     -- Do que voc est falando? -- Ela no parecia nada convencida.
     Mostrei o texto na minha caligrafia de garranchos para que ela lesse.
     -- Traduzi isso. Parece que d pra usar pra encontrar alguma coisa.
     Lena chegou mais perto, verificando minha traduo. Os olhos dela se
arregalaram.
     --  um Conjuro Localizador.
     -- Isso parece uma coisa que podemos usar para encontrar a resposta,
para descobrirmos como desfazer a maldio.
     Lena puxou o Livro para o colo, olhando para a pgina. Apontou para o
outro Conjuro acima dele.
     --  o mesmo Conjuro em gals, eu acho.
     -- Mas pode nos ajudar?
     -- No sei. Nem sabemos o que estamos procurando. -- Ela franziu a
testa, de repente menos entusiasmada. -- Alm disso, Conjurar Falando no 
to fcil quanto parece, e eu nunca fiz antes. Coisas podem dar errado. -- Ela
estava brincando, no ?
     -- Coisas podem dar errado? Coisas piores do que virar uma
Conjuradora das Trevas no seu dcimo-sexto aniversrio? -- Tirei o Livro
das mos dela, queimando as margaridas das pontas dos dedos das luvas. --
Por que cavamos um tmulo parar achar essa coisa e perdemos semanas
tentando descobrir o que diz se nem vamos tentar? -- Segurei o Livro at que
uma das luvas comeou a emitir fumaa.
     Lena sacudiu a cabea.
     -- Me d isso. -- Ela respirou fundo. -- Certo, vou tentar, mas no tenho
ideia do que vai acontecer. Normalmente no fao assim.
     -- Assim?
     -- Voc sabe, o modo como uso meus poderes, esse lance de Natural.
Quero dizer, esse  o ponto, no ?  pra ser natural. Nem sei o que estou
fazendo na metade das vezes.
     -- T, ento dessa vez voc faz e eu ajudo. O que precisamos fazer?
Desenhar um crculo? Acender umas velas?
     Lena revirou os olhos.
     -- Que tal sentar aqui? -- Ela apontou para um lugar a alguns metros. --
S por precauo.
     Esperava um pouco mais de preparao, mas eu era apenas um Mortal.
O que eu sabia? Ignorei a ordem de Lena para ficar longe do seu primeiro
Conjuro Falado, mas dei alguns passos para trs. Lena segurou o Livro em
uma mo, o que j era um grande feito porque ele era incrivelmente pesado,
e respirou fundo. Seus olhos desceram lentamente a pgina enquanto ela lia.
     "Desate o lao, trance e enrole
     Conjure esse Feitio
     Para que eu possa achar
     Aquilo pelo que anseio..."
     Ela olhou para a frente e falou a ltima parte, com clareza e fora.
     "Aquilo que procuro."




Por um segundo, nada aconteceu. As nuvens ainda estavam no cu, o ar
ainda estava frio. No funcionou. Lena deu de ombros. Eu sabia que ela
estava pensando a mesma coisa. At que ns dois ouvimos um som como
uma rajada de ar ecoando em um tnel. A rvore atrs de mim pegou fogo.
Ela realmente entrou em chamas de baixo para cima. As chamas percorriam
o tronco, rugindo, se espalhando em cada galho. Eu nunca tinha visto nada
pegar fogo to rapidamente.
     A madeira comeou a soltar fumaa imediatamente. Puxei Lena para
longe do fogo, tossindo.
    -- Voc est bem? -- Ela estava tossindo tambm. Afastei os cachos
negros dos olhos dela. -- Bem, obviamente no funcionou. A no ser que
voc estivesse querendo torrar uns marshmallows muito grandes.
    Lena sorriu debilmente.
    -- Falei que as coisas podiam dar errado.
    -- Errado  pouco.
    Olhamos o cipreste em chamas. Faltavam cinco dias.




Faltando quatro dias, as nuvens de tempestade chegaram e Lena ficou em
casa, doente. O Santee transbordou e as estradas seguiam em aguaceiros para
o norte da cidade. O noticirio local atribuiu ao aquecimento global, mas eu
sabia a verdade. Enquanto eu estava na aula de lgebra II, Lena e eu
conversamos sobre o Livro, algo que no ajudaria na minha nota na prova.
     Esquea o Livro, Ethan. Estou cansada dele. No est ajudando.
     No podemos esquecer dele.  sua nica chance. Voc ouviu seu tio.  o
livro mais poderoso do mundo Conjurador.
      tambm o Livro que amaldioou minha famlia toda.
     No desista. A resposta tem que estar em algum lugar no Livro.
     Eu a estava perdendo, ela no queria me ouvir, e eu estava prestes a me
dar mal na terceira prova do semestre. timo.
     Alis, voc sabe simplificar 7x - 2(4x -6)?
    Eu sabia que ela sabia. Ela j estava em Trigonometria.
    O que isso tem a ver?
    Nada. Mas vou me ferrar nessa prova.
    Ela suspirou.
    Ter uma namorada Conjuradora tinha suas vantagens.


Faltando trs dias os deslizamentos de terra comearam e o campo superior
despencou no ginsio. A equipe de lderes de torcida no se apresentaria por
um tempo, e o Comit Disciplinar teria que achar outro lugar para seus
julgamentos de bruxas. Lena ainda no tinha voltado  escola, mas estava na
minha cabea o dia todo. A voz dela foi ficando mais fraca, at que eu mal
podia ouvi-la com o caos de mais um dia na Jackson.
     Sentei sozinho no refeitrio. No conseguia comer. Pela primeira vez
desde que conheci Lena, olhei para todo mundo ao redor de mim e senti uma
pontada de, no sei, alguma coisa. O que era? Inveja? Suas vidas eram to
simples, to fceis. Seus problemas tinham dimenses to mortais, mnimos.
Como os meus eram antes. Peguei Emily me olhando. Savannah pulou no
colo de Emily, e com Savannah veio a irritao familiar. No era inveja. Eu
no trocaria Lena por nada assim.
     No podia imaginar voltar para uma vida to pequena.




Faltando dois dias, Lena nem falava comigo. Metade do telhado do quartel-
general do FRA foi arrancada pelo vento forte. Os Registros de Membros que
a Sra. Lincoln e a Sra. Asher tinham passado anos compilando, as rvores
genealgicas que datavam at o Mayflower e a Revoluo, foram destrudos.
Os patriotas do condado de Gatlin teriam que provar que o sangue deles era
melhor que o nosso de novo.
      Dirigi at Ravenwood no caminho para a escola e bati na porta com o
mximo de fora que consegui. Lena no saa da casa. Quando finalmente
consegui que ela abrisse a porta, pude ver por qu.
      Ravenwood tinha mudado de novo. Dentro, parecia uma priso de
segurana mxima. As janelas tinham grades e as paredes eram de concreto
liso, exceto pelo saguo, onde eram cor de laranja e acolchoadas. Lena estava
vestindo um macaco laranja com os nmeros 1102, a data do seu
aniversrio, impressos, as mos cobertas de palavras. Ela estava at bem legal,
na verdade, o cabelo preto desalinhado caindo em volta do rosto. Ela
conseguia at fazer um macaco de presidiria parecer legal.
      -- O que est acontecendo, L?
      Ela seguiu meu olhar sobre o ombro dela.
     -- Ah, isso? Nada.  uma brincadeira.
     -- Eu no sabia que Macon brincava.
     Ela puxou um fiapo solto da manga.
     -- Ele no brinca. A brincadeira  minha.
     -- Desde quando voc consegue controlar Ravenwood?
     Ela deu de ombros.
     -- Acordei ontem e estava assim. Devia estar na minha mente. A casa
apenas ouviu, eu acho.
     -- Vamos sair daqui. A priso s est deixando voc mais deprimida.
     -- Eu posso ser Ridley em dois dias.  bastante deprimente.
     Ela sacudiu a cabea com tristeza e sentou na beirada da varanda. Sentei
ao seu lado. Ela no olhou para mim, mas olhou para os tnis brancos de
priso. Me perguntei como ela sabia como eram tnis de priso.
     -- Cadaros. Voc errou nessa parte.
     -- O qu?
     Apontei.
     -- Tiram os cadaros na priso de verdade.
     -- Voc tem que desistir, Ethan. Acabou. No posso impedir que meu
aniversrio chegue, nem a maldio. No posso mais fingir que sou uma
garota normal. No sou como Savannah Snow ou Emily Asher. Sou uma
Conjuradora.
     Peguei um punhado de pedrinhas do degrau de baixo da varanda e
joguei uma o mais longe que consegui.
    No direi adeus, L. No posso.
    Ela pegou uma pedrinha da minha mo e a jogou. Seus dedos roaram
nos meus e senti uma pulsao de calor. Tentei guard-la na memria.
    Voc no vai ter nem chance. Irei embora, e nem vou lembrar que gostei
de voc.
   Eu era teimoso. No podia ouvir aquilo. Dessa vez, a pedrinha bateu
numa rvore.
   -- Nada vai mudar o que sentimos um pelo outro.  a nica coisa que sei
com certeza.
   -- Ethan, em breve eu posso nem ser capaz de sentir.
   -- No acredito nisso.
   Joguei o resto das pedras no jardim. No sei onde caram; no fizeram
barulho. Mas fiquei olhando naquela direo, com tanta intensidade quanto
possvel, controlando o n na minha garganta.
     Lena esticou o brao em minha direo, depois hesitou. Baixou a mo
sem nem me tocar.
     -- No fique zangado comigo. No pedi nada disso.
     Foi a que surtei.
     -- Talvez no, mas e se amanh for nosso ltimo dia juntos? E eu podia
pass-lo com voc, mas em vez disso, voc fica aqui, cada pelos cantos como
se j tivesse sido Invocada.
     Ela ficou de p.
     -- Voc no entende.
     Ouvi a porta bater atrs dela quando entrou na casa, na priso, sei l.
     Eu nunca tinha tido uma namorada, ento no estava preparado para
lidar com tudo aquilo -- eu nem sabia que nome dar. Principalmente com
uma garota Conjuradora. Sem ter uma ideia melhor do que fazer, fiquei de
p, desisti e dirigi de volta para a escola. Atrasado, como sempre.




Faltavam 24 horas. Um sistema de baixa presso se estabeleceu sobre Gatlin.
No dava para saber se ia nevar ou gear, mas o cu no parecia estar normal.
Hoje qualquer coisa podia acontecer. Olhei pela janela durante a aula de
Histria e vi o que parecia uma espcie de procisso funerria, s que para
um enterro que ainda no tinha acontecido. Era o rabeco de Macon
Ravenwood seguido de sete carros Lincoln pretos. Passaram pela Jackson
High ao cruzar a cidade para sair de Ravenwood. Ningum estava ouvindo o
Sr. Lee falando sobre a encenao que faramos em breve da Batalha de
Honey Hill -- no a mais famosa batalha da Guerra Civil, mas uma das
batalhas das quais o povo de Gatlin tinha mais orgulho.
     -- Em 1864, Sherman ordenou que o General de Diviso da Unio John
Hatch e suas as tropas interrompessem as ferrovias de Charleston e Savannah
para impedir que os soldados da Confederao interferissem com a "Marcha
para o Mar" que ele tinha planejado. Mas devido a vrios "maus clculos
navegacionais", as foras da Unio se atrasaram.
     Ele sorriu com orgulho, escrevendo MAUS CLCULOS
NAVEGACIONAIS no quadro. Certo, a Unio era burra. Entendemos. Esse
era o ponto da Batalha de Honey Hill, o ponto da Guerra entre os Estados,
como tinha sido ensinado para ns desde o jardim de infncia.
Negligenciando,  claro, o fato de que a Unio tinha vencido a guerra. Em
Gatlin, todo mundo falava sobre isso como uma concesso cavalheiresca da
parte do sul mais cavalheira. O sul tinha agido com polidez, historicamente
falando, de acordo com o Sr. Lee.
     Mas hoje ningum estava olhando para o quadro. Todo mundo estava
olhando pela janela. Os carros Lincoln pretos seguiam o rabeco em uma
comitiva pela rua, atrs do campo de atletismo. Agora que Macon tinha se
revelado, ele parecia gostar de fazer um espetculo de sua apario. Para um
cara que s saa  noite, ele continuava a atrair muita ateno.
     Senti um chute na minha canela. Link estava curvado sobre a carteira
para que o Sr. Lee no visse seu rosto.
     -- Cara, quem voc acha que est em todos aqueles carros?
     -- Sr. Lincoln, voc gostaria de nos contar o que acontece depois?
Principalmente considerando que seu pai estar comandando a Cavalaria
amanh? -- O Sr. Lee nos olhava de braos cruzados.
     Link fingiu tossir. O pai dele, um homem duro e amedrontador, tinha a
honra de comandar a Cavalaria na encenao desde que Big Earl Eaton
morreu ano passado, e esse era um nico jeito de um ator de encenao subir
de posto. Algum tinha que morrer. Seria um grande evento na famlia de
Savannah Snow. Mas Link no ligava muito para essa coisa de Histria Viva.
     -- Vamos ver, Sr. Lee. Espere, eu sei. Ns, hum, vencemos a batalha e
perdemos a guerra, ou foi o contrrio? Porque, por aqui,  difcil saber s
vezes.
     O Sr. Lee ignorou o comentrio de Link. Ele provavelmente pendurava
a Stars and Bars, a bandeira Confederada, em frente da sua casa pr-
fabricada o ano todo.
     -- Sr. Lincoln, quando Hatch e os Federais chegaram a Honey Hill, o
coronel Cucock... -- A turma riu, enquanto o Sr. Lee olhava furioso. -- Sim,
esse era o nome dele. O coronel e sua brigada de soldados Confederados e a
milcia formaram uma bateria intransponvel de sete armas no caminho.
     Quantas vezes amos ter que ouvir sobre as sete armas? Parecia o milagre
dos peixes e dos pes.
     Link olhou para mim, apontando com a cabea na direo da Main.
     -- E ento?
     -- Acho que  a famlia de Lena. Eles vinham pro aniversrio dela.
     -- Ridley falou qualquer coisa sobre isso.
     -- Vocs ainda esto juntos? -- Eu quase tive medo de perguntar.
     -- Estamos, cara. Voc consegue guardar um segredo?
     -- No guardo sempre?
     Link puxou a manga da camiseta dos Ramones para mostrar uma
tatuagem do que parecia uma verso de anime de Ridley, completa com a
minissaia de uniforme de escola catlica e meias at os joelhos. Eu tinha
esperana de que a fascinao de Link por Ridley tivesse perdido o gs, mas
l no fundo eu sabia da verdade. Link s esqueceria Ridley quando ela fosse
embora e tivesse terminado com ele, se ela no o fizesse pular de um
penhasco antes. E, mesmo ento, ele poderia no esquec-la.
     -- Fiz na poca das frias de Natal. Legal, n? Ridley que desenhou pra
mim. Ela  uma artista de matar.
     A parte de matar eu acreditava. O que eu podia dizer? Voc tatuou uma
verso de quadrinhos de uma Conjuradora das Trevas no brao, que por
acaso enfeitiou voc e por acaso tambm  sua namorada?
     -- Sua me vai ter um troo quando vir isso.
     -- Ela no vai ver. Minha manga cobre, e temos uma nova regra de
privacidade na nossa casa. Ela tem que bater na porta.
     -- Antes de invadir seu quarto e fazer tudo que quiser?
     -- . Mas pelo menos ela bate antes.
     -- Espero que sim, pela sua tranquilidade.
     -- Alis, Ridley e eu temos uma surpresa pra Lena. No diga pra Rid que
te contei, ela me mataria, mas vamos dar uma festa pra Lena amanh.
Naquele campo grande em Ravenwood.
     --  melhor que isso seja uma brincadeira.
     -- Surpresa. -- Ele realmente parecia empolgado, como se essa festa
fosse mesmo acontecer, como se Lena fosse mesmo comparecer, ou Macon
fosse permitir.
     -- Em que vocs estavam pensando? Lena odiaria isso. Ela e Ridley nem
se falam.
     -- Isso  culpa de Lena, cara. Elas deveriam superar os problemas, so
parentes. -- Eu sabia que ele estava sob a influncia dela, um zumbi de
Ridley, mas estava me deixando irritado.
     -- Voc no sabe o que est dizendo. Apenas fique fora disso. Confie em
mim.
     Ele abriu um Slim Jim e deu uma mordida.
     -- Sei l, cara. S estvamos tentando fazer uma coisa legal pra Lena.
No tem muita gente disposta a dar uma festa pra ela.
     -- Mais uma razo pra no fazer uma. Ningum compareceria.
     Ele sorriu e enfiou o resto do Slim Jim na boca.
     -- Todo mundo vai. J confirmaram. Pelo menos  o que Rid diz.
     Ridley. E claro. Ela faria a cidade inteira ir atrs dela, como o Flautista
de
     Hamelin, em uma sugada do primeiro pirulito.
     No parecia ser assim que Link entendia a situao.
     -- Minha banda, os Holy Rollers, vai tocar pela primeira vez.
     -- Os o qu?
     -- Minha nova banda. Eu a montei no acampamento da igreja.
     Eu no queria saber mais nada sobre o que tinha acontecido nas frias de
inverno. Estava feliz por ele ter voltado inteiro.
     O Sr. Lee bateu no quadro para enfatizar, desenhando um grande
nmero oito com giz.
     -- No fim, Hatch no conseguia mover os Confederados e retirou as
foras com o total de 89 mortos e 629 feridos. Os Confederados venceram a
batalha, perdendo s oito homens. E isso -- o Sr. Lee bateu com orgulho no
nmero oito --  o motivo de vocs se juntarem a mim na Encenao da
Histria Viva da Batalha de Honey Hill amanh.
     Histria Viva.  assim que pessoas como o Sr. Lee chamavam as
encenaes da Guerra Civil, e eles no estavam brincando. Cada detalhe era
preciso, dos uniformes at a munio e a posio dos soldados no campo de
batalha.
     Link sorriu para mim com a boca cheia de Slim Jim.
     -- No conte para Lena. Queremos que ela fique surpresa.  o nosso
presente de aniversrio para ela.
     Apenas fiquei olhando para ele. Pensei em Lena depressiva e com o
macaco laranja de presidiria. Depois na banda -- sem dvida terrvel -- de
Link, numa festa da Jackson High, Emily Asher e Savannah Snow, os Anjos
Cados, Ridley e Ravenwood, sem mencionar Honey Hill explodindo ao
longe. Tudo sob o olhar reprovador de Macon, dos outros parentes doidos de
Lena e da me que estava tentando mat-la. E do cachorro que permitia que
Macon visse cada gesto que fazamos.
     O sinal tocou. Surpresa nem era o comeo de como ela se sentiria. E era
eu que teria que contar a ela.
     -- No se esqueam de assinar quando chegarem na encenao. No
recebero crdito se no assinarem! E lembrem-se de ficar dentro das cordas
da Zona Segura. Levar um tiro no vai lhes dar um A nessa matria -- gritou
o Sr. Lee enquanto saamos em fila pela porta.
     Nesse momento, levar um tiro no parecia a pior coisa no mundo.




As encenaes da Guerra Civil so um fenmeno bizarramente estranho, e a
Encenao da Batalha de Honey Hill no era exceo. Quem realmente
estaria interessado em se vestir no que parecia ser fantasias de Halloween de
l muito quentes? Quem queria correr por a atirando com armas antigas que
eram to instveis que eram famosas por estourar membros das pessoas
quando disparadas? E foi assim, alis, que Big Earl Eaton morreu. Quem
ligava para recriar batalhas que aconteceram em uma guerra que ocorreu h
quase 150 anos e na qual o sul no venceu? Quem faria isso?
     Em Gatlin, e na maior parte do sul, a resposta seria: seu mdico, seu
advogado, seu pastor, o cara que conserta seu carro e o que entrega sua
correspondncia, provavelmente seu pai, todos seus tios e primos, seu
professor de Histria (principalmente se ele fosse o Sr. Lee), e certamente o
dono da loja de armas da cidade. Quando chegava a segunda semana de
fevereiro, fizesse chuva ou sol, Gatlin s pensava, falava e debatia sobre a
Encenao da Batalha de Honey Hill.
     Honey Hill era Nossa Batalha. No sei como decidiram isso, mas tenho
quase certeza de que teve alguma coisa a ver com as sete armas. As pessoas da
cidade passavam semanas se preparando para Honey Hill. Agora que
estvamos perto do evento, os uniformes Confederados estavam sendo
passados e engomados em todo o condado, o cheiro de l quente se
espalhando no ar. Rifles Withworth eram limpos e espadas eram polidas, e
metade dos homens da cidade tinha passado o final de semana anterior na
casa de Buford Radford fazendo munio caseira, porque a esposa dele no
se incomodava com o cheiro. As vivas estavam ocupadas lavando lenis e
congelando tortas para as centenas de turistas que vinham  cidade para
testemunhar a Histria Viva. Os membros do FRA passaram semanas se
preparando para a verso deles da Encenao, o Tour da Herana Sulista, e
suas filhas passaram dois sbados assando bolos para servir depois dos tours.
     Isso era particularmente divertido, porque os membros do FRA,
incluindo a Sra. Lincoln, conduziam os tours em vestidos de poca; elas se
espremiam em espartilhos e camadas de saias que as faziam parecer salsichas
prestes a estourar. E no eram as nicas; as filhas delas, incluindo Savannah e
Emily, a futura gerao do FRA, tinham que circular pelas casas vestidas
como personagens de Os Pioneiros. O tour sempre comeava no quartel-
general do FRA, j que era a segunda casa mais antiga de Gatlin. Me
perguntei se o teto estaria consertado a tempo. No podia deixar de imaginar
todas aquelas mulheres circulando pela Sociedade Histrica de Gatlin
apontando para tecidos em cima de centenas de pergaminhos Conjuradores e
documentos que esperavam logo abaixo o prximo feriado.
     Mas as pessoas do FRA no eram as nicas a se envolverem na
encenao. A Guerra entre os Estados era frequentemente chamada de
"primeira guerra moderna", mas era s dar uma caminhada em Gatlin uma
semana antes da Encenao, no havia nada de moderno para se observar.
Cada relquia da Guerra Civil da cidade estava em exibio, desde carroas a
Howitzers, que qualquer aluno de pr-escola da cidade poderia dizer que so
canhes de artilharia apoiados em um par de velhas rodas de carroa. As
     Irms at pegavam a bandeira Confederada original e a prendiam na
porta da frente, depois de eu me recusar a pendur-la na varanda para elas.
Apesar de ser apenas um show, esse era meu limite.
     Havia um grande desfile na vspera da Encenao, o que dava aos atores
uma oportunidade de marchar pela cidade completamente paramentados em
frente a todos os turistas, porque no dia seguinte estariam to cobertos de
fumaa e lama que ningum notaria os botes de lato brilhantes nas jaquetas
autnticas.
     Depois do desfile, havia um grande festival, com porco assado, uma
barraca de beijos e uma venda de tortas  moda antiga. Amma passava dias
assando tortas. Fora a Feira do Condado, esse era seu maior show de tortas, e
a maior oportunidade que tinha de bradar vitria sobre os inimigos. Suas
tortas sempre vendiam mais, o que deixava a Sra. Lincoln e a Sra. Snow
furiosas -- a motivao primria de Amma para cozinhar tanto. No havia
nada que ela gostasse mais do que se mostrar para as mulheres do FRA e
esfregar as tortas de segunda categoria que faziam em seus narizes.
     Ento, a cada ano, quando a segunda semana de fevereiro chegava, a
vida como conhecamos deixava de existir e todos ns nos vamos novamente
na Batalha de Honey Hill, por volta de 1864. Esse ano no foi exceo, com
uma adio peculiar. Esse ano, enquanto as picapes chegaram  cidade
arrastando canhes duplos e trailers de cavalos (qualquer ator de encenao
de respeito possua seu prprio cavalo), preparaes diferentes tambm
estavam sendo feitas, para uma batalha diferente.
     S que essa no comeava na segunda casa mais antiga de Gatlin, mas
na primeira. Havia Howitzers, e havia Howitzers. Essa batalha no se tratava
de armas e cavalos, mas isso no a tornava uma batalha menor. Para ser
honesto, era a nica verdadeira batalha na cidade.
     Quanto s oito mortes de Honey Hill, eu no podia comparar. Estava
preocupado com apenas uma. Porque, se eu a perdesse, eu estaria perdido
tambm.
     Ento, esqueam a Batalha de Honey Hill. Para mim, esse parecia mais
o Dia D.
                           p 11 de fevereiro p
                          Dezesseis Luas
                                    d

M
        e deixem em paz! J falei pra todos vocs! No h nada que possam
        fazer!
              A voz de Lena me acordou de algumas horas de sono agitado.
Vesti meu jeans e camiseta cinza sem nem parar para pensar em nenhuma
outra coisa alm disto: Dia Um. Podamos parar de esperar pelo fim.
    O fim tinha chegado.
   No com um estrondo, mas com um gemido no com um estrondo, mas
com um gemido no com um estrondo, mas com um gemido
     Lena estava perdendo o controle, e mal tinha amanhecido.
     O Livro. Droga, eu tinha me esquecido dele. Corri de volta at meu
quarto, subindo dois degraus de cada vez. Estiquei a mo para a prateleira do
alto do meu armrio, onde eu o tinha escondido, me preparando para a dor
de queimadura que acompanhava o toque ao livro Conjurador.
     S que nada aconteceu. Porque ele no estava l.
     O Livro das Luas, nosso livro, tinha sumido. Precisvamos daquele livro,
hoje mais do que em qualquer dia. Mas a voz de Lena ressoava na minha
cabea.
    assim que o mundo termina no com um estrondo, mas com um
gemido.
    Lena recitando T.S. Eliot no era um bom sinal. Peguei as chaves do
Volvo e corri.
     O sol estava nascendo enquanto eu dirigia pela Dove Street. Greenbrier,
ou o nico campo vazio para todo o resto da cidade -- o que o tornava o
local da Batalha de Honey Hill --, estava comeando a ganhar vida tambm.
O engraado era que eu nem conseguia ouvir a artilharia do lado de fora da
minha janela por causa da artilharia sendo disparada na minha cabea.




Quando subi correndo os degraus da varanda de Ravenwood, Boo estava
esperando por mim, latindo. Larkin estava nos degraus tambm, apoiado em
uma das colunas. Estava de jaqueta de couro, brincando com a cobra que se
enrolava e desenrolava em seu brao. Primeiro era brao, depois era cobra.
Ele mudava sem esforo entre as formas, como um crupi embaralhando
cartas. Ver isso me pegou desprevenido por um segundo. Isso e o modo como
ele fazia Boo latir. Pensando bem, eu no sabia se Boo latia para mim ou
para Larkin. Boo pertencia a Macon, e ele e eu no tnhamos exatamente nos
despedido bem da ltima vez.
     -- Oi, Larkin.
     Ele assentiu, desinteressado. Estava frio, e uma lufada de ar saiu da boca
dele, como se ali houvesse um cigarro imaginrio. A fumaa se esticou num
crculo, que virou uma pequena cobra branca, que depois mordeu o prprio
rabo, se devorando at desaparecer.
     -- Eu no entraria a se fosse voc. Sua namorada est um pouco, como
posso dizer? Venenosa? -- A cobra enroscou o corpo no pescoo dele e se
tornou o colarinho da jaqueta de couro.
     Tia Del abriu a porta.
     -- Finalmente. Estvamos esperando voc. Lena est no quarto dela e
no deixa nenhum de ns entrar.
     Olhei para tia Del, to desgrenhada, a echarpe caindo de um ombro s,
os culos tortos, at o coque estava se desenrolando. Me inclinei para abra-
la. Ela tinha cheiro de um dos armrios antigos das Irms, cheios de sachs de
lavanda e lenis velhos, passados de Irm para Irm. Reece e Ryan estavam
atrs dela como uma famlia em luto em um triste saguo de hospital,
esperando por ms notcias.
     Mais uma vez, Ravenwood parecia mais sintonizada com Lena e seu
humor do que com o de Macon, ou talvez esse fosse um humor que eles
compartilhavam. Macon no estava  vista, ento eu no tinha certeza. Se
voc conseguir imaginar a cor da raiva, ela tinha sido espalhada sobre as
paredes. Havia fria, ou alguma coisa igualmente densa e tempestuosa,
pendurada em cada lustre, ressentimento tranado em grossos tapetes
forrando o cho, dio brilhando sob cada cpula de abajur. O cho estava
coberto por uma sombra assustadora, uma escurido nica que tinha subido
pelas paredes e agora estava cobrindo meu All Star de forma que eu mal
podia v-lo. Escurido absoluta.
     No sei dizer ao certo como o salo estava. Eu estava distrado demais
pela sensao, que era bem intensa. Dei um passo hesitante para a grande
escadaria que levava ao quarto de Lena. Eu tinha subido aquela escada uma
centena de vezes antes, ento no era como se no soubesse onde ia dar. Mas,
de alguma maneira, parecia diferente hoje. Tia Del olhou para Reece e Ryan,
que subiam atrs de mim, como se eu estivesse liderando a passagem para um
front de guerra desconhecido.
     Quando subi o segundo degrau, a casa inteira tremeu. As milhares de
velas do lustre antigo que balanou sobre minha cabea tremeram e
derramaram cera no meu rosto. Fiz uma careta e dei um passo para trs. Sem
aviso, a escada se encolheu debaixo do meu p e me jogou de bunda no cho,
e sa deslizando pelo cho encerado do saguo de entrada. Reece e tia Del
conseguiram sair da frente, mas derrubei a pobre Ryan comigo como uma
bola de boliche batendo nos pinos no County Line Lanes.
     Fiquei de p e gritei para cima da escadaria.
     -- Lena Duchannes. Se voc atiar essa escadaria contra mim de novo,
vou pessoalmente denunciar voc para o Comit Disciplinar.
     Dei um passo para o primeiro degrau, depois para o segundo. Nada
aconteceu.
     -- Vou ligar para o Sr. Hollingsworth e dar meu testemunho de que voc
 uma luntica perigosa. -- Pulei de dois em dois degraus, at chegar 
primeira plataforma. -- Porque se fizer isso comigo de novo,  isso que voc
, ouviu?
     Ento eu ouvi, a voz dela se desenrolando na minha mente.
    Voc no entende.
    Sei que voc est com medo, L, mas afastar todo mundo no vai tornar
nada melhor.
    V embora.
    No.
    Estou falando srio, Ethan. V embora. No quero que nada acontea
com voc.
    No posso.
    Agora eu estava parado na porta do quarto dela, encostando a bochecha
na madeira branca e fria, Eu queria estar com ela, to prximo quanto
pudesse estar sem ter outro ataque do corao. E se ali fosse o mais prximo
que ela me deixaria chegar, era o bastante para mim, por enquanto.
    Est a, Ethan?
    Estou bem aqui.
    Estou com medo.
    Eu sei, L.
    No quero que voc se machuque.
    No vou me machucar.
    Ethan, no quero deixar voc.
    Voc no vai.
    E se eu deixar?
    Vou esperar por voc.
    Mesmo se eu for das Trevas?
    Mesmo se voc for muito das Trevas.
    Ela abriu a porta e me puxou para dentro. Havia msica tocando alto.
Eu conhecia a msica. Era uma verso raivosa e quase de heavy metal, mas
reconheci mesmo assim.

    Dezesseis luas,
    dezesseis anos
    Dezesseis dos seus mais profundos medos
    Dezesseis vezes voc sonhou com minhas lgrimas
    Caindo, caindo ao longo dos anos...

   Parecia que ela tinha chorado a noite toda. Provavelmente tinha mesmo.
Quando toquei no seu rosto, vi que ainda estava marcado das lgrimas.
Abracei-a e nos embalamos enquanto a msica tocava.

    Dezesseis luas,
    dezesseis anos
    Som de trovo nos seus ouvidos
    Dezesseis milhas antes que ela se aproxime
    Dezesseis procura o que dezesseis teme...

     Por cima do ombro dela, eu podia ver que o quarto estava em runas. O
gesso das paredes estava rachado e despencando e a penteadeira estava
virada, como um ladro revira um quarto quando invade uma casa. As
janelas estavam quebradas. Sem o vidro, as pequenas molduras de metal
pareciam grades de priso de algum castelo antigo. A prisioneira se agarrava
a mim enquanto a melodia nos envolvia. E a msica no parava.

    Dezesseis luas,
    dezesseis anos,
    Dezesseis vezes voc sonhou com meus medos,
    Dezesseis vo tentar Enfeitiar as esferas,
    Dezesseis gritos mas s um escuta...

     Na ltima vez em que eu tinha estado ali, o teto estava quase
completamente coberto de palavras detalhando os pensamentos mais ntimos
de Lena. Mas agora, cada superfcie do quarto estava coberta com a distinta
caligrafia dela em preto. Nas beiradas do teto agora tinha: A solido domina
aquele que voc ama / Quando voc sabe que pode nunca mais abra-lo.
Nas paredes: Mesmo perdido na escurido / Meu corao vai encontrar voc.
Nas molduras laterais da porta: A alma morre na mo daquele que a carrega.
Nos espelhos: Se eu pudesse encontrar um lugar para fugir / Escondida em
segurana, eu estaria l hoje. At mesmo a penteadeira estava coberta de
palavras: A luz do dia mais escuro me encontra aqui, os que esperam esto
sempre observando, e a que parecia dizer tudo, como se escapa de si mesmo?
Eu podia ver a histria dela nas palavras, ouvi-la na msica.

    Dezesseis Luas,
    dezesseis anos,
    A Lua da Invocao se aproxima,
    Nessas pginas as trevas se iluminam
    O poder une o que o fogo destri...

    E ento a guitarra diminui o ritmo, e ouvi um novo verso, o fim da
msica. Me esforcei para bloquear as imagens de terra, fogo, gua e vento da
minha mente para poder escutar.

    Dcima-Sexta Lua, Dcimo-Sexto Ano,
    Agora chegou o dia que voc teme,
    Invoque ou seja Invocada,
    Derrame sangue, derrame lgrima,
    Lua ou Sol -- destrua, venere.

     O som da guitarra parou completamente, e agora estvamos parados no
silncio.
     -- O que voc acha...?
     Ela colocou a mo sobre os meus lbios. No conseguia suportar falar
sobre o assunto. Estava mais frgil do que eu jamais a tinha visto. Uma brisa
fria soprava por ela, envolvendo-a e saindo pela porta aberta atrs de mim.
Eu no sabia se as bochechas de Lena estavam vermelhas de frio ou de
lgrimas, e no perguntei. Camos na cama e nos abraamos, at ficar difcil
descobrir quais braos e pernas eram de quem. No estvamos nos beijando,
mas era como se estivssemos. Estvamos mais prximos do que jamais
imaginei que duas pessoas pudessem ficar.
     Acho que era assim a sensao de amar algum e sentir que o tinha
perdido. At quando ainda se estava com a pessoa nos braos.
     Lena estava tremendo. Eu podia sentir cada costela, cada osso em seu
corpo, e os movimentos pareciam involuntrios. Tirei o brao que estava em
volta do pescoo dela e me contorci para pegar a colcha de retalhos do p da
cama e nos cobrir. Ela se aconchegou no meu peito e puxei a colcha ainda
mais. Agora ela estava cobrindo nossas cabeas, e estvamos em uma caverna
escura juntos, s ns dois.
     A caverna ficou quente com a nossa respirao. Beijei sua boca fria e ela
retribuiu. A corrente entre ns se intensificou e ela encostou o rosto no meu
pescoo.
    Acha que podemos ficar assim pra sempre, Ethan?
    Podemos fazer o que voc quiser.  seu aniversrio.
    Senti-a ficar rgida nos meus braos.
    No me lembre.
    Mas eu trouxe um presente pra voc.
     Ela ergueu a colcha para deixar entrar s um facho de luz.
     -- Trouxe? Eu disse pra no trazer.
     -- Desde quando eu escuto o que voc diz? Alm do mais, Link diz que
se uma garota diz que no quer um presente de aniversrio, isso significa que
ela quer um presente de aniversrio e que tem que ser uma joia.
     -- Isso no  verdade sobre todas as garotas.
     -- T. Deixa pra l.
     Ela soltou a colcha, depois se aconchegou nos meus braos.
    E?
    O qu?
    Uma joia.
    Pensei que voc no queria presente.
    S estou curiosa.
     Sorri para mim mesmo e tirei a colcha de cima de ns. O ar frio nos
atingiu ao mesmo tempo, e eu rapidamente tirei uma pequena caixa do bolso
e mergulhei debaixo das cobertas. Ergui um pouco a colcha para que ela
pudesse ver a caixa.
     -- Abaixe, est frio demais.
     Deixei-a cair, e estvamos cercados de escurido de novo. A caixa
comeou a brilhar com uma luz verde, e pude ver os dedos finos de Lena
puxando o lao prateado. O brilho se espalhou, quente e intenso, at que o
rosto dela ficou suavemente aceso em frente ao meu.
     -- Esse  novo. -- Sorri para ela na luz verde.
     -- Eu sei. Est acontecendo desde que acordei hoje de manh. Seja l no
que eu pense, isso meio que acontece.
     -- Nada mau.
     Ela olhou para a caixa com ansiedade, como se estivesse esperando o
mximo de tempo possvel para abrir. Me ocorreu que esse talvez fosse o
nico presente que Lena receberia hoje. Fora a festa surpresa sobre a qual eu
estava adiando contar a ela at o ltimo minuto.
    Festa surpresa?
    Ops.
     melhor voc estar brincando.
    Diga isso a Ridley e a Link.
     mesmo? A surpresa  que no vai haver festa.
    Abra a caixa.
    Ela olhou para mim irritada e abriu a caixa, e a luz aumentou, apesar de
o presente no ter nada a ver com isso. Seu rosto se suavizou e eu sabia que
no levaria bronca pela festa. Era aquela coisa que havia entre garotas e joias.
Quem saberia? Link estava certo, afinal.
    Ela segurou um colar, deiicado e brilhante, com um anel pendurado na
corrente. Era um crculo de ouro entalhado, com trs fios de ouro tranados
entre si: um meio rosado, um amarelo e um branco.
    Ethan! Adorei.
     Ela me beijou umas cem vezes, e comecei a falar enquanto ela ainda me
beijava. Porque eu sentia que tinha que contar a ela, antes que ela o
colocasse, antes que alguma coisa acontecesse.
     -- Foi da minha me. Tirei da caixinha de joias antiga dela.
     -- Tem certeza que quer me dar? -- perguntou ela.
     Assenti. Eu no podia fingir que no era nada demais. Lena sabia o que
eu sentia em relao  minha me. Era uma coisa importante, e me senti
aliviado por ns dois podermos admitir isso.
     -- No  raro nem nada do tipo, no  um diamante, mas  valioso pra
mim. Acho que ela no ia se importar de eu dar pra voc porque, voc sabe.
    O qu?
    Ah.
     -- Voc vai me fazer dizer em voz alta? -- Minha voz estava estranha,
trmula.
     -- Odeio dar essa notcia a voc, mas voc no  muito bom em dizer as
coisas em voz alta. -- Ela sabia que eu estava tentando escapar, mas ia me
fazer dizer. Eu preferia nosso modo silencioso de comunicao. Tornava a
conversa, a conversa verdadeira, muito mais fcil para um cara como eu.
Afastei o cabelo dela do pescoo e prendi o cordo. Ficou ali pendurado,
brilhando na luz, bem acima do cordo que ela nunca tirava.
     -- Porque voc  muito especial pra mim.
    Quanto especial?
    Acho que voc est usando a resposta no pescoo.
    Estou usando muitas coisas no pescoo.
     Toquei em seu colar de amuletos. Tudo parecia lixo, e a maioria era
mesmo -- o lixo mais importante do mundo. E agora isso tinha se tornado o
meu lixo tambm. Uma moeda achatada com um buraco no meio, daquelas
mquinas da praa de alimentao em frente ao cinema, onde fomos no
nosso primeiro encontro. Um pedao de linha do suter vermelho que ela
usava quando fomos  torre de gua, que tinha se tornado uma piada
particular nossa. O boto prateado que dei para ela ter sorte na reunio
disciplinar. A estrela de clipe de papel da minha me.
    Ento voc j deveria saber a resposta.
     Ela se inclinou para me beijar de novo, um beijo de verdade. Esse era o
tipo de beijo que no podia ser chamado de beijo, o tipo que envolve braos e
pernas e pescoos e cabelos, o tipo que faz a colcha deslizar para o cho e, no
nosso caso, do tipo que fez as janelas se consertarem sozinhas, a penteadeira
se endireitar sozinha, as roupas voltarem para os cabides e o quarto frio
finalmente se aquecer. Um fogo se acendeu em uma pequena lareira no
quarto, o que no era nada em comparao ao calor percorrendo meu corpo.
Eu sentia a eletricidade, mais forte do que j estava acostumado, e meu pulso
acelerou.
     Eu me afastei, sem flego.
     -- Onde est Ryan quando se precisa dela? Vamos ter que descobrir o
que fazer em relao a isso.
     -- No se preocupe, ela est l embaixo. -- Ela me puxou de volta, e o
fogo estalou ainda mais alto, ameaando sobrecarregar a chamin com
fumaa e chamas.
     Joias, estou dizendo. E uma coisa importante. E amor tambm.
     E talvez perigo.


-- Estou indo, tio Macon! -- Lena se virou para mim e suspirou. -- Acho que
no podemos mais adiar. Temos que descer e ver minha famlia. -- Ela olhou
para a porta, que se destrancou sozinha. Massageei as costas dela, fazendo
uma careta. Tinha acabado.
     J estava anoitecendo quando samos do quarto de Lena. Achei que
teramos que descer escondidos para visitar a Cozinha por volta da hora do
almoo, mas Lena apenas fechou os olhos e um carrinho de servio de quarto
entrou pela porta e parou no meio do quarto. Acho que at a Cozinha estava
com pena dela hoje. Ou isso ou a Cozinha no podia resistir aos poderes
recentes de Lena tanto quanto eu. Comi o equivalente ao meu peso em
panquecas com gotas de chocolate afogadas em calda de chocolate,
acompanhadas de leite com achocolatado. Lena comeu um sanduche e uma
ma. E ento voltemos aos beijos.
     Acho que ns dois sabamos que essa podia ser a ltima vez em que
ficvamos juntos em um quarto assim. Parecia no haver mais nada que
pudssemos fazer. A situao era o que era, e se hoje fosse tudo que tnhamos,
pelo menos teramos isso.
     Na realidade, eu estava to apavorado quanto estava feliz. Nem era hora
do jantar e j era o melhor e o pior dia da minha vida.
     Peguei a mo de Lena e descemos a escada. Ainda estava quente, e era
assim que eu sabia que Lena estava se sentindo melhor. Os colares brilhavam
em seu pescoo, e velas prateadas e douradas estavam suspensas no ar.
Passamos por entre elas quando descamos a escada. Eu no estava
acostumado a ver Ravenwood parecendo to festiva e cheia de luz, o que por
um segundo fez tudo parecer quase um aniversrio de verdade, no qual as
pessoas esto felizes e animadas. Por um segundo.
     Ento vi Macon e tia Del. Os dois estavam segurando velas, e atrs deles,
Ravenwood estava envolvida em sombras e escurido. Havia outras figuras
escuras se movendo atrs, tambm segurando velas. Pior, Macon e Dei
estavam usando longas vestes negras, como seguidores de uma ordem
estranha, ou sacerdotes e sacerdotisas druidas. No parecia exatamente, uma
festa de aniversrio. Parecia mais um enterro assustador.

    Dezesseis Luas. Agora entendo porque no quis sair do quarto.
    Agora entende do que eu estava falando.

    Quando Lena chegou ao ltimo degrau, parou e olhou para mim.
Parecia muito deslocada vestindo cala jeans e meu casaco enorme da
Jackson.
    Duvido que Lena j tivesse se vestido assim algum dia. Acho que ela s
queria manter um pedao de mim com ela o mximo que pudesse.
    No tenha medo.  s Feitio, para me manter em segurana at o
Nascer da Lua. A Invocao no pode acontecer at a lua estar alta no cu.
    No estou com medo, L.
    Eu sei. Estava falando comigo mesma.




Ela soltou minha mo e deu o ltimo passo na escada. Quando seu p tocou
o cho preto polido, ela se transformou. A veste fluida do Feitio agora
escondia as curvas do seu corpo. O negro do cabelo e o da veste se
misturavam em uma sombra que a cobria da cabea aos ps, com exceo do
rosto, que estava plido e luminescente como a prpria lua. Ela tocou a
garganta, e o anel de ouro da minha me ainda estava em seu pescoo. Eu
esperava que ele ajudasse a lembr-la de que eu estava com ela. Assim como
esperava que fosse minha me que estivesse nos ajudando esse tempo todo.
    O que eles vo fazer com voc? Isso no vai ser nenhum ritual pago
sexual bizarro, vai?
     Lena caiu na gargalhada. Tia Del olhou para ela, horrorizada. Reece
alisou a veste com cuidado usando uma das mos, com ar superior, enquanto
Ryan dava risadinhas.
     -- Componha-se -- sibilou Macon. Larkin, que de alguma forma
conseguia parecer to bacana de veste preta como parecia de jaqueta de
couro, prendeu o riso. Lena sufocou as risadas nas dobras da veste.
     Com o movimento das velas, pude ver os rostos perto de mim: Macon,
Del, Lena, Larkin, Reece, Ryan e Barclay. Havia outros rostos que no eram
to familiares. Arelia, me de Macon, e um rosto mais velho, enrugado e
bronzeado. Mas, mesmo de onde eu estava, ela parecia muito com a neta e
eu imediatamente soube quem ela era.
     Lena a viu na mesma hora que eu.
     -- Vov!
    -- Feliz aniversrio, querida!
    O crculo se quebrou brevemente quando Lena correu e jogou os braos
em volta da mulher de cabelos brancos.
    -- No achei que voc viria!
    -- Claro que viria. Queria fazer surpresa. Barbados  uma viagem
rpida. Cheguei aqui num piscar de olhos.
    Ela est falando literalmente, n? O que ela ? Outra Viajante, um
Incubus como Macon?
    Uma passageira com milhas, Ethan. Da United Airlines.
     Eu podia sentir o que Lena estava sentindo, um breve momento de
alvio, mesmo eu estando me sentindo cada vez mais estranho. T, meu pai
estava sofrendo de insanidade, minha me estava morta, de uma certa
maneira, e a mulher que me criou sabia uma coisa e outra sobre vodu. Eu
lidava bem com tudo isso. Mas ficar ali, cercado de Conjuradores de vestes
segurando velas, fez parecer que eu precisava saber muito mais do que a vida
com Amma tinha me ensinado. Antes que eles comeassem com o latim e os
Conjuros.
     Macon deu um passo a frente no crculo. Tarde demais. Ele elevou a vela
bem alto.
     -- Cur Luna hac Vinctum convenimus?
     Tia Del deu um passo e ficou ao lado dele. Sua vela tremeu quando ela a
elevou, traduzindo.
     -- Por que nessa Lua nos juntamos para o Feitio?
     O crculo respondeu, elevando suas velas quando cantarolaram.
     -- Sextusdecima Luna, Sextusdecimo Anno, Illa Capietur.
     Lena respondeu na nossa lngua. A chama da vela dela ardia de maneira
que quase pareceu que ia queimar o rosto dela.
     -- Na Dcima-Sexta Lua, no Dcimo Sexto Ano, Ela ser Invocada.
     Lena estava parada no meio do crculo, com a cabea erguida. A luz das
     velas atingia o rosto dela de todas as direes. Sua vela comeou a
queimar em uma estranha chama verde.
    O que est acontecendo, L?
    No se preocupe.  apenas parte do Feitio.
    Se isso era apenas o Feitio, eu tinha certeza de que no estava pronto
para a Invocao.
   Macon comeou a cantilena que eu lembrava do Halloween. Como eles
chamaram?

    "Sanguis sanguinis mei, tutela tua est.
    Sanguis sanguinis mei, tutela tua est.
    Sanguis sanguinis mei, tutela tua est.
    Sangue do meu sangue, a proteo  sua!"

     Lena ficou plida. Um Crculo Sanguinis. Era isso. Ela elevou a vela bem
alto acima da cabea, fechando os olhos. A chama verde irrompeu em uma
chama forte laranja-avermelhada, explodindo da vela para todas as outras do
crculo, acendendo-as tambm.
     -- Lena! -- gritei acima do som da exploso, mas ela no respondeu. A
chama subiu at a escurido acima, to alta que me Dei conta de que no
podia haver telhado nem teto em Ravenwood essa noite. Joguei os braos em
cima dos olhos quando o fogo ficou quente e intenso demais. Eu s conseguia
pensar no Halloween. E se estivesse acontecendo de novo? Tentei lembrar o
que eles estavam fazendo naquela noite para lutar contra Sarafine. O que eles
cantavam? Como a me de Macon tinha chamado?
     O Sanguinis. Mas eu no conseguia lembrar as palavras, no sabia latim,
e pela primeira vez desejei ter participado do Clube dos Clssicos.
     Ouvi batidas na porta da frente e, em um instante, as chamas sumiram.
As vestes, o fogo, as velas, a escurido e a luz sumiram. Tudo desapareceu.
Sem nem piscar, eles se tornaram uma famlia normal, reunidos em volta de
um bolo de aniversrio. Cantando.
    Mas o que...?
     -- Parabns pra voc!
     As ltimas notas da msica terminaram e as batidas na porta
continuaram. Um bolo enorme, com trs camadas de rosa, branco e prateado
estava na mesa de centro da sala de visitas, junto com um servio de ch
formal e toalhas e guardanapos brancos. Lena soprou as velas, afastando a
fumaa do rosto onde segundos antes havia uma chama ululante. A famlia
aplaudiu. De volta com meu moletom da Jackson e jeans, ela parecia uma
menina de 16 anos qualquer.
     -- Essa  nossa menina!
     A ay de Lena colocou o tric na mesa e comeou a cortar a torta,
enquanto tia Del servia o ch. Reece e Ryan carregavam uma enorme pilha
de presentes enquanto Macon estava sentado em sua poltrona vitoriana e
servia para si e Barciay um copo de usque.
    O que est acontecendo, L? O que acabou de acontecer?
    Tem algum na porta. S esto sendo cuidadosos.
    No consigo acompanhar sua famlia.
    Coma um pedao de bolo.  pra ser uma festa de aniversrio, lembra?
     As batidas na porta continuaram. Larkin tirou os olhos da grossa fatia de
bolo de chocolate, o favorito de Lena.
     -- Ningum vai abrir a porta?
     Macon tirou um farelo do palet de cashmere, olhando calmamente para
Larkin.
     -- Certamente, veja quem , Larkin.
     Macon olhou para Lena e sacudiu a cabea. Ela no abriria a porta hoje.
Lena assentiu e se encostou na av. Sorrindo sobre o prato de bolo como a
neta devotada que era. Ela bateu na almofada ao lado. timo. Era minha vez
de conhecer a vov.
     Ento ouvi uma voz familiar na porta, e sabia que preferia encarar a av
de qualquer um ao que estava esperando l fora agora. Porque era Ridley e
Link, Savannah, Emily, Eden e Charlotte, com o resto do seu f clube e o
time de basquete da Jackson. Nenhum deles estava usando o uniforme dirio,
a camiseta dos Anjos da Jackson. Ento lembrei por qu. Emily tinha uma
mancha de sujeira na bochecha. A Encenao. Me dei conta de que Lena e
eu tnhamos perdido a maior parte dela, e agora amos repetir em Histria. A
essa hora j tinha terminado, exceto pela festa da noite e pelos fogos.
Engraado como uma nota zero pareceria uma coisa importante em qualquer
outro dia.
     -- SURPRESA!
     Surpresa nem comeava a descrever o cenrio. Mais uma vez, permiti
que o caos e o perigo encontrassem o caminho de Ravenwood. Todo mundo
se amontoou no saguo de entrada. Vov acenou do sof. Macon bebericou o
usque, dono de si, como sempre. Se voc o conhecesse, saberia que ele estava
prestes a perder a cabea.
     Na verdade, pensando bem, por que Larkin os Deixou entrar?
    Isso no pode estar acontecendo.
    A festa surpresa, eu me esqueci completamente.
     Emily foi at a frente do grupo.
     -- Onde est a aniversariante? -- Ela esticou os braos com expectativa,
como se planejasse dar um grande abrao em Lena. Lena se encolheu, mas
Emily no seria to facilmente dissuadida.
     Emily passou o brao pelo corpo de Lena como se fossem velhas amigas
que no se viam h tempos.
     -- Planejamos essa festa a semana toda. Tem msica ao vivo e Charlotte
alugou uns holofotes para que todo mundo enxergue, afinal as terras aqui de
Ravenwood so to escuras. -- Emily baixou a voz como se estivesse
discutindo a venda de contrabando no mercado negro. -- E temos licor de
pssego.
     -- Voc tem que ver -- falou devagar Charlotte, praticamente ofegando
para tomar ar entre as palavras porque a cala jeans estava apertada demais.
-- Tem uma mquina de laser. E uma rave em Ravenwood, no  legal? 
como uma daquelas festas de faculdade em Summerville.
     Uma rave? Ridley deve ter dado tudo de si dessa vez. Emily e Savannah
dando uma festa para Lena e puxando o saco dela como se ela fosse a Rainha
da Neve? Isso deve ter sido mais difcil do que fazer todas elas pularem de um
precipcio.
     -- Agora vamos para o seu quarto arrumar voc, aniversariante! --
Charlotte parecia mais ainda com uma lder de torcida do que o normal,
sempre exagerando.
     Lena estava verde. Seu quarto? Metade dos textos na parede
provavelmente era sobre elas.
     -- Como assim, Charlotte? Ela est linda. No acha, Savannah? --
Emily deu um aperto em Lena e olhou para Charlotte com reprovao, como
se talvez ela devesse largar as tortas e se esforar para ficar to linda.
     -- T brincando? Eu morreria por esse cabelo -- disse Savannah,
enrolando uma mecha do cabelo de Lena no dedo. --  to incrivelmente...
preto.
     -- Meu cabelo estava preto no ano passado, pelo menos embaixo --
protestou Eden. Ano passado, Eden tinha pintado a parte de baixo do cabelo
de preto, deixando a de cima loura, em uma de suas tentativas equivocadas
de chamar ateno. Savannah e Emily pegaram tanto no p dela, sem pena
nenhuma, que ela voltou  cor anterior 24 horas depois.
    -- Voc parecia um gamb. -- Savannah sorriu para Lena com
aprovao. -- Ela parece italiana.
    -- Vamos. Todo mundo est esperando voc -- disse Emily, pegando o
brao de Lena. Lena se soltou dela.
    Isso tem que ser algum tipo de truque.
     um truque sim, mas no acho que seja do tipo que voc imagina.
Provavelmente tem mais a ver com uma Sirena e um pirulito.
    Ridley. Eu devia saber.
     Lena olhou para tia Del e tio Macon. Eles estavam horrorizados, como
se todo o latim do mundo no os tivesse preparado para isso. Vov sorria, no
familiarizada com aquele tipo de anjo em particular.
     -- Para que a pressa? Vocs no gostariam de ficar e tomar uma xcara
de ch?
     -- Oi, v! -- gritou Ridley da porta, onde estava esperando na varanda,
sugando o pirulito vermelho com tamanha intensidade que pensei que se ela
parasse, essa coisa toda poderia despencar como uma casa de cartas. Ela no
me tinha ao seu lado para pass-la pela porta dessa vez. Estava a poucos
centmetros de Larkin, que parecia se divertir, mas no se movia de frente
dela. Ridley usava uma blusa de renda apertada que parecia um cruzamento
de lingerie e algo que uma garota na capa de uma revista de carros usaria e
uma saia jeans de cintura baixa.
     Ridley se apoiou na moldura da porta.
     -- Surpresa, surpresa!
     Vov colocou a xcara na mesa e pegou o tric.
     -- Ridley. Que prazer ver voc, querida! Seu novo visual  muito
apropriado, meu bem. Tenho certeza de que tem muitos cavalheiros
admiradores. -- Vov deu um sorriso inocente para Ridley, mas seus olhos
no estavam sorrindo.
     Ridley fez beicinho, mas continuou chupando o pirulito. Andei at onde
ela estava.
     -- De quantas lambidas precisa, Rid?
     -- Para o qu, Palitinho?
     -- Para fazer Savannah Snow e Emily Asher darem uma festa para
Lena?
     -- Mais do que voc imagina, Namorado. -- Ela mostrou a lngua para
mim, e pude ver que estava manchada de vermelho e roxo. A viso causava
vertigem.
     Larkin suspirou e olhou para alm de mim.
     -- Deve ter umas cem pessoas l fora, nos campos. Tem um palco e alto-
falantes, e carros ao longo da rua.
     --  mesmo? -- Lena olhou pela janela. -- Tem um palco no meio das
magnlias.
     -- Das minhas magnlias? -- Macon ficou de p.
     Eu sabia que a coisa toda era uma farsa, que Ridley estava dando vida 
festa com cada lambida sugestiva, e Lena sabia tambm. Mas eu ainda podia
ver nos olhos de Lena. Havia uma parte dela que queria ir l fora.
     Uma festa surpresa, a qual todo mundo da escola comparece. Isso devia
estar na lista de Lena das coisas de uma garota normal. Ela conseguia lidar
com o fato de ser Conjuradora. Estava apenas cansada de ser uma excluda.
     Larkin olhou para Macon.
     -- Voc nunca vai faz-los ir embora. Vamos acabar com isso. Fico com
ela o tempo todo, eu ou Ethan.
     Link forou caminho at a frente.
     -- Vamos, cara. Minha banda, os Holy Rollers, vai estrear na Jackson
High. Vai ser demais. -- Link estava mais feliz do que eu jamais tinha visto.
Olhei para Ridley com desconfiana. Ela deu de ombros, mastigando o
pirulito.
     -- No vamos a lugar algum. No hoje. -- Eu no podia acreditar que
Link estava aqui. A me dele teria um ataque cardaco se descobrisse.
     Larkin olhou para Macon, que estava irritado, e para tia Del, que estava
em pnico. Era a ltima noite na qual qualquer um dos dois ia querer Lena
longe da vista deles.
     -- No. -- Macon nem considerava a hiptese.
     Larkin tentou de novo.
     -- Cinco minutos.
     -- De modo algum.
     -- Qual ser a prxima vez que um grupo da escola dela vai dar uma
festa pra ela?
     Macon no perdeu um segundo.
     -- Espero que nunca.
     O rosto de Lena desabou. Eu estava certo. Ela queria fazer parte daquilo,
mesmo no sendo real. Era como o baile e o jogo de basquete. Era o motivo
pelo qual ela se dava ao trabalho de ir  escola, no importando o quo mal
eles a tratavam. Era o motivo dela ir, dia aps dia, mesmo tendo que comer
nas arquibancadas e sentar no Lado do Olho Bom. Ela tinha 16 anos,
Conjuradora ou no. Por uma noite, era s isso que ela queria ser.
     S havia uma outra pessoa to teimosa quanto Macon Ravenwood. Se
eu conhecia Lena, o tio dela no tinha chance, no essa noite.
     Ela andou at Macon e passou o brao no dele.
     -- Sei que parece loucura, tio M, mas posso ir para a festa, s um
pouquinho? S pra ouvir a banda de Link?
     Observei se o cabelo dela ia se mexer, o indicador da brisa Conjuradora.
Nem se moveu. No era magia Conjuradora que ela estava fazendo. Era de
outro tipo. Ela no conseguia usar magia para fugir do olhar observador de
Macon. Teria que recorrer a uma magia mais antiga, mais forte, do tipo que
funcionava melhor com Macon desde o momento em que ela se mudou para
Ravenwood. O velho e simples amor.
     -- Por que voc iria querer ir a qualquer lugar com essas pessoas depois
de tudo que fizeram voc passar? -- Eu podia ouvi-lo amolecendo enquanto
falava.
     -- Nada mudou. No quero ter nada a ver com essas garotas, mas ainda
assim quero ir.
     -- Isso no faz sentido. -- Macon estava frustrado.
     -- Eu sei. E sei que  burrice, mas s quero saber como  ser normal.
Quero ir pra um baile sem praticamente destru-lo. Quero ir a uma festa para
a qual fui convidada. Quer dizer, sei que  coisa da Ridley, mas  errado se eu
no ligar? -- Ela olhou para ele, mordendo o lbio.
     -- No posso permitir, mesmo se quisesse.  muito perigoso.
     Eles se olharam.
     -- Ethan e eu nem chegamos a danar, tio M. Voc mesmo falou.
     Por um segundo, pareceu que Macon ia ceder, mas s por um segundo.
     -- O que eu no disse foi: acostume-se. Nunca passei um dia na escola,
nem andei pela cidade numa tarde de domingo. Todos ns sofremos
decepes.
     Lena jogou a ltima carta.
     -- Mas  meu aniversrio. Qualquer coisa pode acontecer. Pode ser
minha ltima chance... -- O resto da frase ficou no ar.
     De danar com meu namorado. De ser eu mesma. De ser feliz.
     Ela no precisava dizer. Todos sabamos.
     -- Lena, entendo como se sente, mas  minha responsabilidade mant-la
segura. Especialmente durante esta noite, voc tem que ficar aqui comigo. Os
Mortais s vo coloc-la voc no caminho do perigo ou faz-la sofrer. Voc
no pode ser normal. No nasceu para ser normal. -- Macon nunca tinha
falado com Lena daquele jeito. Eu no tinha certeza se ele estava falando
sobre a festa ou sobre mim.
     Os olhos de Lena brilharam, mas ela no chorou.
     -- Por que no? O que h de to errado em querer o que eles tm? J
parou para pensar que eles podem ter acertado em alguma coisa?
     -- E se tiverem? De que importa? Voc  uma Natural. Um dia, vai para
um lugar onde Ethan no pode ir. E cada minuto que vocs passam juntos
agora s ser um peso que vai ter que carregar para o resto de sua vida.
     -- Ele no  um peso.
     -- Ah,  sim. Ele deixa voc fraca, o que o torna perigoso.
     -- Ele me deixa forte, o que s  perigoso pra voc.
     Entrei entre os dois.
     -- Sr. Ravenwood, por favor. No faa isso hoje.
     Mas Macon j tinha feito. Lena estava furiosa.
     -- E o que voc sabe sobre isso? Voc nunca teve o peso de um
relacionamento na sua vida, nem mesmo de um amigo. Voc no entende
nada. Como poderia? Dorme no seu quarto o dia todo e fica na biblioteca a
noite toda. Odeia todo mundo, e se acha melhor do que todo mundo. Se
nunca amou ningum de verdade, como poderia saber como eu me sinto?
     Ela se virou de costas para Macon, para todos ns, e subiu a escadaria
correndo, com Boo atrs. Bateu a porta do seu quarto, o som ecoando pelo
corredor. Boo se Deitou em frente  porta.
     Macon ficou olhando para onde ela estava, apesar de ela no estar mais
l. Lentamente, ele se virou para mim.
     -- Eu no poderia permitir. Tenho certeza de que entende.
     Eu sabia que essa era possivelmente a noite mais perigosa da vida de
Lena, mas tambm sabia que talvez fosse a ltima chance dela de ser a garota
que todos ns amvamos. Ento eu entendia. S no queria estar no mesmo
ambiente que ele agora.
     Link voltou para a frente do grupo de jovens ainda no saguo.
     -- E ento, vai ter festa ou no?
     Larkin pegou o casaco.
     -- J est tendo. Vamos pra l. Vamos comemorar por Lena.
     Emily foi at o lado de Larkin, e todo mundo foi atrs. Ridley ainda
estava parada na porta. Ela olhou para mim e deu de ombros.
     -- Eu tentei.
     Link estava esperando por mim perto da porta.
     -- Ethan, vamos, cara. Venha.
     Olhei para cima da escadaria.
    Lena?
     -- Vou ficar aqui.
     Vov parou de tricotar.
     -- No acho que ela v descer logo, Ethan. Por que no vai com seus
amigos e volta para ver como ela est em alguns minutos?
     Mas eu no queria ir. Essa podia ser a ltima noite que passaramos
juntos. Mesmo se a passssemos em seu quarto, eu ainda queria estar ao seu
lado.
     -- Pelo menos venha ouvir minha nova msica, cara. Depois voc pode
voltar e esperar que ela desa. -- Link estava com a baqueia na mo.
     -- Acho que isso seria o melhor a fazer. -- Macon se serviu de outra dose
de usque. -- Voc pode voltar daqui a um tempinho, mas ns fizemos coisas
que precisamos discutir enquanto isso. -- Estava decidido. Ele estava me
expulsando.
     -- Uma msica. Depois vou esperar ali na frente. -- Olhei para Macon.
-- Por um tempinho.




O campo atrs de Ravenwood estava cheio de gente. Havia um palco
improvisado de um lado, com luzes portteis, do mesmo tipo que usavam
para encenar parte noturna da Batalha de Honey Hill. Havia msica nos
alto-falantes, mas era difcil ouvir com o barulho dos canhes ao longe.
     Segui Link at o palco, onde os Holy Rollers estavam se preparando.
Eram trs e pareciam ter uns 30 anos. O cara ajustando o amplificador da
guitarra tinha tatuagens cobrindo os dois braos e uma coisa que parecia uma
corrente de bicicleta no pescoo. O baixista tinha cabelo preto espetado que
combinava com a maquiagem preta que usava em volta dos olhos. O terceiro
cara tinha tantos piercings que doa s de olhar para ele. Ridley subiu, sentou
na beirada do palco e acenou para Link.
     -- Espere at voc nos ouvir. Somos demais. Queria que Lena estivesse
aqui.
     -- Bem, eu no quereria decepcionar voc. -- Lena apareceu atrs de
ns e enlaou minha cintura. Seus olhos estavam vermelhos e chorosos, mas
no escuro ela se parecia com todo mundo.
     -- O que aconteceu? Seu tio mudou de ideia?
     -- No exatamente. Mas o que os olhos no veem o corao no sente, e
no me importo que veja. Ele est terrvel hoje.
     Eu no disse nada. Jamais entenderia o relacionamento entre Lena e
Macon, assim como ela no podia entender meu relacionamento com Amma.
Mas eu sabia que ela ia se sentir pssima quando isso tudo terminasse. Ela
no suportava ouvir ningum falar nada de ruim sobre seu tio, nem mesmo
eu; Quando ela falava era tudo bem pior.
     -- Voc saiu escondida?
     -- Sa. Larkin me ajudou. -- Larkin andou at ns, segurando um copo
de plstico. -- S se faz 16 anos uma vez, certo?
    Isso no  boa ideia, L.
    Eu s quero uma dana. Depois vamos voltar.
     Link foi em direo ao palco.
     -- Escrevi uma msica para o seu aniversrio, Lena. Voc vai adorar.
     -- Qual  o nome? -- perguntei desconfiado.
     -- Dezesseis Luas. Lembra? Aquela msica estranha que voc no
conseguia achar no seu iPod? Surgiu na minha cabea semana passada,
inteirinha. Bem, Rid me ajudou um pouco. -- Ele sorriu. -- Acho que pode-
se dizer que ela foi minha musa.
     Eu estava sem palavras. Mas Lena segurou minha mo e Link pegou o
microfone, e nada podia impedi-lo. Ele ajustou a altura do microfone para
que ficasse na frente da boca. Bem, para ser honesto, estava mais dentro da
boca dele, e era meio nojento. Link tinha visto MTV demais na casa de Earl.
Tnhamos que apreciar sua coragem, visto que estava prestes a ser expulso do
palco. Ele era realmente corajoso, apesar de tudo.
     Ele fechou os olhos, sentou atrs da bateria e ergueu as baquetas no ar.
     -- Um, dois, trs.
     O guitarrista principal, o cara com aparncia de mal-humorado usando
a corrente de bicicleta, comeou com a guitarra. O som foi horrvel, e os
amplificadores comearam a gritar dos dois lados do palco. Fiz uma careta.
Aquilo no seria bonito. E depois ele continuou, e continuou.
     -- Senhoras e senhores, se houver algum por a. -- Link ergueu uma
sobrancelha e uma onda de risadas percorreu a plateia. -- Eu gostaria de
dizer feliz aniversrio, Lena. E agora, batam palmas para a estreia mundial
da minha nova banda, os Holy Rollers.
     Link piscou para Ridley. O cara achava que era Mick Jagger. Me senti
mal por ele e segurei a mo de Lena. Parecia que eu tinha enfiado a mo no
lago no inverno, quando a superfcie da gua estava morna por causa do sol
e, 3 centmetros abaixo, era puro gelo. Tremi, mas no ia solt-la.
     -- Espero que esteja pronta para isso. Vai ser um desastre. Estaremos de
volta em seu quarto em cinco minutos. Prometo.
     Ela olhou para ele, pensativa.
     -- No tenho tanta certeza.
     Ridley estava sentada na beirada do palco, sorrindo e acenando como
uma groupie. Seu cabelo balanava na brisa, mechas rosas e louras
comearam a se enroscar sobre os ombros.
     E ento ouvi a melodia familiar, e Dezesseis Luas estourava nos
amplificadores. S que dessa vez, no era como uma das msicas das fitas
demo de Link. Eles eram bons, de verdade. E a galera foi  loucura, como se
a Jackson High finalmente tivesse um baile. S que estvamos em uma
campina, no meio de Ravenwood, a fazenda mais famosa e temida do
condado de Gatlin. A energia era incrvel, parecia uma rave. Todo mundo
danava e metade das pessoas estava cantando, o que era loucura, j que
ningum tinha ouvido a msica antes. At Lena deu um sorriso, e comeamos
a nos balanar com a multido, porque era mais forte do que ns.
     -- Esto tocando nossa msica. -- Ela encontrou minha mo.
     -- Eu estava pensando nisso.
     -- Eu sei. -- Ela enlaou os dedos nos meus, fazendo meu corpo tremer.
-- E eles so bons -- disse ela, gritando na multido.
     -- Bons? So timos! Quero dizer,  o melhor dia da vida de Link.
     Era tudo uma loucura. Os Holy Rollers, Link, a festa. Ridley balanando
na beirada do palco, chupando o pirulito. No era a coisa mais louca que
havia visto no dia, mas ainda era bem louca.
     E ento, Lena e eu danamos e cinco minutos se passaram, depois 25,
depois 55, nenhum de ns reparou e nem ligou. Estvamos parando o tempo
-- pelo menos era o que parecia. Tnhamos uma dana, mas tnhamos que
faz-la durar o mximo possvel, caso fosse tudo que tnhamos.
     Larkin no estava com pressa. Estava ficando com Emily, aos amassos,
do lado de uma fogueira que algum fez com latas de lixo. Emily estava
usando a jaqueta de Larkin e, de vez em quando, ele exibia o ombro dela e
lambia seu pescoo ou alguma outra coisa nojenta. Ele era mesmo uma
cobra.
     -- Larkin! Ela tem 16 anos -- gritou Lena de onde estvamos danando
na direo do fogo. Larkin mostrou a lngua, que era bem mais longa do que
a lngua de um Mortal normal.
     Emily no pareceu notar. Se desenroscou de Larkin, acenou para
Savannah que estava danando em grupo com Charlotte e Eden.
     -- Venham, meninas. Vamos dar a Lena o presente dela.
     Savannah ps a mo dentro da bolsinha prateada e tirou o pacote
prateado, embrulhado com fita prateada.
     -- E s uma coisinha. -- Savannah esticou o brao.
     -- Toda garota deveria ter uma. -- Emily estava com a fala enrolada.
     -- Metal combina com tudo. -- Eden mal podia se segurar para ela
mesma no arrancar o papel.
     -- Do tamanho certo pro seu celular e seu gloss. -- Charlotte o
empurrou na direo de Lena. -- Ande. Abra.
     Lena pegou o pacote nas mos e sorriu para elas.
     -- Savannah, Emily, Eden, Charlotte. Vocs no fazem ideia do quanto
isso significa pra mim. -- Elas no perceberam o sarcasmo. Eu sabia
exatamente o que era e exatamente o que significava para ela.
    Idiota  segunda potncia.
     Lena no conseguia me olhar nos olhos, seno ns dois teramos cado na
gargalhada. Enquanto voltvamos para o grupo de pessoas danando, Lena
jogou o pacotinho prateado na fogueira. As chamas amarelas e laranja
destruram o papel, at que a pequena bolsa metlica no era nada alm de
fumaa e cinzas.




Os Holy Rollers fizeram uma pausa e Link veio se vangloriar pela estreia
musical.
    -- Falei que ramos bons. Estamos a um passo de um contrato. -- Link
me deu uma cotovelada nas costelas como nos velhos tempos.
    -- Voc estava certo, cara. Vocs so timos. -- Eu tinha que concordar
com ele, mesmo ele tendo aquele pirulito ao seu lado.
    Savannah Snow se aproximou lentamente, provavelmente para estourar
a bolha de felicidade de Link.
    -- Oi, Link -- Ela piscou os olhos sugestivamente.
    -- Oi, Savannah.
    -- Acha que pode danar uma msica comigo?
    Era inacreditvel. Ela estava ali olhando para ele como se ele fosse um
verdadeiro astro do rock.
    -- No sei o que vou fazer se voc no danar comigo. -- Ela deu mais
um sorriso de Rainha da Neve para ele. Me senti preso em um dos sonhos de
Link, ou de Ridley.
    Falando nela...
    -- Tire as mos, Rainha do Baile. Esse aqui  obra minha. -- Ridley
encostou os braos e algumas outras partes importantes em Link para se fazer
entender.
    -- Desculpe, Savannah. Talvez na prxima.
    Link enfiou as baquetas no bolso de trs e voltou para a pista de dana
com Ridley e sua dana proibida para menores. Deve ter sido o melhor
momento da vida dele. Parecia seu aniversrio.
    Depois que a msica acabou, ele pulou de volta no palco.
    -- Temos uma ltima msica, escrita por uma grande amiga minha,
para algumas pessoas especiais da Jackson High. Vocs sabem quem so.
     O palco ficou escuro. Link abriu o casaco e as luzes se acenderam com
um toque de guitarra. Ele estava usando uma camiseta dos Anjos da Jackson
com as mangas arrancadas, to ridcula em Link quanto ele queria que
ficasse. Se ao menos sua me o pudesse ver agora.
     Ele se inclinou em direo ao microfone e comeou a fazer seu prprio
Conjuro.

    Anjos cados ao meu redor
    Infelicidade espalha infelicidade
    Suas flechas quebradas esto me matando.
    Por que no consegue ver?
    O que voc odeia se torna seu destino
    Seu destino, Anjo Cado.

     A msica de Lena, a que ela escreveu para Link.
     Enquanto a msica crescia, cada Anjo se balanava ao som do hino feito
para eles. Talvez fosse tudo coisa de Ridley, talvez no. Mas na hora que a
msica acabou e Link jogou a camiseta com asas na fogueira, parecia que
algumas outras coisas estavam em chamas junto com ela. Tudo que tinha
parecido to difcil, to insupervel por tanto tempo, meio que sumiu com a
fumaa.
     Bem depois que os Holy Rollers tinham parado de tocar, mesmo quando
Ridley e Link no podiam ser encontrados, Savannah e Emily ainda estavam
sendo simpticas com Lena e todo o time de basquete de repente estava
falando comigo de novo, procurei por algum pequeno sinal, um pirulito, em
algum lugar. Aquele fiapo nico que poderia se soltar e desfazer o suter
todo.
     Mas no havia nada. Apenas a lua, as estrelas, a msica, a luz e a
multido. Lena e eu nem estvamos mais danando, mas estvamos
abraados. Nos balanvamos de um lado para o outro, a corrente de calor e
frio e eletricidade e medo pulsando por minhas veias. Enquanto houvesse
msica, estvamos em nossa pequena bolha. No estvamos mais sozinhos
em nossa caverna debaixo das cobertas, mas ainda era perfeito.
     Lena se afastou com delicadeza, como fazia quando tinha algo em
mente, e olhou para mim. Como se estivesse me vendo pela primeira vez.
     -- O que foi?
     -- Nada. Eu... -- Ela mordeu o lbio inferior com nervosismo e respirou
fundo. --  que tem uma coisa que eu queria contar pra voc.
     Tentei ler seus pensamentos, o rosto, qualquer coisa. Porque eu estava
comeando a me sentir como se fosse a semana antes das frias de Natal tudo
de novo e estivssemos no corredor da Jackson em vez de no campo de
Greenbrier. Meus braos ainda estavam ao redor da cintura dela, e tive que
resistir  vontade de abra-la com mais fora, para garantir que ela no
pudesse se afastar.
     -- O que ? Voc pode me contar qualquer coisa.
     Ela colocou as mos no meu peito.
     -- Caso alguma coisa acontea essa noite, quero que voc saiba...
     Ela olhou nos meus olhos, e ouvi to claramente como se ela tivesse
sussurrado no meu ouvido, s que significava mais do que poderia significar
se ela tivesse dito as palavras em voz alta. Ela as disse do nico jeito
importante entre ns. Do jeito que nos tnhamos encontrado desde o comeo.
Da maneira como sempre nos reencontrvamos.
    Eu te amo, Ethan.
     Por um segundo, eu no soube o que dizer, porque "eu te amo" no
parecia o bastante. No dizia tudo que eu queria dizer -- que ela tinha me
salvado dessa cidade, da minha vida, do meu pai. De mim mesmo. Como trs
palavras podem dizer isso tudo? No podem, mas eu as disse mesmo assim,
porque realmente sentia.
    Eu te amo tambm, L. Acho que sempre amei.
     Ela se aconchegou em mim de novo, apoiando a cabea no meu ombro,
e senti seu cabelo quente contra meu queixo. E senti uma outra coisa. Aquela
parte dela que eu achava que nunca conseguiria alcanar, aquela parte que
ela mantinha fechada para o mundo. Senti que se abria o bastante para me
deixar entrar. Ela estava me dando uma parte de si, a nica parte que era
realmente dela. Eu queria me lembrar dessa sensao, desse momento, como
uma foto para a qual eu pudesse voltar quando quisesse.
     Eu queria que ficasse assim para sempre.
     E isso durou exatamente mais cinco minutos.
                         p 11 de fevereiro p
                       Garota do pirulito
                                    d
L     ena e eu ainda estvamos nos embalando ao som da msica quando
      Link abriu caminho no meio da multido usando os cotovelos.
           -- Ei, cara, andei procurando voc por toda parte. -- Link se
inclinou e apoiou as mos nos joelhos por um segundo, tentando recuperar o
flego.
     -- Onde est o incndio?
     Link parecia preocupado, o que era estranho para um cara que passava a
maior parte do tempo tentando descobrir como ficar com algum e se
esconder da me ao mesmo tempo.
     --  seu pai. Ele est na sacada do Fallen Soldiers de pijama.
     De acordo com o Guia para Turistas da Carolina do Sul, o Fallen
Soldiers era um museu da Guerra Civil. Mas na verdade era apenas a velha
casa de Gaylon Evans, que estava cheia de objetos da Guerra Civil Gaylon
deixou a casa e a coleo para a filha, Vera, que estava to desesperada para
se tornar membro do FRA que Deixou a Sra. Lincoln e companhia restaurar
a casa e transform-la no nico museu de Gatlin.
     -- timo. -- Me envergonhar em casa no era o bastante. Agora meu
pai tinha decidido se aventurar pela rua.
     Link parecia confuso. Ele provavelmente esperava que eu ficasse surpreso
por meu pai estar por a de pijama. Ele no tinha ideia de que aquela era a
realidade diria do meu pai. Percebi o quo pouco Link sabia da minha vida
atualmente, considerando que ele era meu melhor amigo... Meu nico amigo.
     -- Ethan, ele est na sacada, como se fosse pular.
     No consegui me mexer. Ouvi o que ele disse, mas no consegui reagir.
Ultimamente, eu tinha vergonha do meu pai. Mas ainda o amava, louco ou
no, e no podia perd-lo. Ele era a nica famlia que eu tinha.
    Ethan, voc est bem?
    Olhei para Lena, para aqueles grandes olhos verdes cheios de
preocupao. Esta noite eu podia perd-la tambm. Podia perder os dois.
    -- Ethan, voc me ouviu?
    Ethan, voc tem que ir. Tudo vai ficar bem.
    -- Vamos, cara! -- Link estava me puxando. O astro do rock havia
sumido. Agora ele era apenas meu melhor amigo, tentando me salvar de mim
mesmo. Mas eu no podia Deixar Lena.
    No vou Deixar voc aqui. No sozinha.
     De canto de olho, reparei que Larkin estava vindo em nossa direo. Ele
tinha se desembolado de Emily por um minuto.
     -- Larkin!
     -- O que foi? -- Ele parecia sentir que alguma coisa estava acontecendo,
e realmente parecia preocupado, isso para um cara cuja expresso era
normalmente de desinteresse.
     -- Preciso que voc acompanhe Lena de volta pra casa.
     -- Por qu?
     -- Apenas prometa que vai lev-la pra casa.
     -- Ethan, vou ficar bem. V! -- Lena estava me empurrando na direo
de Link. Ela parecia to assustada quanto eu me sentia. Mas no me mexi.
     -- T, cara. Vou lev-la agora.
     Link me deu um puxo final, e passamos no meio da multido. Porque
ns dois sabamos que eu podia estar a poucos minutos de ser um cara sem
pai e sem me.


Corremos pelos campos de mato alto de Ravenwood na direo da estrada e
do Fallen Soldiers. O ar j estava cheio de fumaa dos morteiros, cortesia da
Batalha de Honey Hill, e em intervalos de poucos segundos pudemos ouvir
uma rodada de tiros. A campanha noturna seguia a pleno vapor. Estvamos
chegando perto do limite da fazenda de Ravenwood, onde ela terminava e
Greenbrier comeava. Eu podia ver as cordas amarelas que marcavam a
Zona Segura brilhando na escurido.
    E se chegssemos tarde demais?
    O Fallen Soldiers estava escuro. Link e eu subimos os degraus dois de
cada vez, tentando subir os quatro andares o mais rpido possvel. Quando
chegamos ao terceiro andar, parei instintivamente. Link pressentiu isso, do
mesmo jeito que pressentia quando eu ia passar a bola para ele na quadra
quando meu tempo ia estourar, e parou do meu lado.
    -- Ele est aqui.
    Mas no conseguia me mexer. Link leu meu rosto. Sabia do que eu tinha
medo. Ele tinha ficado ao meu lado no enterro da minha me, entregando os
cravos brancos para as pessoas colocarem no caixo dela, enquanto meu pai e
eu olhvamos para o caixo como se estivssemos mortos tambm.
    -- E se... E se ele j tiver pulado?
    -- No tem como. Deixei Rid com ele. Ela nunca Deixaria isso
acontecer.
    O cho pareceu sumir debaixo de mim.
    Se ela usasse o poder dela em voc e mandasse voc pular de um
penhasco, voc pularia.
     Passei por Link com um empurro e olhei o corredor. Todas as portas
estavam fechadas, menos uma. A luz da lua caa sobre o piso de pinho
manchado.
     -- Ele est ali -- disse Link, mas eu j sabia disso.
     Quando entrei no quarto, foi como voltar no tempo. O FRA tinha feito
um bom trabalho. Havia uma enorme lareira de pedra em uma ponta, com
uma moldura longa de madeira, com velas em cima que pingavam ao
queimar. Os olhos de Confederados mortos olhavam para ns de retratos em
spia pendurados na parede, e no lado oposto  lareira tinha uma cama de
dossis. Mas alguma coisa estava deslocada, abalando a autenticidade. Era
um cheiro, almiscarado e doce. Doce demais. Uma mistura de perigo e
inocncia, apesar de Ridley estar longe de ser inocente.
     Ridley estava parada ao lado das portas abertas para a sacada, o cabelo
louro balanando ao vento. As portas estavam escancaradas e as cortinas
poeirentas e onduladas sacudiam no quarto, como se tivessem sido foradas
para dentro por uma lufada de ar. Como se ele j tivesse pulado.
     -- Eu o encontrei -- disse Link para Ridley, recuperando o flego.
     -- Estou vendo. Como vai, Palitinho? -- Ridley deu aquele sorriso doce e
doentio. Isso me fez querer simultaneamente sorrir e vomitar.
     Andei lentamente at as portas, com medo de ele no estar l fora. Mas
ele estava. Parado sobre o parapeito estreito, do lado errado da sacada, de
pijama de flanela e descalo.
     -- Pai! No se mexa.
     Patos. Havia patos estampados no pijama dele, coisa que parecia
imprpria, considerando que ele estava prestes a pular de um prdio.
     -- No se aproxime, Ethan. Seno eu pulo. -- Ele parecia lcido,
determinado e mais dono de si do que parecera em meses. Quase parecia
meu pai de novo. Foi por isso que eu soube que no era ele falando, pelo
menos no por conta prpria. Isso era coisa de Ridley, o Poder de Persuaso
ligado no mximo.
     -- Pai, voc no quer fazer isso. Deixe-me ajudar voc. -- Dei alguns
passos em direo a ele.
     -- Pare bem a! -- gritou ele, esticando a mo a frente de si para mostrar
o que queria dizer.
     -- Voc no quer a ajuda dele, quer, Mitchell? S quer paz. S quer ver
Lila de novo. -- Ridley estava apoiada na parede, o pirulito a postos.
     -- No diga o nome da minha me, bruxa!
     -- Rid, o que voc est fazendo? -- Link estava na porta.
     -- Fique fora disso, Shrinky Dink. Isso aqui  demais pra voc.
     Fiquei parado na frente de Ridley, me colocando entre ela e meu pai
     como se meu corpo pudesse de alguma maneira desviar o poder dela.
     -- Ridley, por que voc est fazendo isso? Ele no tem nada a ver com
Lena e eu. Se voc quer me machucar, me machuque. Mas Deixe meu pai
fora disso.
     Ela jogou a cabea para trs e riu, um som sensual e maldoso.
     -- No estou nem a pra machucar voc, Palitinho. S estou fazendo
meu trabalho. No  nada pessoal.
     Meu sangue congelou.
     Seu trabalho.
     -- Voc est fazendo isso para Sarafine.
     -- Mas pera, Palitinho, o que voc esperava? Voc viu como meu tio me
trata. A coisa toda de famlia no  exatamente uma opo pra mim agora.
     -- Rid, de que voc est falando? Quem  Sarafine? -- Link andou na
direo dela. Ela olhou para ele. Por um segundo, pensei ter visto alguma
coisa passar no rosto de Ridley, s um brilho, mas alguma coisa real. Alguma
coisa que parecia quase uma emoo genuna.
     Mas Ridley a afastou, e to rpido como veio, ela se foi.
     -- Acho que voc quer voltar para a festa, no quer, Shrinky Dink? A
banda est aquecendo pra a segunda rodada. Lembre que vamos gravar esse
show pra sua nova demo. Vou levar pessoalmente pra algumas gravadoras de
Nova York -- ronronou ela, olhando com intensidade para ele. Link pareceu
na dvida, como se talvez quisesse voltar para a festa mas no tivesse certeza.
     -- Pai, escute. Voc no quer fazer isso. Ela est controlando voc. Ela
consegue influenciar as pessoas. Mame jamais ia querer que voc fizesse isso.
-- Observei para ver se havia sinal de que minhas palavras estavam sendo
registradas, de que ele estava ouvindo. Mas no havia nada. Ele apenas
olhava para a escurido. Dava para ouvir o som das baionetas se chocando e
os gritos de batalha de homens medievais ao longe.
     -- Mitchell, voc no tem mais motivo para viver. Perdeu sua esposa,
no consegue mais escrever e Ethan vai para a faculdade em alguns anos. Por
que no pergunta sobre a caixa de sapato cheia de livretos de faculdades
embaixo da cama dele? Voc vai ficar sozinho.
     -- Cale a boca!
     Ridley se virou para me encarar, desembrulhando um pirulito de cereja.
     -- Sinto muito, Palitinho. Lamento mesmo. Mas todo mundo tem seu
papel, e esse  o meu. Seu pai vai sofrer um pequeno acidente essa noite.
Como aconteceu com sua me.
     -- O que voc disse? -- Eu sabia que Link estava falando, mas no
conseguia ouvir sua voz. No conseguia ouvir nada alm do que ela tinha
acabado de dizer, e aquilo se repetia sem parar na minha cabea.
    Como aconteceu com sua me.
     -- Voc matou minha me? -- Comecei a ir para cima dela. Eu no
ligava para que tipo de poderes ela tinha. Se ela tinha matado minha me...
     -- Calma a, garoto. No fui eu. Aquilo foi um pouco antes do meu
tempo.
     -- Ethan, que diabos est acontecendo? -- Link estava ao meu lado.
     -- Ela no  o que parece, cara. Ela ... -- Eu no sabia como dizer de
forma que Link entendesse. -- Ela  uma Sirena.  como uma bruxa. E ela
tem controlado voc assim como est controlando meu pai agora.
     Link comeou a rir.
     -- Uma bruxa. Voc est pirando, cara.
     No tirei meus olhos de Ridley. Ela sorria e passava os dedos pelos
cabelos de Link.
     -- Querido, voc sabe que ama uma menina m.
     Eu no tinha ideia do que ela era capaz, mas depois da pequena
demonstrao em Ravenwood, sabia que ela podia matar qualquer um de
ns. Eu nunca devia t-la tratado como se ela fosse apenas uma garota
festeira inofensiva. Era mais do que poderia aguentar. S estava comeando a
perceber o quanto.
     Link olhou dela para mim. Ele no sabia em que acreditar.
     -- No estou brincando, Link. Eu devia ter contado antes, mas juro que
estou falando a verdade. Por que outro motivo ela estaria tentando matar
meu pai?
     Link comeou a andar de um lado para outro. No acreditava em mim.
Provavelmente pensava que eu estava louco. Parecia loucura para mim
tambm enquanto me ouvia dizendo tudo aquilo.
     -- Ridley,  verdade? Voc vem usando alguma espcie de poder em
mim esse tempo todo?
     -- Se voc quer discutir isso...
     Meu pai soltou da grade com uma das mos. Esticou o brao como se
estivesse tentando se equilibrar numa corda bamba.
     -- Pai, no faa isso!
     -- Rid, no faa isso. -- Link estava indo na direo dela, lentamente. Eu
podia ouvir a corrente da carteira dele tilintando.
     -- Voc no ouviu o que seu amigo disse? Sou uma bruxa. Uma bruxa
m. -- Ela tirou os culos, revelando os olhos dourados felinos. Pude ouvir
Link perder o flego, como se estivesse vendo pela primeira vez. Mas s por
um segundo.
     -- Talvez voc seja, mas no  completamente m. Sei disso. Passamos
um tempo juntos. Compartilhamos coisas.
     -- Era parte do plano, gostoso. Eu precisava de algum de dentro para
poder ficar perto de Lena.
     A expresso de Link se fechou. Seja l o que Ridley tinha feito a ele, seja
l o que ela tivesse Conjurado, os sentimentos dele por ela eram maiores do
que isso.
     -- Ento era tudo balela? No acredito em voc.
     -- Acredite no que quiser,  a verdade. To prximo da verdade quanto
sou capaz, pelo menos.
     Vi meu pai se mexer, o brao livre ainda esticado, balanando para cima
e para baixo. Parecia que ele estava tentando testar as asas, ver se podia voar.
A alguns metros, um cartucho de baa caiu no cho l fora e houve uma
borrifada de terra no ar.
     -- E tudo aquilo que voc me contou sobre voc e Lena terem crescido
juntas? Que vocs duas eram como irms? Por que voc iria querer machuc-
la? -- Alguma coisa passou pelo rosto de Ridley. Eu no tinha certeza, mas
podia ser arrependimento. Seria possvel?
     -- No depende de mim. No sou eu que dito as regras. Como falei, esse
 meu trabalho. Afastar Ethan de Lena. No tenho nada contra esse coroa,
mas a mente dele  fraca. Sabe, falta um parafuso. -- Ela lambeu o pirulito.
-- Ele era apenas um alvo fcil.
    Afastar Ethan de Lena.
    Essa coisa toda era uma distrao para nos separar. Eu podia ouvir a voz
de Ariela to claramente como se ela ainda estivesse ajoelhada ao meu lado.
    No  a casa que a protege. Nenhum Conjurador pode entrar entre eles.
     Como pude ser to burro? No era uma questo de se eu tinha ou no
algum tipo de poder. Nunca foi sobre mim. ramos ns.
     O poder era o que havia entre ns, o que sempre esteve entre ns. Nos
encontrarmos na autoestrada 9 na chuva. Viramos para o mesmo lado na
bifurcao da rua. No era preciso um Feitio para nos manter juntos. Agora
que conseguiram nos separar, eu no tinha poder algum. E Lena estava
sozinha, na noite em que ela mais precisava de mim.
     Eu no conseguia pensar claramente. No tinha tempo, e no ia perder
mais uma pessoa que amava. Corri na direo do meu pai, e apesar de serem
apenas poucos metros, senti como se estivesse correndo por areia movedia.
Vi Ridley dar um passo a frente, as mechas do cabelo se contorcendo ao
vento como as cobras na cabea de Medusa.
     Vi Link dar um passo a frente e segurar o ombro dela.
     -- Rid, no faa isso.
     Por uma frao de segundo, no tive ideia do que ia acontecer. Vi tudo
em cmera lenta.
     Meu pai se virou para me olhar.
     Eu o vi comear a soltar da grade.
     Vi as mechas rosa e louras de Ridley se movimentando.
     E vi Link parado na frente dela, olhando naqueles olhos dourados,
sussurrando alguma coisa que eu no conseguia ouvir. Ela olhou para Link e,
sem dizer mais uma palavra, o pirulito saiu voando sobre a grade. Eu o vi
fazer um arco e cair no cho, explodindo como fragmentos de bala. Estava
acabado.
     To rpido quanto meu pai tinha se virado de costas para a grade, ele se
virou de novo para ela, na minha direo. Peguei seus ombros e o puxei para
a frente, sobre a grade e para o cho da sacada. Ele caiu desajeitado e ficou l
olhando para mim como uma criana assustada.
     -- Obrigado, Ridley. Seja l o que tenha acontecido. Obrigado.
     -- No quero seu agradecimento -- falou ela com desdm, se afastando
de Link e ajustando a ala da blusa. -- No fiz favores pra nenhum de vocs.
S no estava a fim de mat-lo. Hoje.
     Ela tentou parecer ameaadora, mas acabou parecendo infantil. Enrolou
uma mecha de cabelo rosa no dedo.
     -- Mas isso no vai deixar certas pessoas felizes. -- Ela no precisava
dizer quem, mas eu podia ver o medo em seus olhos. Por um segundo, pude
ver o quanto da sua personalidade era um personagem. Iluso de tica.
     Apesar de tudo, mesmo agora, enquanto eu tentava botar meu pai de p,
senti pena dela. Ridley podia ter qualquer cara no planeta, e ainda assim tudo
que eu via era o quanto ela era solitria. No era nem de perto to forte
quanto Lena, no por dentro.
    Lena.
    Lena, voc est bem?
    Estou bem. O que foi?
     Olhei para meu pai. Ele no conseguia ficar com os olhos abertos, e
estava tendo dificuldade de ficar de p.
    Nada. Voc est com Larkin?
    Sim, estamos indo para Ravenwood. Seu pai est bem?
    Est. Explico quando chegar a.
    Passei meu brao por baixo do ombro do meu pai e Link fez o mesmo do
outro lado.
    Fique com Larkin e volte para a casa com sua famlia. Voc no est
segura sozinha.
     Antes que pudssemos dar um passo, Ridley passou por ns, pelas portas
abertas para a sacada, aquelas pernas de 15 quilmetros passando por cima
da grade.
     -- Me desculpem, rapazes. Tenho que ir, talvez voltar pra Nova York
por um tempo, ficar na minha. Vou ficar bem. -- Ela deu de ombros.
     Apesar de ela ser um monstro, Link no podia apenas v-la partir.
     -- Ei, Rid?
     Ela parou e se virou para encar-lo, quase com tristeza. Como se no
pudesse evitar o que era tanto quanto um tubaro  um tubaro, mas se
pudesse...
     -- O qu, Shrinky Dink?
     -- Voc no  completamente m.
     Ela olhou bem para ele e quase sorriu.
     -- Voc sabe o que dizem. Talvez eu tenha nascido assim.
     -- Tudo bem, cara. Voc no podia evitar. Eu devia ter te contado tudo.
     -- Deixa pra l. Eu no teria acreditado.
     O som dos tiros ecoou sobre nossas cabeas. Ns dois nos abaixamos
instintivamente.
     -- Espero que sejam de festim -- disse Link nervosamente. -- No seria
louco se meu prprio pai me desse um tiro aqui?
     -- Do tipo que anda minha sorte, no me surpreenderia se ele atirasse
em ns dois.
     Chegamos ao topo da colina. Eu podia ver a vegetao, os carvalhos e a
fumaa da artilharia mais a nossa frente.
     -- Estamos aqui! -- gritou Larkin do outro lado da vegetao. Pelo uso
da primeira pessoa do plural, s pude concluir que ele falava dele e de Lena,
ento corri mais rpido. Como se a vida de Lena dependesse disso, pois, pelo
que eu sabia, talvez dependesse.
     Ento percebi onde estvamos. Ali estava o arco que dava no jardim de
Greenbrier. Larkin e Lena estavam na clareira, logo alm do jardim, no
mesmo lugar onde cavamos o tmulo de Genevieve alguns semanas antes.
Alguns metros atrs deles, uma pessoa surgiu das sombras e ficou sob a luz da
lua. Estava escuro, mas a lua cheia estava bem acima de ns. Pisquei. Era...
Era...
     -- Me, que diabos voc est fazendo aqui? -- Link estava confuso.
Porque a me dele estava parada na nossa frente, a Sra. Lincoln, meu pior
pesadelo, ou pelo menos um dos dez piores. Ela parecia estranhamente 
vontade, ou deslocada, dependendo de como se analisava a situao. Estava
usando um volume ridculo de camadas de saia e um vestido antiquado idiota
que apertava demais a cintura. E estava de p bem em cima do tmulo de
Genevieve.
     -- O que  isso? Voc sabe o que penso sobre palavres, meu jovem.
Link coou a cabea. Isso no fazia sentido algum, nem para ele, nem para
mim.
    Lena, o que est acontecendo? Lena?
     No houve resposta. Alguma coisa estava errada.
     -- Sra. Lincoln, voc est bem?
     -- Excelente, Ethan, No  uma batalha maravilhosa? E  aniversrio de
Lena tambm, ela me disse. Estvamos esperando por vocs, ou pelo menos
por um de vocs.
     Link deu um passo a frente.
     -- Bem, estou aqui agora, me. Vou levar voc pra casa. Voc no devia
ter sado da Zona Segura. Vo acabar explodindo sua cabea. Voc sabe
como papai atira mal.
     Peguei o brao de Link e no o deixei seguir. Havia alguma coisa errada,
alguma coisa no jeito que ela sorria para ns. Alguma coisa sobre o olhar de
pnico no rosto de Lena.
    O que est acontecendo? Lena!
     Por que ela no estava respondendo? Observei Lena tirar o anel da
minha me de dentro do casaco e o pegar pelo cordo. Podia ver seus lbios
se movendo na escurido. Consegui ouvir alguma coisa de leve, s um
sussurro, num canto profundo da minha mente.
    Ethan, saia daqui! Chame tio Macon! Corra!
    Mas eu no conseguia me mover. No conseguia Deix-la.
    -- Link, meu anjo, voc  um menino to dedicado.
    Link? No era a Sra. Lincoln que estava na nossa frente. No podia ser.
     A Sra. Lincoln no chamaria Wesley Jefferson Lincoln de Link tanto
quanto no andaria pelas ruas pelada. "Por que voc usaria esse apelido
ridculo quando tem um nome to digno, eu no consigo imaginar", ela dizia
cada vez que um de ns ligava para a casa dela e acidentalmente pedia para
falar com Link.
     Link sentiu minha mo no brao dele e parou. Ele estava comeando a
perceber tambm; estava no rosto dele.
     -- Me?
     -- Ethan, saia daqui! Larkin, Link, algum, chame tio Macon! -- gritava
Lena. Ela no conseguia parar. Parecia mais assustada do que eu jamais a
tinha visto. Corri em direo a ela.
     Pude ouvir o som de uma bala sendo disparada por um canho. Depois
uma rajada de tiros de rifle.
     Minhas costas bateram em alguma coisa com fora. Senti minha cabea
estalar e tudo saiu de foco por um segundo.
     -- Ethan! -- Eu podia ouvir a voz de Lena, mas no conseguia me
mexer. Tinha levado um tiro. Eu tinha certeza. Lutei para me manter
consciente.
     Depois de alguns segundos, meus olhos recuperaram o foco. Eu estava no
cho, com as costas contra um carvalho enorme. O tiro deve ter me jogado
contra a rvore. Tateei em volta para ver onde tinha sido atingido, mas no
havia sangue. Eu no conseguia achar o ponto de entrada da bala. Link
estava a alguns metros, apoiado de forma estranha em outra rvore. Parecia
to desnorteado quanto eu. Fiquei de p e cambaleei na direo de Lena, mas
meu rosto bateu em alguma coisa e acabei caindo no cho. Parecia como na
vez em que bati de frente numa porta de vidro na casa das Irms.
     Eu no tinha levado um tiro; isso era outra coisa. Tinha sido atingido por
um tipo diferente de arma.
     -- Ethan! -- Lena estava gritando.
     Levantei de novo e andei para a frente lentamente. Havia uma porta de
vidro ali sim, s que essa era uma espcie de parede invisvel em torno da
rvore e de mim. Bati nela com meu punho, mas no houve som algum. Bati
nela com as palmas vrias vezes. O que mais eu podia fazer? Foi a que
reparei em Link batendo em sua prpria jaula invisvel.
     A Sra. Lincoln sorria para mim, com um sorriso mais maldoso do que
qualquer um que Ridley pudesse dar em seu melhor dia.
     -- Solte eles! -- gritou Lena.
     Sem mais nem menos, o cu se abriu e a chuva despencou das nuvens,
como se estivesse sendo jogada de um balde. Lena. O cabelo dela ondulava
freneticamente. A chuva caa com neve junto e caa de lado, atacando a Sra.
Lincoln de todas as direes. Em uma questo de segundos estvamos
encharcados at os ossos.
     A Sra. Lincoln, ou seja l quem ela fosse, sorria. Havia alguma coisa no
sorriso dela. Ela parecia quase orgulhosa.
     -- No vou machuc-los. S quero ter um tempo para conversarmos. --
Um trovo soou no cu sobre a cabea dela. -- Eu tinha esperanas de ter
uma chance de ver alguns de seus talentos. Como lamentei no estar perto
para ajudar voc a apurar seus dons.
     -- Cale a boca, bruxa. -- Lena estava furiosa. Eu nunca tinha visto seus
olhos verdes assim, to frios e duros como estavam postos na Sra. Lincoln.
     Duros como rocha. Determinados. Cheios de dio e raiva. Ela parecia
querer arrancar a cabea da Sra. Lincoln, e parecia capaz de fazer isso.
     Finalmente entendi o que preocupou Lena o ano todo. Ela tinha poder
para destruir. Eu s tinha visto o poder de amar. Quando se descobre que se
tem os dois, quem pode entender o que fazer com eles?
     A Sra. Lincoln se virou para Lena.
     -- Espere at perceber o que pode mesmo fazer. Como pode manipular
os elementos. E o verdadeiro dom de uma Natural, uma coisa que temos em
comum.
     Uma coisa que elas tinham em comum.
     A Sra. Lincoln olhou para o cu, a chuva caindo ao seu lado como se
estivesse de guarda-chuva.
     -- Agora voc est causando pancadas de chuva, mas logo vai aprender a
controlar o fogo tambm. Deixe-me mostrar. Como eu gosto de brincar com
fogo.
     Pancadas de chuva? Ela estava brincando? Estvamos no meio de uma
tempestade.
     A Sra. Lincoln ergueu a mo aberta e um relmpago partiu as nuvens,
eletrificando o cu. Ela ergueu trs dedos. Um relmpago surgiu com o
movimento de cada unha pintada. Uma vez. Um relmpago atingiu o cho,
fazendo subir terra, a meio metro de onde Link estava preso. Duas vezes. Um
relmpago queimou o carvalho atrs de mim, partindo o tronco precisamente
ao meio. Uma terceira vez. Um relmpago atingiu Lena, que simplesmente
ergueu a mo. A onda de eletricidade bateu nela e ricocheteou, caindo nos
ps da Sra. Lincoln. A grama ao redor dela comeou a fumegar e queimar.
     A Sra. Lincoln riu e sacudiu a mo. O fogo na grama morreu. Ela olhou
para Lena com um brilho de orgulho.
     -- Nada mau. Estou feliz de ver que quem sai aos seus, no degenera.
     No podia ser.
     Lena olhou para ela e ergueu ambas as mos abertas, num gestou de
proteo.
     -- ? E o que dizem sobre a ovelha negra?
     -- Nada. Ningum nunca sobreviveu para comentar. -- E ento a Sra.
Lincoln se virou para Link e para mim em seu vestido antiquado com milhes
de saias, com o cabelo tranado cado nas costas. Ela olhou para ns, os olhos
dourados fulminantes. -- Lamento, Ethan. Eu tinha esperanas de que nosso
primeiro encontro aconteceria sob circunstncias diferentes. No  todo dia
que conhecemos o primeiro namorado da filha.
     Ela se virou para Lena.
     -- E nem a prpria filha.
     Eu estava certo. Sabia quem era ela e com que estvamos lidando.
     Sarafine.
     Logo depois, o rosto da Sra. Lincoln, o vestido, o corpo, literalmente
comearam a se partir ao meio. Dava para ver a pele de cada lado se
enrugando como papel de bala. O corpo se abriu ao meio e comeou a cair
como um casaco sendo tirado dos ombros de algum. Por baixo, havia outra
pessoa.
     -- No tenho me -- gritou Lena.
     Sarafine fez uma careta, como se estivesse tentando parecer magoada
por ser a me de Lena. Era uma verdade gentica inegvel. Elas tinham o
mesmo cabelo preto longo e encaracolado. Exceto que Lena era
assustadoramente linda, e Sarafine era apenas assustadora. Como Lena,
Sarafine tinha traos alongados e elegantes, mas em vez dos belos olhos
verdes de Lena, ela tinha os mesmos olhos brilhantes de Ridley e Genevieve.
E os olhos faziam toda a diferena.
     Sarafine usava um vestido verde escuro de veludo com corpete, meio
moderno, gtico e da virada do sculo, tudo ao mesmo tempo, e botas pretas
altas. Ela literalmente saiu de dentro do corpo da Sra. Lincoln, que se fundiu
de novo em segundos, como se algum tivesse refeito a costura. Isso deixou a
verdadeira Sra. Lincoln cada na grama com a armao da saia erguida,
revelando a meia trs-quartos e a calola.
     Link estava em choque.
     Sarafine se ajeitou, livre do peso, e tremeu.
     -- Mortais. Aquele corpo era insuportvel, desajeitado e desconfortvel.
Comia sem parar. Criaturas nojentas.
     -- Me! Me, acorde! -- Link batia o punho contra o que era
obviamente algum tipo de campo de fora. No importava que monstro ela
fosse, a Sra. Lincoln era o monstro de Link, e devia ser difcil v-la jogada
como um pedao de lixo humano sem importncia.
     Sarafine sacudiu a mo. A boca de Link ainda se mexia, mas no saa
som.
     -- Assim  melhor. Voc tem sorte que no precisei passar o tempo todo
no corpo da sua me nos ltimos meses. Se tivesse, voc estaria morto agora.
Nem posso dizer o nmero de vezes que quase matei voc apenas por tdio
na mesa do jantar, quando voc falava sem parar daquela banda idiota.
     Tudo fazia sentido agora. A cruzada contra Lena, a reunio do Comit
Disciplinar da Jackson, as mentiras sobre os registros escolares de Lena, at
mesmo os brownies esquisitos no Halloween. H quanto tempo Sarafine se
escondia com a Sra. Lincoln?
    Na Sra. Lincoln.
     Eu nunca tinha entendido contra o que estvamos lutando de verdade
at agora. A maior Conjuradora das Trevas da atualidade. Ridley parecia to
inofensiva em comparao. No era surpreendente que Lena estivesse com
medo desse dia por tanto tempo.
     Sarafine olhou para Lena.
     -- Voc pode pensar que no tem me, Lena, mas se isso  verdade,  s
porque sua av e seu tio tiraram voc de mim. Eu sempre amei voc. -- Era
desconcertante como Sarafine podia ir to facilmente de um mbito de
emoes para outro, da sinceridade e arrependimento ao nojo e desprezo,
cada emoo to vazia quanto a outra.
     Os olhos de Lena estavam amargos.
     -- E por isso que voc tem tentado me matar, me?
     Sarafine tentou parecer preocupada, ou talvez surpresa. Era difcil dizer
por que sua expresso parecia to artificial, forada.
     --  isso que disseram a voc? Eu s estava tentando fazer contato, falar
com voc. Se no fossem os Feitios deles, minhas tentativas nunca teriam
posto voc em perigo, e eles sabiam disso.  claro que entendo a preocupao
deles. Sou uma Conjuradora das Trevas, uma Cataclista. Mas Lena, voc
sabe to bem quanto todo mundo que eu no tinha escolha nesse assunto. Foi
decidido por mim. No muda o que sinto por voc, minha nica filha.
     -- No acredito em voc! -- gritou Lena. Mas ela parecia insegura, como
se no soubesse em que acreditar.
     Olhei para meu celular. 21h59. Duas horas at a meia-noite.
     Link estava encostado na rvore, a cabea nas mos. Eu no conseguia
tirar os olhos da Sra. Lincoln, sem vida na grama. Lena olhava para ela
tambm.
     -- Ela no est... voc sabe. Est? -- Eu tinha que saber, por Link.
     Sarafine tentou parecer solidria. Mas percebi que ela estava perdendo
interesse em Link e em mim, o que no era bom para nenhum de ns.
     -- Ela voltar ao estado prvio e nada interessante em breve. Que
mulher enjoada. No estou interessada nela e nem no garoto. S estava
tentando mostrar  minha filha a verdadeira natureza dos Mortais. O quo
facilmente podem ser influenciados, o quanto so vingativos. Ela se virou
para Lena. -- Bastaram apenas algumas palavras da Sra. Lincoln para ver
essa cidade se virar rapidamente contra voc. Voc no tem lugar no mundo
deles. Seu lugar  comigo.
     Sarafine se virou para Larkin.
     -- Falando em estados desinteressantes, Larkin, por que voc no nos
mostra seus bebezinhos?
     Larkin sorriu e fechou bem os olhos, esticando os braos sobre a cabea
como se estivesse se espreguiando depois de um longo cochilo. Mas quando
abriu os olhos de novo, alguma coisa estava diferente. Ele piscou rapidamente
e a cada piscada seus olhos mudavam. Dava quase para ver as molculas se
rearrumando. Larkin se transformou e, onde antes estava ele, havia uma
pilha de cobras. As cobras comearam a serpentear e subir umas nas outras,
at que Larkin emergiu de novo daquela massa que se contorcia. Ele esticou
dois braos de cascavis que sibilavam e rastejaram at a jaqueta de couro e
viraram mos. Ento ele abriu os olhos. Mas em vez dos olhos verdes que eu
estava acostumado a ver, Larkin olhou para ns com os mesmos olhos
dourados de Sarafine e Ridley.
      -- Verde nunca foi minha cor. Uma das vantagens de ser um Ilusionista.
      -- Larkin? -- Meu corao afundou. Ele era um deles, um Conjurador
das Trevas. As coisas estavam piores do que eu pensava.
      -- Larkin, o que voc ? -- Lena parecia confusa, mas s por um
segundo. --- Por qu?
      Mas a resposta estava olhando para ns, nos olhos dourados de Larkin.
      -- Por que no?
      -- Por que no? Ah, no sei, que tal um pouco de lealdade familiar?
      Larkin girou a cabea, e a grossa corrente de ouro em volta do pescoo
virou uma cobra, a lngua encostando em sua bochecha.
      -- Lealdade no  pra mim.
      -- Voc traiu todo mundo, sua prpria me. Como pode conviver com
isso?
      Ele mostrou a lngua. A cobra rastejou at a boca dele e desapareceu. Ele
a engoliu.
      --  muito mais divertido ser das Trevas do que ser da Luz, prima. Voc
vai ver. Somos o que somos. Isso era o que estava destinado para mim. No
h razo para lutar contra o destino. -- A lngua dele tremeu, agora partida
ao meio, como a da cobra dentro dele. -- No sei por que voc est to tensa
com isso. Veja Ridley. Ela est se divertindo.
      -- Voc  um traidor! -- Lena estava perdendo o controle. Troves
soaram sobre nossas cabeas e a chuva aumentou de novo.
      -- Ele no  o nico traidor, Lena. -- Sarafine deu alguns passos em
direo a Lena.
      -- O que voc quer dizer?
      -- Seu amado tio Macon. -- A voz dela estava amarga, e eu sabia que
Sarafine no tinha Deixado de perceber que Macon tinha roubado sua filha.
      -- Voc est mentindo.
      --  ele quem tem mentido para voc esse tempo todo. Deixou voc
acreditar que seu destino estava predeterminado, que voc no tinha escolha.
Que hoje, no seu dcimo-sexto aniversrio, voc ser Invocada para a Luz ou
para as Trevas.
      Lena sacudiu a cabea com teimosia. Ergueu as mos com as palmas
viradas para fora. Mais um trovo soou, e a chuva comeou a cair forte, em
pingos grossos e torrentes. Ela gritou para ser ouvida.
      --  o que acontece. Aconteceu com Ridley, com Reece e com Larkin.
      -- Est certa, mas voc  diferente. Esta noite, voc no ser Invocada.
Ter que Invocar a si mesma.
      As palavras ficaram no ar. Invocar a si mesma. Como se as palavras em
si tivessem o poder de parar o tempo.
      O rosto de Lena estava plido. Por um segundo, pensei que ela ia
desmaiar.
      -- O que voc disse? -- sussurrou ela.
      -- Voc tem uma escolha. Tenho certeza que seu tio no lhe contou isso.
      -- Isso  impossvel. -- Eu mal conseguia ouvir a voz de Lena no vento
uivante.
      -- Uma escolha dada a voc porque voc  minha filha, a segunda
Natural nascida na famlia Duchannes. Posso ser uma Cataclista agora, mas
fui a primeira Natural a nascer na nossa famlia.
      Sarafine fez uma pausa, depois repetiu um verso:
      "A Primeira vai ser das Trevas
      Mas a Segunda pode escolher outro caminho."
      -- No entendo. -- As pernas de Lena cederam e ela caiu de joelhos na
lama e na grama alta, o cabelo negro longo pingando ao seu redor.
      -- Voc sempre teve escolha. Seu tio sempre soube disso.
      -- No acredito em voc! -- Lena jogou os braos para cima. Montes de
terra se soltaram do cho entre elas duas, rodopiando na tempestade. Protegi
meus olhos quando pedaos de terra voaram para cima de ns de todas as
direes.
      Tentei gritar por cima do som da tempestade, mas Lena mal conseguia
me ouvir.
      -- Lena, no preste ateno nela. Ela  das Trevas. No liga pra
ningum. Voc mesma disse isso.
      -- Por que tio Macon esconderia a verdade de mim? -- Lena olhou
diretamente para mim, como se eu fosse o nico a saber a resposta. Mas eu
no sabia. No havia nada que eu pudesse dizer.
     Lena bateu o p no cho a frente dela. O cho comeou a tremer e
depois a se deslocar sob meus ps. Pela primeira vez na Histria, um
terremoto atingiu o condado de Gatlin. Sarafine sorriu. Sabia que Lena
estava perdendo controle e que ela estava vencendo. A tempestade eltrica no
cu piscou sobre nossas cabeas.
     -- J chega, Sarafine! -- ecoou a voz de Macon pelo campo. Ele
apareceu do nada. -- Deixe minha sobrinha em paz.
     -- No o bastante. No estou surpreso por voc se associar a algum
como ela.
     Hunting riu, alto e escandaloso.
     -- Com quem mais voc esperaria que eu me associasse? Com um grupo
de Conjuradores da Luz, como voc fez?  ridculo. A ideia de que voc pode
se afastar do que . Do legado da sua famlia.
     -- Fiz uma escolha, Hunting.
     -- Uma escolha?  assim que voc chama? -- Hunting riu de novo,
chegando mais perto de Macon. -- Est mais para uma fantasia. Voc no
pode escolher o que , irmo. Voc  um Incubus. E quer voc escolha se
alimentar de sangue ou no, voc ainda  uma Criatura das Trevas.
     -- Tio Macon, o que ela disse  verdade? -- Lena no estava interessada
no reencontro de Macon e Hunting.
     Sarafine riu de maneira estridente.
     -- Pelo menos uma vez na sua vida, Macon, diga a verdade para a
garota.
     Macon olhou para ela, teimoso.
     -- Lena, no  to simples.
     -- Mas  verdade? Tenho escolha? -- O cabelo dela estava pingando,
enrolado em cachos midos.  claro que Macon e Hunting estavam secos.
Hunting sorriu e acendeu um cigarro. Ele estava gostando de tudo aquilo.
     -- Tio Macon.  verdade? -- suplicou Lena.
     Macon olhou para Lena, exasperado, e olhou para o outro lado.
     -- Voc tem uma escolha, Lena, uma escolha complicada. Uma escolha
com graves consequncias.
     De repente, a chuva parou completamente. O ar ficou perfeitamente
parado. Se isso fosse um furaco, estaramos no olho dele. As emoes de
Lena se agitavam. Eu sabia como ela estava se sentindo, mesmo sem ouvir
sua voz na minha cabea. Felicidade, porque ela finalmente tinha conseguido
aquilo que sempre quis, a escolha de decidir o prprio destino. Raiva, porque
tinha perdido a nica pessoa em quem sempre tinha confiado.
     Lena olhou para Macon como se fosse com olhos novos. Eu podia ver a
escurido surgindo no rosto dela.
     -- Por que voc no me contou? Passei minha vida toda apavorada com
a possibilidade de ir para as Trevas. -- Houve outro estrondo de trovo e a
chuva comeou a cair de novo, como lgrimas. Mas Lena no estava
chorando, estava furiosa.
     -- Voc tem escolha, Lena. Mas h consequncias. Consequncias que
voc no podia entender quando criana. Voc nem pode comear a
entend-las agora. Ainda assim, passei cada dia da minha vida ponderando
sobre elas, desde antes de voc nascer. E como sua querida me sabe, as
condies dessa barganha foram determinadas h muito tempo.
     -- Que tipo de consequncias? -- Lena olhou para Sarafine, ctica.
Cautelosa. Como se sua mente se abrisse a novas possibilidades. Eu sabia o
que ela estava pensando. Se ela no podia confiar em Macon, se ele guardou
esse tipo de segredo a vida toda, talvez sua me estivesse falando a verdade.
     Eu tinha que fazer com que me escutasse.
    No escute o que ela diz! Lena! Voc no pode confiar nela...
     Mas no havia nada. Nossa conexo se quebrava na presena de
Sarafine. Era como se ela tivesse cortado a linha telefnica entre ns.
     -- Lena, voc no pode entender a escolha que est sendo pressionada a
fazer. O que est em jogo.
     A chuva passou de um gotejar de lgrimas a um aguaceiro exagerado.
     -- Como se voc pudesse confiar nele. Depois de mil mentiras. --
Sarafine olhou com raiva para Macon e depois se virou para Lena. --
Gostaria de ter mais tempo para conversar, Lena. Mas voc tem que fazer a
Escolha, e eu sou Obrigada a explicar o que est em jogo. H consequncias;
seu tio no estava mentindo sobre isso. -- Ela fez uma pausa. -- Se voc
escolher ir para as Trevas, todos os Conjuradores da Luz da nossa famlia vo
morrer.
     Lena ficou plida.
     -- Por que eu concordaria com isso?
     -- Porque se voc escolher ir para a Luz, todos os Conjuradores das
Trevas e os Lilum da nossa famlia vo morrer. -- Sarafine se virou e olhou
para Macon. -- E eu quero dizer todos. Seu tio, o homem que tem sido como
um pai para voc, vai deixar de existir. Voc vai destru-lo.
     Macon desapareceu e se materializou na frente de Lena, nem um
segundo depois.
     -- Lena, escute. Estou disposto a fazer o sacrifcio. Foi por isso que no
falei para voc. Eu no queria que voc se sentisse culpada pelo meu fim. Eu
sempre soube o que voc escolheria. Faa a escolha. Liberte-se de mim.
     Lena estava vacilante. Ela podia mesmo destruir Macon se Sarafine
estivesse dizendo a verdade? Mas se era verdade, que outra escolha ela tinha?
Macon era apenas uma pessoa, apesar de ser uma que ela amava.
     -- Tem mais uma coisa que posso oferecer -- acrescentou Sarafine.
     -- O que voc poderia ter a oferecer que me faria matar vov, tia Del,
Reece, Ryan?
     Sarafine deu uns passos hesitantes na direo de Lena.
     -- Ethan. Temos um meio de vocs dois poderem ficar juntos.
     -- De que voc est falando? J estamos juntos.
     Sarafine inclinou a cabea ligeiramente e estreitou o olhar. Alguma coisa
passou pelos por seus olhos dourados. Reconhecimento.
     -- Voc no sabe. Sabe? -- Sarafine se virou para Macon e riu. -- Voc
no contou a ela. Bem, isso no  jogar limpo.
     -- O que eu no sei? -- falou Lena.
     -- Que voc e Ethan nunca vo poder ficar juntos, no fisicamente.
Conjuradores e Lilum no podem se relacionar fisicamente com Mortais. --
Ela sorriu, saboreando o momento. -- Pelo menos, no sem mat-los.
                            p 11 de fevereiro p
                            A Invocao
                                    d

C    onjuradores no podem se relacionar fisicamente com Mortais sem mat-
     los.
          Tudo fazia sentido agora. A conexo primria entre ns. A
eletricidade, a falta de ar sempre que nos beijvamos, o ataque do corao
que quase me matou -- no podamos ficar juntos fisicamente.
     Eu sabia que era verdade. Lembrei do que Macon dissera naquela noite
no pntano com Amma, e no meu quarto.
    Um futuro entre os dois  uma impossibilidade.
    H coisa que voc no v agora, coisas que esto alm do nosso controle.
     Lena estava tremendo. Ela tambm sabia que era verdade.
     -- O que voc disse? -- sussurrou ela.
     -- Que voc e Ethan nunca vo poder ficar juntos de verdade. Nunca
podero se casar, ter filhos. Vocs nunca podero ter um futuro, pelo menos
no um de verdade. No acredito que nunca contaram pra voc. Sem dvida
mantiveram voc e Ridley numa redoma.
     Lena se virou para Macon.
     -- Por que voc no me contou? Sabe que eu o amo.
     -- Voc nunca tinha tido um namorado, muito menos um Mortal.
Nenhum de ns jamais achou que isso seria problema. No nos demos conta
do quanto sua ligao com Ethan era forte at ser tarde demais.
     Eu podia ouvir suas vozes, mas no estava ouvindo. Nunca poderamos
ficar juntos. Eu nunca poderia ficar prximo o suficiente.
     O vento comeou a aumentar, espalhando a chuva pelo ar como se fosse
vidro. Um relmpago partiu o cu. Um trovo soou com tamanho estrondo
que o cho tremeu. Claramente, no estvamos mais no olho da tempestade.
Eu sabia que Lena no ia conseguir se controlar por muito mais tempo.
     -- Quando vocs iam me contar? -- gritou ela acima do vento.
     -- Depois que voc fosse Invocada.
     Sarafine viu a oportunidade e a agarrou.
     -- Mas voc no v, Lena? Temos um jeito. Um jeito de voc e Ethan
poderem passar o resto da vida juntos, se casarem, terem filhos. O que voc
quiser.
     -- Ela nunca permitiria isso, Lena -- retorquiu Macon. -- Mesmo se
fosse possvel, Conjuradores das Trevas desprezam os Mortais. Jamais
permitiriam que suas linhagens se dilussem com sangue Mortal.  uma das
nossas grandes diferenas.
     --  verdade. Mas nesse caso, Lena, estaramos dispostos a abrir uma
exceo, considerando a alternativa. E encontramos um meio de tornar isso
possvel. -- Ela deu de ombros. --  melhor do que morrer.
     Macon olhou para Lena e reagiu.
     -- Voc poderia matar todo mundo da sua famlia s para estar com
Ethan? Tia Del? Reece? Ryan? Sua prpria av?
     Sarafine abriu as mos poderosas de forma luxuriante, exercitando seus
poderes.
     -- Depois da Transformao, nem vai ligar para essas pessoas. E voc
ter a mim, sua me, seu tio e Ethan. Ele no  a pessoa mais importante na
sua vida?
     Os olhos de Lena se enevoaram. Chuva e neblina a rodeavam. Era to
alto que quase abafou o som dos tiros em Honey Hill. Eu tinha esquecido que
podamos morrer por qualquer uma das duas batalhas em acontecimento ali
esta noite.
     Macon segurou Lena pelos braos.
     -- Ela est certa. Se voc concordar com isso, no vai sentir remorso,
porque no vai ser voc mesma. A pessoa que voc  agora estar morta. O
que ela no est dizendo  que no vai se lembrar dos seus sentimentos por
Ethan. Em poucos meses, seu corao estar to cheio de Trevas que ele no
representar mais nada para voc. A Invocao tem um poder incrivelmente
intenso em uma Natural. Voc pode at mesmo mat-lo com suas mos.
Voc ser capaz desse tipo de maldade. No  verdade, Sarafine? Diga para
Lena o que aconteceu com o pai dela, j que voc  uma grande defensora da
verdade.
     -- Seu pai roubou voc de mim, Lena. O que aconteceu foi um
infortnio, um acidente.
     Lena parecia chocada. Era uma coisa ouvir que a me tinha assassinado
o pai da bola maluca da Sra. Lincoln na reunio do Comit Disciplinar. Era
outra coisa descobrir que era verdade.
     Macon tentou virar as coisas de volta a seu favor.
     -- Diga para ela, Sarafine. Explique para ela como o pai dela morreu
queimado em sua prpria casa, por um incndio que voc desencadeou.
Todos sabemos como voc ama brincar com fogo.
     Os olhos de Sarafine estavam ferozes.
     -- Sabe, voc interferiu por 16 anos. Acho que devia ficar de fora agora.
     De repente, Hunting apareceu a centmetros de Macon. Agora ele
parecia menos com um homem e mais com o que ele era. Um Demnio. O
cabelo liso e preto estava de p como os pelos das costas de um lobo antes de
atacar, as orelhas estavam pontudas, e quando ele abriu a boca, era a boca de
um animal. Ento ele apenas desapareceu, desmaterializando-se.
     Hunting reapareceu num piscar de olhos em cima de Macon, to
rapidamente que nem tive certeza do que vi. Macon segurou Hunting pela
jaqueta e o jogou contra uma rvore. Eu nunca tinha me dado conta do
quanto Macon era forte. Hunting saiu voando, mas em vez de bater na
rvore, passou por ela e rolou no cho do outro lado. No mesmo momento,
Macon desapareceu e reapareceu em cima dele. Macon jogou o corpo de
Hunting no cho, e a fora fez o cho rachar embaixo deles. Hunting ficou
deitado, derrotado. Macon se virou para olhar para Lena. Quando ele se
virou de volta, Hunting levantou-se atrs dele com um sorriso. Gritei,
tentando avisar Macon, mas ningum podia me ouvir com o furaco que
crescia acima de ns. Hunting rosnou com ferocidade, enfiando os dentes na
nuca de Macon como um cachorro numa luta.
     Macon gritou, um som profundo e gutural, e desapareceu. Ele se foi.
Mas Hunting deve ter ficado preso a ele, pois desapareceu com Macon, e
quando eles reapareceram na beirada da clareira, Hunting ainda estava
agarrado ao pescoo de Macon.
     O que ele estava fazendo? Se alimentando? Eu no sabia o bastante para
saber como ou se isso era ao menos possvel. Mas seja l o que Hunting
estivesse absorvendo, pareceu enfraquecer Macon. Lena gritou, e foram gritos
altos e apavorantes.
     Hunting se afastou do corpo de Macon com um empurro. Macon ficou
cado na lama, a chuva caindo sobre ele. Outra rajada de tiros foi ouvida. Me
encolhi, assustado pela proximidade de tipos de verdade. A Encenao estava
vindo em nossa direo, na direo de Greenbrier. Os Confederados estavam
fazendo a defesa final.
     O barulho dos tiros abafou o rosnado, por um lado totalmente diferente,
mas ainda um som familiar. Boo Radley. Ele uivou e pulou no ar na direo
de Hunting, pronto para defender seu dono. Quando o cachorro saltou em
direo a Hunting, o corpo de Larkin comeou a se contorcer, se
transformando em uma pilha de cobras na frente de Boo. As cobras
sibilaram, serpenteando umas sobre as outras.
     Boo no se deu conta de que as cobras eram uma iluso, de que ele podia
correr por entre elas. Ele retrocedeu, latindo, atento s cobras serpenteantes,
o que era a oportunidade que Hunting precisava. Ele desmaterializou e
apareceu atrs de Boo, enforcando o cachorro com sua fora sobrenatural. O
corpo de Boo se contorceu enquanto ele tentava lutar com Hunting, mas era
intil. Hunting era forte demais. Ele jogou o corpo inerte do cachorro para o
lado, ao lado de Macon. Boo estava imvel.
     O cachorro e seu dono estavam deitados lado a lado na lama. Sem se
mexer.
     -- Tio Macon! -- gritou Lena.
     Hunting passou as mos pelo cabelo liso e sacudiu a cabea, revigorado.
Larkin voltou a vestir a jaqueta de couro, em sua forma familiar. Os dois
pareciam drogados depois de tomar uma dose.
     Larkin olhou para a lua, depois para o relgio.
     -- Est quase na hora. A meia-noite est chegando.
     Sarafine esticou os braos como se fosse abraar o cu.
     -- A Dcima-Sexta Lua, o Dcimo-Sexto Ano.
     Hunting sorriu para Lena com sangue e lama no rosto.
     -- Bem-vinda  famlia.
Lena no tinha a menor inteno de ser parte daquela famlia. Eu podia ver
isso agora. Ela se levantou, encharcada, coberta com lama da tempestade
torrencial. O cabelo preto chicoteava ao redor. Ela mal conseguia ficar de p
contra o vento, e se inclinou na direo dele, como se a qualquer momento
seus ps fossem sair do cho e ela fosse desaparecer no cu negro. Talvez
pudesse. A essa altura, nada me surpreenderia.
     Larkin e Hunting se moveram silenciosamente nas sombras, at que
estavam flanqueando Sarafine, de cara para Lena. Sarafine chegou mais
perto.
     Lena ergueu uma mo espalmada.
     -- Pare. Agora.
     Sarafine no parou. Lena fechou a mo. Uma linha de fogo surgiu na
grama alta. As chamas rugiram, separando me e filha. Sarafine ficou
paralisada. No esperava que Lena fosse capaz de muito mais do que ela
provavelmente considerava ser um pouco de vento e chuva. Lena a tinha
pego de surpresa.
     -- Nunca vou esconder nada de voc, como todo mundo em nossa
famlia fez. Expliquei suas opes e falei a verdade. Voc pode me odiar, mas
ainda sou sua me. E posso oferecer uma coisa que eles no podem. Um
futuro com o Mortal.
     As chamas aumentaram. O fogo se espalhou como se tivesse vontade
prpria, at que as chamas cercaram Sarafine, Larkin e Hunting. Lena riu.
Uma risada sombria, como a da me. At mesmo do outro lado da clareira,
ela me fez tremer.
     -- Voc no precisa fingir que se importa comigo. Todos sabemos a
megera que voc , me.  a nica coisa com a qual todos podemos
concordar.
     Sarafine juntou os lbios e soprou, como se estivesse soprando um beijo.
S que o fogo soprou junto, mudando a direo, correndo pela vegetao
para cercar Lena.
     -- Tente ser mais convincente, querida. Se esforce.
     Lena sorriu.
     -- Queimar uma bruxa? Mas que clich.
     -- Se eu quisesse queimar voc, Lena, j estaria morta. Lembre-se, voc
no  a nica Natural.
     Lentamente, Lena esticou o brao e colocou uma mo nas chamas. No
fez nenhuma careta, ficou completamente sem expresso. Ento enfiou outra
mo no fogo. Ergueu as mos acima da cabea e segurou o fogo como se fosse
uma bola. Depois jogou as chamas com o mximo de fora que conseguiu.
Bem na minha direo.
     O fogo bateu no carvalho atrs de mim, acendendo os galhos mais
rpido do que lenha seca. As chamas desceram pelo tronco. Cambaleei para
a frente, tentando sair do caminho. Continuei me mexendo at que cheguei 
parede da minha priso invisvel. Mas dessa vez, ela no estava l. Arrastei as
pernas pelos centmetros de lama atravs do campo. Olhei para o lado e vi
Link cado. O carvalho atrs dele queimava com mais intensidade que o meu.
As chamas atingiram o cu negro e comearam a se espalhar no campo ao
redor. Corri na direo de Lena. No conseguia pensar em outra coisa. Link
cambaleou na direo da me dele. S havia Lena e a linha de fogo entre
Sarafine e ns. Por um momento, pareceu o bastante.
     Toquei o ombro de Lena. Na escurido, ela deveria ter tido um
sobressalto, mas sabia que era eu. Ela nem olhou para mim.

    Amo voc, L.
    No diga nada, Ethan. Ela consegue ouvir tudo. No tenho certeza, mas
acho que sempre ouviu.

    Olhei para o outro lado do campo, mas no conseguia ver Sarafine,
Hunting e nem Larkin por trs das chamas. Sabia que eles estavam l, e sabia
que provavelmente tentariam matar todos ns. Mas eu estava com Lena e,
por apenas um segundo, era tudo que importava.
    -- Ethan! V buscar Ryan. Tio Macon precisa de ajuda. No posso
segur-la por muito tempo.
    Sa em disparada antes que Lena pudesse dizer outra palavra. Seja l o
que Sarafine tivesse feito para romper nossa ligao, no mais importava.
Lena estava de volta no meu corao e na minha cabea. Enquanto eu corria
pelos campos irregulares, era s isso que importava.
    Exceto pelo fato de que era quase meia-noite. Corri mais rpido.
    Amo voc tambm. V rpido...




Olhei para meu celular: 23h25. Bati na porta de Ravenwood e empurrei
freneticamente a lua crescente acima da porta. Nada aconteceu. Larkin devia
ter feito alguma coisa para selar o portal, no que eu tivesse alguma ideia
como.
     -- Ryan! Tia Del! Vov!
     Eu tinha que encontrar Ryan. Macon estava ferido. Lena podia ser a
prxima. Eu no tinha como prever o que Sarafine faria quando Lena
recusasse a proposta dela. Link cambaleou no degrau atrs de mim.
     -- Ryan no est aqui.
     -- Ryan  mdica? Temos que ajudar minha me.
     -- No. Ela... Explico depois.
     Link estava andando de um lado para o outro na varanda.
     -- Alguma parte daquilo foi real?
     Pense. Eu tinha que pensar. Estava nisso sozinho. Ravenwood era uma
verdaDeira fortaleza esta noite. Ningum podia invadir, pelo menos no um
Mortal, e eu no podia decepcionar Lena.
     Liguei para a nica pessoa em que pude pensar que no teria problemas
em lidar com dois Conjuradores das Trevas e um Incubus de Sangue, no
meio de um furaco sobrenatural. Uma pessoa que era meio que um furaco
sobrenatural por si s. Amma.
     Ouvi o toque do telefone no outro lado da linha.
     -- Ela no atende. Amma ainda deve estar com meu pai.
     23h30. S havia uma outra pessoa que podia me ajudar, e era um tiro no
escuro. Liguei para a Biblioteca do Condado de Gatlin.
     -- Marian tambm no est l. Ela saberia o que fazer. Que diabos? Ela
nunca sai da biblioteca, mesmo tarde.
     Link andava de um lado para o outro, desesperado.
     -- Nada est aberto.  uma porcaria de feriado.  a Batalha de Honey
Hill, lembra? Talvez devssemos ir para a Zona Segura e procurar
paramdicos.
     Olhei para ele como se um relmpago tivesse acabado de sair da sua
boca e me atingido na cabea.
     --  feriado. Nada est aberto -- repeti.
     -- . Eu acabei de dizer isso. Ento o que a gente faz? -- Ele parecia
infeliz.
     -- Link, voc  um gnio. Um gnio incrvel.
     -- Eu sei, cara, mas o que isso tem a ver com tudo?
     -- Est com o Lata-Velha?
     Ele assentiu.
     -- Temos que sair daqui.
     Link ligou o carro. Ele estalou mas pegou, como sempre. Os Holy
Rollers soavam nos alto-falantes, e que fique registrado que agora eles eram
pssimos. Ridley deve mesmo ser boa nesse lance de Sirena.
     Link desceu o caminho de cascalho, depois olhou para mim de lado.
     -- Pra onde vamos mesmo?
     -- Pra biblioteca.
     -- Pensei que voc tivesse dito que est fechada.
     -- Pra outra biblioteca.
     Link assentiu como se tivesse entendido, mas no tinha. Mesmo assim,
ele fez o que falei, como nos velhos tempos. O Lata-Velha se sacudiu pela
estrada de cascalho como se fosse segunda-feira de manh e estivssemos
atrasados para o primeiro tempo. S que no era.
     Eram 23h40.




Quando paramos de repente na frente da Sociedade Histrica, Link nem
tentou entender. Sa do carro antes que ele pudesse desligar o som que tocava
Holy Rollers. Ele me alcanou quando eu virava a esquina e entrava na
escurido atrs do segundo prdio mais antigo de Gatlin.
     -- Aqui no  a biblioteca.
     -- Aham.
     --  o FRA.
     -- Aham.
     -- Que voc Odeia.
     -- Aham.
     -- Minha me vem aqui, tipo, todo dia.
     -- Aham.
     -- Cara. O que estamos fazendo aqui?
     Andei at a grade e enfiei a mo por ela. Ela penetrou o metal, o que
parecia metal, Deixando meu brao parecendo amputado no punho.
     Link me segurou.
     -- Cara, Ridley deve ter colocado alguma coisa no meu refrigerante.
Porque eu juro, seu brao, acabei de ver seu brao... Esquea, estou
alucinando.
     Puxei o brao de volta e mexi os dedos em frente ao seu rosto.
     -- Fala srio, cara. Depois de tudo que voc viu hoje, agora voc acha
que est alucinando? Agora?
     Olhei para meu celular. 23h45.
     -- No tenho tempo de explicar, mas s vai ficar mais estranho de agora
em diante. Vamos descer para a biblioteca, mas no  bem uma biblioteca. E
voc vai ficar apavorado a maior parte do tempo. Ento se quiser esperar no
carro, tudo bem.
     Link estava tentando absorver o que eu estava dizendo to rapidamente
quanto eu falava, o que era uma coisa difcil.
     -- Vai ou no vai?
     Link olhou para a grade. Sem dizer palavra alguma, enfiou a mo. Ela
desapareceu.
     Ele ia.




Me abaixei para passar pela porta e comecei a descer a velha escadaria de
pedra.
    -- Vamos. Temos que voar.
    Link riu nervosamente enquanto cambaleava atrs de mim.
    -- Entendeu? Voar? Bruxas?
     As tochas se acenderam enquanto descamos para a escurido. Peguei a
base de metal de uma e a passei para Link. Peguei outra e pulei os ltimos
degraus para o aposento que parecia uma cripta. Uma a uma, as tochas da
parede se acenderam quando chegamos ao meio da cmara. As colunas
apareceram, junto com as sombras, na luz bruxuleante das tochas nas
paredes. As palavras DOMUS LUNAE LIBRI reapareceram nas sombras da
entrada, onde eu as tinha visto da ltima vez.
     -- Tia Marian! Voc est aqui?
     Ela bateu no meu ombro por trs. Quase pulei at o teto e esbarrei em
Link.
     Link gritou, Deixando a tocha cair. Pisei nas chamas.
     -- Nossa, Dra. Ashcroft. Voc me deu um susto de matar.
     -- Desculpe, Wesley... E Ethan, voc enlouqueceu? Tem alguma
recordao de quem  a me desse pobre garoto?
     -- A Sra. Lincoln est inconsciente. Lena est em perigo. Macon foi
ferido. Preciso entrar em Ravenwood, no consigo achar Amma e no
consigo entrar l. Preciso ir pelos Tneis. -- Eu era um garotinho de novo e
falei tudo correndo. Falar com Marian era como falar com minha me, ou
pelo menos falar com algum que sabia como era falar com minha me.
     -- No posso fazer nada. No posso ajudar. De qualquer modo, a
Invocao acontece  meia-noite. No posso parar o relgio. No posso
salvar Macon, nem a me de Wesley, nem ningum. No posso me envolver.
-- Ela olhou para Link. -- E lamento por sua me, Wesley. No tive a
inteno de desrespeit-lo.
     -- Sim, senhora. -- Link parecia derrotado.
     Balancei a cabea e dei a Marian a tocha mais prxima na parede.
     -- Voc no entendeu. No quero que voc faa nada alm do que a
bibliotecria Conjuradora faz.
     -- O qu?
     Olhei para ela expressivamente.
     -- Preciso entregar um livro em Ravenwood. -- Me inclinei e peguei um
na pilha mais prxima, queimando as pontas dos meus dedos. -- O Guia
Completo de Ervas e Verbiagem Venenosas.
     Marian parecia ctica.
     -- Hoje?
    -- Sim, hoje. Agora mesmo. Macon me pediu que levasse para ele
pessoalmente. Antes da meia-noite.
    -- Uma bibliotecria Conjuradora  a nica Mortal que sabe como
acessar os Tneis da Lunae Libri. -- Marian olhou para mim com astcia e
pegou o livro das minhas mos. -- Que bom que por acaso sou uma.




Link e eu seguimos Marian pelos tneis cheios de curvas da Lunae Libri. Em
um ponto contei as portas de carvalho pelas quais passvamos, mas parei
depois que chegamos a dezesseis. Os Tneis eram como um labirinto, e cada
um era diferente. Havia passagens de teto baixo, onde Link e eu tivemos que
nos abaixar para poder passar, e corredores de teto alto onde no parecia
haver teto algum sobre nossas cabeas. Era literalmente um outro mundo.
Algumas passagens eram rsticas, adornadas com nada alm da modesta
construo em si, enquanto outras pareciam corredores de um castelo ou
museu, com tapearias, mapas antigos emoldurados e pinturas a leo
penduradas na parede. Em circunstncias diferentes, eu teria parado para ler
as placas embaixo de cada retrato. Talvez fossem Conjuradores famosos,
quem sabe. A nica coisa que as passagens tinham em comum era o cheiro de
terra e de tempo, e o nmero de vezes em que Marian mexeu na chave de
lunae crescente, o crculo de ferro que ela usava preso na cintura.
     Depois do que pareceu uma eternidade, chegamos  porta. Nossas tochas
estavam quase se apagando, e tive que levantar a minha para conseguir ler
Ravenwood entalhado numa tbua vertical. Marian girou a chave pela ltima
fechadura e a porta se abriu. Degraus entalhados levavam  casa e percebi
com uma olhada no teto que estvamos no trreo.
     Me virei para Marian.
     -- Obrigado, tia Marian. -- Estiquei a mo para pegar o livro. --
Entregarei isso a Macon.
     -- No to rpido. Ainda preciso ver o carto da biblioteca com seu
nome, EW. -- Ela piscou para mim. -- Eu mesma entrego esse livro.
     Olhei para meu celular. 23h45 de novo. Era impossvel.
     -- Como pode ser a mesma hora que era quando chegamos  Lunae
Libri.
     -- Tempo lunar. Vocs jovens nunca ouvem. As coisas no so sempre o
que parecem l embaixo.
     Link e Marian me seguiram escada acima e at o saguo de entrada.
Ravenwood estava como quando samos, at pelo bolo nos pratos, o aparelho
de ch e a pilha de presentes de aniversrio ainda embrulhados.
     -- Tia Del! Reece! Vov! Al? Onde est todo mundo? -- gritei, e elas
apareceram sadas do nada. Dei estava posicionada perto da escada, seg-
rando um abajur sobre a cabea como se fosse jog-lo na cabea de Marian
em um segundo. Vov estava na porta, protegendo Ryan com o brao. Reece
estava escondida debaixo da escada, segurando um faco.
     Todas comearam a falar ao mesmo tempo.
     -- Marian! Ethan! Estvamos to preocupadas. Lena desapareceu, e
quando ouvimos o sino dos Tneis, pensamos que era...
     -- Vocs a viram? Ela est l fora?
     -- Vocs viram Lena? Quando Macon no voltou, comeamos a nos
preocupar.
     -- E Larkin. Ela no feriu Larkin, feriu?
     Olhei para elas sem acreditar, tirando o abajur das mos de tia Del e
passando-o para Link.
     -- Um abajur? Voc achou mesmo que um abajur ia salvar voc?
     Tia Del deu de ombros.
     -- Barclay foi para o sto para Mutar algumas armas a partir de trilhos
de cortina e objetos de decorao velhos. Foi tudo que consegui encontrar.
     Fiquei de joelhos na frente de Ryan. No havia muito tempo, aproxima-
damente 14 minutos, para ser exato.
     -- Ryan. Voc se lembra quando eu estava ferido e voc me ajudou?
Preciso que voc venha fazer isso agora, l em Greenbrier. Tio Macon caiu, e
ele e Boo esto feridos.
     Ryan parecia que ia chorar.
     -- Boo est ferido tambm?
     Link limpou a garganta no fundo do aposento.
     -- E minha me. Quero dizer, sei que ela  um saco e tudo mais, mas
ser que ela... ser que ela pode ajudar minha me?
     -- E a me de Link.
     Vov puxou Ryan para trs de si, dando tapinhas carinhosos em sua
bochecha. Ajeitou o suter e esticou a saia.
     -- Vamos l. Del e eu iremos. Reece, fique aqui com sua irm. Diga para
seu pai aonde fomos.
     -- Vov, preciso de Ryan.
     -- Pois hoje, eu sou Ryan, Ethan. -- Ela pegou a bolsa.
     -- No saio daqui sem Ryan. -- Bati o p. Havia muita coisa em jogo.
     -- No podemos levar uma criana ainda no Invocada l para fora, no
na dcima-sexta lua. Ela poderia ser morta. -- Reece olhou para mim como
se eu fosse um idiota. Eu estava por fora dos conhecimentos Conjuradores de
novo.
     Del pegou meu brao para me tranquilizar.
     -- Minha me  uma Emptica. Ela  muito sensvel aos poderes dos
outros e pode pegar esses poderes emprestados por um tempo. Agora, pegou
o de Ryan. No vai durar muito, mas  capaz de fazer qualquer coisa que
Ryan faa. E vov foi Invocada, obviamente h bastante tempo. Ento ela vai
com voc.
     Olhei para meu celular: 23h49.
     -- E se no chegarmos a tempo?
     Marian sorriu e ergueu o livro.
     -- No fao uma entrega em Greenbrier desde, bem, nunca. Dei, voc
acha que consegue encontrar o caminho?
     Tia Del assentiu, colocando os culos.
     -- Palimpsestas sempre conseguem achar antigas portas escondidas. So
as novas as que nos causam dificuldades. -- Ela desapareceu no Tnel, com
Marian e vov atrs. Link e eu nos esforamos para acompanh-las.
     -- Para um grupo de senhoras -- falou Link, ofegante --, elas realmente
conseguem andar rpido.




Dessa vez, a passagem era pequena e estava desabando, e tinha musgo verde
e preto crescendo nas paredes e no teto. Provavelmente no cho tambm,
mas eu no podia ver nas sombras. ramos cinco tochas sacolejantes no meio
da escurido total. Como eu e Link estvamos no fim da fila, a fumaa
entrava nos meus olhos, fazendo-os lacrimejar e arder.
     Conforme amos nos aproximando de Greenbrier, eu sabia que
estvamos chegando por causa da fumaa que comeou a entrar pelos
Tneis, no das nossas tochas, mas de aberturas escondidas que levavam ao
mundo l fora.
     --  aqui. -- Tia Del tossiu, tateando nas beiradas de um corte
retangular nas paredes de pedra. Marian raspou o musgo, revelando uma
porta. A chave lunae se encaixou perfeitamente, como se ela tivesse sido
aberta h poucos dias, em vez de centenas de milhares de dias atrs. A porta
no era de carvalho, e sim de pedra. Eu no consegui acreditar que tia Del
tinha fora para empurr-la e abri-la.
     Tia Del parou na escadaria e fez sinal para que eu passasse. Ela sabia que
estvamos quase sem tempo. Baixei a cabea para passar pelo musgo
pendurado e senti o cheiro mido do ar quando subi pelos degraus de pedra.
Sa do tnel, mas quando cheguei ao topo, fiquei paralisado. Eu podia ver a
mesa de pedra da cripta, onde O Livro das Luas tinha ficado por tantos anos.
     E eu sabia que era a mesma mesa, porque o Livro estava sobre ela agora.
     O mesmo livro que tinha sumido da prateleira do meu armrio hoje de
manh. Eu no tinha ideia de como ele tinha chegado aqui, mas no havia
tempo de perguntar. Pude ouvir o fogo antes mesmo de v-lo.
     Fogo  alto, cheio de fria e destruio. E havia fogo ao redor de mim. A
fumaa no ar estava to densa que estava me sufocando. O calor estava
queimando os pelos dos meus braos. Era como uma viso do medalho, ou
pior, como o ltimo dos meus pesadelos -- aquele em que Lena era
consumida por fogo.
     A sensao de que eu a estava perdendo. Estava acontecendo.
    Lena, onde voc est?
    Ajude tio Macon.
    A voz dela estava ficando indistinta. Tentei afastar a fumaa com a mo
para enxergar o visor do celular.
    23h53. Sete minutos para meia-noite. O tempo estava acabando.
    Vov pegou minha mo.
    -- No fique apenas parado a. Precisamos de Macon.
                                       ***

Vov e eu corremos, de mos dadas, para cima do fogo. A longa fileira de
salgueiros que emoldurava a passagem levando ao cemitrio e aos jardins
estava em chamas. A vegetao, os carvalhos, as palmeiras, o alecrim, os
limoeiros -- tudo estava em chamas. Eu podia ouvir os ltimos sons de tiro ao
longe. Honey Hill estava terminando, e eu sabia que os atores co-meariam
os fogos de artifcio em breve, como se os fogos de artifcio na Zona Segura
pudessem de alguma maneira se comparar aos fogos acontecendo aqui. O
jardim inteiro e a clareira estavam em chamas em torno da cripta.
     Cambaleamos pela fumaa at que chegamos perto dos carvalhos em
chamas, e encontrei Macon cado onde ele estava antes. Vov se inclinou
sobre ele e tocou sua bochecha com a mo.
     -- Ele est fraco, mas vai ficar bem.
     No mesmo momento, Boo Radley rolou de lado e ficou de p nas quatro
patas. Depois se abaixou e Deitou sobre a barriga ao lado do dono.
     Macon fez um esforo para virar a cabea em direo  vov. A voz dele
mal passava de um sussurro.
     -- Onde est Lena?
     -- Ethan vai encontr-la. Descanse. Vou ajudar a Sra. Lincoln.
     Link estava ao lado da me e vov andou rapidamente em direo a eles
sem dizer outra palavra. Fiquei de p, procurando Lena no meio do fogo.
No conseguia ver nenhum deles em lugar algum. Nem Hunting, nem
Larkin, nem Sarafine, ningum.
    Estou aqui em cima. Em cima da cripta. Mas acho que estou presa.
    Aguente, L. Estou indo.
     Tentei achar o caminho entre as chamas, procurando me manter na
direo que eu lembrava das vezes que vim a Greenbrier com Lena. Quanto
mais perto eu chegava da cripta, mais quente eram as chamas. Minha pele
parecia estar descascando, mas eu sabia que estava mesmo era queimando.
     Subi em um tmulo sem nome, encontrei um buraco para apoiar o p na
parede de pedra em runas e me impulsionei o mais alto que consegui. Em
cima da cripta havia uma esttua, algum tipo de anjo, com parte do corpo
quebrado. Segurei em alguma parte dele, no sei qual, talvez uma canela, e
me puxei para a beirada.
    Ande, Ethan! Preciso de voc.
    Foi quando me vi cara a cara com Sarafine. Que enfiou uma faca na
minha barriga. Uma faca de verdade, na minha barriga, de verdade. O final
do sonho que nunca tinham nos Deixado ver. S que agora no era um
sonho. Eu sei, porque era a minha barriga, e senti cada centmetro da lmina.
    Surpreso, Ethan? Voc acha que Lena  a nica Conjuradora nesse
canal?
    A voz de Sarafine comeou a sumir.
    Vamos ver se ela vai querer ir para a Luz agora.
     Enquanto eu perdia a conscincia, s conseguia pensar que, se me
vestissem com um uniforme da Confederao, eu seria Ethan Carter Wate.
At com o mesmo ferimento na barriga, com o mesmo medalho no bolso.
Ainda que a nica coisa de que eu tivesse desertado fosse o time de basquete
da Jackson High, em vez do exrcito de Lee.
     Sonhando com uma garota Conjuradora que eu sempre amaria. Assim
como o outro Ethan. Ethan! No!




No! No! No!
    Em um minuto, eu estava gritando; no outro, o som estava preso na
minha garganta.
    Eu me lembro de Ethan caindo. Eu me lembro de minha me sorrindo.
O brilho da faca e o sangue.
    O sangue de Ethan.
    No podia estar acontecendo.
    Nada se movia, nada. Tudo estava perfeitamente congelado, como uma
cena num museu de cera. As ondas de fumaa continuaram sendo ondas.
Eram fofas e cinzentas, mas no iam para lugar algum, nem para cima nem
para baixo. Apenas ficaram paradas no ar, como se fossem feitas de cartolina,
parte do cenrio de uma pea. As lnguas de fogo ainda estavam
transparentes, ainda quentes, mas no queimavam nada e no faziam som
algum. Nem o ar se movia. Tudo estava exatamente como no segundo
anterior.
     Vov estava inclinada sobre a Sra. Lincoln, prestes a tocar na bochecha
dela, a mo suspensa no ar. Link estava segurando a mo da me, ajoelhado
na lama como um garotinho assustado. Tia Del e Marian estavam encolhidas
nos degraus da passagem da cripta, protegendo o rosto da fumaa.
     Tio Macon estava deitado no cho, com Boo agachado junto a ele.
Hunting estava recostado numa rvore a alguns metros, admirando seu
trabalho. A jaqueta de couro de Larkin estava em chamas e ele olhava na
direo errada, a meio caminho da estrada na direo de Ravenwood. Como
era de se imaginar, correndo da ao, em vez de indo em direo a ela.
     E Sarafine. Minha me segurava uma adaga entalhada, uma coisa antiga
das Trevas, bem acima da cabea. Seu rosto estava febril de fria e fogo e
dio. A lmina ainda pingava sangue sobre o corpo sem vida de Ethan. At
mesmo as gotas de sangue estavam congeladas no ar.
     O brao de Ethan estava esticado sobre a beirada do teto da cripta.
Estava pendurado, inerte, na direo do cemitrio abaixo.
     Como em nosso sonho, mas ao contrrio.
     Eu no tinha cado dos braos dele. Ele foi arrancado dos meus.
     Abaixo da cripta, estiquei o brao para cima, afastando chama e fumaa,
at que meus dedos se entrelaaram com os de Ethan. Eu estava na ponta dos
ps, mas mal conseguia alcan-lo.
     Ethan, eu amo voc. No me Deixe. No consigo fazer isso sem voc.
     Se houvesse luz da lua, eu poderia ter visto o rosto dele. Mas no havia
lua, no nesse momento, e a nica luz vinha do fogo, ainda congelado, que
me cercava de todos os lados. O cu estava vazio, completamente negro. No
havia nada. Eu tinha perdido tudo esta noite.
     Solucei at no conseguir mais respirar e meus dedos escorregarem dos
dele, sabendo que eu jamais sentiria aqueles dedos nos meus cabelos de novo.
     Ethan.
     Eu queria gritar o nome dele apesar de ningum poder me ouvir, mas
no tinha um grito sequer dentro de mim. No tinha mais nada em mim
alm dessas palavras. Lembrei das palavras das vises. Lembrei de cada uma
delas.
     Sangue do meu corao.
     Vida da minha vida.
    Corpo do meu corpo.
    Alma da minha alma.




-- No faa isso, Lena Duchannes. No se meta com aquele Livro das Luas e
recomece essa escurido toda de novo.
     Abri meus olhos. Amma estava ao meu lado, no fogo. O mundo ao redor
de ns ainda estava congelado.
     Olhei para Amma.
     -- Os Grandes fizeram isso?
     -- No, criana, Isso  coisa sua. Os Grandes s me ajudaram a chegar.
     -- Como eu posso ter feito isso?
     Ela sentou ao meu lado na terra.
     -- Voc ainda no sabe do que  capaz, sabe? Melchizedek estava certo
sobre isso, pelo menos.
     -- Amma, do que voc est falando?
     -- Sempre falei para Ethan que ele podia fazer um buraco no cu algum
dia. Mas acho que foi voc quem fez isso.
     Tentei limpar as lgrimas do meu rosto, mas outras surgiam. Quando
chegaram aos meus lbios, pude sentir a fuligem na boca.
     -- Eu sou... Eu sou das Trevas?
     -- Ainda no, agora no.
     -- Sou da Luz?
     -- No. No posso dizer que voc seja isso tambm.
     Olhei para o cu. A fumaa cobria tudo -- as rvores, o cu, e onde
devia haver uma lua e estrelas, s havia um cobertor escuro e grosso de nada.
Cinzas e fogo e fumaa e nada.
     -- Amma.
     -- Sim?
     -- Onde est a lua?
     -- Bem, se voc no sabe, criana, eu com certeza no saberei. Num
minuto eu estava olhando para sua Dcima-Sexta Lua. E voc estava parada
embaixo dela, olhando para as estrelas como se s Deus l no Cu pudesse
ajud-la, com as palmas erguidas como se estivesse segurando o cu. Depois,
nada. S isso.
    -- E a Invocao?
    Ela fez uma pausa, refletindo.
    -- Bem, no sei o que acontece se no houver Lua no seu aniversrio do
Dcimo-Sexto Ano,  meia-noite. Nunca aconteceu antes, pelo que eu saiba.
Parece que no pode haver Invocao se no houver Dcima-Sexta Lua.
    Eu devia ter sentido alvio, felicidade, confuso. Mas s sentia dor.
    -- Acabou ento?
    -- No sei.
    Ela esticou a mo e me ergueu, at que estvamos as duas de p. A mo
dela era quente e forte, e eu me senti menos confusa. Como se ns duas
soubssemos o que eu ia fazer. Como suspeito que Ivy soubera o que
Genevieve ia fazer, nesse lugar, h mais de cem anos.




Quando abrimos a capa rachada do Livro, eu soube imediatamente em qual
pgina abrir, como se sempre tivesse sabido.
     -- Voc sabe que no  natural. E voc sabe que deve haver
consequncias.
     -- Eu sei.
     -- E voc sabe que no h garantia de que v funcionar. No deu muito
certo da ltima vez. Mas posso dizer o seguinte: minha tatara-tia Ivy est l
com os Grandes, e eles vo nos ajudar se puderem.
     -- Amma. Por favor. No tenho escolha.
     Ela olhou nos meus olhos. Finalmente, assentiu.
     -- No posso dizer que consigo impedir que voc o faa. Porque voc
ama meu menino. E porque eu amo meu menino, vou ajudar voc.
     Olhei para ela e entendi.
     -- E foi por isso que voc trouxe O Livro das Luas para c hoje.
     Amma assentiu, lentamente. Esticou a mo em direo ao meu pescoo,
e puxou o anel de dentro do moletom de Ethan da Jackson High que eu
ainda estava usando.
     -- Esse era o anel de Lila. Ele devia que am-la muito para d-lo a voc.
     Ethan, amo voc.
     -- O amor  uma coisa poderosa, Lena Duchannes. O amor de uma me
no  uma coisa com que se brinque. Parece que Lila tem tentado ajudar
vocs do melhor jeito que pode.
     Ela arrancou o anel do meu pescoo. Pude sentir o ponto onde a
corrente arrebentou e um corte me ardia a pele. Ela enfiou o anel no meu
dedo do meio.
     -- Lila teria gostado de voc. Voc tem a nica coisa que Genevieve
nunca teve quando usou o Livro. O amor das duas famlias.
     Fechei meus olhos, sentindo o metal frio contra minha pele.
     -- Espero que voc esteja certa.
     -- Espere. -- Amma se abaixou e pegou o medalho de Genevieve, ainda
embrulhado no leno da famlia dela, de dentro do bolso de Ethan. -- S
para lembrar a todos que voc j tem a maldio. -- Ela suspirou
desconfortavelmente. -- No queremos que voc seja julgada duas vezes pelo
mesmo crime.
     Colocou o medalho sobre o livro.
     -- Dessa vez, vamos fazer direito.
     Ento ela tirou o amuleto gasto do prprio pescoo e o colocou sobre o
livro, ao lado do medalho. O pequeno disco de ouro parecia uma moeda, a
imagem apagada pelo tempo e uso.
     -- Para lembrar a todos que, se estiverem mexendo com meu menino,
esto mexendo comigo.
     Ela fechou os olhos. Fechei os meus. Toquei nas pginas com minhas
mos e comecei a recitar, a princpio lentamente, depois cada vez mais alto.
    -- CRUOR PECTORIS MEI, TUTELA TUA EST.
    VITA VITAE MEAE, CORRIPIENS TUAM, CORRIPIENS MEAM.
     Falei as palavras com confiana. Uma certa confiana que s vem de no
ligar mesmo se voc vai viver ou morrer.
    --- CORPUS CORPORIS MEI, MEDULLA MENSQUE,
    ANIMA ANIMAE MEAE, ANIMAM NOSTRAM CONECTE.
    Gritei as palavras para o cenrio congelado, apesar de no haver
ningum alm de Amma para ouvir.
    -- CRUOU PECTORIS MEI, LUNA MEA, AESTUS MEUS.
    CRUOR PECTORIS MEI, FATUM MEUM, MEA SALUS.




Amma esticou o brao em minha direo e pegou minhas mos trmulas em
suas mos fortes, e recitamos o Conjuro de novo, juntas. Dessa vez falamos na
lngua de Ethan e da me dele, Lila, de tio Macon e tia Del e Amma e Link e
da pequena Ryan e de todo mundo que amava Ethan e nos amava. Dessa
vez, o que dissemos virou uma msica.
     Uma msica de amor -- para Ethan Lawson Wate, das duas pessoas que
mais o amavam. E sentiriam mais falta dele se falhssemos.

   -- SANGUE DO MEU CORAO, A PROTEO  TUA.
   VIDA DA MINHA VIDA, TIRA A TUA, TIRA A MINHA.
   CORPO DO MEU CORPO, ESSNCIA E MENTE,
   ALMA DA MINHA ALMA, UNA OS NOSSOS ESPRITOS.
   SANGUE DO MEU CORAO, MINHAS MARS, MINHA LUA.
   SANGUE DO MEU CORAO, MINHA SALVAO, MINHA
PERDIO.

      Um relmpago atingiu a mim, ao Livro,  cripta e a Amma. Pelo menos,
foi isso que pensei que tivesse acontecido. Mas ento me lembrei que foi assim
que tudo pareceu a Genevieve tambm nas vises. Amma foi jogada contra a
parede da cripta e sua cabea bateu na pedra com fora.
      Senti a eletricidade percorrer meu corpo e relaxei, aceitando o fato de
que se eu morresse, pelo menos seria com Ethan. Eu o sentia, sentia como ele
estava perto de mim, sentia o quanto eu o amava. Senti o anel, queimando no
meu dedo, e o quanto ele me amava.
      Senti meus olhos ardendo, e para todo lado que eu olhava, via uma
nvoa de luz dourada, como se viesse de mim de alguma forma.
      Ouvi Amma sussurrar:
     -- Meu menino.
     Me virei na direo de Ethan. Ele estava banhado em luz dourada, assim
como todo o resto. Ainda estava imvel. Olhei para Amma em pnico.
     -- No funcionou.
     Ela se reclinou no altar de pedra, fechando os olhos.
     Eu gritei:
     -- No funcionou!
     Cambaleei para longe do Livro, entrei na lama. Olhei para o alto. A lua
estava l de novo. Ergui os braos acima da cabea, em direo aos cus. Um
calor corria pelas minhas veias, onde deveria haver sangue. A raiva cresceu
dentro de mim, sem ter lugar para ir. Eu podia senti-la me consumindo.
Sabia que se no achasse um meio de alivi-la, ela me destruiria.
     Hunting. Larkin. Sarafine.
     O predador, o covarde e minha me assassina, que vivia para destruir a
prpria filha. Os galhos retorcidos da minha rvore genealgica Conjuradora.
     Como eu podia me Invocar quando eles j tinham retirado de mim a
nica coisa que me importava? O calor explodiu nas minhas mos, como se
tivesse vontade prpria. Um relmpago cortou o cu. Eu sabia para onde ele
ia antes mesmo de cair.
     Trs pontos na bssola, sem o norte para me guiar.
     O relmpago explodiu em chamas, atingindo os trs alvos
simultaneamente -- os que tiraram tudo de mim hoje. Eu devia ter tido
vontade de olhar para o outro lado, mas no tive. A esttua que tinha sido
minha me um momento antes era estranhamente bonita, envolvida em
chamas  luz da lua.
     Baixei os braos, limpando terra, cinzas e dor dos meus olhos, mas
quando olhei de novo, ela tinha sumido.
     Todos tinham sumido.
     A chuva comeou a cair; e minha viso embaada se aguou at que
pude ver as rajadas de chuva atingindo os carvalhos fumegantes, os campos, o
bosque. Eu podia ver claramente pela primeira vez em muito tempo, talvez
melhor do que nunca. Caminhei de volta  cripta, na direo de Ethan.
     Mas ele tinha sumido.
     Onde seu corpo estava minutos antes, agora havia outra pessoa. Tio
Macon.
     No entendi. Me virei para Amma para obter respostas. Os olhos dela
estavam enormes, assustados.
     -- Amma, onde est Ethan? O que aconteceu?
     Mas ela no me respondeu. Pela primeira vez na vida, Amma estava sem
palavras. Estava olhando para o corpo de tio Macon, confusa.
     -- Nunca achei que ia terminar assim, Melchidezek. Depois de todos
esses anos carregando o peso do mundo nos nossos ombros, juntos. -- Ela
estava falando com ele como se ele pudesse ouvi-la, apesar de sua voz estar
mais baixa do que eu jamais tinha ouvido. -- Como vou segurar tudo
sozinha?
     Segurei-a pelos ombros, os ossos pontudos dela machucando as palmas
das minhas mos.
     -- Amma, o que est acontecendo?
     Ela ergueu os olhos para olhar nos meus, a voz mal passando de um
sussurro.
     -- Voc no pode obter uma coisa do Livro sem dar algo em troca. --
Uma lgrima rolou por sua bochecha enrugada.
     No podia ser verdade. Me ajoelhei ao lado de tio Macon e estiquei a
mo lentamente para tocar seu rosto perfeitamente barbeado. Normalmente,
eu encontraria um calor enganador, associado com seres humanos,
alimentado pela energia de esperanas e sonhos de Mortais, mas no hoje.
Hoje, a pele dele estava gelada. Como a de Ridley. Como dos mortos.
     Sem dar algo em troca.
     -- No... Por favor, no. -- Eu tinha matado tio Macon. E nem tinha me
Invocado ainda. Nem tinha escolhido ir para a Luz, e ainda assim o tinha
matado.
     A fria comeou a crescer dentro de mim de novo, o vento soprando
com fora em volta de ns, se revirando como minhas emoes. Isso estava
comeando a ser um sentimento familiar, como um velho amigo. O Livro
tinha feito algum tipo de troca terrvel, uma que eu no pedi. E ento me dei
conta.
     Uma troca.
     Se tio Macon estava aqui, onde Ethan estava deitado morto, poderia isso
significar que talvez Ethan estivesse vivo em algum lugar?
     Fiquei de p e corri em direo  cripta. A paisagem paralisada brilhava
com a luz dourada. Eu podia ver Ethan ao longe deitado na grama ao lado de
Boo, onde tio Macon estava momentos antes. Corri at ele, peguei na mo,
mas ela estava fria. Ethan ainda estava morto e agora tio Macon estava
tambm.
     O que eu tinha feito? Tinha perdido os dois. Ajoelhada na lama, afundei
a cabea no peito de Ethan e chorei. Segurei as mos dele contra minha
bochecha. Pensei em todas as vezes em que ele se recusou a aceitar o meu
destino, se recusou a desistir, a dizer adeus.
     Agora era minha vez.
     -- No vou dizer adeus. No vou. -- Tinha chegado a esse ponto, apenas
um sussurro em um campo de vegetao fumegante.
     Ento eu senti. Os dedos de Ethan comearam a mexer, procurando os
meus.
     L?
     Eu mal podia ouvi-lo. Sorri e chorei, e beijei a palma da sua mo.
     Voc est a, Lena?
     Entrelacei meus dedos nos dele, e jurei que nunca soltaria. Ergui meu
rosto e Deixei a chuva cair nele, lavando a fuligem.
     Estou aqui.
     No v.
     No vou a lugar algum. E nem voc.
                        p 12 de fevereiro p
                    Um raio de esperana
                                     d

O
     lhei para meu celular. Estava quebrado.
          O relgio ainda marcava 23h59.
          Mas eu sabia que passava da meia-noite, porque os fogos finais
tinham comeado, apesar de estar chovendo. A Batalha de Honey Hill estava
acabada at o ano que vem.
     Fiquei Deitado no meio do campo enlameado, Deixando a chuva me
molhar. Enquanto observei os modestos fogos de artifcio tentarem explodir
no cu mido da noite, tudo estava enevoado. Minha mente no conseguia se
concentrar. Eu tinha cado, batido a cabea e algumas outras partes do corpo
tambm. Minha barriga, meu quadril, meu lado esquerdo todo doa. Amma
ia me matar quando eu chegasse em casa detonado desse jeito.
     S me lembrava que em um segundo eu estava me apoiando naquela
esttua de anjo idiota e no seguinte eu estava deitado de costas na lama, aqui.
Achei que um pedao da esttua tinha se partido quando eu tentava subir
para o topo da cripta, mas no tinha certeza. Link devia ter me carregado at
aqui depois que ca e fiquei inconsciente como um idiota. Fora isso, parecia
que minha memria tinha sido limpa.
     Acho que foi por isso que no entendi por que Marian, vov e tia Del
estavam agachadas perto da cripta, chorando. Nada podia ter me preparado
para o que vi quando finalmente cambaleei at l.
     Macon Ravenwood. Morto.
     Talvez ele sempre tivesse estado morto e eu no sabia, mas agora ele se
fora. Eu sabia isso. Lena se jogou sobre o corpo dele, a chuva encharcando os
dois.
    Macon, molhado de chuva pela primeira vez.




Na manh seguinte, juntei algumas peas sobre a noite do aniversrio de
Lena. Macon foi a nica morte. Ao que tudo indicava, Hunting o tinha
vencido depois que perdi a conscincia. Vov explicou que se alimentar de
sonhos era muito menos substancial do que se alimentar de sangue. Acho que
ele nunca teve chance contra Hunting. Mas isso no o impediu de tentar.
     Macon sempre dizia que faria qualquer coisa por Lena. No final, ele foi
um homem de palavra.
     Todas as outras pessoas pareciam estar bem, pelo menos fisicamente. Tia
Del, vov e Marian se arrastaram de volta a Ravenwood, com Boo atrs
delas, choramingando como um filhote. Tia Del no conseguia entender o
que tinha acontecido com Larkin. Ningum sabia como dar a ela a notcia de
que tinha no uma, mas duas mas podres na famlia, ento ningum disse
nada.
     A Sra. Lincoln no se lembrava de nada, e Link teve dificuldade para
explicar o que ela fazia no meio do campo de batalha de calola e meias. Ela
ficou estupefata de estar na companhia da famlia de Macon Ravenwood,
mas foi educada enquanto Link a ajudava a chegar at o Lata-Velha. Link
tinha muitas perguntas, mas eu achava que elas podiam esperar at a aula de
lgebra II. Daria a ns dois o que fazer quando as coisas voltassem ao
normal, seja l quando fosse.
     E Sarafine.
     Sarafine, Hunting e Larkin sumiram. Eu sabia disso porque quando
recuperei a conscincia, eles tinham desaparecido, e Lena estava l, apoiada
em mim enquanto andvamos de volta para Ravenwood. Eu no sabia
direito os detalhes, assim como todo mundo, mas parecia que Macon e todos
ns tnhamos subestimado os poderes de Lena como uma Natural. Ela tinha
de alguma forma conseguido bloquear a lua e se salvar de ser Invocada. Sem
a Invocao, parecia que Sarafine, Hunting e Larkin tinham fugido, ao
menos por enquanto.
     Lena ainda no falava do acontecido. Ainda no estava falando muito.
Adormeci no cho do quarto dela, ao seu lado, nossas mos ainda
entrelaadas. Quando acordei, ela tinha sado e eu estava sozinho. As paredes
do quarto, as mesmas que estiveram to cobertas de palavras que no dava
para ver dois centmetros de parede sob a tinta preta, agora estavam
completamente limpas. Exceto por uma, a parede defronte  janela, que
estava coberta do cho ao teto com palavras, s que a caligrafia no parecia
mais a de Lena. A caligrafia de menina tinha sumido. Toquei a parede com
se pudesse sentir as palavras, e eu sabia que ela tinha ficado acordada a noite
inteira, escrevendo.

     Macon Ethan,
     apoiei a minha cabea no peito dele e chorei porque ele viveu e porque
ele morreu.
     um oceano seco, um deserto de emoo
     feliztriste trevasluz daralegria tomaram conta de mim, de mim toda
     eu podia ouvir o som mas no entendia as palavras
     e ento percebi que o som era eu me partindo
     em um momento eu sentia tudo e no sentia nada
     estava em pedaos, estava salva, perdi tudo, ganhei
     tudo mais
     alguma coisa em mim morreu, alguma coisa em mim nasceu, eu ssabia
     que a garota foi embora
     seja l quem eu fosse agora, eu jamais seria ela de novo  assim
     que o mundo termina no  com um estrondo  mas com um gemido-
     invoque a si mesma invoque a si mesma invoque a si mesma invoque
     gratido fria amor desespero esperana dio
     primeiro o verde  dourado mas nada que seja verde pode permanecer
     no
     tente
     nada
     verde
     pode
     permanecer
    T.S. Eliot. Robert Frost. Bukowski. Reconheci alguns dos poetas das suas
prateleiras e paredes. Com exceo de Frost, que Lena tinha citado errado, o
que no era o tipo de coisa que ela fazia. Nada dourado pode permanecer, o
poema  assim. No verde.
    Talvez tudo parecesse igual para ela agora.




Desci vacilante at a cozinha, onde tia Del e vov estavam conversando
baixinho sobre preparativos. Lembrei das vozes baixas e dos preparativos
quando minha me morreu. Odiava os dois. Lembrei do quanto doeu seguir
com a vida, para que tias e avs fizessem planos, ligassem para parentes,
limpassem os pedaos, quando tudo que voc queria era rastejar para dentro
do caixo tambm. Ou talvez plantar um limoeiro, fritar tomates, construir
um monumento com suas prprias mos.
    -- Onde est Lena? -- No falei baixo, e assustei tia Del. Nada podia
assustar vov.
    -- Ela no est no quarto dela? -- Tia Del ficou confusa. Vov
calmamente se serviu de outra xcara de ch.
    -- Acho que voc sabe onde ela est, Ethan.
    Eu sabia.




Lena estava Deitada na cripta, bem onde tnhamos encontrado Macon.
Estava olhando para o cu cinzento da manh, enlameada e molhada, ainda
com as roupas da noite anterior. Eu no sabia para onde tinham levado o
corpo dele, mas entendi o impulso dela de estar aqui. Para estar com ele,
mesmo sem ele.
     Ela no olhou para mim, apesar de saber que eu estava l.
     -- Aquelas coisas odiosas que eu disse, nunca vou poder consertar. Ele
nunca soube o quanto eu o amava.
     Me Deitei ao lado dela na lama, meu corpo dolorido gemendo. Olhei
para ela, para o cabelo preto encaracolado e para as bochechas sujas e
molhadas. As lgrimas correram por seu rosto, mas ela no tentou limp-las.
Nem eu.
     -- Ele morreu por minha causa.
     Ela olhava para o cu cinzento, sem piscar. Eu queria que tivesse alguma
coisa que eu pudesse dizer para faz-la se sentir melhor, mas sabia melhor do
que ningum que palavras assim no existiam. Ento, no disse nada. Em vez
disso, beijei os dedos da mo de Lena. Parei quando senti o gosto de metal, e
ento vi. Ela estava usando o anel de minha me na mo direita.
     Ergui a mo dela.
     -- Eu no queria perd-lo. O cordo quebrou ontem  noite.
     Havia nuvens pretas no cu. Ainda no tnhamos visto o fim da
tempestade, eu sabia. Fechei minha mo ao redor da dela.
     -- Nunca amei voc mais do que a amo nesse exato segundo. E nunca
vou amar voc menos do que a amo nesse exato segundo.
     O cu cinzento era apenas um momento de calmaria sem sol, entre a
tempestade que tinha mudado nossas vidas para sempre e a que ainda viria.
     -- Isso  uma promessa?
     Apertei a mo dela.
    No solte.
    Nunca.
     Nossas mos se torceram e viraram uma. Ela virou a cabea, e quando
olhei em seus olhos, reparei pela primeira vez que um estava verde e o outro
cor de mel -- na verdade, parecia mais dourado.
Era quase meio-dia quando comecei a longa caminhada para casa. O cu
azul estava manchado de cinza escuro e dourado. A presso estava
aumentando, mas parecia que ia demorar algumas horas at a chuva. Acho
que Lena ainda estava em choque. Mas eu estava pronto para a tempestade.
E quando ela viesse, faria a temporada de furaces de Gatlin parecer Uma
chuva de primavera.
     Tia Del tinha se oferecido para me levar para casa de carro, mas eu
queria andar. Apesar de cada osso do meu corpo estar doendo, eu precisava
clarear as ideias. Enfiei as mos nos bolsos do jeans e senti o volume familiar.
O medalho. Lena e eu teramos que encontrar um meio de devolv-lo para
o outro Ethan Wate, o que estava morto no tmulo, como Genevieve queria
que fizssemos. Talvez fosse dar a Ethan Carter um pouco de paz. Devamos
isso aos dois.
     Desci a rua inclinada que levava a Ravenwood e me vi mais uma vez na
bifurcao na estrada, a que tinha parecido to assustadora antes de eu
conhecer Lena. Antes de eu saber para onde estava indo. Antes de eu saber
como era a vida real e o amor verdadeiro.
     Passei pelos campos e desci a autoestrada 9, pensando naquela primeira
ida, naquela primeira noite na tempestade. Pensei em tudo, em como quase
tinha perdido meu pai e Lena. Em como tinha aberto os olhos e a vi me
encarando, e tudo que conseguia pensar era no quanto eu tinha sorte. Antes
de me dar conta de que tnhamos perdido Macon.
     Pensei em Macon, em seus livros amarrados com papel e barbante, nas
camisas perfeitamente passadas, e na serenidade ainda mais perfeita. Pensei
no quanto as coisas iam ser difceis para Lena, sentindo saudade dele,
desejando poder ouvir sua voz mais uma vez. Mas eu estaria ao lado dela,
assim como desejei que algum estivesse ao meu lado quando perdi minha
me. E depois dos ltimos meses, depois que minha me nos mandou aquela
mensagem, eu no achava que Macon tivesse partido de verdade. Talvez ele
ainda estivesse por a em algum lugar, tomando conta de ns. Ele tinha se
sacrificado por Lena, eu tinha certeza disso.
     O certo e o fcil nunca so a mesma coisa. Ningum sabia disso melhor
do que Macon.
     Olhei para o cu. As nuvens cinzentas percorriam o azul, to azul quanto
a tinta no teto do meu quarto. Me perguntei se esse tom de azul realmente
impedia que as abelhas carpinteiras fizessem ninho. Me perguntei se essas
abelhas acreditavam que era o cu.
     louco o que se v quando no se est olhando.
    Tirei meu iPod do bolso e liguei. Havia uma nova msica na lista de
msicas.
    Olhei para ela um tempo.
    Dezessete Luas.
    Apertei play.




Dezessete luas,
   dezessete anos,
   Olhos onde Trevas ou Luz aparecem,
   Dourado para o sim e verde para o no,
   Dezessete, o ltimo a saber.




                                    FIM
              a srie Beautiful Creatures continua em Dezessete Luas
                        Agradecimentos


S LEVAMOS TRS MESES PARA ESCREVER o primeiro rascunho de
Dezesseis Luas. Porm, escrever foi a parte fcil. Acertar os detalhes foi a
parte difcil, e foi preciso a ajuda de muitas outras pessoas. Essa  a rvore
genealgica de Dezesseis Luas:
    RAPHAEL SIMON & HILARY REYL,
    que o viram antes que houvesse o que ver.
    SARAH BURNES, DA GERNERT COMPANY,
    UMA AGENTE EXTRAORDINRIA,
    que leu e entendeu desde o comeo.
    COURTNEY GATEWOOD,
    DA GERNERT COMPANY, AGENTE 007,
    que o levou atravs do lago e alm.
    JENNIFER HUNT & JULIE SCHEINA
    O TIME EDITORIAL CRUELMENTE GENIAL DA LITTLE
BROWN,
    que nos fizeram suar e chorar at acertarmos.
    DAVE CAPLAN, NOSSO DESIGNER TALENTOSO E MDIUM,
    que criou a estrada at Ravenwood do jeito que imaginamos.
    MATTHEW CHUPACK,
    que traduziu nosso latim macarrnico para latim de verdade.
    ALEX HOERNER, FOTGRAFO DAS ESTRELAS (E NOSSO),
    que nos fez ficar bonitas sem nenhum Conjuro.
    Nossos PARENTES NA CAROLINA DO NORTE,
    PRINCIPALMENTE                 HAYWOOD           AINSLEY          EARLY,
GENEALOGISTA,
    que nos ajudou a plantar nossas rvores genealgicas.
    & ANNA GATLIN HARMON,
    NOSSA FlLHA O A CONFEDERAO FAVORITA,
    que nos emprestou seu nome de solteira e nos ajudou a fal-lo
corretamente.

    E Nossos LEITORES:
    HANNAH, ALEX C, TORI, YVETTE, SAMANTHA, MARTINE,
JOYCE,
    OSCAR, DAVID, ASH, VIRGNIA, JEAN X 2, KERRI, DAVE,
    MADEIINE, PHILLIP, DEREK, ERIN, RUBY,
    AMANDA & MARCOS,
    cuja vontade de saber o que acontecia depois
    mudou o que acontecia depois.
    ASHLY, TAMBM CONHECIDA COMO RAINHA VAMPIRA
ADOLESCENTE SUSAN & ]OHN, ROBERT & CELESTE, BURTON &
MAR,
    que ouviram e nos estimularam, como sempre fizeram em toda nossa
vida.
    MAY & EMMA,
    que faltaram a escola duas vezes para cortar os excessos,
    e que perceberam o pedao que faltava no final
    como s meninas de 13 e 15 anos conseguiriam fazer.
    KATE P E NICK & STELLA G,
    que adormeceram todas as noites com o som das teclas do laptop.

   E  CLARO,
   ALEX & LEWIS,
   que acharam todos os buracos
   e cuidaram para que o universo no casse por eles,
   que aguentaram tudo citado acima
   e mais um pouco.

                                     ***
                   shadow
                Hunters
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=115704816
